Quem é o Promotor de Justiça e o que esse profissional faz na prática?

No Guia das Carreiras Jurídicas, já apresentamos diversas profissões do mundo do Direito. Falamos sobre magistrados(as) que julgam conflitos em diferentes instâncias. Conhecemos mais sobre advogados(as) públicos(as), tabeliães e escrivães. Hoje nosso tema é a carreira de Promotor(a) de Justiça.

Sua missão é representar a sociedade perante os tribunais, zelando por bens e interesses que vão além do indivíduo, como o meio ambiente, o patrimônio público, a proteção da infância e a preservação da ordem democrática.

O Guia das Carreiras Jurídicas, uma iniciativa do Instituto Mattos Filho em parceria com a Civicus e a Politize!, busca democratizar o conhecimento jurídico e orientar quem deseja explorar as diversas áreas do Direito, construindo uma carreira com propósito e impacto.

Contextualizando: o que é o Ministério Público?

Antes de avançar, vale entender melhor a instituição à qual o(a) Promotor(a) de Justiça pertence. O Ministério Público (MP) é definido pela Constituição Federal como uma das funções essenciais à justiça, ou seja, uma instituição indispensável para que as leis sejam cumpridas e os direitos fundamentais sejam protegidos. 

Além disso, o MP não integra os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Essa posição autônoma tem um motivo prático: permite fiscalizar, com independência, a atuação de todos os poderes.

A Constituição também determina que essa instituição existe para defender a ordem jurídica (garantir que as leis funcionem de verdade), proteger o regime democrático e cuidar dos interesses sociais e individuais indisponíveis. Esse último termo parece complicado, mas são os direitos dos quais ninguém pode abrir mão, como a vida, o acesso à educação ou o direito a um meio ambiente equilibrado.

Dentro do Ministério Público, os(as) Promotores(as) atuam na primeira instância: nas varas criminais, cíveis, de família, infância e outras. Já os(as) procuradores(as) de justiça trabalham nos Tribunais de Justiça, representando o MP em segunda instância.

Leia também: Ministério Público: o que faz?

O papel do(a) Promotor(a) de Justiça

Muita gente associa o(a) Promotor(a) apenas a processos criminais, mas a atuação é bem mais ampla. Podemos dividi-la em três grandes frentes:

  • Criminal: o(a) Promotor(a) é responsável por dar início à ação penal pública. Funciona assim: a polícia investiga um crime e encaminha o inquérito ao MP. O(a) Promotor(a) analisa as provas e decide se oferece denúncia, se é preciso mais tempo de investigação ou se arquiva o caso por falta de elementos. Nos julgamentos do Tribunal do Júri, é ele(a) quem apresenta a acusação aos jurados.

Um ponto importante: o objetivo do profissional não é condenar a qualquer custo. Se as provas indicarem inocência, o(a) próprio(a) Promotor(a) pode pedir absolvição.

  • Cível: o(a) Promotor(a) defende direitos que pertencem a toda a sociedade. Atua em questões ambientais, do consumidor, patrimônio público, saúde e educação. Pode propor ações civis públicas, cobrar de prefeituras a construção de creches, exigir acessibilidade em espaços públicos ou responsabilizar quem desmata ilegalmente.
  • Atuação extrajudicial: sabia que muitos problemas são resolvidos sem processo? Em casos específicos, o(a) Promotor(a) firma Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) com empresas ou gestores, faz recomendações para evitar violações de direitos, participa de audiências públicas e acompanha conselhos de políticas públicas.
Homem branco de óculos, terno escuro e gravata azul, em pé, falando ao microfone durante sessão solene na Assembleia Legislativa do Amazonas.
Igor Starling Peixoto, Promotor de Justiça do Amazonas, durante sessão solene (2024). Crédito: Hudson Fonseca/Aleam. Flickr.

Rotina de trabalho de um(a) Promotor(a) de Justiça

Não existe um dia de trabalho padrão, porque as atividades variam conforme a área de atuação. Um(a) Promotor(a) dedicado(a) a um caso criminal pode passar a manhã analisando inquéritos e a tarde em audiências, interrogando réus e testemunhas. 

Já um(a) Promotor(a) trabalhando com direitos humanos pode visitar abrigos de crianças, discutir com a prefeitura um plano para famílias em área de risco ou conduzir reuniões com movimentos sociais.

Como o(a) Promotor(a) é o contato direto entre o Ministério Público e a população, é certo que, com frequência, realizará reuniões com comunidades, solicitação de informações de órgãos públicos, coleta de dados, escuta ativa de testemunhas e investigação de irregularidades. 

A parte humana é intensa na carreira, já que Promotores(as) lidam diariamente com conflitos, situações de violência e vulnerabilidade. Mas também há oportunidades de encontrar soluções criativas e testemunhar mudanças concretas na vida das pessoas.

Diferença entre Promotor(a) e outras carreiras jurídicas

Para entender onde o(a) Promotor(a) se encaixa no sistema de justiça, vale comparar sua atuação com outras funções que muitas vezes são confundidas:

  • Juiz(a): decide os conflitos com imparcialidade. Analisa o que as partes apresentam e profere a sentença. O(a) Promotor(a) atua no processo representando a sociedade;
  • Defensor(a) Público(a): presta assistência jurídica gratuita a quem não pode pagar pelo trabalho de um(a) advogado(a) e defende interesses individuais de pessoas vulneráveis. Em muitos processos, especialmente os criminais, a Defensoria representa o(a) acusado(a), enquanto o(a) Promotor(a) atua na acusação, em polos opostos no mesmo processo.
  • Advogado(a) Público(a): representa juridicamente o Estado (União, estados, Distrito Federal e municípios). O(a) Promotor(a), por sua vez, representa a sociedade e pode, inclusive, propor ações contra o próprio poder público quando há violação de direitos ou de normas jurídicas.
  • Procurador(a) de Justiça: também é membro do MP, mas atua nos tribunais (segunda instância). É o estágio mais avançado da carreira de Promotor(a); só Promotores(as) de entrância especial podem se tornar procuradores(as) de justiça.

Como ingressar na carreira?

O caminho exige preparação de médio a longo prazo. Muitos(as) candidatos(as) estudam anos até a aprovação. Veja as principais etapas:

  1. Formação: conclusão do Bacharelado em Direito em uma instituição reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC). Para tomar posse como Promotor(a) de Justiça, não é obrigatória a inscrição na OAB;
  2. Experiência: a Constituição Federal (art. 129, § 3º) e a Lei Orgânica Nacional do Ministério Público (Lei nº 8.625/1993) exigem, para o ingresso na carreira, que o(a) candidato(a) comprove, no mínimo, três anos de atividade jurídica antes da posse. Esse requisito pode ser cumprido com atividades na advocacia, magistério jurídico e outras hipóteses previstas em lei e nos editais;
  3. Concurso público: cada estado organiza seu próprio processo seletivo. As etapas geralmente incluem prova objetiva, provas discursivas, peça prática, avaliação psicológica, exames de saúde, investigação social, prova oral e análise de títulos;
  4. Início da carreira: quando aprovado(a), o(a) profissional começa como Promotor(a) substituto(a) em comarcas menores. Os dois primeiros anos são de estágio probatório. Depois, conquista-se a vitaliciedade. Com o tempo, é possível progredir por antiguidade e merecimento, passando por diferentes entrâncias (níveis de classificação das comarcas, de acordo com porte e complexidade) até chegar ao cargo de procurador(a) de Justiça.

Embora a inscrição na OAB não seja um requisito para tomar posse, muitos(as) candidatos(as) optam por se registrar na Ordem antes do concurso. A atuação na advocacia ajuda a acumular tempo de atividade jurídica, oferece vivência prática de processos, prazos e audiências e enriquece a experiência profissional que será útil na futura atuação como membro do Ministério Público.

Considerações finais

O(a) Promotor(a) de Justiça deve conviver diariamente com uma pergunta difícil: “oque é justo para a sociedade, dentro das regras da Constituição e das leis?”. Esse questionamento aparece em situações bem concretas da rotina: ao decidir se há elementos para propor uma denúncia, ao avaliar se uma política pública está saindo do papel ou ao cobrar que o poder público corrija uma falha que afeta muita gente.

É uma carreira de alta responsabilidade e, por isso, o caminho até a aprovação costuma exigir anos de estudo e dedicação. Em compensação, quem chega lá encontra autonomia, estabilidade e a possibilidade concreta de impactar a vida de comunidades inteiras.

Quer continuar mergulhando no tema?

Acesse a página do Guia das Carreiras Jurídicas e navegue pelo site. Por lá, você poderá acompanhar conteúdos audiovisuais sobre diversas carreiras jurídicas, inclusive o vídeo sobre a carreira de Promotor de Justiça que lançaremos em breve!

Autora: Carla da Silva Oliveira

Fontes

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