O que é analfabetismo científico?

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O século XXI é marcado por uma contradição profunda: nunca a humanidade produziu tanto conhecimento científico, e nunca tantos indivíduos estiveram tão afastados da compreensão do que esse conhecimento significa.

A revolução tecnológica e informacional trouxe benefícios imensuráveis, mas também expôs uma ferida social o analfabetismo científico , que compromete o desenvolvimento sustentável e a qualidade democrática das nações.

Mas, afinal, por que entender ciência é também um ato político? O que está em jogo quando grande parte da população não compreende o mundo que a tecnologia cria? E como essa lacuna de conhecimento impacta nossas decisões coletivas e nosso futuro comum?

A seguir, vamos explorar as raízes do analfabetismo científico, seus efeitos na sociedade e as estratégias possíveis para construir uma relação mais saudável e democrática com o conhecimento em nossa era.

O que é o analfabetismo científico, de fato?

O analfabetismo científico é a incapacidade de compreender conceitos, processos e implicações da ciência, não apenas em seu conteúdo técnico, mas em seu método e racionalidade.

É o desconhecimento de como o conhecimento científico se constrói: pela observação, formulação de hipóteses, experimentação e revisão crítica.

Como aponta Zancan (2000):

“O avanço explosivo da ciência está marginalizando povos e países que não dispõem de infraestrutura adequada de pesquisa e educação científica universal”

Ainda segundo ela:

“O avanço do conhecimento está colocando para a reflexão humana uma série de indagações que outras épocas históricas não vivenciaram. Para poder opinar e decidir, é preciso primeiro conhecer”.

Essa afirmação resume o cerne do problema: a ausência de compreensão científica não é apenas um entrave cognitivo, mas uma barreira política, social e moral.

Em países emergentes, como o Brasil, o analfabetismo científico adquire características específicas devido à combinação entre desigualdades históricas, limitações estruturais e desafios de gestão.

Enquanto alguns estudiosos enfatizam que essas barreiras reduzem o potencial econômico e enfraquecem a participação cidadã, outros destacam que avanços recentes em ciência e tecnologia mostram a importância de iniciativas conjuntas entre governo, setor privado e instituições de ensino.

Zancan (2000), argumenta que:

“A ciência é um mundo de ideias em movimento e o conhecimento científico é resultado de um processo criativo que exige imaginação e crítica. Diferentemente da crença ou da opinião, a ciência é coletiva, revisável e fundamentada em evidências”

O analfabeto científico não é, necessariamente, uma pessoa sem escolaridade, mas alguém que não internalizou essa lógica de raciocínio. Isso o torna vulnerável à aceitação de fake news, teorias conspiratórias e narrativas políticas manipuladoras.

Quando a educação é meramente informativa, voltada para a memorização de fatos, e não formativa (ou seja, orientada pela reflexão e pela compreensão crítica), ela gera indivíduos que sabem reproduzir informações, mas não sabem analisá-las. É aí que nasce o analfabetismo científico como fenômeno social.

O que são países emergentes?

Os países emergentes são aqueles que se encontram em um estágio intermediário entre o subdesenvolvimento e a industrialização avançada.

Os países emergentes buscam ampliar sua infraestrutura científica e tecnológica para alcançar maior desenvolvimento.

Há visões que defendem forte investimento estatal como motor desse processo, enquanto outras perspectivas ressaltam a importância da iniciativa privada, de parcerias estratégicas e de ambiente regulatório favorável à inovação.

Em comum, há o reconhecimento de que a ciência contribui para competitividade e qualidade de vida.

É importante destacar que o país construiu, nas últimas décadas, uma base científica notável, fruto da criação dos programas de pós-graduação e da consolidação de universidades públicas.

Entre 1976 e 1999, o número de mestres e doutores formados cresceu mais de sete vezes. Contudo, essa base científica ainda é regionalmente desigual e socialmente restrita.

Zancan mostra, por exemplo, que em 1999 o Brasil tinha apenas 235 cientistas e engenheiros por milhão de habitantes, contra 1.990 na Coreia do Sul e 5.677 no Japão países que transformaram o investimento em educação científica em motor de desenvolvimento econômico.

Como bem observou Sachs (2000):

“O mundo de hoje é dividido não pela ideologia, mas pela tecnologia”.

Portanto, os países emergentes vivem uma encruzilhada: precisam investir em ciência e educação para ascender economicamente, mas enfrentam elites políticas e econômicas que, muitas vezes, se beneficiam da manutenção da ignorância coletiva.

Classificação de acordo com o FMI e ONU em 2022. Em azul, países desenvolvidos; em laranja, países em desenvolvimento; em vermelho, países menos desenvolvidos.
Países em Desenvolvimento. Imagem: Politize!.

*Classificação de acordo com o FMI e ONU em 2022. Em azul, países desenvolvidos; em laranja, países em desenvolvimento; em vermelho, países menos desenvolvidos.

Como os políticos usam o analfabetismo científico para propagar fake news?

A desinformação científica é um instrumento político poderoso. O analfabetismo científico, ao reduzir a capacidade de análise crítica da população, cria um ambiente fértil para a manipulação ideológica.

Durante a pandemia de Covid-19, diferentes atores sociais, incluindo grupos políticos, influenciadores e usuários comuns, disseminaram informações conflitantes sobre vacinas, tratamentos e gravidade da doença.

Para alguns analistas, esse cenário evidenciou vulnerabilidades relacionadas à alfabetização científica; já outras interpretações apontam para falhas na comunicação institucional e para o impacto do ambiente digital, onde a informação circula rápido e sem mediação.

Essa dinâmica reflete o alerta de Zancan (2000):

“O analfabetismo científico aumentará as desigualdades, marginalizando do mercado de trabalho as maiorias que hoje já são excluídas”.

A desinformação política se sustenta sobre a falta de alfabetização científica, pois quanto menos a população entende sobre ciência, mais facilmente acredita em “opiniões alternativas” apresentadas como verdades.

Dante disso a desinformação pode ser utilizada estrategicamente para influenciar debates públicos, enquanto que a propagação de informações falsas resulta em desequilíbrios educacionais, sobrecarga informacional e dificuldades no acesso a fontes confiáveis.

Por que a população precisa de educação científica?

A alfabetização científica é um pilar essencial da cidadania moderna. Em um mundo em que decisões políticas, econômicas e éticas dependem de evidências científicas como o uso de biotecnologia, a transição energética e a inteligência artificial, compreender ciência é compreender poder.

A Unesco declarou que:

“A educação científica, em todos os níveis e sem discriminação, é requisito fundamental para a democracia”.

Isso significa que a ciência não deve ser privilégio de especialistas, mas um direito universal!

Zancan reforça essa ideia ao afirmar que é preciso mudar o ensino brasileiro de informativo para formativo, substituindo a simples transmissão de dados por uma aprendizagem baseada na curiosidade, na investigação e na solução de problemas.

A educação científica promove autonomia intelectual. Ela ensina o indivíduo a aprender a aprender, expressão de Toffler (1970) retomada por Zancan.

Uma população cientificamente educada é capaz de questionar decisões governamentais, exigir políticas públicas baseadas em evidências e rejeitar discursos que apelam à emoção em detrimento da razão.

Em outras palavras, a educação científica é a base da soberania cognitiva de um povo.

Qual é o papel dos docentes no combate ao analfabetismo científico?

Muitos educadores defendem que o professor deve atuar como mediador do conhecimento, incentivando investigação e pensamento crítico. Outras abordagens pedagógicas argumentam que a clareza na transmissão de conteúdos estruturados também desempenha papel essencial, sobretudo em áreas científicas.

De forma geral, há consenso sobre a importância da formação docente contínua e de condições adequadas de trabalho para fortalecer o ensino científico.

O Plano Nacional de Educação (1999), citado por Zancan, propõe essa formação baseada na investigação científica como princípio orientador do magistério. O desafio é grande: mudar currículos ainda voltados à memorização e transformar as escolas em espaços de criação, diálogo e experimentação. Assim, o professor é mais do que um educador é um agente político. Seu trabalho é essencial para formar cidadãos capazes de pensar, questionar e transformar a realidade. Pois ensinar ciência em suas múltiplas dimensões (biológicas, exatas e da terra) fortalece a participação democrática.

Além de desempenhar papéis complementares, como fomentar inovação econômica, ampliar competitividade e promover autonomia individual.

Como combater o analfabetismo científico?

Combater o analfabetismo científico requer uma abordagem multidimensional. Zancan propõe um conjunto de ações que envolvem educação, políticas públicas, ciência e sociedade.

Primeiro, é necessário fortalecer o ensino e a popularização da ciência e tecnologia em suas múltiplas áreas (exatas, biológicas e da terra) desde o ensino fundamental, com metodologias que despertem o interesse dos estudantes pela investigação e pela criatividade.

Segundo, é essencial valorizar o professor com formação continuada, condições dignas de trabalho e reconhecimento social.

Além disso, é necessário a integração entre universidades, empresas e governo, de modo que a produção científica se converta em inovação tecnológica e desenvolvimento social.

O investimento em pesquisa precisa ser contínuo e descentralizado, permitindo que todas as regiões do país participem da produção de conhecimento.

Por fim, é importante envolver a sociedade civil e a mídia no processo de divulgação científica. Museus, centros interativos e programas de jornalismo científico devem ser fortalecidos, garantindo que a ciência chegue ao público de forma acessível e confiável.

O combate ao analfabetismo científico, portanto, é uma responsabilidade coletiva um projeto de nação que visa transformar o conhecimento em liberdade.

O conhecimento científico é uma ferramenta de liberdade?

Sim. O conhecimento científico é a mais poderosa ferramenta de libertação humana. Ele liberta o indivíduo da submissão à ignorância e o capacita a compreender o mundo em suas causas e consequências.

Como afirmou Zancan (2000),

“Sem educação científica, o analfabetismo aumentará as desigualdades”.

A alfabetização científica é, portanto, uma condição para a democracia, a justiça social e o desenvolvimento sustentável.

Em países emergentes como o Brasil, a ciência não pode ser vista apenas como instrumento técnico, mas como instrumento político e emancipatório. Pois como vimos anteriormente, o analfabetismo científico representa um obstáculo significativo para o progresso social e para a tomada de decisões informadas em escala coletiva.

Sendo assim, superá-lo exige esforços contínuos em educação, comunicação e acesso ao conhecimento!

A discussão, no entanto, permanece aberta. Na sua opinião, quais são as principais barreiras para a redução do analfabetismo científico na atualidade? E quais setores como educação, mídia ou políticas públicas você considera mais relevantes para enfrentar esse desafio?

Deixe nos comentários a sua análise! Sua contribuição é valiosa para ampliar a compreensão sobre o tema!

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Conteúdo escrito por:

Davi Rodrigues Marques

Davi Rodrigues Marques

Natural de Franca no interior de São Paulo, sou graduado em Gestão de Recursos Humanos, sou estudante de Fonoaudiologia na Universidade de Franca, consultor de RH e escritor.
Marques, Davi. O que é analfabetismo científico?. Politize!, 26 de janeiro, 2026
Disponível em: https://www.politize.com.br/analfabetismo-cientifico/.
Acesso em: 26 de jan, 2026.

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