O debate sobre cidades inteligentes costuma ser associado a sensores, aplicativos, big data e inovação. No entanto, à medida que governos, empresas e cidadãos passam a depender dessas tecnologias para organizar a vida urbana, cresce a percepção de que o tema envolve mais do que eficiência: envolve, também, disputas políticas, modelos de gestão, soberania de dados e novos arranjos entre Estado e mercado.
Este artigo aprofunda essa discussão — indo além do conceito de smart cities — e mostra como especialistas apontam tanto oportunidades quanto riscos na adoção desse modelo.
- O que são cidades inteligentes?
- Por que o debate sobre cidades inteligentes vai além da tecnologia?
- O modelo tradicional das smart cities: eficiência, dados e inovação urbana
- 1. Big data como base da decisão pública
- 2. Parcerias público-privadas
- 3. Serviços urbanos via aplicativo
- Críticas ao modelo: financiarização, dependência tecnológica e desigualdades
- 1. A financeirização do urbano
- 2. Dependência tecnológica
- 3. Dados concentrados em empresas privadas
- 4. Austeridade e limitação orçamentária
- Soberania tecnológica e o direito à cidade digital
- Possíveis caminhos
- Cidades inteligentes como disputa política: serviços ou direitos?
- Para onde queremos ir com as cidades inteligentes?
- Referências
O que são cidades inteligentes?
De forma geral, cidades inteligentes (ou smart cities) são aquelas que utilizam as tecnologias digitais para melhorar serviços, otimizar recursos e apoiar nas decisões públicas.
O urbanista Boyd Cohen, um dos principais entusiastas do tema, define cidades inteligentes como ecossistemas urbanos que usam tecnologia digital para elevar a eficiência dos serviços, melhorar a sustentabilidade e aumentar a qualidade de vida da população.
Em sua classificação “Smart Cities Wheel”, Cohen argumenta que plataformas digitais e ferramentas de análise de dados permitem “uma gestão mais rápida, integrada e responsiva”.
Esse conceito, popularizado por empresas como IBM, Cisco e Siemens na década de 2000, ganhou força com a difusão de sensores, big data e inteligência artificial.
Para aprofundar a compreensão básica do conceito, você pode acessar o artigo já publicado pela Politize!: Cidades inteligentes: o que são e como funcionam?
Por que o debate sobre cidades inteligentes vai além da tecnologia?
Apesar da ênfase em inovação, o tema envolve discussões estruturais sobre quem controla os dados urbanos; como políticas públicas são influenciadas por empresas; como decisões passam a ser mediadas por algoritmos; e quais grupos sociais se beneficiam ou ficam excluídos desses sistemas.
Para o urbanista Anthony Townsend, smart cities são “projetos técnicos e políticos”, pois reconfiguram a forma como o poder circula nas cidades. Assim, mais do que ferramentas, elas constituem modelos de governança, reorganizando como decisões são tomadas e quais atores influenciam as políticas.
Isso significa que algoritmos, plataformas e dados participam da administração urbana, moldando prioridades, mediando relações entre cidadãos e Estado e redefinindo fronteiras entre o público e o privado.
O modelo tradicional das smart cities: eficiência, dados e inovação urbana
Quais são as características predominantes das cidades inteligentes?
1. Big data como base da decisão pública
Tecnologias coletam dados sobre trânsito, energia, clima, consumo e comportamento. A expectativa é que algoritmos permitam antecipar problemas e melhorar o planejamento urbano.
Leia também: Planejamento urbano no Brasil: um breve histórico
2. Parcerias público-privadas
Empresas como Google, Microsoft, Huawei e Amazon Web Services — as famosas big techs — oferecem plataformas integradas para cidades, como sistemas de mobilidade, iluminação pública, segurança e aplicativos de transporte.
Saiba mais sobre esse tema em: Como funcionam as Parcerias Público-Privadas?
3. Serviços urbanos via aplicativo
Aplicativos como Uber, 99, iFood ou Airbnb passaram a ser vistos como alternativas para ampliar serviços. Em Washington, por exemplo, o Uber é usado no transporte de pessoas com mobilidade reduzida. No Brasil, discute-se a ampliação de parcerias como a 99 e o Sistema Único de Saúde (SUS).
Para muitos economistas, essa lógica gera eficiência e inovação. Especialistas argumentam que cidades tecnológicas tendem a atrair talentos, investimentos e dinamizar economias.
Críticas ao modelo: financiarização, dependência tecnológica e desigualdades
Embora o modelo traga benefícios, outros estudiosos do campo alertam para riscos estruturais, como:
1. A financeirização do urbano
Morozov & Bria afirmam que, ao transformar serviços públicos em oportunidades de investimento privado, cria-se um modelo no qual empresas lucram com políticas historicamente públicas. Isso ocorre quando aplicativos se tornam alternativas permanentes ao transporte coletivo, por exemplo.
Confira o artigo da Politize! sobre privatização no Brasil.
2. Dependência tecnológica
Quanto mais infraestrutura pública é terceirizada, mais as cidades dependem de grandes empresas. O caso de Nova York e o “DeBlasio mode” da Uber — uma funcionalidade temporária, em caráter de protesto, contra uma proposta de lei em Nova York para regulamentar o aplicativo — ilustra como empresas podem pressionar governos.

3. Dados concentrados em empresas privadas
Para Shoshana Zuboff, o poder das grandes plataformas está em coletar e explorar volumes de dados que superam a capacidade de muitos Estados. Quando esse modelo chega às cidades, fluxos urbanos passam a ser tratados como ativos comerciais, e não bens públicos.
4. Austeridade e limitação orçamentária
Orçamentos restritos fazem governos recorrerem a soluções prontas, criando dependência estrutural e reduzindo a autonomia pública.
Essas críticas reforçam que smart cities não são neutras: fazem parte de disputas sobre como administrar a cidade.
Soberania tecnológica e o direito à cidade digital
Diante desses desafios, cresce o debate sobre soberania tecnológica, entendida como a capacidade de governos e cidadãos controlarem dados e tecnologias essenciais à vida urbana.
Morozov & Bria argumentam que, sem sistemas públicos capazes de competir com plataformas privadas, não há autonomia democrática. Por isso, defendem alternativas públicas e comunitárias.
Possíveis caminhos
Diversos países buscam equilibrar inovação e autonomia pública. Entre os caminhos possíveis:
- Remunicipalização da infraestrutura digital: cidades assumem o controle público de redes de fibra óptica, plataformas de dados ou serviços de nuvem.
- Plataformas públicas de dados: governos criam sistemas próprios para armazenar, processar e disponibilizar informações.
- Governança participativa da tecnologia: cidades estruturam conselhos ou consultas públicas sobre vigilância, uso de dados e implantação de sistemas inteligentes. O caso de Sidewalk Toronto, que foi interrompido, é referência nesse debate.
- Transparência algorítmica: ferramentas usadas em políticas públicas devem ser auditáveis, evitando decisões automatizadas sem supervisão cidadã.
Entenda o caso: Economia Empresa ligada à Google abandona projeto de bairro futurista no Canadá
Esses caminhos mostram que soberania tecnológica não significa rejeitar inovação, mas definir prioridades públicas para seu uso.
Cidades inteligentes como disputa política: serviços ou direitos?
Um ponto central é se tecnologias urbanas devem ser tratadas como serviços pagos ou direitos. Quando mobilidade, saúde ou segurança dependem de plataformas privadas, há risco de que direitos se tornem produtos condicionados à capacidade de pagamento.
Por outro lado, defensores argumentam que parcerias privadas podem ampliar serviços e reduzir custos, especialmente em contextos de baixa capacidade estatal.
Esse movimento faz parte de uma discussão mais ampla sobre o direito à cidade, que sugere que todos os habitantes devem ter poder de influência sobre as decisões urbanas e acesso pleno aos bens e serviços que estruturam a vida coletiva.
Nesse sentido, quando soluções digitais redefinem quem acessa o quê — e em quais condições — elas também redefinem as fronteiras desse direito.

Nota: Zurique, representada na imagem acima, é frequentemente destacada como uma das principais cidades inteligentes do mundo, ocupando o 1º lugar no IMD Smart City Index.
Para onde queremos ir com as cidades inteligentes?
Ao entender que cidades inteligentes envolvem tecnologia, dados, governança e disputas democráticas, o debate deixa de ser sobre adquirir um produto específico e passa a tratar do projeto de cidade que desejamos.
Governos e cidadãos precisam discutir quem controla dados urbanos, como garantir transparência, que serviços devem ser públicos ou privados e como evitar dependências excessivas.
A discussão sobre cidades inteligentes é, portanto, uma discussão sobre democracia urbana.
Compreender que cidades inteligentes vão além da tecnologia — envolvendo soberania, modelos de gestão e participação social — é essencial para definir os rumos das cidades do futuro.
Para continuar aprofundando esse debate e conhecer diferentes perspectivas sobre cidades inteligentes, explore outros conteúdos da Politize! e participe da construção de uma reflexão crítica sobre o tema.
Referências
- Morozov, Evgeny; Bria, Francesca – A Cidade Inteligente: tecnologias urbanas e democracia.
- Brookings Institute – Technology and Tolerance: Diversity and High Tech Growth
- Harvard Gazette – Harvard professor says surveillance capitalism is undermining autonomy — and democracy.
- Mayors Innovation Alliance – Getting Smart About Smart Cities
- OECD – Smart City Data Governance
- The Guardian – Shoshana Zuboff: ‘Surveillance capitalism is an assault on human autonomy’.