Cidades inteligentes: quando a tecnologia beneficia a vida urbana?

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O debate sobre cidades inteligentes costuma ser associado a sensores, aplicativos, big data e inovação. No entanto, à medida que governos, empresas e cidadãos passam a depender dessas tecnologias para organizar a vida urbana, cresce a percepção de que o tema envolve mais do que eficiência: envolve, também, disputas políticas, modelos de gestão, soberania de dados e novos arranjos entre Estado e mercado.

Este artigo aprofunda essa discussão — indo além do conceito de smart cities — e mostra como especialistas apontam tanto oportunidades quanto riscos na adoção desse modelo.

O que são cidades inteligentes?

De forma geral, cidades inteligentes (ou smart cities) são aquelas que utilizam as tecnologias digitais para melhorar serviços, otimizar recursos e apoiar nas decisões públicas.

O urbanista Boyd Cohen, um dos principais entusiastas do tema, define cidades inteligentes como ecossistemas urbanos que usam tecnologia digital para elevar a eficiência dos serviços, melhorar a sustentabilidade e aumentar a qualidade de vida da população.

Em sua classificação “Smart Cities Wheel”, Cohen argumenta que plataformas digitais e ferramentas de análise de dados permitem “uma gestão mais rápida, integrada e responsiva”.

Esse conceito, popularizado por empresas como IBM, Cisco e Siemens na década de 2000, ganhou força com a difusão de sensores, big data e inteligência artificial.

Para aprofundar a compreensão básica do conceito, você pode acessar o artigo já publicado pela Politize!: Cidades inteligentes: o que são e como funcionam?

Por que o debate sobre cidades inteligentes vai além da tecnologia?

Apesar da ênfase em inovação, o tema envolve discussões estruturais sobre quem controla os dados urbanos; como políticas públicas são influenciadas por empresas; como decisões passam a ser mediadas por algoritmos; e quais grupos sociais se beneficiam ou ficam excluídos desses sistemas.

Para o urbanista Anthony Townsend, smart cities são “projetos técnicos e políticos”, pois reconfiguram a forma como o poder circula nas cidades. Assim, mais do que ferramentas, elas constituem modelos de governança, reorganizando como decisões são tomadas e quais atores influenciam as políticas.

Isso significa que algoritmos, plataformas e dados participam da administração urbana, moldando prioridades, mediando relações entre cidadãos e Estado e redefinindo fronteiras entre o público e o privado.

O modelo tradicional das smart cities: eficiência, dados e inovação urbana

Quais são as características predominantes das cidades inteligentes?

1. Big data como base da decisão pública

Tecnologias coletam dados sobre trânsito, energia, clima, consumo e comportamento. A expectativa é que algoritmos permitam antecipar problemas e melhorar o planejamento urbano.

Leia também: Planejamento urbano no Brasil: um breve histórico

2. Parcerias público-privadas

Empresas como Google, Microsoft, Huawei e Amazon Web Services — as famosas big techs — oferecem plataformas integradas para cidades, como sistemas de mobilidade, iluminação pública, segurança e aplicativos de transporte.

Saiba mais sobre esse tema em: Como funcionam as Parcerias Público-Privadas?

3. Serviços urbanos via aplicativo

Aplicativos como Uber, 99, iFood ou Airbnb passaram a ser vistos como alternativas para ampliar serviços. Em Washington, por exemplo, o Uber é usado no transporte de pessoas com mobilidade reduzida. No Brasil, discute-se a ampliação de parcerias como a 99 e o Sistema Único de Saúde (SUS).

Para muitos economistas, essa lógica gera eficiência e inovação. Especialistas argumentam que cidades tecnológicas tendem a atrair talentos, investimentos e dinamizar economias.

Críticas ao modelo: financiarização, dependência tecnológica e desigualdades

Embora o modelo traga benefícios, outros estudiosos do campo alertam para riscos estruturais, como:

1. A financeirização do urbano

Morozov & Bria afirmam que, ao transformar serviços públicos em oportunidades de investimento privado, cria-se um modelo no qual empresas lucram com políticas historicamente públicas. Isso ocorre quando aplicativos se tornam alternativas permanentes ao transporte coletivo, por exemplo.

Confira o artigo da Politize! sobre privatização no Brasil.

2. Dependência tecnológica

Quanto mais infraestrutura pública é terceirizada, mais as cidades dependem de grandes empresas. O caso de Nova York e o “DeBlasio mode” da Uber — uma funcionalidade temporária, em caráter de protesto, contra uma proposta de lei em Nova York para regulamentar o aplicativo — ilustra como empresas podem pressionar governos.

Uma mão segurando um smartphone branco que exibe uma tela do aplicativo Uber com o modo “De Blasio’s Uber”. No centro da tela há uma caixa de aviso com o título “TAKE ACTION”, explicando que é assim que o Uber ficaria em Nova York se o projeto de lei do prefeito De Blasio fosse aprovado, e incentivando o usuário a enviar um e-mail para o prefeito e o conselho municipal dizendo “NÃO” ao projeto.
Fonte: The Wall Street Journal – “Uber to NYC Mayor de Blasio: Take a Hike!”.

3. Dados concentrados em empresas privadas

Para Shoshana Zuboff, o poder das grandes plataformas está em coletar e explorar volumes de dados que superam a capacidade de muitos Estados. Quando esse modelo chega às cidades, fluxos urbanos passam a ser tratados como ativos comerciais, e não bens públicos.

4. Austeridade e limitação orçamentária

Orçamentos restritos fazem governos recorrerem a soluções prontas, criando dependência estrutural e reduzindo a autonomia pública.

Essas críticas reforçam que smart cities não são neutras: fazem parte de disputas sobre como administrar a cidade.

Soberania tecnológica e o direito à cidade digital

Diante desses desafios, cresce o debate sobre soberania tecnológica, entendida como a capacidade de governos e cidadãos controlarem dados e tecnologias essenciais à vida urbana.

Morozov & Bria argumentam que, sem sistemas públicos capazes de competir com plataformas privadas, não há autonomia democrática. Por isso, defendem alternativas públicas e comunitárias.

Possíveis caminhos

Diversos países buscam equilibrar inovação e autonomia pública. Entre os caminhos possíveis:

  1. Remunicipalização da infraestrutura digital: cidades assumem o controle público de redes de fibra óptica, plataformas de dados ou serviços de nuvem.
  2. Plataformas públicas de dados: governos criam sistemas próprios para armazenar, processar e disponibilizar informações.
  3. Governança participativa da tecnologia: cidades estruturam conselhos ou consultas públicas sobre vigilância, uso de dados e implantação de sistemas inteligentes. O caso de Sidewalk Toronto, que foi interrompido, é referência nesse debate.
  4. Transparência algorítmica: ferramentas usadas em políticas públicas devem ser auditáveis, evitando decisões automatizadas sem supervisão cidadã.

Entenda o caso: Economia Empresa ligada à Google abandona projeto de bairro futurista no Canadá

Esses caminhos mostram que soberania tecnológica não significa rejeitar inovação, mas definir prioridades públicas para seu uso.

Cidades inteligentes como disputa política: serviços ou direitos?

Um ponto central é se tecnologias urbanas devem ser tratadas como serviços pagos ou direitos. Quando mobilidade, saúde ou segurança dependem de plataformas privadas, há risco de que direitos se tornem produtos condicionados à capacidade de pagamento.

Por outro lado, defensores argumentam que parcerias privadas podem ampliar serviços e reduzir custos, especialmente em contextos de baixa capacidade estatal.

Esse movimento faz parte de uma discussão mais ampla sobre o direito à cidade, que sugere que todos os habitantes devem ter poder de influência sobre as decisões urbanas e acesso pleno aos bens e serviços que estruturam a vida coletiva.

Nesse sentido, quando soluções digitais redefinem quem acessa o quê — e em quais condições — elas também redefinem as fronteiras desse direito.

Vista aérea de uma movimentada praça de transporte público em Zurique ao entardecer. Vários bondes azuis e brancos chegam e partem de plataformas cheias de pessoas. As ruas curvam-se ao redor dos trilhos, com pedestres caminhando rapidamente. Prédios iluminados, lojas e luzes urbanas compõem o cenário, transmitindo a atmosfera organizada e dinâmica da cidade.
Fonte: imagem de uso ilustrativo, autoria não identificada (acesso público na internet).

Nota: Zurique, representada na imagem acima, é frequentemente destacada como uma das principais cidades inteligentes do mundo, ocupando o 1º lugar no IMD Smart City Index.

Para onde queremos ir com as cidades inteligentes?

Ao entender que cidades inteligentes envolvem tecnologia, dados, governança e disputas democráticas, o debate deixa de ser sobre adquirir um produto específico e passa a tratar do projeto de cidade que desejamos.

Governos e cidadãos precisam discutir quem controla dados urbanos, como garantir transparência, que serviços devem ser públicos ou privados e como evitar dependências excessivas.

A discussão sobre cidades inteligentes é, portanto, uma discussão sobre democracia urbana.

Compreender que cidades inteligentes vão além da tecnologia — envolvendo soberania, modelos de gestão e participação social — é essencial para definir os rumos das cidades do futuro.

Para continuar aprofundando esse debate e conhecer diferentes perspectivas sobre cidades inteligentes, explore outros conteúdos da Politize! e participe da construção de uma reflexão crítica sobre o tema.

Referências

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Conteúdo escrito por:

Luiz-Henrique-Longatto-Adorno

Luiz Henrique Longatto Adorno

Paulistano, são paulino e graduado em Gestão de Políticas Públicas pela Universidade de São Paulo. Atuo com relações governamentais no setor educacional e me interesso por teatro no meu tempo livre!
Adorno, Luiz. Cidades inteligentes: quando a tecnologia beneficia a vida urbana?. Politize!, 23 de fevereiro, 2026
Disponível em: https://www.politize.com.br/cidades-inteligentes-2/.
Acesso em: 23 de fev, 2026.

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