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Bibby Stockholm: uma prisão flutuante para refugiados?

Imigração: o Bibby Stockholm é uma prisão flutuante para refugiados?

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Bibby Stockholm: navio considerado uma prisão flutuante para imigrantes
Bibby Stockholm nas docas Falmouth, 2023. Imagem: Wikipédia.

Você já ouviu falar do navio Bibby Stockholm? O governo do Reino Unido contratou os serviços da empresa Bibby Marine para abrigar cerca de 500 refugiados. O navio e a iniciativa viraram palco para especulações. 

A Politize! separou um material para você entender a história do barco que ficou conhecido na internet como ‘prisão flutuante’.

Veja também nosso vídeo sobre os direitos dos refugiados e migrantes!

Como é o Bibby Stockholm?

Segundo o site oficial da empresa, o Bibby Stockholm possui 222 quartos duplos, com banheiro, chuveiro, janela para o exterior, televisão e armários. 

A companhia define que o local conta com ventilação natural, wi-fi, academia, bar, restaurante e sala de jogos. A página também destaca a frase “Luxury living on board”, frase que, traduzida, significa “Vida de luxo a bordo”.

O governo do Reino Unido definiu que todos os abrigados no navio serão refugiados homens, com idade entre 18 e 65 anos. O local escolhido para a ação foi o porto na Ilha de Portland, localizado no condado de Dorset, no sul da Inglaterra. 

Segundo as autoridades, “o local em Portland foi projetado para ser o mais autossuficiente possível, a fim de minimizar o impacto nas comunidades e serviços locais”.

O Governo também disponibiliza dados sobre o funcionamento e a duração do programa:

  • Os escolhidos foram submetidos a verificações de segurança, como consulta em banco de dados internacionais e nacionais (veja os critérios aqui);
  • Eles terão os seus dados e impressões digitais coletados antes de embarcar no Bibby Stockholm;
  • A equipe responsável pelo local terá treinamento para possíveis problemas de comunicação;
  • É esperado que esses homens fiquem acomodados no Bibby Sotckholm por um período entre 3 e 6 meses, que pode ser aumentado para 9 meses;
  • Os imigrantes terão cerca de 9 libras esterlinas para gastar por dia;
  • A acomodação está contratada por 18 meses;
  • Os grupos chegarão separados, ao longo das próximas semanas. 

Qual a relação do navio e as novas políticas de imigração do Reino Unido?

O modo que o Bibby Stockholm está sendo conduzido faz parte das novas políticas de imigração do Reino Unido. 

No dia 18 de julho de 2023, o Parlamento britânico aprovou uma lei proposta pelo primeiro-ministro conservador Rishi Sunak, que governa desde 2022 e prometeu “deter” a entrada de imigrantes pelo Canal da Mancha. Essa legislação já fazia parte dos planos do primeiro-ministro anterior, Boris Johnson.

Na aprovação dessa nova lei, as emendas que limitavam a detenção de crianças e a garantia a segurança para vítimas de escravidão moderna foram rejeitadas. 

O texto deixa claro que o governo quer ir além de impedir que refugiados sem documentos possam pedir abrigo no país. A ideia é que essas pessoas sejam enviadas de volta aos seus países de origem ou enviados para Ruanda. 

A iniciativa foi duramente criticada e a ONU afirma que a legislação entra em contradição com as obrigações do Reino Unido a respeito dos direitos humanos e dos refugiados. 

O governo britânico declarou que ninguém será detido no navio e que os imigrantes poderão ir e vir todos os dias sem problema.

Mais de 50 organizações humanitárias questionaram essas condições, alegando que as informações disponibilizadas pelo porto de Portland deixam claro que essas pessoas ficarão em detenção, com restrições de movimentos.

Segundo o porto de Portland, os requerentes de asilo não poderão andar pelo porto e só poderão ficar no Bibby Stockholm ou em um complexo adjacente ao navio.

Os primeiros 15 refugiados embarcaram no dia 07 de agosto de 2023. Além de uma oposição local considerável, parte dos imigrantes tiveram suas transferências canceladas por seus advogados.

Mas, afinal, quem são os refugiados que serão abrigados no Bibby Stockholm?

Mais de 160 mil pessoas estão aguardando o processamento do pedido de asilo no Reino Unido. Em 2022, 45 mil pessoas atravessaram o Canal da Mancha de forma irregular.

Até julho de 2023, 50 mil pessoas estão sendo hospedados em hotéis, o que representa um custo de mais de 6 milhões de libras esterlinas (quase 37 milhões de reais) por dia para o governo inglês.

Segundo o Museu da Imigração, existem algumas diferenças entre as definições de emigrante, imigrante, migrante e refugiados e os termos ficam definidos assim:

  • Imigrante: pessoas que entram em um território, permanecendo nele;
  • Emigrante: assim como imigrante, refere-se a pessoas que entram em um território, só que do ponto de vista do país de origem;

Exemplo: Se um brasileiro entra no Reino Unido, ele é um imigrante do ponto de vista britânico e emigrante do ponto de vista do Brasil.

  • Migrante: antes, o termo definia pessoas que se locomovem dentro dos territórios nacionais. Mas a expressão passou a considerar que a movimentação e o deslocamento entre espaços são partes da natureza humana;
  • Refugiados: o termo começou a ser discutido em 1951, com a Convenção de Genebra, e passou por atualizações desde então. Em resumo, a palavra considera pessoas que foram levadas a deixar seus países de origem por perseguição, ameaça e ou violação severa dos direitos humanos. 

Saiba mais: A história dos direitos dos refugiados e migrantes

Os refugiados que hoje buscam abrigo no Reino Unido saíram de seus países por motivos que ameaçavam as suas vidas vida e integridade física.

E de onde essas pessoas vieram?

O Governo do Reino Unido ainda não especificou os países de origem dos abrigados, mas é possível traçar um perfil. Em 1999, o Campo de Refugiados de Sangatte, da Cruz Vermelha, na França, foi aberto para receber algumas centenas de imigrantes. 

Logo, o local se tornou lar de cerca de 1.500 pessoas, que em sua maioria eram curdos, afegãos, iraquianos e iranianos. As notícias da época relatam que as condições de vida do local eram impróprias.

Naquele momento, eles buscavam conseguir abrigo no Reino Unido, onde acreditavam que seria possível garantir condições melhores de vida. Esse pedido foi negado pelo governo, que alegava que essas pessoas eram refugiados econômicos se passando por perseguidos políticos.

O local, por sua proximidade com a entrada para o Eurotúnel, caminho ferroviário que liga à França ao Reino Unido passando sob o Canal da Mancha, acabou virando foco de traficantes de pessoas, que extorquiam esses refugiados em troca da promessa de uma travessia segura.

Em 2002, os governos de ambos os países decidiram, em conjunto, que o campo deveria ser fechado.

Pelo mesmo acordo, ficou estabelecida uma cooperação do trabalho nas questões de segurança da região e o Reino Unido se comprometeu a receber cerca de 1,3 mil refugiados.

Fechar o campo de refugiados não solucionou o problema. A área se tornou referência para os que buscavam abrigo, e os refugiados não pararam de chegar.

A entrada dessas pessoas na Europa acontece, principalmente, pela Grécia e pela Itália, por conta da proximidade com países como Turquia, Tunísia, Líbia e Líbano.

Em 2016, o espaço – que era conhecido como ‘Selva’, pelas condições de vida que eram oferecidas – foi fechado novamente. Grupos humanitários alegavam que havia cerca de 9 mil pessoas vivendo no local.

Refugiados em Paris, 2016. Imagem: Daniela Fernandes, BBC Brasil

A reação foi instantânea e cerca de 2 mil refugiados se instalaram na capital francesa. Muitos deles tinham medo de aceitar a ajuda francesa. 

O principal receio era ser enviado de volta ao seu país de origem, ou à Grécia e à Itália, por onde entraram. Em 2016, a crise migratória na Europa foi uma das principais causas para a saída do Reino Unido da União Europeia, momento que ficou conhecido como “Brexit”. 

Veja também: Brexit: entenda a separação Reino Unido – União Europeia

A imigração no mundo: como essa questão é tratada em outros países?

Nos Estados Unidos, a imigração é constante. Em 2016, o Governo Trump ficou conhecido por sua política migratória de tolerância zero, que chegou a separar crianças de seus pais e proibir a entrada de refugiados de 6 países (Irã, Síria, Líbia, Somália, Sudão e Iêmen).

No Governo Biden, a rigidez foi mantida. Em maio de 2023, o governo lançou um regulamento de restrições para o pedido de asilo no país. No dia 03 de agosto de 2023, por decisão federal, a medida foi aprovada e continuará em vigor.

Um agente de fronteira que atua no Texas fez uma denúncia a respeito das condições as quais os imigrantes eram submetidos.

Por e-mails obtidos pela imprensa internacional, o guarda relata que os patrulheiros eram orientados a empurrar bebês e crianças imigrantes no rio, além de negar água para todas as pessoas que atravessavam a fronteira embaixo de extremo calor.

Refugiados no Brasil

O Brasil não é estranho à crise migratória. Entre os anos de 2014 e 2017, com a crise que atingiu a Venezuela, considera-se que mais de um milhão de pessoas fugiu do país. 

Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), quase 60 mil venezuelanos vieram para o Brasil. Na época, o país encontrou dificuldade para lidar com esse volume de pessoas. 

O Brasil também recebeu refugiados afegãos. Segundo a ACNUR, mais de 6 mil afegãos chegaram no país entre janeiro de 2022 e abril de 2023. Em julho de 2023, 128 deles foram transferidos do Aeroporto de Guarulhos para a Colônia de Férias do Sindicato dos Químicos, em Praia Grande.

Veja também: Políticas Migratórias em 5 países.

Se você tem opiniões ou quer saber mais sobre o assunto, deixe um comentário e acesse o material da Politize!

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Conteúdo escrito por:
Por ser apaixonada por leitura desde pequena, escrever se tornou minha profissão e parte da minha identidade. Sou caiçara, jornalista e curiosa sobre como as relações sociais e políticas funcionam.

Imigração: o Bibby Stockholm é uma prisão flutuante para refugiados?

15 jun. 2024

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