Quando a Segunda Guerra Mundial se aproximava de seu fim, em 1944, as maiores potências capitalistas, lideradas pelos Estados Unidos, sob o regime de Franklin D. Roosevelt, estavam em busca de revitalizar a economia mundial e a harmonia entre as nações.

Com o intuito de debater a reorganização do cenário econômico no período pós-guerra e acabar com as políticas de protecionismo econômico, organizou-se a Conferência de Bretton Woods, um dos acordos econômicos mais relevantes do cenário mundial, cujos impactos são sentidos até hoje.

Nesse contexto, mais de quarenta nações participaram da Conferência de Bretton Woods, que aconteceu em New Hampshire (EUA), na cidade de mesmo nome. O encontro diplomático durou três semanas e contou com debates de ilustres economistas, entre eles John Maynard Keynes, representante britânico no evento, e Harry Dexter White, funcionário de alto escalão do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.

Vales destacar que naquele momento o cenário global olhava com entusiasmo para a nação norte-americana e como a Segunda Revolução Industrial tinha beneficiado os assuntos econômicos do país, especialmente no que dizia respeito à manufatura de bens de consumo e o sistema de produção fordista.

Os desdobramentos de Bretton Woods deram espaço para que a política do Monetarismo de Milton Friedman se instalasse no cenário macroeconômico mundial, acompanhada do liberalismo, e para a consolidação de instituições financeiras mundiais.

Ademais, o fenômeno conhecido como Globalização ganhava traços mais firmes a partir do que foi definido na Conferência de Bretton Woods, bem como o estabelecimento do capitalismo como sistema econômico predominante e os Estados Unidos como a maior potência econômica mundial.

Por isso, neste conteúdo, nós te explicamos qual era o contexto histórico quando as Conferências de Bretton Woods foram realizadas, quais foram os impactos à época e como as decisões tomadas naquele momento impactam, ainda, a economia.

Bretton Woods: resumo do contexto histórico

O encontro de Bretton Woods possuía como objetivo central estabelecer a paz entre as nações depois de meio século de crises e disputas, sendo as Guerras Mundiais e a Grande Depressão de 1929 os eventos mais marcantes.

Na visão dos responsáveis pelo debate, o imperialismo era o grande causador dos conflitos internacionais e apenas o livre mercado e comércio era capaz de resolver as desavenças entre os países para finalmente estabelecer a animosidade entre todos os continentes.

Diante disso, as discussões que aconteceram nesse evento colocavam as políticas intervencionistas, do ponto de vista estatal, elaboradas por Keynes em uma situação muito sensível. Os economistas que lá estavam definiam tal sistema como falho e destacavam a importância de reformular a economia a nível global para evitar outro conflito.

O sistema econômico de Bretton Woods

Basicamente, as reuniões de Bretton Woods focaram em estabelecer os critérios para negociações comerciais e financeiras a nível internacional, especialmente para regular as relações entre as maiores economias naquela época, como os Estados Unidos, Canadá, Europa Ocidental, Austrália e Japão.

Os acordos focaram em estabelecer um equilíbrio entre as políticas monetárias dos países, de modo a manter a paridade com as moedas nacionais de um para um em relação ao ouro (o chamado padrão dólar-ouro). Nesse sistema, o valioso material mantinha a paridade com o dólar americano, já que os Estados Unidos possuíam três-quartos das reservas mundiais do minério.

Além dessa importante decisão, os países-membros do Acordo de Bretton Woods concordaram em evitar novos conflitos internacionais, além de erguerem algumas instituições financeiras mundiais para regular assuntos relacionados a investimentos internacionais e órgãos de fiscalização das economias para deixá-las estáveis.

Quais instituições se formaram com a Conferência de Bretton Woods?

Apesar de ter perdido a validade nos anos 70, a Conferência de Bretton Woods foi o marco do abandono do keynesianismo, ainda muito praticado entre as economias mundiais, em detrimento de uma política monetarista, bastante baseada nos ideais liberais. Além da influência ideológica, o encontro de Bretton Woods foi o responsável pela criação de algumas importantes instituições financeiras globais.

Nesse encontro, por exemplo, a Organização Mundial do Comércio (OMC) foi estruturada. Ela existe até os dias atuais e é a responsável por regular as trocas comerciais entre os países, justamente para evitar disputas entre as nações, sejam elas armadas ou ideológicas, por meio de sanções, multas e bloqueios econômicos em casos pontuais.

Outra medida que foi estabelecida em Bretton Woods foi a inauguração do Fundo Monetário Internacional (FMI). O objetivo da instituição era a reestruturação da nova ordem econômica e ajudar as nações que tiveram seus países arrasados pela guerra e que estavam em posição vulnerável desde a Crise de 1929 a se reerguerem, especialmente em questões de infraestrutura, através do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD).

Como as nações podiam contar diretamente com instituições monetárias internacionais, como o FMI e o BIRD, para resolver questões de crises econômicas e de problemas infraestruturas, a tensão entre os países diminuía, afastando a ideia de novos conflitos mundiais.

Vale mencionar que o FMI e o BIRD, que tinham a nação norte-americana como maior credora desde as suas fundações, ambas em 1944, exigiam medidas de austeridade bastante voltadas ao campo liberal para quitar dívidas contraídas pelas nações – como as privatizações e os cortes em gastos públicos. Dessa forma, tais iniciativas tenderam a beneficiar os EUA e o sistema capitalista naquele momento. Além disso, com os Acordos, o capitalismo se fortaleceu como o modelo econômico mais viável, em escala global, isolando os países socialistas e inviabilizando a participação de economias subdesenvolvidas no cenário mundial.

Apesar do capitalismo ter conhecido o seu apogeu durante os anos de vigência dos Acordos de Bretton Woods (1944 – 1971), o sistema foi quebrado pelo governo norte-americano, quando as reservas de ouro começaram a se esvair rapidamente do país e pelo conflito ideológico contra o sistema econômico da URSS. No próximo tópico, vamos entender a sequência de ações que resultaram na quebra dos Acordos.

O fim do Sistema de Bretton Woods

Na década de 1960, a harmonia entre as nações começava a ser ameaçada, colocando os tratados de Bretton Woods sob prova de fogo, especialmente com o agravamento do conflito entre a União Soviética e os Estados Unidos e as constantes críticas ao sistema capitalista, à produção em massa, ao lastreamento de moedas ao ouro e ao consumo inconsciente.

A derrota militar dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã (1965-1975) ameaçou a estabilidade do dólar e ajudou a colocar o sistema de Bretton Woods em vulnerabilidade ainda maior, à medida que as reservas de ouro dos norte-americanos caiaram drasticamente.

Vale lembrar que o dólar tinha paridade com o o ouro, em uma imposição importante de Bretton Woods. Ou seja, o governo dos Estados Unidos prometeu uma conversão fixa de ouro em dólar (aproximadamente 31 gramas do material tinha o valor de 35 dólares). Assim, todas as moedas atreladas ao dólar também fixavam o mesmo valor em ouro.

Em 1971, no entanto, esse pilar de sustentação dos acordos da Conferência foi alterado pelo então presidente Nixon depois de tais reservas norte-americanas do minério terem diminuído significativamente, após três décadas de crescimento.

A decisão do presidente, conhecida como Nixon Shock, abalou o que havia sido estabelecido nos Acordos de Bretton Woods, de modo a dar ainda mais destaque ao dólar na economia mundial.

Dessa maneira, as moedas mundiais migraram, lentamente, entre a segunda metade da década de 70 até a entrada no novo milênio, ao câmbio flutuante, trazendo o dólar como referência em detrimento do ouro.

Conferência de Bretton Woods: qual é o legado?

Para firmar de vez a hegemonia dos Estados Unidos no pós-guerra, a Conferência de Bretton Woods adotou o lastro do dólar para moedas internacionais. Isso quer dizer que o ouro, mineral finito e escasso e que era usado para tal função desde a Primeira Guerra Mundial, seria atrelado ao dólar como o lastro – ou conversão – entre transferências internacionais. Isso conferiu à moeda norte-americana um papel de destaque a nível global.

Na década de 70, o governo dos EUA decidiu por desvincular a sua moeda do ouro, por problemas de baixa reserva do minério, em um movimento político-econômico que colocaria um fim aos acordos de Bretton Woods. Assim, o dólar permaneceria como câmbio para as moedas internacionais, enquanto as nações optavam pelo câmbio flutuante, que permanece até hoje.

Os Acordos estabelecidos em Bretton Woods tiveram sucesso entre 1945 a 1975, quando o cenário global experienciou crescimento econômico generalizado entre os países desenvolvidos e algumas nações emergentes.

Além disso, as iniciativas políticas e econômicas de Bretton Woods firmaram os Estados Unidos como potência hegemônica no cenário capitalista. Historicamente, esses 30 anos ficaram conhecidos como os anos gloriosos do sistema capitalista.

Diante disso, o legado de Bretton Woods praticamente ditou como seria a economia atual e as instituições criadas no evento permanecem funcionais até os tempos atuais, garantindo a estabilidade das economias da nação e a paz mundial, pelo menos no plano teórico.

REFERÊNCIAS

História – Bretton Woods

De Bretton Woods à Globalização Financeira: Evolução, Crise e Perspectivas do Sistema Monetário Internacional

Instituições de Bretton Woods

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