Em nenhum outro momento na história da humanidade tivemos tanto acesso à informação quanto agora. Contudo, ao mesmo tempo em que vivemos na era da informação, também vivemos na era da desinformação. Informações falsas ou enganosas nunca foram tão compartilhadas como agora por conta do ambiente digital e das novas tecnologias.
Dentro desse fenômeno, as teorias da conspiração emergem como uma poderosa força capaz de distorcer a realidade individual e coletiva, disseminando mentiras que alteram a noção do que é real. Com isso, as conspirações contribuem para a disseminação de desinformação. Por isso, neste segundo texto da trilha “Nome da trilha” vamos entender sobre como funcionam as teorias conspiratórias e como elas servem como uma técnica de desinformação.
O que é conspiração e como funciona?
A palavra “conspirar” se refere a planejar e agir secretamente com algum objetivo específico. Nesse caso, as teorias da conspiração são teorias que buscam explicar um evento, cenário ou situação com uma narrativa sem evidências que fogem das explicações oficiais.
Dessa forma, essas teorias têm a crença de que há uma conspiração secreta sobre determinado assunto e que estão “escondendo a verdade” do povo. Ou seja, a realidade passa a ser uma mentira do ponto de vista da teoria conspiratória e as explicações científicas e mais evidentes passam a não ser aceitas por quem acredita na conspiração.
As teorias da conspiração não são um fenômeno novo, estando presentes na história da humanidade, assim como a mentira de maneira geral. Contudo, com o avanço das tecnologias de comunicação e informação, como a Internet, a difusão de conspirações foi potencializada em um patamar não visto antes. Algumas teorias conspiratórias se tornaram globais nos últimos anos, tendo consequências sociais e políticas visíveis na sociedade.
Mas por que as conspirações se tornaram tão populares? Por que as pessoas acreditam nelas? Bem, alguns estudos científicos como o artigo “The Psychology of Conspiracy Theories”, liderada pela psicóloga Karen Douglas, indicam que há alguns fatores psicológicos e sociais que levam as pessoas a acreditarem nessas teorias.
Um deles seria a necessidade que o ser humano tem de ter conhecimento e informação sobre as coisas. Essa necessidade de saber faz com que as pessoas busquem explicações para eventos ou situações que ainda não foram explicadas.
Ou seja, há uma certa ânsia por ter respostas para tudo e isso se torna um terreno fértil para o surgimento de conspirações, que justamente fornecem essas explicações, mas sem evidências e distorcidas da realidade.
Outro fator é que, de modo geral, as pessoas não gostam de não estar no controle sobre determinada situação. Isso também é apontado pelo psicólogo Jan-Willem van Prooijen, no seu livro “The Psychology of Conspiracy Theories”, que expressa que a conspiração oferece uma sensação de ordem e controle.
Nesse sentido, em face de eventos caóticos ou ameaçadores (como uma pandemia ou atentado terrorista), as teorias conspiratórias reduzem a ansiedade da incerteza, atribuindo causalidade ao evento e responsabilidade para determinados agentes. Com isso, as pessoas possuem a sensação de que não estão impotentes perante a situação.
Por fim, outro fator evidenciado por Karen Douglas está relacionado com a motivação social, mais especificamente a sensação de pertencimento. A pessoas que acredita na conspiração se sente parte de um grupo especial, que enxerga a verdade por trás das aparências, diferenciando-se do restante do povo, visto como ignorante, que aceita a narrativa oficial. Assim, as teorias conspiratórias alimentam a sensação de que o grupo que acredita nelas possui um conhecimento que o resto das pessoas não têm.
A lógica da pós-verdade
O funcionamento das conspirações se encaixa no que se convencionou chamar de pós-verdade. O termo, dicionarizado em 2016 e eleito como palavra do ano pelo Dicionário Oxford, descreve uma condição em que os apelos à emoção e às crenças pessoais exercem maior influência na formação da opinião pública do que fatos objetivos.
Dessa forma, a lógica da pós-verdade é a da indiferença em relação à verdade, visto que as pessoas acreditam apenas no que querem, sem se importar com as evidências ou a realidade. É possível dizer que as teorias da conspiração, que envolvem a pós-verdade, atuam na construção de uma “realidade alternativa” sustentada pelo viés de confirmação (busca apenas informações que confirmem crenças pré-existentes) e pela desconfiança radical nas fontes tradicionais.
Com isso, as teorias da conspiração são a forma narrativa da pós-verdade, contribuindo para que a desinformação seja espalhada de forma viral e sem se preocupar com a veracidade dos fatos.
A conspiração na potencialização da desinformação
Há uma associação direta entre conspiração e desinformação. A conspiração não apenas se alimenta da desinformação para existir, como também a potencializa em sua disseminação.
Uma informação falsa ou enganosa sobre determinado assunto que seja bem específica, ou “solta”, sem uma contextualização, tem menos chances de conquistar o público e fazer as pessoas acreditarem nela. Agora, quando uma narrativa conspiratória é inserida nessa informação falsa, existe uma maior tendência das pessoas acreditarem nela.
Isso porque a conspiração traz um apelo e uma narrativa persuasiva maior do que apenas uma simples notícia falsa. Pensando em um caso hipotético, vamos supor que está rolando por aí uma imagem falsa de um navio da marinha chinesa na costa litorânea do Brasil.
A imagem falsa, por si só, pode não causar um impacto muito significativo. Contudo, se essa imagem estiver inserida dentro da narrativa de que esse navio está no litoral brasileiro por conta de um “plano globalista” em que os “agentes da nova ordem mundial estão prontos para realizar uma ação bélica contra o Brasil”, a crença nessa desinformação acaba por ser maior.
A sensação de posse de um segredo perigoso e a urgência de que a população deve “acordar” para a realidade criam um imperativo moral e uma certa necessidade para compartilhar a desinformação.
Exemplos reais de teorias conspiratórias
Nos últimos anos, muitas teorias conspiratórias ficaram famosas em nível mundial, sendo acreditadas por milhares de pessoas. Uma das conspirações mais populares é a de que o planeta Terra é plano, e não uma esfera.
A ciência comprovou o formato da Terra há séculos atrás, no entanto, um movimento começou a ganhar força, principalmente a partir de 2014, que defende que a Terra é plana. O movimento terraplanista possui argumentos e narrativas que distorcem a realidade e o consenso científico, afirmando, por exemplo, que além da Terra não ser esférica, os governos e agências espaciais participam de um gigantesco “encobrimento da verdade”.
Outro popular conspiracionismo é o do globalismo e da suposta Nova Ordem Mundial. As pessoas que creem nessa conspiração alegam que existe uma elite governante e secreta que controla o mundo e está tomando ações para criar uma nova ordem global, que irá modificar a geopolítica mundial e a sociedade.
Um momento em que muitas teorias conspiratórias emergiram foi durante a pandemia de Covid-19. Nesse período a conspiração e desinformação sobre vacinas foi acreditada e compartilhada por milhares de pessoas ao redor do mundo.
Apesar da evidência científica sobre a segurança e eficácia das vacinas contra a Covid-19, a narrativa conspiratória expressava que as vacinas não imunizavam e, pior que isso, causavam problemas de saúde.
Uma das alegações conspiratórias da desinformação sobre a vacina era de que elas seriam capazes de alterar o material genético humano, ou até mesmo que elas continham microchips para controlar a população. A crença nessas conspirações contribuiu para que muitas pessoas hesitassem em se vacinar contra a Covid-19 e outras doenças.
O uso de IA em narrativas conspiratórias
Se conspiração e desinformação andam juntas, por uma potencializar a outra, hoje em dia com o uso de ferramentas de Inteligência Artificial (IA), criar uma narrativa conspiratória ficou ainda mais fácil do que antes.
Bots e redes automatizadas já eram usados para amplificar narrativas. Agora, a IA permite gerar áudios, imagens e vídeos realistas que conseguem deixar a teoria conspiratória mais persuasiva.
As IAs de geração de imagem e áudio permitem criar “evidências” falsas de alta qualidade para corroborar narrativas. Imagens fotorealísticas de eventos que nunca aconteceram, áudios perfeitos de autoridades dizendo coisas comprometedoras ou vídeos (deep fakes) podem ser criados para validar uma conspiração.
Nesse sentido, a sofisticação do conteúdo gerado por IA aumenta a dificuldade em identificar a sua veracidade, fazendo com que a crença nesse conteúdo seja mais provável. Como consequência, o combate à conspiração e desinformação também é dificultado, exigindo uma abordagem multifacetada. E é isso que o jogo “IAgora?” se propõe a fazer, desenvolvido pela Politize! em parceria com a CIVICUS World Alliance, por meio do programa Digital Action Lab.
O jogo “IAgora?” como ferramenta de combate a desinformação
Em um cenário onde a desinformação se tornou uma ferramenta política complexa, compreender seus mecanismos é o primeiro passo para combatê-la. É exatamente essa compreensão que o jogo “IAgora?” busca promover de forma acessível e envolvente.
O “IAgora?” é um jogo online e acessível e foi desenvolvido com o objetivo de abordar, de forma didática, a desinformação gerada por Inteligência Artificial e suas consequências políticas e sociais durante o período eleitoral.
A ideia é que os jogadores aprendam a identificar conteúdos falsos e descubram como combatê-las de maneira consciente na vida real ao aprender as técnicas de desinformação do jogo.
Através de um sistema de caminhos e consequências, a experiência lúdica revela os desafios éticos e os danos reais causados pela desinformação gerada pela Inteligência Artificial. Mais do que um simples jogo, “IAgora?” é um simulador de consequências que busca equipar os cidadãos com o discernimento necessário para combater a desinformação no mundo real. Acesse, jogue e compartilhe: https://iagora.org/
Referências
- DOUGLAS, Karen et al. The Psychology of Conspiracy Theories. Current Directions in Psychological Science, vol. 26, n. 6, p. 538-542, 2017.
- LEWANDOWSKY, Stephan; COOK, John. O manual das teorias da conspiração. 2020.
- PROOIJEN, Jan-Willem. The Psychology of Conspiracy Theories. 1ª ed. Routledge, 2018.
- Nexo Jornal – O que aprender (e ensinar) sobre teorias da conspiração
- BBC Brasil – Por que teorias da conspiração são tão populares?
- G1 – ‘Pós-verdade’ é eleita a palavra do ano pelo Dicionário Oxford
- Carta Capital – Não há desinformação sem conspiração.
- UOL – Teoria da Terra Plana está cada vez mais popular.
- Estadão – O que é a teoria da conspiração da Nova Ordem Mundial
- Brasil de Fato – Você não vai se transformar em jacaré: 10 mentiras sobre vacinas que circulam por aí
- Estadão – Estamos vivendo uma epidemia de teorias da conspiração? Veja o que dizem estudos sobre o tema