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movimento antivacina. imagem: 2020 Boston Herald, MediaNews
Imagem: 2020 Boston Herald, MediaNews, no site Independent.co.uk

Com o início da pandemia, cientistas do mundo inteiro reuniram esforços para desenvolver uma vacina eficaz contra a Covid-19. Foi uma das vacinas mais rápidas a serem desenvolvidas e muitas pessoas se mostraram céticas em relação ao imunizante, muitas vezes se organizando no movimento antivacina ou antivax.

Apesar de ter ganho mais espaço durante os últimos anos após o início da pandemia de Covid-19, a hesitação em relação às vacinas não é recente.

Neste texto do Politize!, explicamos em detalhes o que é este movimento, como ele surgiu e quais são os seus possíveis riscos.

Como funcionam as vacinas?

Antes de entendermos no que consiste e como o movimento antivax se organiza, é importante entender como funcionam as vacinas.

As vacinas introduzem no corpo humano organismos que são capazes de causar doenças – os chamados patógenos, porém enfraquecidos. O sistema de imunidade do nosso corpo processa essas células através dos antígenos. Assim, os patógenos são fracos, mas suficientes para que o corpo gere uma resposta imunológica contra essa doença.

Em resumo, uma vacina é uma preparação biológica do corpo humano para prevenir doenças. Para saber mais, acesse nosso texto que explica mais sobre as vacinas: COVID-19: Vacinas, Elevadores e Esperança.

Outros artigos nossos importantes sobre esta temática são o do Programa Nacional de Imunizações (PNI) e a história da vacinação no Brasil.

O que é o movimento antivacina?

O movimento antivacina é um grupo, que pode ou não ser organizado, que reúne críticos das vacinas contra programas de vacinação pública.

O movimento antivacina se tornou popular com a globalização, já que o avanço dos meios de comunicação possibilitou uma maior disseminação dos seus ideais.

Nos dias atuais, vemos o movimento antivacina muito presente em vários posicionamentos e ideais políticos, com pessoas tanto da direita, quanto da esquerda.

Vale ressaltar que o movimento antivacina pode ser heterogêneo, abrangendo pessoas do espectro político inteiro, bem como pessoas contra as vacinas por questões religiosas ou espirituais.

Em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu a hesitação vacinal como uma das dez ameaças à saúde global. Segundo a organização, esse movimento de recusar a vacinação, mesmo com os imunizantes disponíveis, é uma ameaça, já que pode reverter o progresso feito em doenças que são evitáveis com as vacinas.

A OMS estima que a vacinação previne de 2 a 3 milhões de mortes por ano.

Contexto histórico do movimento antivacina

O movimento antivacina não é recente e especialistas o associam às epidemias de varíola na Idade Média. No Brasil, o primeiro surto da varíola foi registrado em 1555.

Desde a Idade Média, a taxa de mortalidade era de 20% a 30%, e com o passar dos anos, em regiões da África e Ásia, as pessoas realizavam a “variolação” ou “inoculação”, que consistia em passar uma amostra de pus da ferida de algum doente na pele de uma pessoa saudável.

Essa prática não era totalmente eficaz, já que especialistas estimam que de 2% a 3% das pessoas morriam após terem sintomas graves da varíola. Também havia a possibilidade de uma pessoa que realizou o processo de “variolação” infectar outras pessoas saudáveis.

Apesar disso, considerando a taxa de mortalidade entre a doença com e sem a inoculação, muitas pessoas, em especial da aristocracia, preferiam correr esse risco.

A primeira prática de vacinação

No século XVIII, o britânico Edward Jenner percebeu que as vacas tinham sintomas mais leves do que a varíola humana e observou que as pessoas que tinham contato com o gado não se infectavam com a doença.

Após realizar a “variolação” com um rapaz de oito anos que se chamava James Phipps, o médico percebeu que o menino teve sintomas leves. Após algumas semanas, o médico expôs o rapaz ao vírus da varíola humana, que, por sua vez, não desenvolveu nenhum sintoma por conta do procedimento.

Jenner teve muita resistência dos acadêmicos da época, já que a prática era considerada repulsiva, uma vez que era proveniente de amostras de animais doentes. Com o tempo, a prática foi se tornando popular e atualmente o britânico é conhecido como o criador da vacina.

Os primeiros antivacinas

Alguns líderes religiosos eram contra a prática de imunização, já que acreditavam que a doença era uma punição divina e não deveria ser tratada nem prevenida. Outros a consideravam repulsiva, usando jornais e revistas para ironizar a descoberta do médico. 

Alguns dos principais representantes do movimento na época eram Benjamin Moseley e William Rowley. Moseley chegou a comparar a vacinação à transmissão de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), considerando a prática asquerosa e referindo que as pessoas vacinadas poderiam desenvolver características de touro. Além disso, havia a preocupação de que a vacinação tornasse as pessoas impuras, impossibilitando o seu desenvolvimento espiritual. 

A prática de vacinação foi se espalhando pelo mundo e em 1813, nos Estados Unidos, foi criada a Agência Nacional de Vacinas. Com o desenvolvimento de estudos na área, foi comprovado que a vacinação deveria ser realizada periodicamente, a cada dez anos.

O impacto da vacinação foi enorme em Londres: na década de 1790, foram registrados 18.447 óbitos causados pela varíola; em 1810, o número baixou para  7.858. 

A vacina se tornou obrigatória pela primeira vez em 1853, com a Lei da Vacinação na Inglaterra. A Lei definiu que as crianças deveriam ser vacinadas até os 3 meses de vida, ou os pais poderiam levar multas ou até mesmo irem presos.

Deste modo, foram criadas organizações antivacina que exigiam a abolição desta lei, adotando medidas sanitárias como o isolamento dos pacientes doentes.

A primeira organização antivacina

A Sociedade de Londres para a Abolição da Vacinação Obrigatória foi fundada em 1880, e logo depois, em 1896, o seu nome foi mudado para Liga Nacional Anti-Vacinação, que contava com pelo menos 100 filiais e mais de 10.000 membros.

Em 1898, outra Lei de Vacinação foi aprovada na Inglaterra e previa que, de maneira a evitar que os filhos fossem vacinados, os pais deveriam tirar uma espécie de certificado de isenção do processo de imunização.

O cientista Louis Pasteur inventou as vacinas contra a raiva, cólera aviária e antraz. Com o avanço na medicina e ciência, outras vacinas foram inventadas como a do tétano, da peste, febre amarela, difteria, entre outros.

Em novembro de 1904, tivemos no Brasil, no Rio de Janeiro, a Revolta da Vacina, onde houve um movimento popular contra a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola. Nos protestos, cerca de 30 pessoas morreram e 110 ficaram feridas.

O principal motivo da revolta foi uma lei aprovada em 1904 que previa que as autoridades sanitárias poderiam aplicar multas a quem não tomasse a vacina, além de poder exigir uma certificação da vacinação para realizar viagens e ir em casamentos ou para os alunos matricularem-se nas escolas.

Quais são os argumentos do movimento antivacina?

De acordo com a Revista Galileu, é possível identificar quatro estratégias/argumentos principais utilizadas no movimento: 

  1. Minimizar a ameaça da doença: mesmo com as altas taxas de letalidade da varíola, era comum os simpatizantes do movimento antivacina referirem que não era uma ameaça tão grande à população, já que haviam poucos casos. 
  2. Declarar que a vacinação causa doenças e/ou é ineficaz: durante o período de “variolação”, era possível que as pessoas tivessem outras doenças secundárias por conta da falta de práticas sanitárias na época. Atualmente, esse argumento que a vacina não funciona ou causa doenças não possui base científica. 
  3. Afirmar que a vacinação faz parte de uma conspiração: argumentos como violação das liberdades individuais, abuso de poder por parte do Estado, entre outros. Na vacinação contra a Covid-19, temos diversas teorias da conspiração também
  4. Referências às “autoridades” paralelas que legitimam as estratégias acima: uso de “especialistas” que possuem métodos alternativos para poderem legitimar o movimento.

Movimento antivacina na era da informação

Após o esforço global e coletivo da vacinação da varíola, a OMS declarou a varíola uma doença erradicada em 1980. Com o avanço da internet e a globalização, existe uma maior facilidade para a propagação de informação errônea.

As redes sociais permitem a difusão de informações falsas e sem embasamento científico, podendo atrair mais pessoas ao movimento e amedrontar as pessoas focando nos efeitos colaterais das vacinas. 

Em 1998, o britânico Andrew Wakefield publicou um artigo já desacreditado pela comunidade científica no qual associava a vacina tríplice viral (MMR) ao desenvolvimento do autismo em crianças. Com dados falsos e conflito de interesses por parte do autor, atualmente sabemos que o estudo foi manipulado.

Em 2010, Wakefield teve a sua permissão médica suspensa e foi proibido de praticar medicina no Reino Unido. Apesar disso, por ter tido muita atenção da mídia quando o artigo foi publicado, esse mito permaneceu no imaginário das pessoas, o que acabou por refletir nas taxas de vacinação.

Por exemplo, até os anos 2000, o sarampo era considerado uma doença erradicada nos Estados Unidos, mas os casos começaram a ressurgir a partir de 2005. 
 
Mesmo com os dados científicos a comprovar a eficácia das vacinas, o movimento antivacina se foca nas questões de liberdade individual, nos efeitos colaterais das vacinas, numa “resposta natural” do corpo e nas pesquisas paralelas de médicos que desafiam a eficácia dos imunizantes. 

As vacinas contra a Covid-19

O principal desafio para combater o movimento antivacina é a desinformação que circula na internet.

Desde o início da pandemia de Covid-19, houve muita esperança no desenvolvimento de uma vacina eficaz contra a doença. Mesmo com doses disponíveis para os seus habitantes, países como Estados Unidos, França e Alemanha sofrem com a hesitação da população e a falta de confiança nas vacinas.

O movimento antivacina representa um risco à saúde pública já que doenças erradicadas em diversos países como o sarampo e poliomielite podem voltar a ter surtos recorrentes.

Com a pandemia de Covid-19, ficou claro que questões de saúde não apenas abrangem a dimensão sanitária, mas também as dimensões sociais e culturais, sendo importantes para a sociedade como um todo. 

E aí, entendeu o que representa o movimento antivacina? Deixe sua dúvida ou opinião nos comentários!

Referências:

Você já conhece o nosso canal do YouTube?

Maria Julia Guedes

Licencidada em Relações Internacionais pela Universidade de Lisboa e acredita que a educação política deve ser acessível à todas as pessoas.

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