Este conteúdo foi desenvolvido como parte das ações para o #festivalnãomecancela

Você provavelmente já deve ter visto alguém sendo “cancelado” nas redes sociais, principalmente se esse alguém for uma pessoa pública. Essa prática se tornou muito comum na contemporaneidade e tem gerado muitos debates na sociedade. Mas você sabe o que realmente significa “cancelar” alguém e os motivos que geram esse “cancelamento”?

Neste conteúdo, o Politize! te explica mais sobre esse comportamento, a sua origem e as problemáticas relacionadas a esse tema.

O que é a cultura do cancelamento?  

Com os avanços no campo social, observa-se na contemporaneidade um processo de desconstrução de práticas e costumes antigos, os quais anteriormente eram normalizados na sociedade. Isso significa que alguns comportamentos não são mais tolerados por parte do corpo social, como comentários racistas, homofóbicos e machistas. Como resultado, uma parcela cada vez maior de pessoas se manifesta contra tais atitudes que são passíveis de punição.

É comum observarmos esse debate nas redes sociais, sobretudo, em virtude da internet ter se tornado um lugar propício para o debate de causas importantes e um espaço para manifestações. No entanto, frequentemente, no ambiente cibernético, as manifestações contra comportamentos considerados errados convertem-se em um linchamento virtual contra a pessoa responsável pelos atos, como uma forma de punição e uma maneira de realizar a justiça social. Como todos os indivíduos são suscetíveis a cometerem erros, inúmeras pessoas estão sendo “canceladas” no meio digital.

Esse fato acontece, principalmente, em razão da ideia de que apenas as pessoas que foram “canceladas” seriam capazes de cometerem os respectivos erros. Ou seja, uma parcela de indivíduos acredita que se estivesse no lugar do “cancelado”, não agiria da mesma forma. Como efeito, essa circunstância influi diretamente no surgimento de um novo comportamento de repreensão: a cultura do cancelamento.   

Mas… O que faz alguém ser “cancelado”? 

No mundo moderno, em que a presença da tecnologia é cada vez maior e as redes sociais exibem um crescimento exponencial, o “cancelamento” de uma pessoa está diretamente relacionado ao seu comportamento. Isso significa que para uma pessoa ser cancelada ela provavelmente agiu de uma maneira considerada errada ou fez algo que não é tolerado socialmente.

É válido ressaltar também que a maioria dos cancelamentos ocorre por conflitos de opiniões e pensamentos, devido à crença de que existe um “certo” ou um “errado” convencionado na sociedade. Dessa forma, as pessoas vítimas do cancelamento acabam sendo excluídas da sociedade por um determinado grupo de indivíduos, além de sofrerem linchamentos virtuais e sofrerem punições pelas ações praticadas. Algumas vezes, a ação de cancelar alguém é temporária, em que a pessoa que foi cancelada tem a oportunidade de mudar suas condutas e ser aceita novamente por determinado grupo social.  

Além disso, o comportamento considerado “errado” não necessariamente precisa ter acontecido no presente para alguém ser vítima do cancelamento. Ou seja, se a pessoa fez um comentário questionável há anos e ainda existe o registro disso nas redes sociais, ela pode ser julgada por isso ainda que já não pense mais como no passado. Prova disso, é que em 2018, o ator Bruno Gagliasso virou alvo de internautas após a circulação de posts antigos em que fazia piadas de teor homofóbico e machista. 

Não obstante, apesar do cancelamento de um indivíduo também estar relacionado a debates sociais importantes a respeito do racismo, homofobia, xenofobia e outros tipos de preconceitos sociais, ele também pode acontecer por motivos banais, como por exemplo quando alguém manifesta seu desgosto ou não apoia algo muito popular. 

Cultura do cancelamento nas redes sociais 

Como foi dito anteriormente, a cultura do cancelamento tem sido bastante observada nas mídias sociais, pois trata-se basicamente de uma corrente que incentiva as pessoas a deixarem de apoiar determinadas pessoas e empresas, independentemente de serem públicas ou não, por seus comportamentos considerados incorretos e repreensíveis.  

Apesar da ação de “cancelar” alguém por sua conduta existir há anos, ela teve início nas redes sociais por meio do movimento feminista “#MeToo”. O movimento ganhou força em 2017, quando a atriz Alyssa Milano pediu por meio do twitter que todas as pessoas que já foram vítimas de assédio sexual utilizassem a hashtag #MeToo. 

Diante dessa atitude, a hashtag viralizou no mundo inteiro, inclusive em Hollywood, em que diversas mulheres compartilharam seus relatos de abusos e assédios sexuais. O caso mais emblemático foi o do ex-produtor de filmes Harvey Weinstein, condenado a 23 anos de prisão por assediar dezenas de mulheres. O ex-produtor se utilizava de sua posição de poder na indústria cinematográfica para se livrar dos processos, fazer acordos de confidencialidade, pagar para que suas vítimas se calassem e até mesmo ameaçar destruir suas carreiras. 

Com a divulgação de outros casos, cada homem público que estava relacionado a alguma denúncia virou alvo de boicotes no trabalho e na vida pessoal, em outras palavras, eles foram “cancelados”. Assim, a prática de cancelar alguém foi se modificando e passou a ser praticada também contra pensamentos e opiniões divergentes. Atualmente, a pessoa não necessariamente precisa estar envolvida em alguma polêmica, basta dizer algo contraditório ou que possa ser mal interpretado pelo público.  

Para ilustrar, um caso recente de cancelamento foi o da influenciadora digital Gabriela Pugliesi, que após contrair o novo coronavírus e se recuperar da doença, agiu de forma irresponsável e convidou algumas pessoas a sua casa para uma festa, mesmo com o mundo todo em isolamento social em virtude da pandemia global do SARS-COV-2. Como consequência, a influenciadora foi alvo de linchamento virtual, perdeu inúmeros seguidores e teve diversos contratos de trabalho cancelados. No entanto, ainda que supostamente tenha se arrependido das suas atitudes e se desculpado publicamente, meses após o acontecimento a influenciadora continua sofrendo as consequências de seu comportamento.  

Não é à toa que na atualidade observa-se cada vez mais pessoas famosas desculpando-se online por alguma atitude ou erro pontual. Da mesma forma, além da quantidade de pessoas famosas canceladas aumentar gradativamente, o medo é propagado online e o cancelamento torna-se uma ameaça de punição contra qualquer deslize.

Ademais, apesar da cultura do cancelamento ser um fenômeno contemporâneo que ocorre também no mundo real, o comportamento é essencialmente uma prática das redes sociais. Conforme afirma a doutora em comunicação, Issaaf Karhawi, ambientes digitais possuem uma lógica intrinsecamente binária (vide seguir ou não; curtir ou não), que acabamos carregando para a dinâmica social nas redes. Desse modo, a cultura do cancelamento está presente em praticamente todas as redes sociais. 

Qual o limite da cultura do cancelamento?  

Pode-se dizer que a 21º edição do Big Brother Brasil trouxe à tona a discussão sobre a cultura do cancelamento, tema que chegou a ser debatido entre os participantes durante a primeira semana de confinamento. Ou seja, a prática que antes era discutida apenas nas redes sociais, ganhou seu espaço também na mídia televisa, sendo inclusive temática de uma das dinâmicas do programa, o “Jogo da discórdia”, em que os brothers tinham que opinar sobre quem são os “canceladores” no BBB21.  

Dessa forma, com os acontecimentos no programa e a grande visibilidade, surge um questionamento: qual o limite entre a cultura do cancelamento e a violência? Durante a edição, por exemplo, foi possível observar algumas atitudes polêmicas da participante Karon Conká, cantora rapper, em relação aos participantes Lucas Penteado e Juliette.

Após alguns desentendimentos, Lucas Penteado foi alvo de algumas provocações de Karol, como as insinuações de que ele seria usuário de drogas, ataques verbais e até mesmo a expulsão de Lucas da mesa de almoço, pois ela não iria comer na presença dele. Além disso, a cantora rapper também fez alguns comentários em relação a Juliette, que é paraibana, que foram vistos de forma xenofóbica pelos espectadores. Como consequência, Karol foi cancelada e alvo de linchamentos virtuais em razão de seu comportamento “cancelador” dentro da casa.  

Não há dúvidas de que a cultura do cancelamento foi danosa para todos os envolvidos. Lucas, diante das situações vividas, abandonou o programa; Juliette, sentiu-se humilhada e sozinha; e Karol, foi alvo de ameaças contra ela e sua família. Basicamente, o “cancelamento” praticado tanto dentro da casa como fora, pelos espectadores, ultrapassou os limites e causou sofrimento aos participantes. Isso mostra que o “cancelamento” traz mais malefícios do que benefícios, aspecto que nos faz questionar: isso contribui para o diálogo e para a mudança? 

A partir do momento que o “cancelamento” se torna uma ferramenta de inflição de dor e sofrimento psíquico, o fenômeno pode ser considerado abuso psicológico de um grupo contra um indivíduo, em que a pessoa em questão é vítima de julgamentos sem que tenha a possibilidade de se defender. Além disso, a “cultura do cancelamento” é considerada um risco para o debate saudável, já que ao estabelecer o que pode e o que não pode ser dito promove retrocessos e vai contra a luta progressista para dar voz a todos. 

Para ilustrar, o filósofo Filipe Campello, coordenador do mestrado em Filosofia da UFPE, afirmou em entrevista concedida ao portal UOL, que as democracias modernas substituíram os julgamentos medievais, em que as pessoas eram queimadas na fogueira sob acusações de cunho moral, pelo aval das instituições de justiça.

“Essas vozes têm razão em dizer que essas instituições não estão funcionando corretamente, mas o risco é jogarmos fora toda essa construção e voltarmos à uma lógica persecutória e punitivista, a partir das próprias visões de mundo, de cada um”, adverte o pesquisador. “Se voltamos a crítica ao indivíduo, perdemos de vista a possibilidade de mudança que cada um tem de rever as suas perspectivas.”

A cultura do cancelamento é boa ou ruim? 

Levando-se em consideração o surgimento de um “tribunal da internet”, é possível observar semelhanças entre o “cancelamento” e o termo “panóptico”, utilizado em 1785, pelo filósofo utilitarista e jurista inglês Jeremy Bentham, para fazer referência a uma prisão ideal.

Nessa prisão idealizada, os prisioneiros ficariam instalados em celas separadas, sem nenhuma comunicação, enquanto apenas um único vigilante observaria todos os prisioneiros em um espaço no centro, sem que estes soubessem se estariam ou não sendo observados. Como consequência, os presos demonstrariam um bom comportamento, já que teriam a sensação de estarem sendo vigiados constantemente. 

Posteriormente, Michel Foucault, filósofo francês, utilizou o mesmo termo em sua obra “Vigiar e Punir” (1975), ao tratar da sociedade disciplinar. Nas sociedades disciplinares, que tiveram seu apogeu no século XX, as instituições sociais adotam uma postura de extrema vigilância, em que o poder é exercido cuidadosamente para impor condutas aos indivíduos. Nessa lógica, Foucault alegou em sua obra que o indivíduo se desloca de um “meio de confinamento” para outro: a família, a escola, a prisão, a fábrica, o exército. Na contemporaneidade, pode-se dizer que surge mais um meio de confinamento: a internet.  

Dado que um número cada vez maior de indivíduos, principalmente pessoas públicas, sentem medo de serem cancelados e vítimas do julgamento online, é esperável que optem por se comportar de uma maneira que agrade ao público, já que estão sendo observados continuamente. Em outras palavras, o receio de ser cancelado pode inibir comportamentos naturais dos indivíduos e fazê-los agir por conveniência.  

Sendo assim, cancelar uma pessoa apenas por cancelar constitui um ato de violência e não é algo benéfico, já que esse ato pode causar danos sérios à psique do indivíduo e condicionar seu comportamento de forma nociva. Porém, é crucial pontuar que o fenômeno do “cancelamento” influiu diretamente na propagação de discursos importantes na sociedade, que deveriam ser escutados e ter seu espaço para discussão. Ou seja, quando o “cancelar” é utilizado como uma forma de fazer uma crítica social e possibilitar o avanço e desenvolvimento coletivo, o fenômeno não exerce apenas uma influência negativa na sociedade.  

Precisamos cancelar as pessoas? 

Como foi dito anteriormente, não podemos negar que o cancelamento também possui uma função pedagógica, especialmente em casos em que o indivíduo tenha cometido  uma atitude grave. Porém, o cancelamento apenas por cancelar não proporciona nenhuma melhoria social, já que a pessoa vítima do cancelamento não possui sequer a chance de se retratar. Ou seja, quando essa conduta é utilizada como forma de agressão, ela deve ser combatida. Mas, como podemos combater essa atitude? 

É crucial entendermos que todos somos suscetíveis a erros, mas também temos a chance de melhorar como indivíduos. Ter essa compreensão é fundamental para não excluir outras pessoas, para estar aberto ao diálogo saudável e para a construção de um mundo mais inclusivo, em que as pessoas se respeitem.  

E você, o que acha da cultura do cancelamento? Deixe seus comentários!

Referências:

Diário do Nordeste – BBB 21 acende discussão sobre polarização 

A Gazeta – (BBB e a cultura do cancelamento) 

BBC – (O que é a cultura do cancelamento) 

Canal Tech – (O que é a cultura do cancelamento) 

Abril – (Quais os limites entre a cultura do cancelamento e a violência) 

Ciências Criminais – (Panoptismo: reflexões atuais sobre violência e controle) 

UOL – (Para filósofos, cultura do cancelamento pode ser tiro no pé dos progressistas)

USP – (Procuram-se fadas)

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2011.

 


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