Democracia líquida: você conhece esse novo modelo de democracia?

Foto: Leslie Smith

democracia líquida

A democracia existe de diversas maneiras, como já expusemos em nossa trilha sobre os tipos de democracia. As novas tecnologias, o poder de catarse da internet e o descontentamento com modelos antigos de fazer política levou várias pessoas ao redor do mundo a repensar a democracia nos moldes de vida e da sociedade do século XXI. É disso que se trata a democracia líquida.

Democracia líquida: meio termo entre democracia direta e representativa

Para entender o que é a democracia líquida, precisamos entender os conceitos básicos de democracia direta e de democracia representativa.

Democracia direta: uma inspiração à democracia líquida

A democracia direta foi criada na Grécia Antiga, na qual não havia representantes e cada cidadão participava diretamente da política. A administração feita pela própria população permitia maior controle de votos e responsabilização dos cidadãos, que tinham o dever de estudar razoavelmente os temas a fim de tomar decisões, já que cada voto poderia alterar a direção de alguma política pública.

Tornou-se inviável a democracia direta nos moldes gregos por conta da complexidade das sociedades contemporâneas e dos problemas decorrentes disso, como o grande contingente populacional e a impossibilidade de reunir de forma razoável todos os habitantes de um país num mesmo espaço físico para votações diversas.

Democracia representativa: último recurso?

A saída foi adotar um modelo alternativo e que permitisse que a população ainda tivesse algum poder decisório. É o modelo representativo, em que a população se manifesta através do voto. Trata-se da forma mais disseminada de democracia hoje. De acordo com os idealizadores da democracia líquida, o modelo representativo retira a possibilidade de contribuição de grande parte da sociedade e faz com que o cidadão delegue toda a sua responsabilidade cívica à pessoa que ele elegerá.

Para entender democracia direta e democracia representativa de maneira mais aprofundada, acesse estes posts!

Foto: reprodução / Google

democracia líquida

Democracia líquida: vamos entender esse conceito?

Com a transformação da democracia direta, na antiguidade, em representativa, hoje, passou-se de uma forma cidadã de fazer política, de participar e construir coletivamente políticas públicas, para uma quase completa delegação desse poder em fazer política. O sistema eleitoral nos faz ter de confiar quase que plenamente nos nossos representantes, já que eles tomam decisões em nosso nome. Isso não agrada a todos, o que pode ser visto pelo número alto de votos brancos e nulos nas eleições brasileiras. E quem não se sente 100% representado por uma opinião ou lei apresentada pelo político que elegeu?

Os defensores da democracia líquida criaram uma alternativa para isso. A democracia líquida seria um meio termo entre a democracia direta e a representativa, que busca aliar o melhor das duas.

Como funcionaria a democracia líquida?

O conceito de democracia líquida resgata a maneira cidadã de fazer política, trazendo os problemas sociais e discutindo-os junto à população. Mas isso não seria feito por meio de audiências públicas ou consultas populares, mas por meio da internet – mais especificamente, de um website. A fim de retomar o protagonismo dos cidadãos na tomada de decisões e de tirar a ideia de que o voto é o depósito total de confiança em um político profissional, existiria uma plataforma online em que todos os cidadãos poderiam discutir, opinar e votar em projetos de lei, por exemplo.

Mas, nessa plataforma há também a opção de escolher alguém em que você confia para tomar certa decisão por você. Ou seja, em vez de sempre ser o político profissional que você elegeu agindo em seu nome, pode ser você mesmo ou qualquer outra pessoa a fazer isso.

Por exemplo: no caso de uma proposta de lei que tenha a ver com o meio ambiente e você tem um professor de biologia que tem muito conhecimento de causa ou um amigo biólogo que saiba mais do que você; você pode delegar seu voto para essa pessoa nesse assunto. Quando aquela pessoa for votar, votará por duas. Você também pode retomar seu voto quando julgar necessário.

Democracia líquida no Google

O Google Votes foi uma iniciativa, apresentada pelo engenheiro Steve Hardt, em que foi testado o modelo da democracia líquida dentro da própria empresa. Os funcionários fizeram fóruns de discussão e votação sobre questões relativas à empresa, como a reforma de ambientes, o local em que a máquina de café iria ficar, entre outros.

Para assistir ao vídeo de Steve Hardt explicando o Google Votes, acesse este link!

Hardt utiliza uma metáfora para explicar a democracia líquida: você tem cabos de internet e grandes torres de energia. Os dois transmitem algo que você não pode levar de um ponto a outro. O cabo de internet é a ferramenta que leva informação, os cabos de luz levam energia – o “poder”. A analogia é feita com as redes sociais e a cidadania: com as redes sociais, há proliferação de informação, assim como o cabo de internet. O argumento de Hardt é que para além de disseminação de informação, as redes sociais podem também ser a ferramenta de empoderamento dos cidadãos e levar a “energia” a eles.

Democracia líquida no Brasil: a Liquecracia

Em vários lugares “gringos”, outras formas de democracia vêm sendo discutidas, assim como a validade dos sistemas eleitorais e como a democracia poderia se adaptar à Era da Internet e da Informação. Mas não pense que o Brasil ficou de fora: um grupo criou um projeto chamado Liquecracia, em maio de 2017.

Este grupo chegou à conclusão de que é bastante difícil impor mudanças aos sistemas e mecanismos que regem, principalmente, as propostas de lei, as votações e representações parlamentares no país. Por isso, o Liquecracia tem dois pilares na sua proposta: o partido e a plataforma.

O partido político Liquecracia

Os fundadores e membros do Liquecracia pretendem formar um partido político próprio para levar a ideia da democracia líquida às cúpulas de decisão. O partido Liquecracia, de acordo com seus membros, “…assim como qualquer político que venha a ser eleito por ele, tem o único papel de representar a opinião das pessoas dentro do sistema democrático brasileiro.”

Dessa forma, convocam por meio de seu site pessoas que estejam interessadas em contribuir com o projeto ou mesmo que se interessem em saber mais sobre a democracia líquida ou o próprio Liquecracia.

Dê uma olhada nas propostas do Liquecracia aqui!

Foto: Liquecracia

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A plataforma de democracia líquida do Liquecracia

Como a ideia principal do Liquecracia é buscar a implementação da democracia líquida no país, os membros estão desenvolvendo uma plataforma digital que seja confiável para aplicar o debate, o poder de decisão, votação ou mesmo a escolha de uma pessoa delegar seu voto a outra. Com a plataforma, seria possível: 1) votar quando quisermos em qualquer questão que nos interesse; 2) delegar nosso voto a alguém de confiança e mudar quando quiser, não apenas de 4 em 4 anos; 3) discutir sobre qualquer tema e propor mudanças sempre que achar necessário, sem ter que implorar ajuda a um político.

Assista a este vídeo dos membros do Liquecracia, em que explicam tudo sobre o projeto!

Como afirmam no próprio projeto, o grupo do Liquecracia busca a experimentação para chegar ao melhor tipo de democracia. Sobre a democracia líquida, observam que buscam sempre melhorar e se desenvolver melhor. “Tem como filosofia buscar sempre estar melhorando. Isso quer dizer que continuará a se desenvolver e melhorar, sendo observada de perto por todos, e continuará se reformulando e evoluindo para que atenda cada vez mais os anseios da maioria, buscando alternativas às minorias e evitando corrupções e vícios.”

O que você pensa da nossa democracia e de seu futuro? Acredita que a democracia líquida poderia ser uma alternativa? Compartilhe sua opinião conosco nos comentários!

Publicado em 17 de julho de 2017.

Carla Mereles

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), curadora do TEDxBlumenau e assessora de conteúdo do Politize!.