Este conteúdo é uma parceria do Politize! com o Youth Voices Brasil. O Youth Voices Brasil é uma iniciativa independente, composta por jovens líderes de todo o país, e apoiada pela Y2Y Community e escritório do Banco Mundial no Brasil, com o propósito de erradicar a exclusão produtiva da juventude brasileira.

Ao longo das próximas semanas, traremos textos para refletir sobre a juventude e o mercado de trabalho. Você também pode conferir os demais textos nesta página e baixar o Ebook “Juventude Empregada: evidências e práticas“.

Imagem ilustrativa. Grupo de jovens reunido em ambiente de trabalho.
Imagem ilustrativa. Foto: Pixabay

A busca pelo primeiro emprego apresenta uma série de desafios para a população jovem, podendo variar de tamanho e gravidade conforme o perfil, a qualificação, a rede de contatos e momento político/econômico do país. Antes de propor soluções voltadas a esse público, é preciso compreender o ambiente de pressão, estresse e vulnerabilidade em que muitos se encontram. No contexto atual, de recessão econômica e influenciado por um evento atípico, como é o caso da pandemia do novo coronavírus, a população jovem é afetada de maneira desproporcional aos impactos no mercado de trabalho. 

Entre 2019 e 2020, a população jovem perdeu mais renda e postos de trabalho do que a média da população (-18,1% vs. -11,20%). Entre aqueles com 20 a 24 anos e pertencentes aos 50% mais pobres, a perda chegou a 27%. A informação preocupa pois, como apontou o Aspen Institute, o desemprego juvenil pode ter consequências duradouras ao longo da vida profissional, tais como salários reprimidos, maior dificuldade no acúmulo de capital e diminuição da produtividade.

A análise está em linha com artigo divulgado no Boletim Mercado de Trabalho do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), que constatou que os efeitos causados por crises na inserção laboral de jovens perduram por mais tempo do que na população em geral. Esses efeitos são mais nocivos para jovens em busca de uma primeira oportunidade na medida em que os jovens são mais propensos a se tornarem inativos (saírem do mercado de trabalho) do que desempregados em comparação com outras faixas etárias. 

Como lidar com esses desafios?

Em termos de conteúdo, é possível citar alguns instrumentos que podem auxiliar os jovens a enfrentar esse período tortuoso. O desenvolvimento de habilidades ligadas à nova economia pode ser ferramenta importante para responder às demandas do mercado de trabalho. A aplicabilidade dessas novas tecnologias, seja de inteligência artificial, análise de dados, automação de sistemas, pode auxiliar na resolução de problemas, oferecendo impactos positivos na produtividade, bem como tornar o perfil profissional mais resiliente.

Além disso, estudos indicam que jovens com habilidades socioemocionais e cognitivas têm maior capacidade de enfrentar as complexidades e desafios do século XXI (Cullinane, 2017), também com implicações positivas no nível da produtividade. Jovens com habilidades socioemocionais e cognitivas bem desenvolvidas têm mais chance de ter escolhas assertivas no tipo de função e organização para seu início no mercado de trabalho, assimilando com maior rapidez e maturidade as regras sociais do universo profissional.

O que dizem os números? 

Uma boa forma de entender melhor um quadro social é observar os dados existentes sobre ele. Vejamos alguns deles.

Escolas fechadas desengajam alunos

Desde a interrupção das aulas presenciais, 4,0 milhões (ou 8,4%) de estudantes com idade entre 6-34 anos e matriculados antes da pandemia abandonaram a escola, segundo pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha. O mesmo levantamento apontou que o pior índice foi registrado entre jovens matriculados no ensino superior, com taxa de 16,3%, e nas classes D e E, com taxa de 10,6%. 

Recuperação em formato ‘K’ 

A redução na escolaridade da população jovem tem efeitos perversos no curto prazo, mas é no longo prazo que seu impacto se mostra mais nocivo, mais precisamente, no mercado de trabalho. Em 2021, enquanto a atividade econômica registrou crescimento de 2,3% nos primeiros três meses do ano, a PNAD Contínua apontou taxa de desocupação recorde de 14,4% no trimestre móvel encerrado em fevereiro, afetando 14,4 milhões de pessoas. Somente em 2020, 2,1 milhões de jovens (18-24 anos) perderam sua ocupação – em termos proporcionais, o dobro da média de todas as faixas etárias.

Um artigo recente do professor Naércio Menezes Filho no Valor Econômico apontou que os trabalhadores menos qualificados têm sido mais impactados pelos efeitos da pandemia no mercado de trabalho. Enquanto a população mais escolarizada já igualou ou superou o nível de emprego do início de 2019, aqueles menos escolarizados permanecem 20% abaixo do nível de referência há cerca de 2 anos. A situação é especialmente grave entre os mais jovens que não completaram o ensino médio.

Como preparar a juventude para o primeiro emprego? 

Uma boa preparação para as etapas que antecedem a conquista pela vaga aumentam a chance de inserção no mercado de trabalho, tais como a formatação de currículo, dicas de comportamento nas entrevistas e até mesmo cursos e empregos que se assemelhem ao interesse do jovem candidato. Nesse processo, a escola tem papel fundamental para ampliação do horizonte, demonstrando aos alunos as diferentes possibilidades existentes.

Ainda que a maioria das escolas brasileiras careçam de estrutura suficiente para abarcar conteúdos extracurriculares, a promoção de palestras, rodas de conversas e uma aproximação com universidades e empresas por meio de visitas e projetos é de extrema relevância. Como forma de endereçar essa falta de abordagem integral vale destacar a nova reforma curricular do Ensino Médio, decretada pela Lei nº 13.415/2017, que tem como objetivo oferecer conhecimentos técnicos e incentivar que o aluno expanda seu conhecimento nas áreas da preferência. 

É preciso focar nas transformações tecnológicas

Uma dificuldade adicional enfrentada pela população jovem vulnerável é o acesso precário a ferramentas da transformação tecnológica, tendência acelerada com a implementação de  medidas de distanciamento social em vigor. Um maior alinhamento às novas habilidades vêm sendo cada vez mais exigido pelas oportunidades de trabalho, mas a falta de instrumentos adequados para explorar novas áreas do conhecimento configura-se como empecilho para que a população jovem tenha maior resiliência e flexibilidade no mercado de trabalho.

Inclusive, a previsão é de que algumas profissões altamente demandadas na atualidade, muitas delas com funções operacionais, percam cada vez mais espaço no mercado de trabalho. De acordo com o relatório Jobs of Tomorrow: Mapping Opportunity in the New Economy, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial, as áreas profissionais do futuro estarão cada vez mais ligadas a tecnologia, análise de dados e a sustentabilidade.

Atividades extracurriculares complementam o perfil da juventude

Além disso, uma outra via para driblar a falta de experiência formal do jovem e ajudá-lo na disputa por uma vaga no mercado de trabalho é a participação em atividades de extensão, empresas juniores, círculos de voluntariado, grupos de pesquisas, dentre outros.

Segundo estudo do Banco Mundial, as competências cognitivas, socioemocionais e técnicas se tornarão exigências no mercado de trabalho do futuro, não somente para a inserção mas também para a permanência no emprego. Um aproveitamento das oportunidades extracurriculares podem funcionar também como um teste, permitindo aos estudantes que experimentem áreas do seu interesse e desenvolvam habilidades interpessoais, tais como maior senso de responsabilidade, noção de trabalho em equipe, capacidade de resolução de problemas e autonomia.

Qual o papel das empresas nesse desafio? 

Em vários casos, o desafio apresenta-se também do outro lado da mesa. Muitas posições de nível júnior requerem um nível de experiência e habilidades que jovens em busca de uma primeira oportunidade sequer foram capazes de desenvolver. Ao elevar demais a barra das qualificações técnicas no processo de contratação, as empresas agem de maneira excludente, relegando às capacidades socioemocionais uma importância secundária e excluindo uma parcela relevante dos jovens que poderiam se qualificar para o trabalho exigido pela vaga. 

O empregador como agente da mudança

De maneira geral, comportamentos deste tipo ocorrem por um ‘risco percebido’ maior do que o ‘efetivo’. Isto é, empregadores enxergam jovens e candidatos menos experientes como funcionários menos produtivos, o que não necessariamente possui lastro na realidade. Ao contratar perfis mais diversos, as empresas podem, inclusive, estar incorrendo em economias de custos.

Programas de aprendizagem que estimulem o treinamento interno são exemplos de iniciativas que permitem aos funcionários adquirir novas habilidades e aumentar sua produtividade, estimulando a inovação e até mesmo aumentando salários sem que isso prejudique a sustentabilidade financeira da empresa. Além disso, podem oferecer benefícios muitas vezes invisíveis às firmas, como uma redução nos custos de contratação, um aumento na taxa de retenção e uma maior assiduidade no ambiente profissional.

Como garantir inclusão?

Considerando as significativas disparidades socioeconômicas no Brasil, as portas de entrada para o primeiro emprego são significativamente menores para aqueles em situação de vulnerabilidade. Esse público sofre ainda mais em épocas de crise, como da atual da pandemia, multiplicando os desafios a serem enfrentados.

O levantamento do quarto trimestre da PNAD Contínua (2020) mostrou que 25,5% dos jovens de 15 a 29 anos não estudavam nem trabalhavam – cujo termo utilizado pelo Youth Voices Brasil é sem-sem, fazendo referência à falta de oportunidade para a população jovem. Um estudo do FMI que analisou um grupo de 71 países de baixa renda e de mercados emergentes enfatiza a importância da qualidade dos empregos criados para a população jovem como mecanismo para a redução de desigualdades e promoção de um crescimento mais inclusivo.

Ambientes plurais são mais produtivos

Desse modo, para promover o crescimento de renda e transformação de vida se faz necessário equalizar as oportunidades e incentivar a inclusão de grupos socioeconomicamente mais vulneráveis, como mulheres, pretos, indígenas, moradores rurais, LGBTQIA+ e pessoas com deficiências. Esta inclusão, além de gerar um impacto social positivo, leva as organizações a melhorarem sua performance, como aponta o relatório Diversity Matters, da consultoria McKinsey. Um ambiente de trabalho diverso gera resultados melhores, pois tendem a abranger as necessidades dos clientes que também são diversas.

Vias alternativas para o primeiro emprego

Um exemplo de iniciativa que contribui para inserção do jovem ao mercado de trabalho é o programa Aprendiz Legal, que se ampara na Lei 10.097/2000, envolvendo jovens de 14 a 24 anos. A lei passou a oferecer a possibilidade de inclusão para jovens sem experiência prévia, permitindo a eles estudar e trabalhar, configurando-se como uma das principais portas de entrada para o primeiro emprego com carteira assinada.

Vale ressaltar que, nos últimos anos, a iniciativa privada criou programas de inserção favorecendo grupos estatisticamente de maior vulnerabilidade, como é o caso do programa de trainee da varejista Magazine Luiza em 2020, que destinou vagas exclusivamente para a população negra.

Cursos à distância – e a exclusão digital

Com a pandemia, constatou-se também um aumento no oferecimento de cursos profissionalizantes virtuais, alguns focados para jovens de baixa renda. No entanto, a falta de infraestrutura da população jovem vulnerável impediu a participação em muitas dessas iniciativas pela falta de acesso à internet de qualidade. A pesquisa TIC Domicílios 2019 identificou que 74% da população era usuária de internet, mas o índice caía para 45% nos domicílios com renda de até um salário mínimo. Políticas públicas para conexão de dados reduziriam o impacto na competitividade nacional de 22% de crianças e adolescentes desconectados, identificados na PNAD Covid-19.

O que fazer então? 

Dessa forma, é imprescindível reconhecer o jovem como protagonista durante todo o processo de busca, admissão e desenvolvimento de suas experiências profissionais no mercado de trabalho. As adversidades encontradas devem ser objeto da formulação de políticas públicas e privadas, de forma a endereçar problemas estruturais, como a desigualdade, e gerar valor – não-financeiro e financeiro – para a sociedade.

O fomento a organizações com foco na população jovem em bairros e comunidades, sobretudo os de maior vulnerabilidade, fornece uma rede de apoio e age como um sistema de verificação externo para empregadores. Iniciativas coordenadas têm maior capacidade de aumentar o engajamento da população jovem e estimular a aprendizagem. A redução da evasão escolar, além de melhorar a performance dos estudantes em provas de nivelamento, como o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), prepara os estudantes para o mercado de trabalho, auxiliando assim na obtenção do tão sonhado primeiro emprego.

Referências:

IPEA – Ipea e OIT avaliam o impacto da pandemia sobre jovens no Brasil

Folha – Pandemia trava avanço de jovens e liga alerta sobre geração perdida

Aspen Institute – The importance of a 1st job

IPEA – Boletim do Mercado de Trabalho

Cullinane, Carl, and Rebecca Montacute. “Life lessons: Improving essential life skills for young people.” (2017)

Datafolha – 4 milhões abandonaram estudos durante a pandemia

Agência Brasil – Atividade econômica cresce no primeiro trimestre

Agência de Notícias – Dados do PNAD sobre taxa de desocupação

Valor Econômico – Mercado de trabalho na pandemia

Fórum Econômico Mundial – Jobs of Tomorrow

Banco Mundial – Estudo Competências e Empregos

IZA World of Labor – Sobre programas de aprendizagem

Valor Econômico – Pandemia aumenta fatia de jovens nem-nem

FMI – Como reduzir o desemprego entre jovens

McKinsey – Diversity Matters

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