Esse texto é uma parceria do Politize! com o movimento Etus, com o objetivo de trazer reflexões sobre as relações entre temas religiosos e a política. Na parceria com o movimento Etus, serão abordados temas relacionados ao cristianismo. Esperamos também abordar esses temas sob a perspectiva de outras religiões e grupos religiosos. Se você faz parte de algum deles, entre em contato com a gente. Os pontos trazidos no texto refletem as visões do movimento Etus.

Imagem de uma Bíblia aberta, acompanhada de uma xícara de café. Representação para o texto de como o cristão se posiciona
Imagem ilustrativa (Foto: Pixabay)

Com acontecimentos como as manifestações, protestos e discussões acirradas orbitando por todo o mundo, a polarização política tem crescido nos espaços públicos, fazendo com que muitas pessoas se sintam obrigadas a optarem por um posicionamento, mesmo que não entendam muito bem o que ele propõe. Quando pensamos nos espaços de segmentos cristãos, demonstrar esse posicionamento, para além de estar de acordo ou não com os pares, é uma questão de identificação que agrega ou separa. 

Isto acontece porque, em linhas gerais, dentro do conjunto cristão, assumir um posicionamento político pode remeter a uma antiga confusão dicotômica, onde religião e política não são afins. Por outro lado, remete também a um espaço onde a política pode ser decidida ou não, de acordo com as preferências deste meio.

Esse poder de decisão pode ser explicado pela crescente representação dos cristãos, nos últimos anos. No Brasil, por exemplo, segundo dados do Instituto Datafolha, divulgados em 2020, 31% da população é composta pelo segmento evangélico e, pelo menos, 50% pelo católico. É evidente que, numa perspectiva política, portanto, o número expressivo de cristãos pode até decidir uma eleição, por exemplo. 

Neste cenário, entretanto, a polarização política atua como um fator conflituoso, justamente por ser o extremismo uma de suas principais características. No meio cristão, observa-se, muitas vezes, abertura para a disseminação de vertentes de pensamentos extremistas, variantes da esquerda e da direita, que passam a moldar a forma de criticar e o comportamento dos fiéis. Esse impasse configura uma instabilidade nesse conjunto e um perigo para toda sociedade, uma vez que as decisões políticas estão diretamente ligadas a ele. 

Para entender o presente, temos que olhar o passado e visitar a origem desta polarização. O embate entre esquerda e direita está em andamento desde 1789 quando, na Revolução Francesa, os membros da Assembleia Nacional se sentavam à direita do Presidente, se fossem condizentes com as doutrinas do Rei, ou à esquerda, se fossem afeitos à revolução. Isso quer dizer que, desde o século XVIII, é comum adotar uma posição frente ao cenário político da época; foi assim na França e passou a ser em todos os países, inclusive no Brasil. 

No meio cristão, o desafio é que as ideias sejam expostas e, de igual modo, estimuladas, sem que passem pelo extremismo da polarização. Uma vez que as discussões políticas transitam, com muita frequência, por esse espaço, o estímulo do pensamento, elaborado à base de uma criticidade sensata, ainda que sob perspectivas distintas, pode gerar resultados positivos e válidos para a elevação de toda a sociedade. 

Alguns cristãos que se destacaram no passado, entenderam essa condição e apoiaram-se à ela para revolucionar o cenário de suas épocas, mesmo com posicionamentos políticos diferentes. 

Keir Hadie: um pastor ativista  

Pastor, sindicalista e político escocês, James Keir Hadie, importante figura do século XIX, na Europa, foi um forte disseminador do socialismo àquela época. Impulsionado por suas próprias experiências adquiridas com o trabalho precoce, Keir Hadie ajudou a criar um sindicato na mina onde trabalhava e organizou a primeira greve dos mineiros de Lanarkshire, em 1880. Desde então, a causa trabalhista foi o seu pilar de vida e pautou suas lutas, inclusive, no Parlamento.

Keir Hadie foi membro da União Evangélica, que posteriormente passou a chamar-se Igreja Reformada Unida, e participou do movimento da Temperança, que era contra bebidas alcoólicas. O dom nato da pregação fez com que Keir Hadie falasse à grandes multidões, sendo inclusive considerado um líder daquele segmento.

O legado deixado pelo pastor Keir Hadie passa por sua dedicação ao movimento trabalhista e, posteriormente, pelo resultado deste movimento com efetivação nos Parlamentos, é o caso da participação na criação do Partido Trabalhista Escocês e do Partido Trabalhista, na Inglaterra. Além disso, Keir Hadie foi um grande entusiasta da participação feminina nas votações, causa pela qual chegou a ser preso, em Londres.

Billy Graham: o pastor influente

Conhecido como o mais influente pregador dos EUA, Billy Graham, nasceu em 1918, na Carolina do Norte e, desde criança, foi levado para a Associação das Igrejas Presbiterianas Reformadas, tendo assim o seu primeiro contato com o ofício pastoral, que viria a exercer pelo resto da vida. Aos 21 anos, foi ordenado pastor da Igreja Batista Sulista. Posteriormente, foi pastor da Western Springs Baptist Church, sua própria congregação.

Billy Graham ficou muito conhecido por organizar eventos em estádios e por alcançar mais de 200 milhões de pessoas, por mais de 185 países, em seus programas de rádio e televisão. Pelo grande sucesso na pregação do evangelho para grandes multidões, o pastor Graham ganhou espaço no cenário político americano por ser conselheiro espiritual de vários presidentes do país.

Billy Graham, devido ao seu alto nível de influência entre o segmento cristão norte-americano, foi peça chave nas eleições dos presidentes Nixon, em 1964, e Bush, em 1989, ambos do Partido Republicano. Com princípios ideológicos aliados à direita, os presidentes encontraram no pastor Graham um mentor e condutor de ações que ressoavam por todo o país. 

Billy Graham deixou um legado de orientação não só aos presidentes dos EUA, mas a todo o país, que foi direcionado, em certa medida, por suas ideias. De um caráter muito próximo ao Republicano, inspirado pelo conservadorismo afeito à direita, Graham colaborou com o equilíbrio aos governos, sem perder o ar revolucionário.  

Afinal, como se posicionar?  

Nesse cenário, especialistas recomendam que os cristãos busquem respostas no próprio Jesus. O escritor norte-americano Reza Aslan, em seu livro “Zelota: a Vida e a Época de Jesus de Nazaré”, descreve uma figura revolucionária e à frente do seu tempo, ao proferir sermões muitas vezes distorcidos por más interpretações. Aslan afirma que Jesus tinha como objetivo, além de ensinar o amor, revolucionar politicamente a conjuntura em que viveu. “O fato é que o Jesus da história não era um simples pacifista que pregava a palavra de Deus, mas um líder revolucionário que desafiou o Estado, não apenas ‘pregou’ para ele – e é por isso que o Estado quis a sua morte”, comentou o escritor em entrevista à revista Galileu.

Na mesma entrevista, Aslan reafirma o que muitos outros historiadores também já fizeram, o caráter subversivo de Cristo. “(…) (Jesus) formou um movimento forte pelos pobres, doentes e marginalizados. Um movimento tão ameaçador aos religiosos e políticos do período que fez com que ele fosse procurado, preso, torturado e executado por crimes de sedição (organização de rebeliões, incitamento das massas), o único crime pelo qual alguém poderia ser crucificado sob a lei romana”, explica.

Sob esse prisma, não seria correto pensar que os pontos de vistas com princípios de esquerda sejam totalmente avessos ao evangelho, da mesma forma, não seria correto pensar que as concepções afeitas à direita sejam também avessas ou totalmente condizentes ao evangelho. O próprio Jesus teve comportamentos pautados numa liderança expressiva e revolucionária, na defesa da justiça social para os mais pobres e marginalizados.  Quanto a isso, cabe uma boa ponderação.

Respeito e bom senso: a chave certa

O embate entre correntes de pensamentos diferentes se chocam em todas as épocas, contanto que exista alguém para defendê-las e lutar para que elas não percam força. A problemática, entretanto, não reside neste embate que é considerado até salutar, por alguns. Mas, sim na intolerância com a qual os pensamentos divergentes são tratados, nas mais diversas organizações.

Keir Hadie e Billy Graham não são, necessariamente, distintos em seus pensamentos ideológicos, apesar de terem apresentado visões divergentes no decorrer de suas vidas. Numa visão colaborativa, os pensamentos de ambos se confluem, de forma que não seja preciso excluir, mas agregar para uma matriz comum. Não é errado, portanto, que uma pessoa de orientação cristã opte por uma corrente A ou B com a qual se sinta afim, por outro lado, também não é certo que esta opção seja de caráter excludente com relação ao outro. O bom senso é, antes de tudo, a chave para o respeito.

Sobre o movimento ETUS: O ETUS é uma organização cristã que visa a promoção da educação política no meio evangélico. Acreditamos que Martin Luther King, enquanto legado, propostas e ideias, é um exemplo que serve como plataforma pedagógica para que os evangélicos brasileiros entendam melhor sobre como seus valores e suas vidas funcionam com a política, para que assim a sociedade, em geral, possa melhor compreendê-los. Estamos também engajados na tarefa de formar novas lideranças que possam agir em suas comunidades, politicamente, inclusive na condição de educadores políticos. No centro de nossa missão está a promoção das igualdades e da cooperação entre as pessoas. 

Referências:

Wikipedia (Quem foi Keir Hardie)Christianity Today (Does socialism have to be Godless?)Jus Brasil (Jesus Cristo era de Direita ou de Esquerda?)Revista Galileu (Entrevista com Reza Aslan)

2 comentários

  1. Ronaldo César em 17 de julho de 2021 às 11:25 pm

    É sempre bom levar as pessoas a reflexão, no entanto a colocação de que Jesus foi um influenciador político da época é totalmente equivocada sendo que um dos principais ensinos aos seus discípulos foi não interferir nos governos constituídos mas sim respeitalos ainda que fossem injustos, sobre essa otica tendo em vista que o cristão está nesse mundo mas não faz parte dele é bom que se limite a escolher um candidato de melhor conduta e caráter.

  2. Gustavo Teles em 27 de julho de 2021 às 9:44 pm

    Respeitar não é sinônimo necessariamente de concordar. a política vigente da época era a romana e farisaica, Jesus Cristo teve sim influência em todos os âmbitos da sociedade! Tanto que os seus seguidores realizavam cultos e por isso foram fortemente perseguidos, pela lei da época que proibia essa prática religiosa ou melhor dizendo, cristã.

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