Este conteúdo é uma parceria do Politize! com o Youth Voices Brasil. O Youth Voices Brasil é uma iniciativa independente, composta por jovens líderes de todo o país, e apoiada pela Y2Y Community e escritório do Banco Mundial no Brasil, com o propósito de erradicar a exclusão produtiva da juventude brasileira.

Há quase dois anos, desde o início da pandemia da COVID-19 que provocou um caos sanitário a nível mundial e impactos devastadores; houve também espaço para ‘repensar’. Repensar as formas de trabalho e as suas relações intrínsecas, repensar a educação no nosso país, e tantos outros vieses importantes na vida do ser social.

Para tantas empresas que agarraram a chance de decolar nesse período – ou de sobreviver – a abertura para a captação de talentos se tornou fundamental. Talentos estes mais diversos, capazes de dialogar com várias camadas sociais, abrindo também espaço para pautas urgentes no mundo corporativo como diversidade de gênero, raça/etnia, orientação sexual, pessoas com deficiência (PCD’s), grupos minorizados nos espaços de desenvolvimento profissional. E a diversidade é contemplar a pluralidade de pessoas e a inclusão como forma de valorizar e respeitar essas diferenças que, quando bem aproveitadas, alavancam as potencialidades de mercado de qualquer organização.

Apesar de muitas empresas se apresentarem abertas e interessadas em aumentar a diversidade de seus colaboradores, ainda há muito o que se fazer e transformar nestes espaços, para que além do ingresso haja também uma inclusão verdadeira, não somente nos cargos bases como também nos cargos de liderança e gestão.


Recortes estatísticos sobre a diversidade corporativa no Brasil atual

Uma pesquisa levantada pelo IBGE e divulgada no site Agência Brasil, expõe que o percentual de mulheres empregadas era de 54,5%; já entre os homens esse número aumenta para 73,7%; uma diferença significativa de 19,2% levando em consideração que o número de pessoas nascidas do sexo feminino é superior ao de pessoas nascidas do sexo masculino.  E essa disparidade, segundo o Fórum Econômico Mundial, levará cerca de 257 anos para desaparecer. Sendo a desigualdade de gênero uma das principais disparidades no mercado em relação a empregabilidade e consequentemente redução da diversidade nestes espaços.

Seguindo as diferenças de gênero, temos também as desigualdades ainda latentes relacionadas à raça/etnia, onde os dados divulgados pela Nexo Políticas Públicas demonstram que mulheres pretas e pardas possuem a maior taxa de desocupação com 18,2%; e os menores salários se comparados ao de mulheres brancas e homens pretos e brancos. Estes dados também direcionam para outras questões sérias e urgentes como racismo estrutural e corporativo, necessitando de uma ampla e contínua discussão para a conscientização coletiva.

Pessoas com deficiência também necessitam com urgência desta abertura no mercado, pois mesmo estando em vigência desde 1991, a Lei nº 8.213 – conhecida como a Lei de Cotas – que obriga empresas acima de 100 pessoas a ter de 2% a 5% de seus cargos preenchidos por PCDs, a média de empregos formais preenchidas por pessoas com deficiência é de apenas 1%. O que contribui para esse baixíssimo percentual é a falta de informação e o capacitismo que estas pessoas, infelizmente, são sujeitas a passar com constância.

Alguns relatos de jovens sobre o ingresso e desenvolvimento no mercado de trabalho


Gabrielle Rodrigues, de 24 anos e fundadora da EDUMI, iniciou no mercado de trabalho aos 19 anos para adquirir experiência e também pela necessidade de ajudar a família: “Gostaria de ter começado antes, mas não conseguia sem nenhum tipo de experiência. No meu primeiro emprego enfrentei desafios que não deveria como assédio moral.” Relembra.

Atualmente, Gabrielle é engenheira de dados, e relata como o ingresso no ensino superior modificou sua vida e, consequentemente, suas relações com o mercado de trabalho: “No ensino superior eu aprendi a me comunicar e criar bons relacionamentos e networking. Eu não seria quem eu sou sem ter passado pela universidade.”

Sobre suas impressões a respeito da diversidade no mercado de trabalho, Gabrielle traz à tona a importância de haver oportunidades no mercado para que as pessoas demonstrem seus talentos e aptidões. “Vários problemas são estruturais como racismo e sexismo. Hoje, existem muitas iniciativas para tentar melhorar a situação e só posso esperar que continue assim.  Quero lutar para mostrar que pessoas pretas, mulheres, PCDS, LGBTQIA + são tão competentes quanto, só precisam de oportunidades.” 


O professor Anthony Matos de 28 anos, está se graduando em Gestão Pública na UFRJ. Sua primeira oportunidade no mercado de trabalho foi aos 18 anos como jovem aprendiz, e, juntamente, com suas lembranças traz consigo um alerta ainda muito presente que dificulta o ingresso dos jovens no mercado: 

Os principais desafios enfrentados estão vinculados às exigências impostas a pessoas inexperientes. O mercado de trabalho cada vez mais exige quantidade de experiências absurdas e não valorizam o profissional com potencial e vontade de aprender algo novo.” 

Além do ingresso ao ensino superior ter transformado sua vida profissional, Anthony vê a oportunidade de poder contribuir socialmente, auxiliando o desenvolvimento de outros jovens :

“O acesso ao ensino superior transformou a minha vida. Foi a partir da rede de contatos da universidade que fui convidado para dar aulas no programa da FIA/RJ e vi nessa oportunidade a oportunidade de dialogar com jovens de lugares periféricos do RJ e com histórias como a minha. Posso afirmar que a universidade além de transformar em um profissional, também te transforma em um cidadão. Quero retribuir essa oportunidade para a sociedade.” Afirma.

Caminhos para a democratização do acesso ao ensino superior e fortalecimento de políticas públicas

Em 2022 completará 10 anos das políticas de cotas para inserção de grupos socialmente marginalizados nas universidades públicas. O Brasil também conta com programas de financiamentos providos pela esfera federal, como PROUNI e FIES.

Como abordou a Agência Brasil, entre 2010 a 2019 aumentou cerca de 400% o acesso das pessoas negras ao ensino superior, fundamentando um exemplo da importância dessas políticas para diminuir as desigualdades, embora os números ainda sejam poucos comparados com outros países. Além disso, para equalizar as oportunidades é preciso mais avanços em relação às ações afirmativas visando a permanência dos alunos e o acesso ao mercado de trabalho.

Depois da aprovação, o aluno deve ter maneiras para conseguir finalizar o seu curso. Nem todos possuem o suporte financeiro da família, carecendo, então, de auxílio para moradia, alimentação, transporte, materiais de estudo entre outros itens. Um caminho para driblar essas dificuldades é o apoio das esferas governamentais, fundações, iniciativas privadas e também das próprias universidades.

O diploma da graduação é visto como a porta principal de uma melhoria da qualidade de vida.  De fato, o ensino superior amplia os horizontes e as projeções do futuro. Entretanto, vale ponderar que algumas áreas já estão saturadas e outras em constantes mudanças, especialmente, as relacionadas com a tecnologia. Mediante este cenário, os jovens que se destacam são aqueles que acumulam mais experiências, sejam elas no trabalho ou em outras oportunidades como intercâmbio, pesquisas e domínio de diferentes idiomas.

Para as organizações reterem uma maior parcela da população e também para se beneficiar das vantagens da pluralidade que existem na sociedade em detrimento de um nicho elitizado e pouco diverso, podem aproveitar os modelos de trabalho remoto ou híbrido a fim de admitir talentos que residam em regiões afastadas e que possuam dificuldades com o transporte. Outro ponto de atenção deve ser as formas de seleção. As organizações devem evitar selecionar segundo alguns pré-requisitos que limitam as suas vagas – fugindo da realidade brasileira – e devem investir em capacitações, principalmente para os jovens funcionários.

Referências:

Agência Brasil – Estudo revela tamanho da desigualdade de gênero no mercado de trabalho

Nexo – Desigualdade racial e de gênero no mercado de trabalho

WEF – Global Gender Gap Report

Unicamp – A difícil insersão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho

Agencia Brasil – Cresce o total de negros em universidades, mas acesso é desigual

Agência Brasil – Acesso a nível superior no Brasil é muito baixo em relação a níveis internacionais

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2 comentários

  1. Ana Machado em 19 de novembro de 2021 às 10:13 pm

    Super interessante , de fato tudo que foi exposto é da forma que acontece hoje no mercado de trabalho, um mercado cada vez mais enxuto, onde não há diversidade e um tratamento igualitário.

  2. Carolicia em 21 de novembro de 2021 às 8:59 am

    Ao ler o texto eu vejo que as dificuldades são as mesmas de 20 anos atrás, de quando eu era jovem. E algo que poucas pessoas percebem é que a tecnologia veio pra ficar e que se atualiza rápido demais. Estamos em tempos que precisamos estimular talentos para se adaptarem e aprenderem a aprender seguindo o ritmo das atualizações. Mas é tudo muito novo… O tempo todo!

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