A política como gestão de conflitos

Foto: Reprodução/Nancy Assad.

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O termo política tem inúmeros significados. Dentre eles, está o que considera política a ciência da governança de uma cidade, estado ou nação, ou de qualquer sociedade organizada. Provavelmente você já conhece esta definição, seja pela escola, pelos livros, por pesquisas ou por intuição. Uma sociedade é composta por muitas pessoas, cada uma com valores, saberes e aspirações diferentes umas das outras. Cada um de nós sente diferentes necessidades e, naturalmente, gostaria de tê-las atendidas de alguma forma. Em uma sociedade, cidade ou estado, sempre haverá ideias e desejos conflitantes, pois somos seres pensantes e diferentes uns dos outros.

Ampliando então o conceito de política, podemos dizer que ela é a gestão de conflitos entre seres que têm desejos distintos, em um contexto essencialmente limitado, visando a convivência harmoniosa entre eles.

E por que o contexto é limitado?

A explicação é bastante simples: existe um limite do que é possível ser feito com os recursos disponíveis (tempo, verba, capacidade técnica, impactos, etc). Esses recursos não podem ser utilizados isoladamente, e sim de forma combinada. Se existem limites, existe o conflito.

Vamos exemplificar:

Cenário 1:

Em uma cidade qualquer, existe uma necessidade de construção de casas populares para os habitantes que ainda não possuem casa própria. Todos os habitantes concordam que as casas populares devem ser construídas.

Existe verba e todos os recursos necessários para construção. O tempo previsto para realização da obra é razoável e aceito pela população. O local adequado está disponível. Portanto, o projeto se caracteriza como bastante promissor. Nesse contexto, não há limitações e por isso, não há conflitos aparentes.

Cenário 2:

Agora imagine que nesta mesma cidade, o parque municipal (destinado para atividades de lazer, cultura e esportes da população) é o único espaço onde é possível construir as casas. A prefeitura comunica à população que o parque será substituído pelo novo conjunto habitacional. Entretanto, uma parte da população, que até concorda com a construção das casas, não concorda com o local em que serão construídas. Afinal, o parque é muito importante para cidade!

Nasce então o primeiro conflito, gerado pelo limite do local da construção das casas. Aparentemente, todos os envolvidos possuem motivos justos. As casas são importantes, mas o parque também é. Para decidir se o parque deve ou não ser substituído pelo conjunto habitacional, a prefeitura sugere uma votação direta da população. Na votação, a maioria decide manter o parque. Ou seja, um novo local deve ser estabelecido.

Observe que a maioria optou por manter o parque, sendo que uma parte da população preferia que o parque fosse desativado em favor das casas. Uma insatisfação foi gerada e precisa ser atendida. O tempo, que antes era suficiente para a realização da obra, foi afetado pela necessidade de busca de um novo local.

A prefeitura localiza então pequenas áreas livres na cidade, mas essas áreas não são suficientes para a construção de todas as casas necessárias. Resumindo, alguns habitantes continuarão sem a casa própria. Por isso, passa a ser necessário escolher quem receberá as novas casas. O projeto inicial, que atenderia a todos os que precisavam, agora precisa estabelecer critérios de seleção, pois nem todos poderão ser atendidos. Uma nova insatisfação foi gerada.

Com esse exemplo muito simples, percebemos claramente que decisões e escolhas, mesmo que feitas pela maioria, geram insatisfações nos grupos que não tiveram seus desejos atendidos, ainda que estes sejam justos. Portanto, fica claro que política envolve certo grau de complexidade. A todo momento, temos escolhas e desejos não atendidos e consequentemente, insatisfações que precisam ser gerenciadas, para a manutenção de uma convivência harmoniosa.

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De onde surgiu o conceito de política?

Foto: Reprodução/Mosqueteiras Literárias.

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Não é novidade que a Grécia Antiga foi o berço para muitos conceitos e ideias políticas que foram aplicados ou adaptados para os dias de hoje. A palavra política surgiu por lá, aproximadamente nos séculos IV e V a.C., com a união de duas palavras: pólis, que significa cidade, e tikós que significa bem comum.

Conforme consta na obra “O que é Democracia”, de Renato Janine Ribeiro, os cidadãos de Atenas se reuniam periodicamente na praça pública, denominada Ágora, para expor e debater suas ideias. Não podiam participar desses debates as mulheres, crianças, escravos e estrangeiros.

Os homens livres de Atenas que estivessem presentes em Ágora podiam expor livremente suas idéias e o público presente decidia quais ideias deveriam ser viabilizadas. Em seguida, sorteavam quem ou quais pessoas iriam executar a ideia. É isso mesmo, na democracia de Atenas praticamente não havia eleição. Surpreso? Isso acontecia porque, para os gregos, uma eleição criaria distinção de uns sobre outros, pois seria necessário escolher pelas qualidades de cada um, ou seja, considerar alguém melhor que outro.

Escolher os melhores feria o regime da democracia conforme concebido pelos atenienses. Isso era característica da aristocracia (governo dos iluminados, dos mais capazes). Por isso, o sorteio era visto como a maneira mais justa e democrática de definir quem deveria fazer o quê.

O que se discutia em Ágora?

As pessoas na época da Grécia Antiga não conviveram com a complexidade da economia moderna. Discutiam basicamente sobre guerra e paz, questões políticas e sobre religião, festividades e divisão de tarefas.

Como os cidadãos que compareciam em Ágora eram somente os homens livres e não precisavam trabalhar (eram os escravos que realizavam os trabalhos), havia mais tempo livre para exercitar o pensar, algo que ficou conhecido como ócio criativo. Os cidadãos atenienses dedicavam grande parte do seu tempo livre na análise e busca de soluções para tornar a cidade melhor.

Como o conceito de política evoluiu até os dias de hoje?

Entre os tempos da Grécia Antiga e os dias de hoje, temos mais de dois mil anos de história. Tivemos o aumento da população e da complexidade das relações sociais, mas principalmente, uma grande evolução do pensamento. Isso alterou comportamentos, inovou e renovou conceitos e gerou novas necessidades sociais.

Atualmente, elegemos os nossos representantes políticos para que, em nosso nome, pensem em soluções que atendam nossas necessidades da forma mais harmoniosa possível. Eleger um representante não significa ausência do contexto político ou falta de reflexão sobre o tema, mas deve ser uma ação pensada e combinada com o monitoramento dos eleitos.

E então, conseguiu entender melhor o que é política e qual seu papel na sociedade? Mantenha-se informado, eduque-se politicamente, participe e respeite opiniões divergentes. Esta é uma forma saudável de você e eu exercermos política e cidadania, para que possamos construir uma sociedade mais justa e harmoniosa para todos.

Referências:

Renato Janine Ribeiro: O que é democracia –  Renato Janine Ribeiro: A República – Clóvis de Barros Filho – O que é Política (video-aula)

Publicado em 28 de março de 2017.

Márcia Silva Prado Carneiro

Formada em Administração de Empresas pela Universidade Mackenzie em São Paulo, pós-graduada em Didática e Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Anhanguera – Osasco-SP. Atua como Gerente de Projetos em Tecnologia e possui certificação PMP pelo Project Management Institute (PMI). Estuda Ciência de Dados pela Data Science Academy e cursos livres de Filosofia e Ciências Políticas – Veduca. Redatora voluntária do Politize!.