Iniciativas populares na gestão de resíduos

gestão de resíduos

O Politize! já abordou a situação e os impactos dos resíduos sólidos no Brasil  e o que realmente mudou desde que a Política Nacional de Resíduos Sólidos foi instituída em 2010. Para finalizar nossa temática sobre resíduos sólidos, vamos destacar empresas e cidadãos, assim como você, que fazem a diferença nesse tema. Iremos falar de cidades com políticas públicas de destaque, empreendedores e empresas que viram os resíduos como oportunidade de negócio, pessoas e organizações engajadas na conscientização e mobilização da população, no respeito e divulgação do trabalho dos nossos agentes ambientais, os catadores de materiais recicláveis, e muito mais!

Grupos engajados agindo sobre os nossos resíduos!

Pimp my Carroça

Bernardo Toro, pensador e filósofo colombiano, defende a importância da ética e da mobilização social para a construção do público. O público nada mais é do que aquilo de interesse e que pertence a sociedade. Dessa forma, mobilizar as pessoas torna-se vital para alavancar as situações precárias do nosso país.

Diversas mobilizações tentam mudar a realidade dos resíduos sólidos no Brasil, e consequentemente dos grupos sociais que trabalham com a reciclagem. Um desses movimentos é o “Pimp my Carroça”, que, basicamente, retira os catadores de materiais recicláveis da invisibilidade. São promovidas ações de sensibilização da sua importância e melhoria da sua autoestima a esses agentes ambientais, que costumam ser  marginalizados pela nossa sociedade.

Uma das ações mais conhecida é a “Edição do Pimp My Carroça”, que consiste em um dia de intervenção pública, em um espaço central e conhecido da cidade, onde são realizados reparos, melhorando esteticamente e fisicamente as carroças, com um olhar, e cuidados também, para os seres humanos que realizam este trabalho tão importante. Funilaria e borracharia, instalação de aparatos de segurança, grafites para pintura das carroças, geralmente com mensagens de conscientização ambiental ou respeito aos catadores, são as ações para melhoria do trabalho dos carroceiros. 

Além disso, há também o cuidado com a pessoa. Sendo assim, no mesmo local são realizados atendimentos médicos, de massagistas, cabeleireiros, psicólogos, e muito mais, aos catadores e seus familiares. O evento abraça também a cultura, diversidade e o debate sobre o meio ambiente, principalmente de resíduos, havendo amostras culturais, shows, desfiles, palestras e oficinas. Quer saber mais? Veja o vídeo que explica a ideia do projeto e do seu criador, o Mundano.

O Pimp my Carroça já atendeu 1299 catadores de materiais recicláveis, com a participação de mais de 1100 artistas e grafiteiros e 1850 voluntários, em 48 cidades de 13 países – uma das referências em mobilização socioambiental do nosso país.  As ações do “Pimp my Carroça” não serviram somente para a valorização dos profissionais, da saúde e do lado humano dos catadores, mas também na rentabilidade dos seus serviços, como pode ser percebido no depoimento do Seu Eulei

Tanto os trabalhadores, quanto a atividade, sofrem diversos desrespeitos, preconceitos e não são valorizados da maneira que merecem. Catadores e catadoras de todo o Brasil exercem um trabalho de extrema importância ambiental e para nossa economia. 

Cataki

Mundano é idealizador de outro projeto, o aplicativo “Cataki”, vencedor do prêmio de inovação Nextplo em Paris, no ano de 2018. O aplicativo sem fins lucrativos conecta cidadãos comuns que querem descartar os resíduos recicláveis com catadores mais próximos do local. Os catadores se cadastram e recebem ligações de cidadãos que desejam descartar móveis, papelão, vidro, entre outras. Além do ganho ambiental, há vantagens financeiras para o catador e a criação de uma rede colaborativa, onde os catadores se ajudam e até repassam coletas que sejam distantes ou que não tenham interesse.

Instituto Ecofaxina

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Outra referência na preservação do meio ambiente é o Instituto Ecofaxina, que desenvolve ações de limpeza e monitoramento de ecossistemas costeiros na Baixada Santista (litoral paulista), com o objetivo de reduzir o aporte de resíduos no oceano. Até 2018, já tinham sido 51465 kg de resíduos sólidos coletados em sistemas costeiros e marinhos, com mais de 2000 voluntários em 96 ações. 

A organização já recebeu diversos prêmios pelo seu trabalho, conseguindo até a aprovação do Projeto de Lei “Programas Ecobarreiras”, pela Câmara Municipal de Santos-SP, parte integrante do Sistema Ambiental de Coleta de Resíduos que tramita na Secretaria do Meio Ambiente de Santos. 

Basicamente, o projeto consiste na construção de um galpão às margens do estuário de Santos e São Vicente para funcionar como base operacional para limpeza e recuperação de áreas degradadas de mangue. Além disso, serão incluídos moradores de palafitas da localidade na frente de trabalho, dando uma nova oportunidade de emprego para a região, na coleta e reciclagem, assim como na recuperação das áreas afetadas.

Além da conscientização e educação ambiental, a introdução de pessoas engajadas a fazer a diferença e comunidades em condições vulneráveis é outra grande marca do movimento. Interessante destacar também a preocupação da organização de que as intervenções pontuais se tornem leis e políticas públicas para uma melhoria contínua da condição ambiental.

Vale ressaltar também outras iniciativas bem interessantes, como o Ecobarreira do Rio Atuba, idealizado pelo Diego Saldanha, e o Ecosurf, que também merece destaque por sua preocupação com a poluição marinha. Esses e outros projetos podem ser conferidos no site do Prêmio Lixo Zero.

Empreendedorismo Social – lucro, avanço social e melhoria ambiental

O empreendedorismo social visa alinhar negócios para gerar impacto, resolvendo adversidades da nossa sociedade. O gerenciamento adequado dos resíduos, por exemplo, é um grande problema no Brasil – e vira a oportunidade de empreender para algumas pessoas com ideias inovadoras.

B2Blue

Uma dessas pessoas é a Mayura Okura. Observando que diversas empresas geram diferentes tipos de resíduos, e que muitos desses resíduos servem de matéria-prima para outros empreendimentos, Mayura criou a B2Blue um marketplace que conecta geradores com potenciais compradores. Com 60000 usuários cadastrados, são negociadas cerca de 700 mil toneladas de resíduos mensalmente, movimentando valores aproximados de R$ 800 milhões. Tem o maior conjunto de dados armazenados no Brasil, chegando a um cartel de preços de 8000 tipos de resíduos. 

VGResíduos

Outro modelo de negócio nessa mesma linha é a VG Resíduos. Uma startup que, na categoria Meio Ambiente, ocupa o primeiro lugar no ranking das 100 Open Startups. Com previsão de faturamento de R$ 5 milhões de reais em 2018, a empresa conecta geradores de resíduos a tratadores e consumidores. Como se agisse na forma de leilão, o gerador cadastra a quantidade e o tipo de resíduo, os interessados fazem ofertas de tratamento, ou simplesmente compra do material.

Tanto a B2Blue quanto a VG Resíduos, são negócios que necessitaram de um aporte financeiro considerado, ou vieram a partir de uma empresa já consolidada no mercado. No entanto, suas ideias se mostraram diferenciais, por observarem uma lacuna no mercado e, além do lucro, trazerem o benefício ambiental. Há outros projetos também, sem a necessidade de um grande investimento inicial, que podem ser destacados e geram renda para famílias e comunidades, principalmente de baixa renda. Sabão ecológico a partir de óleo usado, coleta e venda de material reciclável por meio de cooperativas, artesanato com resíduos que iriam para aterros, são alguns dos exemplos de possibilidade de renda!

Políticas Públicas – o melhor caminho para eficiência

Um Brasil com uma gestão de resíduos sólidos sustentável só acontecerá com a efetivação de boas políticas públicas! Sendo assim, para os estudantes da área, administradores públicos e parte da sociedade civil interessada neste assunto, vale a pena conhecer as boas práticas que muitos municípios brasileiros realizam. Estas práticas podem ser replicadas em outros municípios, se assim for possível para aquela realidade.

A cidade de Jundiaí, em São Paulo, realiza um trabalho bem elaborado no gerenciamento de resíduos da construção civil. Este ano, por exemplo, recebeu o prêmio InovaCidade, uma das premiações mais importantes sobre Cidades Inteligentes da América. Com uma carga mensal de 15 mil toneladas de restos de construção civil, o Geresol – Gerenciamento de Resíduos Sólidos de Jundiaí – trata estes resíduos, os transformando em matéria-prima para obras de drenagem e pavimentação, por exemplo. Com essa capacidade de 90% de reciclagem deste resíduo, a cidade já economizou R$ 3 milhões!

Outra cidade destaque é Recife/PE que recebeu o Prêmio A3P, este ano, na categoria Gestão de Resíduos Sólidos do Ministério do Meio Ambiente por boas práticas de sustentabilidade na administração pública. O projeto premiado é responsável pela coleta de resíduos eletrônicos – equipamentos velhos e que não estão sendo mais usados na rede de educação da cidade – que são reutilizados e reaproveitados para trabalhos artísticos, para robótica, entre outros, e caso não tenha mais serventia são destinados a empresas especializadas em reciclagem. Automatização de hortas escolares, pesquisas experimentais com os materiais, são algumas das suas reutilizações.

O Brasil é capaz e você tem papel fundamental nisso!

Como vimos, tem muita gente boa querendo melhorar a situação dos resíduos no Brasil. Seja por puro altruísmo e preocupação com o meio ambiente e com as pessoas, seja por enxergar uma possibilidade de negócio sustentável gerador de lucro, seja pela simples obrigação de exercer bem a sua função na administração pública!

Nosso país conta com tecnologia, profissionais e universidades especializadas neste tema e pessoas engajadas para transformar esta realidade. Mas o que falta para dar certo então? Principalmente, presença e investimento do setor público na área. Temos legislação, um exemplo é a Política Nacional de Resíduos Sólidos, ou seja, está tipificado o que deve ser feito e suas metas. Com atenção do governo e estímulo para que Estados e municípios consigam efetivar seus respectivos planos,  é possível realizar um planejamento inclusivo, com sociedade, empresas privadas e governo, para que os objetivos sejam alcançados!

Outro ponto importante, conscientização de que todos fazem parte do problema. Você tem que separar os seus resíduos em casa e dar a destinação adequada, ao setor público cabe realizar a coleta e dar a destinação ambientalmente correta para cada resíduo e as empresas e comércios também tem que se responsabilizar por aquilo que geram.

Você conhece alguma boa prática de gestão de resíduos? Como é realizado aí na sua cidade? Tem algum link para compartilhar ou organização social para citar? Deixe sua sugestão nos comentários e vamos juntos construir um Brasil pautado na sustentabilidade!

Publicado em 04 de setembro de 2019.

 

Gabriel Pontes Bueno Guerra
Engenheiro Ambiental pela Universidade Federal de Viçosa – UFV, e  Pós-Graduando em Avaliação de Impactos Ambientais e Processos de Licenciamento Ambiental – SENAC. Um defensor do meio ambiente, do desenvolvimento sustentável e dos direitos humanos. Acredita que com conhecimento, empatia e vontade de fazer a diferença, mudaremos o Brasil!

 

REFERÊNCIAS

G1 

Estadão 

Revista Pegn

Gazeta do Povo

Cempre

G1 2 

Jundiai Governo de São Paulo

Meio Ambiente Recipe

 

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