pessoas andando na rua. Conteúdo sobre mobilidade social

 

Ganhar na loteria, ser promovido no trabalho ou perder o emprego repentinamente… Todos estes cenários podem ser exemplos de mobilidade social. Neste texto, o Politize! traz para você o que é mobilidade social, quais são as principais teorias nesta área e como é a mobilidade social no Brasil. Vamos lá?

O que é mobilidade social?

De acordo com a Enciclopédia Britannica, mobilidade social pode ser definida como o movimento de indivíduos, famílias ou grupos num sistema social hierárquico, geralmente definido pela estratificação social. Existem dois tipos de mobilidade social: a vertical e a horizontal

A mobilidade social vertical pode ser: 

  • Crescente: quando um indivíduo ou o grupo cresce na hierarquia e ascende uma classe superior a que estava antes, como, por exemplo, uma pessoa passa em um concurso público e ascende na pirâmide social, tendo uma condição financeira melhor do a que estava antes;
  • Decrescente: quando um indivíduo ou o grupo decresce na hierarquia e passa a integrar uma classe social inferior à que estava antes. Por exemplo, uma família de três pessoas na qual ambos os pais possuem trabalho, caso um dos pais perca o emprego e a família passe a viver com o salário de somente um deles, isso pode fazer com que eles decresçam na pirâmide social.

Já a mobilidade social horizontal se refere apenas a uma mudança na posição que o indivíduo ou grupo ocupa na sociedade, sendo que não existem mudanças na sua classe social, como por exemplo um morador de um prédio que passa a ser síndico. Neste caso, não existe uma mudança na condição financeira, mas sim o síndico passa a ter uma posição social maior em relação aos outros moradores. 

Mobilidade social durante a História

Sistema de Castas

Numa sociedade que funciona com um sistema de castas,  a mobilidade social é praticamente inexistente porque existe uma estrutura muito rígida. O hinduísmo é uma religião em que é aplicado este sistema e um dos exemplos que temos é a Índia, um país na Ásia em que 80.5% da população se considera hindu. Surgido entre 1500 a.C e 600 a.C., a casta à qual os indivíduos pertencem é definida no nascimento e passada de forma hereditária para pessoas que exercem o mesmo trabalho que os seus antepassados.

Tradicionalmente, a estrutura do sistema de castas hindu é uma analogia ao corpo de Brahma, deus da criação. No topo, estão os brâmanes (mestres e religiosos e que representam a cabeça do deus), abaixo estão os xátrias (governantes e guerreiros que seriam os braços), depois os vaixás (grupo composto pelos comerciantes e que seriam as pernas do deus) e por último as castas mais baixas, chamadas de shudras (compostas pelos trabalhadores e que formariam os pés de Brahma). As pessoas que não fazem parte do sistema de castas eram chamados de párias.

Em 1950, a Constituição indiana foi reformada e a discriminação baseada nas castas foi proibida. Também foi criado um sistema de cotas para que as castas mais baixas tivessem acesso a empregos públicos e instituições de educação. Apesar destas reformas, como a maioria da população se considera hindu, o sistema continua muito presente na sociedade indiana até aos dias atuais.

Feudalismo

Durante a Idade Média na Europa, a Igreja ocupava o topo da estrutura social e tinha muita influência sobre os reis e proprietários de terras. Depois dela, existia a nobreza (grupo de pessoas que controlava os reinos), que era dividida em alta nobreza (pessoas com os títulos de rei, príncipe, arquiduque, duque, marquês e conde) e pequena nobreza (composta pelos viscondes, barões e cavaleiros e que tinham como função proteger os reinos).

Por último, temos os camponeses, que representavam a maior parte da população feudal e eram responsáveis pela produção agrícola e outros trabalhos. Diferente do sistema de castas, nas sociedades feudais a mobilidade social era possível mas era muito limitada, sendo muito provável que um indivíduo de uma determinada classe se mantivesse nela até o fim da sua vida. 

Sociedade contemporânea

Com a Primeira Revolução Industrial e o surgimento da sociedade capitalista, a sociedade passa a ser dividida principalmente pela condição socioeconômica dos indivíduos, ou seja, pela capacidade de acumulação de capital.  

No sistema atual, temos a ideia de que com trabalho árduo e muito esforço é possivel ascender socialmente, baseando-se na ideia de meritocracia, como se todos possuíssem as mesmas oportunidades. A realidade é outra: os que são mais favorecidos economicamente possuem acesso à fatores que muitas vezes não estão disponíveis para os menos favorecidos, como boa educação, boas oportunidades de vida e de emprego, etc. Por isso, o ciclo da desigualdade perpetua. 

Como o Politize! explicou neste artigo, a grande concentração de renda em somente uma pequena parcela da população causa a desigualdade social. De acordo relatório da Oxfam, grupo de vinte ONGs presente em mais de cem países, quanto maior a desigualdade social em um país, menor é a mobilidade social.

Se você quer entender melhor esse debate sobre meritocracia e desigualdade social, assista nosso vídeo:

Estratificação social, classe social e mobilidade social: como estes conceitos se relacionam?

A mobilidade social está muito ligada aos conceitos de estratificação social e classe social. Na Sociologia, o fenômeno de estratificação refere-se à classificação de pessoas ou grupos de acordo com fatores específicos. Nestes estudos, se destacam três teóricos: Max Weber, Karl Marx e Émile Durkheim.

Para Max Weber, a definição da classe social de um indivíduo ou grupo leva em consideração não só a condição financeira do indivíduo ou grupo (que Weber chama de riqueza), mas também o status (que abrange a honra e o prestígio que a pessoa ou o grupo tem na sociedade e que pode implicar alguns privilégios dentro dessa mesma sociedade) e o poder (a capacidade do indivíduo ou grupo de influenciar as outras partes da sociedade).

De acordo com Karl Marx, as estruturas das sociedades são baseadas no conflito entre dois grupos: os opressores e os oprimidos. Na sociedade moderna, estes dois grupos seriam a burguesia (o grupo daqueles que possuem os meios de produção, ou seja, as fábricas, máquinas, terras, transportes, recursos naturais, etc.) e o proletariado (formado por aqueles que somente possuem a sua força de trabalho). Deste modo, a definição de classe social para Marx é principalmente econômica. 

Segundo Émile Durkheim, em cada sociedade, o trabalho que os indivíduos exercem são classificados como mais ou menos importantes. Isso resulta em uma divisão da sociedade em que o principal critério é moral, já que as pessoas de uma determinada sociedade conquistam o seu status e prestígio de acordo com as posições profissionais que ocupam nesta mesma sociedade.

Estes conceitos de estratificação social tentam explicar a origem da divisão ou hierarquização das sociedades, que, como vimos, se dão por fatores como a renda, o poder, a profissão, o prestígio na sociedade, entre outros. De uma forma geral, quanto mais rígida a estratificação social, menor é a mobilidade social.

Mobilidade Social no Brasil

De acordo com o Relatório Global de Mobilidade Social de 2020 do Fórum Econômico Mundial (disponível aqui em inglês), o Brasil ocupa a 60ª posição no ranking de mobilidade social entre 82 países. 

O índice de mobilidade social leva em consideração dez pilares para a sua análise: qualidade e equidade da educação, acesso à educação, proteção social, condições de trabalho, oportunidades de trabalho, distribuição justa de salários, acesso à tecnologia, aprendizado ao longo da vida saúde, instituições inclusivas e saúde.

Fonte: Relatório Global de Mobilidade Social de 2020 do Fórum Econômico Mundial.

O Brasil possui uma pontuação de 52.1 numa escala de 0 a 100. No pilar de distribuição justa de salários, o país obteve a menor nota: 36 pontos. Já a maior nota foi no pilar referente ao acesso à tecnologia, com 68 pontos. Conforme o relatório, conclui-se que uma pessoa de baixa renda no Brasil demoraria nove gerações para atingir a renda média da população brasileira. 

Fonte: Relatório Global de Mobilidade Social de 2020 do Fórum Econômico Mundial.

Diante destes dados, como promover a mobilidade social no nosso país? De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), é possível que a mobilidade social seja maior com a promoção de políticas públicas que têm como objetivo:

  • Melhorar a eficácia dos gastos públicos, em especial na educação e saúde;
  • Melhorar o acesso e a qualidade do ensino profissional;
  • Melhorar a redistribuição de rendas usando recursos como reformas de impostos e benefícios sociais para aumentar o investimento em programas sociais voltados para os grupos mais vulneráveis. 

Portanto, o conceito de mobilidade social se mantém muito atual e é muito relevante para entendermos como a nossa sociedade está organizada e quais são os impactos que esta organização implica. 

E qual a sua opinião sobre a mobilidade social no nosso país? Conta para nós nos comentários!

REFERÊNCIAS

Social mobility | Definition, Examples, & Facts

Estratificação e desigualdade social – Brasil Escola

Mobilidade social: o que é, tipos, importância – Brasil Escola

Brasil é o segundo pior em mobilidade social em ranking de 30 países

Um elevador social quebrado? Como promover a mobilidade social – OCDE

ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL NA TEORIA DE MAX WEBER: CONSIDERAÇÕES EM TORNO DO TEMA

Classe social: o que é, quais são, na Sociologia – Mundo Educação

Desigualdade Social – Mundo Educação

Castas: apesar de proibidas, continuam a moldar a sociedade indiana

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