One Belt, One Road: entenda a Nova Rota da Seda chinesa!

Rua com diversos anúncios em Mandarim (Foto: Tookapic/Pixabay)

Rua com diversos anúncios em Mandarim (Foto: Tookapic/Pixabay)

Não é segredo ao leitor atento que a China vem aumentando sua participação no cenário internacional nos últimos anos. Além de ser hoje a segunda maior economia do mundo e o país mais populoso, com 1,38 bilhão de habitantes, o gigante asiático tem expandido seus investimentos  em outras regiões. O mais grandioso desses investimentos é o projeto da Nova Rota da Seda, mais conhecido como One Belt, One Road.

Nesse texto, o Politize te explica como surgiu, a quem atinge e qual o objetivo do grandioso projeto chinês. Vem com a gente aprender tudo sobre ele!

A origem da Rota da Seda

Antes de partirmos para a Nova Rota da Seda, é importante que fique claro para você o que foi a rota original.

O nome Rota da Seda carrega todo um simbolismo histórico. Falar sobre ele é relembrar de um momento em que a China era o grande centro da economia da eurasiática (Europa + Ásia), mais de 2000 anos atrás.

Criada para interligar o Oriente ao Ocidente — mais precisamente, a Ásia à Europa — a rota tinha como grande objetivo o estabelecimento de uma rede comercial entre os mercadores e de uma rede multi-cultural entre seus países membros. Nessa rede, a seda era o principal produto comercializado, daí o nome “Rota da Seda”.

Neste sentido, falar em Nova Rota da Seda faz parte da construção da ideia de um “Sonho chinês”, bandeira política de retomada do que a China entende por seu lugar no mundo, apresentada por Xi Jinping, principal líder da República popular da China. Mais precisamente, a China pretende retomar o papel de liderança econômica, cultural e comercial que por séculos o país possuiu.

O prazo para isso é o ano de 2049, data que marca o centenário da Revolução Chinesa de 1949 e início de uma nova fase na história chinesa.

E o que é a Nova Rota da Seda?

Como te dissemos, o investimento chinês no mundo tem crescido consideravelmente nos últimos anos. Segundo o importante think tank estadunidense American Enterprise Institute for Public Policy Research, entre 2005 e 2018, a China esteve presente nos cinco continentes e investiu cerca de US$ 1,9 trilhão. Isso equivale, por exemplo, a 13 vezes o valor do Plano Marshall, utilizado pelos Estados Unidos na reconstrução da Europa durante a Guerra Fria.

Para crescer ainda mais e ampliar sua influência como um dos principais atores internacionais, o governo chinês, comandado por Xi Jinping, lançou um ambicioso plano de infraestrutura regional e global. Esse plano é a Belt and Road Initiative (Iniciativa do Cinturão e Rota), ou, mais popularmente, a Nova Rota da Seda chinesa.

A iniciativa da Nova Rota da Seda foi apresentada primeiramente em 2013. Ela consiste na ideia de uma série de investimentos, sobretudo nas áreas de transporte e infraestrutura. Esses investimentos deverão ser tanto terrestres (Cinturão), conectando a Europa, o Oriente Médio, a Asia e a África — regiões de extrema importância geopolítica — quanto marítimos (Rota), passando pelo Oceano Pacífico, atravessando o Oceano Índico e alcançando o mar Mediterrâneo.

Além disso, a ideia é que o projeto se conecte com as obras chinesas que já estão sendo feitas no continente africano e abra portas a um modelo semelhante em outras regiões. No mapa abaixo, apresentado em reportagem do jornal The Diplomat, em 2015, isso fica mais claro. As linhas pretas, verdes e vermelhas representam os projetos para a rota terrestre e a linha azul os projetos de rotas marítimas.

Imagem de Roman Wilhelm/ MERICS - The Diplomat (2015)

Imagem de Roman Wilhelm/ MERICS – The Diplomat (2015)

Segundo Xi, em discurso proferido em 2014, para a realização das obras já há coordenação com uma série de iniciativas como a União Econômica Eurasiana da Rússia; o Plano Master de Conectividade da ASEAN; a Bright Road  Initiative do Cazaquistão, a Development Road Initiative, na Mongólia; a iniciativa Dois Corredores, Um Círculo Econômico, no Vietnam, entre outras.

Tal coordenação permitiria que ideias ousadas presentes no plano, como a de um corredor de gasodutos e oleodutos na ásia central, ou uma infraestrutura de redes de telefonia, internet, rodovias e ferrovias cortando toda a Ásia e Europa, fossem possíveis.

Apesar de ampla, contudo, a Nova Rota da Seda não é pensada como um arranjo multilateral, negociado entre vários países ao mesmo tempo. Na prática, o que a China faz é organizar uma série de acordos bilaterais, feita pouco a pouco, na qual já diz contar com mais de 60 países interessados.

De onde virá o investimento para a Nova Rota da Seda?

Inicialmente, a principal fonte de investimento prevista era o Fundo da Rota da Seda, fundado em dezembro de 2014, por 4 atores:

  • Administração Estatal de Política Externa (responsável por 65% do investimento);
  • Corporação de Investimento da China (15%);
  • Banco de Desenvolvimento da China (5%);
  • Banco de Exportação e Importação da China (15%).

Era previsto que desse fundo sairiam um total de US$ 40 bilhões  para investimentos em obras de médio e longo prazo.

Além desse valor, no Fórum Internacional sobre a Rota da Seda, de 2017, o governo Chinês anunciou um incremento de US$ 70 bilhões em seu investimento na rota (sendo aproximadamente US$ 15 bilhões do governo e US$ 55 dos dois bancos envolvidos).

Há ainda a possibilidade de financiamentos de bancos internacionais. Em seu discurso de 2014, Xi afirmou que também pretende usar recursos do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB), do Banco de Desenvolvimento dos BRICS e do Banco Mundial.

O último país a aderir ao projeto foi a Itália, primeiro país do G7 (grupo das sete democracias mais industrializadas do planeta) a fazer isso. Em meio a esse grande projeto internacional, uma boa pergunta a ser feita é como o Brasil é afetado por ele.

Que impacto a Nova Rota da Seda pode ter no Brasil?

Bandeiras dos países dos BRICS perfiladas. Em ordem: Brasil, Russia, Índia, China e África do Sul (Foto: Son Pick/ Pixabay)

Bandeiras dos países dos BRICS perfiladas. Em ordem: Brasil, Russia, Índia, China e África do Sul (Foto: Son Pick/ Pixabay)

Apesar do foco do projeto da Nova Rota da Seda ser a Eurásia (Europa + Ásia) e a África, a China tem o deixado aberto para quem se interessar. O Chile, por exemplo, presente no Fórum Internacional da Rota da Seda, de 2017 (no qual o Brasil não esteve), com a antiga presidente Michelle Bachelet, afirmou na voz dela que esse é o maior projeto econômico que se debate neste momento, “adequado para novos horizontes”.

Vale lembrar que a China é o principal  parceiro econômico brasileiro. É o país para o qual o Brasil mais exporta e o segundo de quem mais importa, atrás apenas dos EUA. Também é importante lembrar que em 2017 foi criado o Fundo Brasil – China para incrementar as relações financeiras entre os dois países.

A próxima cúpula dos BRICS está prevista para o Brasil em outubro de 2019, ano em que o país também é o presidente rotativo do grupo, assim como do Mercosul. Certamente o projeto chinês será um dos pontos discutidos e pode ser que surja uma proposta de expansão da Nova Rota da Seda ao Brasil, que deverá fazer uma escolha.

Mais quais seriam os lados a se considerar nessa escolha?

Elogios e críticas ao projeto da Nova Rota da Seda

Alguns dos elogios que o projeto tem recebido são:

  • Aberto a quem se interessar, é uma oportunidade de desenvolvimento estrutural como poucas, com abundância de recursos, baseada na experiência de sucesso chinesa – sobretudo em obras na Ásia e África, e com possibilidade de se tornar a maior rede de infraestrutura da história da humanidade. Aliado a isso, está um discurso de cooperação internacional, sem utilização militar.

  • Se consolidada, a rota pode levar à criação de novos mercados e zonas de livre comércio, gerar novas zonas de abastecimento e distribuição de produtos, facilitar os deslocamentos por via terrestre e marítima e proporcionar grandes avanços na integração de seus participantes e de suas populações.

  • Com a saída dos Estados Unidos do Acordo Transpacífico e seu virtual enfraquecimento, o projeto serve de alternativa aos países da região do Pacífico.

  • Com a possibilidade de uma rota por terra, propiciando outra saída para além do estreito de Malaca, o projeto poderia diminuir as tensões na região do mar do sul da China, contribuindo para a estabilidade na região.

Por sua vez, algumas das críticas ao projeto são:

  • Alguns afirmam que o projeto é uma forma discreta de expansão da influência chinesa pelo globo. As fortes vinculações comerciais e econômicas poderiam ampliar o controle da China, sobretudo sobre as regiões mais pobres, além de ampliar seu poder sobre a Eurásia, região geopoliticamente estratégica.

  • As obras, em grande parte, acabariam nas mãos de construtoras chinesas, sendo uma forma de projeção das mesmas em detrimento de construtoras locais. Com isso, poderia haver dificuldade para lidar com a mão de obra local.

  • Questiona-se até que ponto o endividamento dos parceiros no projeto poderá ser sanado. Países africanos e os asiáticos historicamente em conflito, como o Paquistão, se enquadrariam nisso. Da mesma forma, questiona-se até que ponto os recursos direcionados ao projeto serão de fato aplicados por seus receptores e a segurança de realização das obras.

  • Questiona-se também a harmonia em torno do projeto. A não adesão da Índia, segundo país mais populoso do mundo e de extrema importância na região asiática, muito por conta de possíveis obras na Caxemira – região dividida e em disputa entre Índia, Paquistão e China – reforça a isso. Uma possível competição com os interesses russos na região também é levantada.

  • A viabilidade financeira do projeto também é posta em cheque. Seriam necessários mais recursos anuais para a sua consolidação do que os atualmente existentes e muitas das áreas pelas quais a rota passaria são áreas de conflito,o que dificultaria a realização e preservação de obras.

De uma forma ou de outra, a simples existência de um projeto de tais magnitudes já é válida para uma reflexão e observações futuras à respeito de seu andamento ou estagnação.

E você, o que pensa sobre o projeto chinês? Conte sua opinião nos comentários!

Publicado em 09 de maio de 2019.

Referências:

1) Reportagens:DW (Itália e a Rota da Seda) – El País (Aprofundamento sobre o projeto) – Época (Avanços digitais) – G1 (Sobre o fórum multilateral) – Le Monde (Opinião sobre a Rota) –Superinteressante (Algumas possíveis obras) – Discurso de Xi 2013Discurso Xi Fórum 2017 Discurso Xi 2018The Economist  – Brasil na presidência dos Brics

2) Livro: O mundo pós – Ocidental: Potências emergentes e a nova ordem global, de Oliver Stuenkel

3) Artigos:

KOTZ, Ricardo Lopes. A Nova Rota da Seda: a fundamentação geopolítica e as consequências estratégicas do projeto chinês.

FERDINAND, Peter. Westward ho—the China dream and ‘one belt, one road’: Chinese foreign policy under Xi Jinping. International Affairs, v. 92, n. 4, p. 941-957, 2016.

SWAINE, Michael D. Chinese views and commentary on the ‘One Belt, One Road’initiative. China Leadership Monitor, v. 47, n. 2, p. 3, 2015.

10 respostas
    • Politize!
      Politize! says:

      Muito obrigado!

      Ficamos felizes em poder proporcionar conteúdo de qualidade pra vocês!

      Que tal dar uma olhada em nossos outros posts? =D

      Responder
    • Politize!
      Politize! says:

      Que bom que gostou, Almério!

      Cada post que a gente escreve é feito com muito carinho para poder passar o melhor conteúdo possível pros nossos leitores. Receber elogios assim já nos faz começar a semana com um sorriso no rosto e uma vontade ainda maior de produzir novos conteúdos cada vez melhores pra vocês =D

      Que tal dar uma olhada nos nossos outros posts? Tem várias sugestões ali em cima!

      Responder
  1. Sérgio Ramos
    Sérgio Ramos says:

    Muito bom…será que o governo brasileiro é capaz de perceber a importância de tal projeto e buscar a integração do Brasil viabilizando um novo corredor de infraestrutura logística e também a necessidade de melhorar nossa atual infraestrutura de escoamento de produção para melhorar nossa competitividade e principalmente nos tornarmos o principal centro logístico de toda América Latina.

    Responder
  2. Janailson Almeida
    Janailson Almeida says:

    Os problemas que One Belt and One Road Initiative vai enfrentar não dependem da China e sim de como os demais países envolvidos recebem o projeto. Além de que as questões que estão postas e que poderão atrapalhar o desenvolvimento da iniciativa também não são de responsabilidade da China, mas sim dos outros países. Assim como tem ocorrido com outras propostas levadas pela China, a Nova Rota da Seda terá dificuldades em se desenvolver em meio aos problemas aleios e que a China não deverá se meter para resolver. Portanto, os países precisam se organizarem politicamente para participar do projeto, que sem dúvida vai ser implementado. Os países que melhor estiverem, em nível de estabilidade política e também econômica se beneficiarão da melhor forma. Os que não, enfrentarão as suas intempéries. O Brasil está mais para a segunda opção, ao menos neste momento, infelizmente. A China seguirá, independente e em busca de cumprir o seu papel como reguladora da paz e do desenvolvimento global. Mas não o desenvolvimento proposto historicamente pelos Estados Unidos, onipotente e onipresente sem que as desigualdades diminuam. A perspectiva chinesa é de desenvolvimento econômico e tecnológico, mas também de distribuição de renda, emprego e garantia de vida digna para todos. Basta olhar pra dentro da própria China. Isso sem guerra e sem intervenção cultural nem na comunicação. Quem abrir os olhos e a mente verá, não muito longe, os países pobres se livrarem de vez da dependência maldita da economia norteamericana.

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  3. João Victor Guimarães
    João Victor Guimarães says:

    Excelente texto, recheado de informação e com grande capacidade de síntese. Atualmente estou trabalhando com os impactos da Nova Rota da Seda para países periféricos participantes. Meu primeiro estudo de caso é o Paquistão, que ouso dizer ser o mais crucial para o sucesso dessa visão chinesa. Se interessar, sugiro a leitura do texto que escrevi para os anais do 4o seminário de RI da ABRI, dando uma visão mais geral, e o texto que vai sair sobre o Paquistão nos anais do 6o Encontro da ABRI que será agora em julho na PUC-Minas. A pesquisa ainda está em etapa muito preliminar, mas já dá para ter uma ideia de para onde a Rota está levando os países participantes.

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  4. Vinícius
    Vinícius says:

    Parabéns pela qualidade! Vim parar aqui após ver um vídeo sobre os uigures. O problema que essa minoria mulçumana da província de Xinjiang tem muita relação com esse projeto de infraestrutura. Pra quem quiser se informar, existem muitos vídeos no YouTube e de organizações uigures. A China tem construído campos de “reeducação” para os uigures. Segundo o governo chinês, lá eles aprendem o mandarim e recebem cursos profissionalizantes. Porém, ex detidos (poetas, jornalistas, comerciantes… detidos sob a alegação de terrorismo) relatam abusos físicos e psicológicos, uso de medicamentos de forma compulsória e outras violações. Isso tem ocorrido pelo fato de Xinjiang ser uma região estratégica militarmente e por onde passarão alguns projetos da nova rota da Seda em direção a um porto chinês construído no Paquistão. Além disso, a região já foi palco de intensos conflitos separatistas e chegou a declarar independência nos anos 1930 e 1940.

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