O que é ciência: tudo o que você precisa saber!

Cientista preparando material para um teste de laboratório (Foto: VisualHunt)

Você certamente se depara, toda semana, com algum produto ou pesquisa que se diz científica. Isso porque a ciência, desde o século XVI, vem ganhando cada vez mais espaço em nossa sociedade. Hoje, com as grandes conquistas por ela alcançadas (como a possibilidade de você ler esse texto e ter acesso a bilhões de informações em um computador, tablet ou smartphone, por exemplo) é muito difícil pensar o mundo sem seus constantes avanços.

Mas você sabe como surgiu esse modo de pensar e como foi se modificando ao longo da história? Entende quais são as bases hoje para a construção de um “conhecimento científico”? Quer saber como o Brasil tem se colocado nesse meio? Nesse texto, o Politize! traz isso e muito mais para você.

A construção da ideia de “ciência”

Definir o que se entende por ciência não é tarefa das mais fáceis. O termo foi e continua sendo muito debatido por diversos pensadores de variados lugares e épocas. Uma forma de tentar chegar a um conceito, portanto, é olhar para a ciência a partir da ideia do que ela não é.

Desse modo, podemos dizer que a ciência não é uma crença inquestionável. Isso a difere, por exemplo, de uma religião. Enquanto uma religião se baseia em um dogma, ou seja, uma hipótese incondicional, que deve ser aceita pela fé, toda afirmação científica necessita ser fundamentada e passível de testes, de forma que qualquer pessoa, independente do que acredita ou não, possa chegar as mesmas conclusões ou refutá-las ao analisar a forma como ela foi construída.

A afirmação de que existe um paraíso depois da morte, por exemplo, não pode ser considerada científica, porque não pode ser testada. A única forma de chegar a ele seria após a morte, mas não há como realizar um experimento de morrer para averiguar sua existência ou não, ou morrer uma série de vezes, em condições diferentes, para ver se em todas o resultado seria o mesmo.

A ciência também não é um argumento de autoridade. Ou seja, não é suficiente para um conhecimento ser considerado científico que, por si só, um grande pensador reconhecido, como Sócrates, Platão, Aristóteles, Tales de Mileto, etc. o tenha sustentado. Dizer, por exemplo, que existe um “Mundo das Ideias” porque Platão assim afirmou não garante que esse mundo exista. Acreditar nele depende de uma fé semelhante à fé religiosa.

Da mesma forma, as práticas de curandeiros, monges, cartomantes, feiticeiros e quaisquer outros seres que se auto-caracterizem como “místicos” também não é ciência porque não pode ser racionalmente garantida. Se uma cartomante faz uma previsão sobre o futuro e acerta, por exemplo, não há como garantir se ela realmente acertou ou se foi uma simples coincidência, nem como averiguar quais fatores a levaram a fazer aquela previsão, de forma que outras pessoas também possam fazer.

Por fim, a ciência também não é o senso comum, ou seja, saberes adquiridos e transmitidos socialmente – pelas nossas experiências de vida – que oferecem respostas prontas para questões corriqueiras e frequentes no nosso dia a dia.

Em um exemplo simples, sabemos que se colocarmos a mão no fogo ou em uma superfície quente, ela irá queimar e, por isso, evitamos de fazer isso. Sabemos isso não porque colocamos a mão no fogo um numero incontável de vezes (apesar de podermos ter feito algumas), mas porque isso é um saber da sociedade, muito provavelmente transmitido pelos pais e que transmitiremos aos nossos filhos.

Dito isso, portanto, podemos tentar estabelecer uma definição nossa de ciência como uma explicação possível de ser testada, racionalmente válida e justificável, que possa ser replicada, e obtida por meio de estudos, observações e experimentações feitas sobre a afirmação ou o objeto estudado.

A História da Ciência

A história da ciência é composta por uma série de pensadores – muitos deles cujos nomes se perderam ou são pouco lembrados – que, por seus trabalhos, foram fornecendo contribuições para os métodos científicos que utilizamos hoje. Citaremos aqui alguns nomes importantes.

Aristóteles

Nascido em 384 a.C, em Estagira, na Grécia, Aristóteles foi discípulo de Platão, mas, diferente de seu mestre que focou seus estudos no mundo das ideias, como médico, Aristóteles estava mais  interessado no mundo natural.

Desse modo, foi um dos pioneiros a introduzir a observação metódica da natureza, com descrições precisas do que observava. Ao tentar entender as causas dos fenômenos que observava, foi também responsável por introduzir a lógica a ciência.

Galileu

Quase dois mil anos depois, em 1564, em Pisa, na Itália, nascia outro grande nome para a ciência. Galileu Galilei, mais do que físico, astrônomo, inventor do telescópio, escritor, entre diversas outras qualidades, foi um dos responsáveis por introduzir ao método de observação de Aristóteles uma característica fundamental, a da experimentação metódica.

Dessa forma, hipóteses derivadas da observação precisariam ser testadas através de experimentos. Diversas teses físicas de Aristóteles, como a de que corpos com maior massa cairiam mais rápido, puderam, com isso, ser provadas falsas.

Newton

Um ano após o que morreu Galileu, 1643, nasceu, no Reino Unido, Isaac Newton. Indo além de Galileu, ao estudar os movimentos dos corpos, Newton conseguiu esquematizar suas observações e experimentos em um sistema de equações que montava um quadro de análise a partir do qual poderiam ser tiradas conclusões exatas. Em sua obra “Princípios Matemáticos de Filosofia Natural” ele cria e demonstra as ferramentas matemáticas que sustentam sua lei da gravitação universal, que serviam tanto pra explicar o porque de objetos caírem quando soltos quanto o movimento de corpos celestes.

Karl Popper

As descobertas e leis de Newton prevaleceram por séculos e contribuíram para visões deterministas (de que a ciência poderia determinar o comportamento de qualquer fenômeno físico) que só viriam a ser desfeitas com nomes como Einstein e Heisenberg, respectivamente, com a Teoria da Relatividade e o Princípio da Incerteza, no século XX, que demonstraram erros na teoria de Newton.

Entre esses séculos, sobretudo no século XIX, predominou um “cientificismo”, ou seja, uma supervalorização da ciência como capaz de determinar qualquer coisa. É num ambiente assim que nasce Karl Popper, na Áustria, em 1902. Popper é o responsável por estabelecer o princípio da falseabilidade, segundo o qual uma teoria só é científica se for possível prová-la falsa. Ou seja, ela deve ser capaz de ser testada.

Enquanto os testes não demonstrarem que ela é falsa, ela pode ser considerada válida. Abandonava-se assim o caráter de infalibilidade da ciência, dominante nos momentos cientificistas.

Thomas Kuhn

Thomas Kuhn, por sua vez, nascido nos Estados Unidos, em 1922, traz a ideia de paradigmas e revoluções científicas.

Olhando mais para fatores sociológicos, Kuhn estabelece o progresso da ciência no esquema abaixo, conforme trazido por Alam F. Chalmers no livro “O que é Ciência, afinal ?”:

pré-ciência – ciência normal – crise-revolução – nova ciência normal – nova crise

A pré-ciência seria uma atividade desorganizada e diversa. Ela se torna estruturada e dirigida quando a comunidade científica atém-se a um paradigma. Um paradigma pode ser entendido como relações científicas passadas reconhecidas pela comunidade científica como legítimas para uma prática posterior, como resumido por Nuno Borja Santos, no artigo “A aprendizagem segundo Karl Popper e Thomas Kuhn”.

Dessa forma, a mecânica de Newton pode ser considerado um paradigma e os cientistas que trabalhavam tendo ela como base praticam o que Kuhn chama de ciência normal. Ao fazê-lo, eles se aprofundarão e realizarão uma série de experimentos. Quando esses experimentos encontram uma série de falsificações, têm-se uma crise naquele paradigma. Essa crise levará a uma revolução científica, como a Teoria da Relatividade de Einstein, por exemplo, que gerará um novo paradigma, no qual se dará uma nova ciência normal, a espera de uma nova crise.

Dessa forma, para Kuhn, se constrói o progresso da ciência. Assim, mesmo que um paradigma se prove falso, sua existência é importante pois só através dela poderão ser feitos estudos aprofundados que concluirão que ele é falso. A ciência é vista, dessa forma, como um constante avanço baseado em tentativa e erro.

E o que seria o Método Científico?

Telescópio e Globo Terrestre, marcos do conhecimento científico (Foto: Visual Hunt)

No já citado livro “O que é Ciência, afinal?”, Alan Chalmers traz uma série de abordagens, discussões e críticas interessantes sobre as formas de se pensar ciência atualmente. Aqui nós nos limitaremos a mostrar três das abordagens trazidas por ele: o indutivismo (mais comum), o falsificacionismo (já citado, mas que merece um reforço) e o anarquismo do conhecimento (em oposição a ambos)

O indutivismo

O indutivismo tem suas origens justamente com as experimentações de Galileu, que trouxemos anteriormente.  Para ele, a teoria deveria se adequar aos dados e não o contrário. Assim, primeiro se observa os  dados derivados observados, deles se tiram conclusões, e dessas conclusões são construídas as teorias.

Essa é a concepção mais aceita de ciência, pois, de acordo com ela, qualquer observador poderia chegar às mesmas conclusões ao realizar o experimento. Partiria, assim, de afirmações singulares (sobre o objeto de análise) para, através da observação, chegar a afirmações universais (generalizações) que teriam capacidade de explicação e previsão. Para isso, como traz Chalmers, seriam necessários três passos

1. O número de observações que forma a base de uma generalização deve ser grande

2. As observações devem ser repetidas sob uma ampla variedade de condições

3. Nenhuma proposição de observação deve conflitar com a lei universal derivada

O processo pode ser demonstrado na figura abaixo, retirada da página 23 da obra de Chalmers.

Esquema de Método Científico (Chamlers, pág. 23)

Assim, um grande número de observações em condições variadas gera uma teoria e, a partir dessa teoria, podem ser feitas previsões dedutivas. O exemplo clássico é o do cientista que observa 1000 cisnes e todos eles são brancos. Conclui, então, que “todos os cisnes são brancos”. Como derivação disso, esperaremos que o próximo cisne que ele encontrar será branco. Basta, contudo, que um cisne preto surja para refutar por completo a teoria.

As criticas a essa perspectiva são em torno tanto de questões como “qual seria o ‘grande número’ de observações adequado?” ou sobre o quanto as percepções do observador interferem na observação quanto à possibilidade de que, de premissas verdadeiras, surja uma conclusão falsa. No exemplo do “peru indutivista”, dado por Bertrand Russel, isso se ilustra bem.

Durante toda a sua vida, o peru indutivista foi alimentado às 9 da manhã. Disso ele deriva que sempre é alimentado às 9 da manhã e espera que receberá a próxima às 9h do dia seguinte. No entanto, o dia seguinte é véspera de Natal e, para a tristeza do peru, o alimento, dessa vez, será ele.

O falsificacionismo

O falsificacionismo, por sua vez, diferente do indutivismo, “abandona qualquer afirmação de que as teorias podem ser estabelecidas como verdadeiras ou provavelmente verdadeiras à luz da evidência observativa (Chalmers, p.56).

As teorias, a partir dessa perspectiva, são vistas como especulações ou suposições criadas livremente através do intelecto humano para superar problemas encontrados por teorias anteriores.

A questão aqui está que, uma vez pensadas, as teorias devem ser incessantemente testadas sob observação e experimento. As que não resistem aos experimentos devem ser abandonadas ou substituídas.

Na luz do falsificacionismo, uma teoria nunca pode ser garantida como verdadeira, pois sempre se espera que alguém, algum dia, a refute. Contudo, pode-se afirmar que ela é a melhor teoria disponível para aquele momento, uma vez que foi capaz de refutar tudo aquilo que veio antes dela. Foi assim com a teoria de Galileu frente a de Aristóteles, ou a de Einstein, frente a de Newton.

Dessa forma, para que uma hipótese possa ser considerada científica, ela deve ser passível de ser falseada ao máximo possível. Desse modo, teorias como a Psicanálise freudiana (que explica os acontecimentos com base no inconsciente) não poderiam ser consideradas científicas, uma vez que poderiam se adaptar a qualquer tipo de questionamento (o inconsciente poderia levar a qualquer atitude) sem nunca ser falsas.

O anarquismo

Da mesma forma que existem aqueles que tentam estabelecer métodos para alcançar o conhecimento científico, também existem aqueles totalmente contrários a sua adoção. É o caso de Paul Feyerabend, em sua obra Against Method.

Para ele, nenhum dos métodos da ciência utilizados até hoje foram bem sucedidos. Ele faz isso ao demonstrar que essas metodologias são incompatíveis com a história da física. Uma das justificativas para isso é apontada em seu ponto de vista sobre a incomensurabilidade. Em alguns casos, os conceitos de teorias podem ser tão diferentes que é impossível pensar uma em termos da outra. Como então poderiam ser comparadas teorias rivais a fim de falseá-las?

Newton, por exemplo, constrói sua teoria com base em forma, massa e volume dos corpos. Para Einstein, forma massa e volume não mais existem. Dessa forma, qualquer observação feita com base na mecânica de Newton terá um significado completamente diferente na teoria da relatividade. A base lógica se perderia, ganhando espaço a subjetividade do cientista.

Feyerabend, em sua perspectiva anarquista, portanto,”aumenta a liberdade dos indivíduos, encorajando a remoção de todas as restrições metodológicas, ao passo que, num contexto mais amplo, ele encoraja os indivíduos de escolher entre a ciência e outras formas de conhecimento”. (Chalmers, pág. 185)

Apesar de questionamentos como esses, no entanto, para a grande maioria dos pesquisadores do mundo, a ciência e os métodos científicos continuam sendo amplamente utilizados e são base para grandes descobertas.

E quais os tipos de ciência?

São vários os tipos de ciência. Apesar de suas diferenças, todos tentam se adequar a algum tipo de método para sustentar suas afirmações e o sonho de toda nova disciplina é ser reconhecida como científica. Os principais “tipos” de ciência são: ciências humanas, ciências exatas e ciências biológicas.

As ciências humanas, como o próprio nome diz, tratam das relações entre diferentes grupos de pessoas, tentando compreender hábitos, acontecimentos o funcionamento da sociedade, do Sistema Internacional, a política, a história, entre diversos outros fenômenos. São exemplos a História, Filosofia, Sociologia, Economia, Relações Internacionais, Direito, entre outras.

As ciências exatas, por sua vez, são baseadas em raciocínios lógicos sustentados com base em aplicações quantitativas, com a utilização de números, fórmulas, equações, etc. São exemplos a matemática, a química, a física.

Já as ciências biológicas envolvem a aplicação da biologia para o estudo de organismos vivos (espécies, reprodução, sistemas, saúde, etc.). Envolvem toda espécie de organismos vivos, independente de seu reino, filo, classe, ordem, família, gênero ou espécie.

Ciência no Brasil e no mundo

A ciência se distribui de forma desigual no mundo contemporâneo. Grande parte disso é por conta do elevado grau de investimento  que demandam as descobertas científicas. Apesar disso, quando descobertas, geram grande impacto. Não é sem razão que Estados Unidos, Europa e Japão foram pivôs da Terceira Revolução Industrial e lucram com seus efeitos ainda hoje. Eles foram capazes de desenvolver novos paradigmas científicos.

Da mesma forma, também não é sem razão que a Alemanha recentemente anunciou um incremento de 160 bilhões de euros aos valores destinados ao seu investimento em pesquisa. “Com isso estaremos garantindo a prosperidade de nosso país no longo prazo”, afirmou a ministra da educação alemã. Ou seja, o país tenta se utilizar da ciência para manter sua posição de destaque no mundo.

Isso parece reforçar ao quadro levantado pelo Excellence Mapping, que mapeia as publicações científicas pelo mundo. De acordo com ele, elas ainda se concentram na Europa e nos Estados Unidos.

Mapa de pesquisas científicas no mundo (Excellence Mapping)

Mesmo nesse quadro, contudo, o Brasil tem apresentado bons números recentemente. De acordo com estudo realizado pela Capes (Coordenação e aperfeiçoamento de pessoal de nível superior), entre 2011 e 2016 o Brasil publicou mais de 250.000 pesquisas, sendo o décimo terceiro país mais citado do mundo e o mais citado da América Latina.

Apesar de o impacto dessas publicações ter se mantido abaixo da média mundial, apresentou, no período analisado, um crescimento de 15%.

É importante ressaltar que, de toda a pesquisa científica brasileira, 95% se localiza em Universidades públicas, modelo de universidade que o país estabeleceu há décadas e ao qual focou seus investimentos. Por conta disso, recentes políticas de contingenciamento de gastos com universidades tem levantado polêmicas dentro e fora do país.

Independente do que for escolhido no Brasil, é fato que nenhum país aumenta sua riqueza sem grandes descobertas e nenhuma grande descoberta surge sem uma grande pesquisa. A construção científica é trabalhosa, é fruto de grandes debates e contradições, mas ainda é, em nossos tempos, o principal meio de organizar e construir conhecimento.

Conseguiu entender o que é ciência? Conta pra nós nos comentários o que você pensa sobre o assunto! 

Publicado em 24 de maio de 2019.

 

 

Referências: Veja de onde tiramos nossas informações!

Livro:

O que é ciência, afinal?, de Alam Chalmers, 1981

Artigos:

Ciência, Senso Comum e Revelações científicas: ressonâncias e paradoxos, de Marivalde Moacir Francelin, 2004.

A aprendizagem segundo Karl Popper e Thomas Khun, Nuno Borja Santos, 2004.

Outros:

Portal Educação.Uol (Sequência “História da Ciência”)

Lição 5: O que é ciência, Gervais Mbarga e Jean-Marc Fleury

Stoodi – O que é ciência?

Folha de SP – Investimento alemão de 160 bilhões em pesquisa

Estudo USP sobre as pesquisas brasileiras

Excellence Mapping

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