Pode ser que em algum debate eleitoral, ou até mesmo no Jornal de domingo, você já tenha ouvido falar sobre as reservas internacionais, afinal é um tema com grande destaque por conta da sua importância para a economia brasileira. Mas você sabe qual a função delas para um país?

Ficou curioso pra saber o que é e como funcionam as reservas cambiais dos países? Continue lendo que o Politize! irá te explicar!

O que são as reservas internacionais?

Reservas internacionais – ou reservas cambiais – são ativos (crédito) que os países possuem em moeda estrangeira. No caso do Brasil, essa moeda é majoritariamente o dólar

Essas reservas funcionam como uma espécie de seguro para o país garantir o cumprimento das suas obrigações no exterior, como empréstimos com outros países, por exemplo. Além disso, também auxiliam na estabilidade diante de choques de natureza externa, como crises cambiais (lembram da crise financeira internacional de 2008?), e de interrupções nos fluxos de capital para o país. Mas o que isso quer dizer?

Para saber mais sobre a crise financeira de 2008 clique aqui!

Vamos a um exemplo! Durante o início da pandemia, para conter o avanço da COVID-19, o governo argentino de Alberto Fernández decretou lockdown em todo o país. Como consequência, houve a falta de produtos e o aumento exponencial da inflação, afinal com a diminuição de oferta de bens no mercado nacional, o aumento no preço dos produtos foi inevitável.

Para se proteger da inflação, os argentinos começaram a buscar as casas de câmbio (lugar onde se vende e compra moedas) para comprar mais dólares. Isso significa, basicamente, que eles estavam trocando seus pesos (moeda local) pela moeda americana. Tudo isso era uma tentativa de buscar a estabilidade do dólar. 

Mas por que comprar dólares? A realidade é que pela força e predominância do dólar americano no mercado mundial, a moeda é menos suscetível a grandes depreciações. Como todo mundo sempre quer comprar dólar, ele raramente perde valor. Pode-se dizer que a prática se tornou um hábito dos argentinos por conta do histórico de instabilidade econômica do país.

Veja mais sobre a crise na Argentina!

E o que aconteceu, então?

Por conta do grande volume de compras da moeda, a reserva de dólares do país caiu drasticamente, gerando uma crise cambial. Como já explicamos em outro conteúdo, a baixa reserva de dólares faz com que a moeda nacional (o peso argentino) se torne muito suscetível à  desvalorização. Isso porque se o valor do dólar aumenta muito, o governo não possui uma quantidade de moeda suficiente para fornecer aos compradores de dólares e, por isso, deve obter mais moeda para estabelecer uma equivalência do aumento, gastando mais dinheiro.

Esse evento não é tão raro de acontecer, especialmente na América Latina. No Brasil, vivemos uma situação parecida em 1999, com a brusca desvalorização do real após a adoção do regime de câmbio flutuante pelo BC.

Em resumo: em eventos como esses, de extrema vulnerabilidade da moeda e liquidez do mercado, reservas podem ser um verdadeiro “bote salva vidas”, mas que não é permanente e custa caro.

Para entender mais sobre liquidez clique aqui!

E como funciona o câmbio (comércio de moedas)? 

Desde 1999, o Brasil adota o regime de câmbio flutuante, ou seja, o valor da moeda (real) é ditado pelo mercado, através da oferta e demanda, sem interferência direta e constante do governo. Entretanto, o regime cambial brasileiro é considerado câmbio sujo, pois ainda há, por vezes, interferência do Estado, não sendo totalmente livre da ação governamental. 

Um dos instrumentos dessas interferências são as reservas, fatores decisivos para controlar bruscas oscilações entre a quantidade e valor da moeda local em relação ao dólar. É aí que surge o Banco Central.

Essas interferências ocorrem de modo que, ao utilizar-se das reservas, o Governo pode controlar em partes a quantidade de moeda no país. Isso pode acontecer, por exemplo, com o governo vendendo parte dos dólares em valor mais comerciável, isso vai aumentar a quantidade de dólar disponível no mercado, fazendo com que ele tenha seu valor cambial reduzido.

E qual o impacto das alterações no câmbio?

Por exemplo: conforme a circulação de dólar vai ficando mais apertada, ou seja, não “sobra” dólares no mercado, o real vai perdendo sua força e fica muito mais caro para o Brasil importar. Nesse sentido, tudo aquilo que o Brasil não produz, vai ficar muito mais caro de comprar. Mas e aquilo que nós produzimos? Terá o valor afetado também, pois, quanto menos vale a moeda, mais barato é a exportação, menos os países pagam, fazendo com que os produtores perdam dinheiro e oferta. 

Leia também: por que as exportações são importantes para o Brasil?

Daí surge a imensa importância de se possuir reservas que auxiliem a controlar essas oscilações e crises.

E qual a composição das reservas internacionais do Brasil?

Vamos aprofundar um pouco sobre a composição das reservas, que são formadas por:

  • títulos: investimentos garantidos pelo tesouro;
  • depósitos em moeda;
  • direitos especiais de saque junto ao Fundo Monetário Internacional: um tipo de moeda internacional criado pelo FMI e utilizado pelos Bancos Centrais;
  • depósitos no Banco de Compensações Internacionais: esses depósitos são feitos no BIS, uma organização internacional que reúne e ajuda os Bancos Centrais do mundo a regrar o sistema financeiro e monetário internacional.
  • ouro, e alguns outros. 

As reservas são administradas pelo Banco Central do Brasil, autarquia federal vinculada ao Ministério da Economia. É o BC que fará o controle e alocação das reservas, realizando depósitos, investimentos e determinando as diretrizes de uso das reservas. Foi isso que o BC fez quando em 2019 vendeu US$ 36 bilhões de reservas e em 2020, no mês de Abril, quando o BC realizou a venda de US$ 25 bilhões na tentativa de controlar a disparada do dólar. 

Atualmente, de acordo com o Relatório de Gestão das reservas internacionais do Banco Central de março de 2020, em 31 de dezembro de 2019, as reservas internacionais do Brasil totalizavam, pelo conceito caixa, US$356,88 bilhões.

Desse valor, 87,77% se dava em dólar norte-americano, 7,35% em euro, 2,11% em libra esterlina, 1,73% em iene, 0,94% em ouro e 1,10% em outras moedas. 

De todo o montante, 93,03% são em títulos governamentais, grande protagonista das reservas brasileiras. 

Para fazer a administração das reservas, o BACEN monitora os riscos de mercado, de liquidez, de crédito e operacional. Fazendo da gestão cambial um processo complexo e volátil.

Qual a importância destas reservas para a economia brasileira?

Como dito anteriormente, as reservas internacionais estão diretamente relacionadas a uma política cambial, pois se o volume de dólar que entra no mercado brasileiro for baixo demais, mais valor terá a moeda norte americana e com a grande quantidade de real, a moeda brasileira será desvalorizada. Para evitar que ocorram então essas bruscas oscilações, que causam a desvalorização acentuada do real e resultam em consequências que já mencionamos, o Banco Central intervém com as reservas, tentando garantir o máximo de estabilidade que conseguir.

A manchete a seguir do Valor Investe reflete um pouco das atuações mais recentes do Banco Central para o controle cambial:

Banco Central gasta mais de R$ 30 bilhões em intervenções no câmbio este ano. (abril, 2021)

Mas você pode estar pensando: se o BC tem esse poder de usar as reservas para controlar o câmbio, por que em alguns momentos o dólar continua alto?

Embora de extrema importância para garantir a força do real, as intervenções são sempre pontuais e relativamente comedidas. Isso porque o risco apresentado pela interferência do governo é alto e indesejado pelo mercado.  

Como assim? Quais riscos são esses? Bem, para compreender isso, é necessário que entendamos um pouco da lógica do mercado.

Quando uma empresa ou grupo de investimentos decide investir, ela buscará o cenário mais favorável para investir seu capital. Esse cenário favorável é constituído na maioria das vezes por sociedades democráticas – pois os riscos de turbulência política são menores – e principalmente mercados livres – onde o governo exerce pouca interferência na economia. E o motivo disso é simples: quanto menos interferência do governo, maior a liberdade de ação das empresas/grupos de investimento para atuar no mercado.

Para saber mais sobre mercados livres, confira nosso vídeo!

Imagine que uma multinacional decida aplicar capital em um país instalando empresas e indústrias, e que neste mesmo país o governo esteja constantemente interferindo na economia local. Caso o governo tome medidas como aumentar a tributação, enrijecer as leis ambientais ou “restringir” de alguma outra forma a atividade do investidor, isso pode minar todo aquele investimento preconizado. 

Assim, considera-se que o mercado não confia em governos que interferem fortemente na economia, pois nada garante que essas interferências não atrapalharão a atividade empresarial.

É por isso, então, que o BC não atua de forma exacerbada no controle da moeda.

E existem desvantagens em ter reservas internacionais?

Já muito falado sobre as vantagens e benefícios de se manter as reservas internacionais, há de se reconhecer que o acúmulo de reservas traz algumas desvantagens – possivelmente, a maior delas sendo o custo.

Para que o Banco Central possa comprar dólares do mercado para abastecer as reservas, o governo emite títulos da dívida, títulos estes que serão pagos com juros aos credores, fazendo assim com que a manutenção das reservas custe caro. Esses títulos nada mais são do que “empréstimos” que o Estado faz para custear a maquina pública. Os investidores emprestam dinheiro ao governo e depois são pagos por estes “títulos”.

Embora o governo brasileiro também aplique as reservas como, por exemplo, em títulos da dívida americana, a conta ainda é alta. O que acontece, basicamente, é que o governo brasileiro compra títulos dos Estados Unidos, tornando-se credor do Estado norte-americano, contudo, como o juros brasileiro ainda é maior do que o dos Estados Unidos, a conta permanece deficitária. Isso significa que pagamos mais para ter as reservas do que o que ganhamos com elas.

Só em 2018 o custo de carregamento, que é o gasto gerado pela manutenção das reservas, foi de R$ 55 bilhões. 

Alguns economistas, como Paulo Guedesdefendem a diminuição das reservas internacionais, pois alegam que o custo de carregamento tem sido muito caro ao Brasil. Eles apontam estimativas de que aproximadamente US$ 180.00 bilhões seria o suficiente para dar segurança e garantir os compromissos brasileiros, além de auxiliar no controle do câmbio quando necessário. Contudo, o Banco Central ainda não tomou medidas incisivas nesse sentido.

Por fim, vamos dar uma olhada na quantidade de reservas de outros países?

  • China: US$ 3,204 trilhões (fevereiro de 2021) 
  • Japão: US$ 1,301.2 trilhão (fevereiro de 2021)
  • Suíça: US$ 1009,5 trilhão (fevereiro de 2021)
  • Arábia Saudita: US$ 428,8 bilhões (fevereiro de 2021)
  • Índia: US$: 542,157 bilhões (dezembro de 2020)
  • Taiwan: US$ 541,5 bilhões (janeiro de 2021)
  • Rússia: US$ 441,370 bilhões (janeiro de 2021)
  • Coreia do Sul: US$ 433,222 (março de 2021)
  • Arábia Saudita: US$ 428,8 bilhões (fevereiro de 2021)
  • Cingapura: US$ 379,676 bilhões (fevereiro de 2021)
  • Brasil: US$ 343,516 bilhões (fevereiro de 2021)

Como pode ser visto, não há consenso em qual seria quantidade adequada das reservas cambiais para o Brasil e certamente é um tema que vale o debate.

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REFERÊNCIAS

BCB: estabilidade financeira

BCB: gestão de reservas

https://www.folhadelondrina.com.br/blogs/marcos-rambalducci/vantagens-e-desvantagens-de-manter-reservas-internacionais-elevadas-1021082.html

Infomoney: Guedes defende redução de reservas internacionais

CEIC Data: foreign exchange reserves

Valor Investe: Banco Central gasta mais de 30 bilhões em intervenções no cambio

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