Revolução haitiana
Em 1794, a situação mudou com a chegada de Toussaint L’Ouverture assume a liderança do processo revolucionário no Haiti. Foto: Wikimedia Commons.

A Revolução Haitiana se destaca por ter sido a única dentre os movimentos de independência dos países latino-americanos protagonizada pela população escrava. Mas quais são suas particularidades que a tornam tão importante para a história da América Latina? Para responder essa questão, primeiro é preciso entender como ocorreu a colonização da ilha e o processo revolucionário. Vamos lá?!

A colonização da ilha: o período pré-revolucionário

Os primeiros europeus chegaram ao território do qual o Haiti faz parte atualmente em 1492. Assim, foram os espanhóis os primeiros a colonizar a região nomeada de Ilha de Hispaniola. Nesse período, a principal atividade realizada era a mineração aurífera que se utilizava de mão de obra indígena. A prática resultou na dizimação de boa parte dos nativos da região.

Em 1697, o lado ocidental da Ilha passou para o domínio francês sob o nome de São Domingos. Os novos colonizadores introduziram a produção de cana-de-açúcar. O empreendimento foi considerado um sucesso, já que o comércio chegou a representar dois terços de todas as trocas comercias realizadas pelo Estado francês. Dessa forma, durante o período colonial, a economia local se apoiou no sistema de plantation – estrutura econômica baseada em latifúndios monocultores, cuja produção é voltada para a exportação e utiliza mão de obra escrava.

É nesse momento que os primeiros navios negreiros aportam na ilha, pois eram necessários trabalhadores para as lavouras de cana-de-açúcar.  Nesse período, o tráfico negreiro foi tão intenso que a população escrava chegou a compor mais de 80% dos moradores da ilha.

A influência da Revolução Francesa na Revolução Haitiana

Ao final do século XVIII, os ideais da Revolução Francesa se espalhavam pelo mundo e na colônia francesa não seria diferente. Livros de autores como Voltaire, Montesquieu e Rousseau inspiraram os nativos a lutarem pelo estabelecimento de princípios como igualdade entre os homens, liberdade econômica e de expressão em seu território.

As ideias iluministas chegaram à colônia principalmente por meio de jovens membros da elite que iam estudar na Europa e lá entravam em contato com os ideais liberais, mas também por meio do contrabando desses livros, uma vez que eles eram proibidos na América. Uma clara influência revolucionária francesa pode ser observada na atual bandeira do Haiti que é composta pelas cores azul, branco e vermelho que representam, respectivamente, liberdade, igualdade e fraternidade.

Leia também: o que foi o iluminismo?

Os primeiros levantes

Em 1789, durante o período da Revolução Francesa denominado “Convenção”, a escravidão nas colônias foi abolida. Tal notícia logo chegou em São Domingos e, assim, a partir 1791, diversos levantes de escravos pela ilha insurgiram. Esses movimentos não possuíam uma organização centralizada, por isso, logo o caos tomou conta da região..

Em 1794, a situação mudou com a chegada de Toussaint L’Ouverture que assumiu a liderança do processo revolucionário. 

Quem era Toussaint L’Ouverture?

Touissant era filho de um africano que foi traficado para São Domingos como escravo. Já na ilha, o pai do futuro líder da Revolução Haitiana foi comprado por um dono de escravo que lhe ofereceu alguns “privilégios” na condição de escravo – entre os quais, o acesso a livros. Desta maneira, foi possível que o seu filho mais velho, Touissant, fosse alfabetizado por um dos escravos da fazenda. 

Logo, por apresentar um grau de instrução maior que seus companheiros, Toussaint L’Ouverture assumiu a posição de liderança do processo sem muitas dificuldades assim que se juntou ao movimento revolucionário, em 1794. Inspirado pela Revolução Francesa e também por suas leituras de pensadores como Abade Raynal e Júlio César, ele defendia que São Domingos deveria se tornar uma federação ligada à França.

A reposta francesa

Em 1801, com o objetivo de suprimir a rebelião e reinstaurar a escravidão, Napoleão Bonaparte enviou uma expedição de cerca de 25 mil soldados até a ilha de São Domingos. Como resposta, Toussaint reuniu tropas e uma série de combates foram travados entre os revolucionários e o exército Napoleônico.

Em agosto 1802, Toussaint foi preso e levado para Europa. Lá, um ano depois, Toussaint morreu devido às péssimas condições de vida a qual era submetido.

A independência da ilha

Mesmo após a perda do seu principal líder, os revolucionários não sucumbiram. Assim, em 31 de dezembro de 1803, após derrotarem o exército francês, a Declaração de Independência definitiva de São Domingos foi lida e o país passou a se chamar Haiti. O nome foi uma homenagem aos indígenas nativos da região, já que essa era a maneira pela qual eles se referiam à ilha antes da conquista. O nome significa “país das montanhas”.

Assim, Jean Jacques Dessalines, um dos principais líderes revolucionários e nome de confiança do falecido Touissant L’Ouverture, tornou-se o primeiro chefe de Estado do Haiti. A escravidão foi definitivamente abolida no novo país que, além disso, saiu do comércio internacional do açúcar e passou a se sustentar com base na agricultura de subsistência.

O processo pós-revolucionário trouxe dificuldades para a recém formada República. A recusa da França em aceitar a independência, a indenização exigida pela antiga metrópole e o isolamento econômico que o país sofreu dificultaram seu desenvolvimento e seus efeitos são sentidos até hoje.

A influência da independência do Haiti na América Latina

Como dito anteriormente, a Revolução gerou o fim do sistema colonial no Haiti a partir da dissolução do sistema de plantation e a abolição da escravidão. Atentos a isso, as elites agrárias de outros países americanos decidiram tomar a liderança em seus processos de independência para garantir a manutenção das estruturas econômicas e sociais. O objetivo das elites era evitar a repetição da Revolução Haitiana em outros locais.

Sobre o assunto, os historiadores Cláudia Wasserman e César Barcelos Guazzelli, em seu livro “História da América Latina: do descobrimento a 1900”, citam

“para o restante do continente restava um preocupante aviso: na primeira colônia independente da América Latina as consequências haviam sido a acentuada decadência econômica, supressão dos brancos proprietários de terras e um Estado organizado por escravos insurretos ou mulatos libertos.”

Portanto, senhores em todo o continente passaram a temer que o chamado haitianismo – termo que definiria a influência da Revolução Haitiana sobre a ação política de negros e mestiços –  inspirasse a população negra de outras localidades a seguirem os passos de seus companheiros haitianos.

No Brasil, por exemplo, esse medo levou senhores a maior repressão aos escravos. Uma medida de controle tomada, por exemplo, foi a vigilância constante e suspensão dos momentos de confraternização, como festejos e folgas, para prevenir o alastramento revolucionário. Diversas tentativas de levantes negros ocorreram durante a primeira metade do século XIX no Brasil, a Revolta do Malês na Bahia pode ser considerado o mais famoso deles.

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REFERÊNCIAS

Ana Loryn Soares e Elton Batista da Silva: A revolução do Haiti: um estado de caso (1791-1804)

Claudineide Rodrigues Lima Sampaio: O Haitianismo no Brasil e o medo de uma onda revolucionária

C. L. R. James – Os Jacobinos Negros


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