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Este conteúdo é uma parceria do Politize! com o Youth Voices Brasil. O Youth Voices Brasil é uma iniciativa independente, composta por jovens líderes de todo o país, e apoiada pela Y2Y Community e escritório do Banco Mundial no Brasil, com o propósito de erradicar a exclusão produtiva da juventude brasileira.


Imagem ilustrativa. Jovem agachado, com sombra ao fundo, se projetando sobre ele, com expressão sombria.
Reprodução: Pixabay

Patricinha. Fraca. Mimimi. Não sabe brincar, não desce para o play. Esses foram alguns dos comentários que circularam nas redes sociais quando Simone Biles, a querida ginasta americana, anunciou que não continuaria na competição olímpica para cuidar de sua saúde mental. 

Se Biles tivesse torcido o tornozelo ou quebrado a perna, certamente sairia da competição como Neymar saiu da Copa em 2014, quando lesionou a costela: compreendido e amparado, não só pela equipe de médicos e técnicos, como também pela torcida brasileira. No entanto, o fato da lesão de Biles ser imperceptível a olho nu, fez com que muitos questionassem sua legitimidade. 

Para alguns, Biles simplesmente fracassou. Para outros, Biles levantou uma bandeira que, há muito é criticada ou mal-interpretada, mas que se faz cada vez mais urgente: saúde mental

Mas afinal, o que é saúde mental? 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, saúde mental é “um estado de bem estar em que uma pessoa nota suas habilidades, e é capaz de executá-las frente aos estresses normais da vida, de trabalhar de forma produtiva e de contribuir com sua comunidade. A saúde mental é fundamental para a nossa habilidade coletiva e individual de pensar, sentir, interagir um com os outros, e aproveitar a vida.”

Saúde mental tem a ver com autoconhecimento, autocuidado, equilíbrio, bem-estar. Tem a ver com limites, resiliência, saber (e poder!) dizer não. A saúde mental também tem a ver preservar a integridade do corpo e mente para sobreviver, alcançar objetivos, conquistar sonhos e cumprir propósito – uma busca constante para as juventudes, e uma palavra da moda para Millennials e Geração Z! 

Como a saúde mental das juventudes se relaciona com o mercado de trabalho? 

Para responder este questionamento, bem como para compreender a importância e urgência do assunto, é importante ressaltar que existem pelo menos dois mercados de trabalho nos quais as juventudes brasileiras atuam: o formal e o informal. 

O mercado formal remete às vagas e oportunidades de trabalho que contam com um contrato escrito que reja as regras do jogo, como por exemplo a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). Já o mercado informal consiste naqueles trabalhos que não contam com alguma cobertura jurídica ditando as regras do jogo e tampouco oferecendo algum tipo de proteção social ao trabalhador.

Atualmente no Brasil, o setor informal conta com aproximadamente 38% da população economicamente ativa, e deste grupo, parte expressiva são jovens (menos de 29 anos) e com baixa qualificação, conforme Nota Técnica do Ministério da Economia.

Gráfico da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios que mostra que a maior parte dos trabalhadores informais no Brasil são jovens.
Fonte da imagem: Ministério da Economia, 2021

Apesar da pandemia ter agravado a crise de desemprego e informalidade no Brasil, ela atingiu a população jovem de maneira ainda mais intensa, uma vez que essa população possui uma mão de obra mais crua ou uma escolaridade, em alguns casos, inferior aos demais profissionais disponíveis no mercado. 

Diante deste cenário, pode soar até arrogante ou constrangedor pedir para um(a) jovem cuidar de sua saúde mental no trabalho enquanto seu desafio é simplesmente trabalhar para sobreviver. Por meio dessa perspectiva, é possível compreender que saúde mental das juventudes brasileiras tem a ver com desigualdades.

Saúde mental tem a ver com desigualdades

Quando falamos de saúde mental das juventudes brasileiras é preciso compreender que há marcadores sociais, políticos e econômicos que atravessam e desigualam as possibilidades de manutenção dessa saúde. Principalmente em uma conjuntura de pandemia, onde as juventudes de baixa renda, além de sofrerem com o isolamento social, são fortemente impactadas por outros problemas sociais como ausência de renda familiar, desocupação ou informalidade, desamparo, negligência e muitas vezes violência doméstica.

De acordo com a Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios Contínua, o Brasil possui mais de 30% da sua juventude sem oportunidade de estudo ou trabalho. E dentre aqueles que possuem a oportunidade escolar, um a cada cinco estudantes sofre violência sexual, conforme Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar.  

Segundo dados da Pesquisa Juventudes e a Pandemia, realizada pelo Conselho Nacional da Juventude, desde 2020 há uma tendência de aumento de jovens que não estão trabalhando, sendo que 30% deles dizem estar nessa situação de trabalho como resultado da pandemia.

Nesse cenário, a busca por complementação de renda também cresceu, ao mesmo tempo em que houve a extinção do auxílio emergencial. Por isso, aumentou para 38% a proporção de jovens que buscou complementar sua renda por necessidade em 2021 comparado aos 23% em 2020. Entre os jovens pretos esse índice é maior: 47%.

Podendo ser o trabalho um fator protetivo frente a promoção da saúde mental, a falta de oportunidades no mercado de trabalho para essa juventude traz malefícios para a saúde psicológica desses jovens, que, em muitas casos, encontram na informalidade o único caminho. Com isso, características presentes no mercado de trabalho informal como baixos salários, incerteza sobre a situação do trabalho, ausência de benefícios sociais e de proteção da legislação trabalhista comprometem ainda mais a saúde mental dessa juventude.

No mercado formal, a juventude também pede ajuda! 

Uma pesquisa realizada pela MindShare Partners, em 2019, reportou que 50% dos Millennials e 75% dos jovens da Geração Z já deixaram uma posição de trabalho por conta de sua saúde mental, tanto de maneira voluntária como involuntária. 

Dados da Deloitte revelaram que, desde o início da pandemia, apesar de 48% dos Millennials e Gen Zs se sentirem mais estressados, a maioria dos seus superiores não sabem deste sentimento. A cada dez jovens, seis admitiram que não falaram sobre sua ansiedade ou aumento de estresse com seus gestores diretos. 

A necessidade por sobrevivência (renda), a falta de apoio ou compreensão entre gerações, o estigma que permeia o tema, e o tabu que ainda é falar sobre saúde mental (ou a falta dela) faz com que muitos jovens cheguem ao limite, sofrendo com crises de ansiedade, uso excessivo de redes sociais, ou sofrendo com a síndrome de burnout. 

Saúde mental das juventudes para além do mercado de trabalho 

Falar sobre saúde mental de jovens não engloba apenas os que trabalham. De maneira mais abrangente, a Pesquisa Juventudes e a Pandemia trazem um recorte do impacto da pandemia na situação emocional de todas as juventudes brasileiras. De acordo com o relatório, 61% dos jovens relataram ter ansiedade, 56% usou redes sociais de modo exagerado, e 51% relatou exaustão e/ou cansaço constante. Ainda, 9% das juventudes indicaram terem tido pensamento suicida e/ou cometido automutilação durante a pandemia.  

Questionados sobre o porquê não buscavam ajuda, alguns jovens relataram dificuldades em custear o atendimento psicológico necessário, ou em acessar o sistema público de saúde.

O que podemos aprender com as novas gerações sobre saúde mental?

Na mesma medida em que as novas gerações estão mais propensas a apresentarem doenças mentais, a discussão sobre saúde mental que vem sendo levantada pela juventude é um importante passo para a desestigmatização do tema.

Diferente das gerações anteriores, onde possuir estabilidade era sinônimo de passar o máximo de tempo possível no escritório, as gerações mais novas, como os Millennials e a Z, consideram que ter estabilidade é ter saúde mental, sendo o caso de Biles uma consequência disso. O legado que a nova juventude deixa é de não tratar a saúde mental mais como um tabu mas como algo essencial para o sucesso tanto na vida pessoal quanto na profissional.

Segundo dados do relatório de Estresse na América: Geração Z, divulgado pela American Psychiatric Association, as gerações mais jovens são significativamente mais propensas a receber ou ter recebido tratamento ou terapia de um psicólogo ou outro profissional de saúde mental, com mais de um terço da Geração Z (37%) e dos Millennials (35%) relatando que receberam essa ajuda.

Com isso, a consciência sobre as questões de saúde mental e a normalização do tratamento de saúde mental nessas gerações cresceu, de modo que o que antes poderia ser ignorado e muitas vezes tratado como “mimimi” e frescura hoje é reconhecido como um problema e tratado como tal.

Um fator que contribui para essa maior conscientização sobre saúde mental da Geração Z e dos Millennials foram as mídias sociais e a internet, onde os jovens possuem uma maior conexão com outras pessoas com histórias parecidas, como a de Simone Biles, e um sentimento de apoio social por meio de conexões online, fazendo com que essas gerações falem mais abertamente sobre suas lutas de saúde mental em relação às anteriores.

A discussão sobre saúde mental aberta pelas novas juventudes e o caso de Simone Biles mostra como a conscientização e desestigmatização desse tema são necessidades emergentes – agravadas ainda mais em tempos de pandemia. O conhecimento de cada um sobre seus limites, a busca por ajuda profissional e a seriedade com que as doenças mentais devem ser tratadas – da mesma maneira que as doenças físicas e não mais como um “mimimi” – são alguns dos passos fundamentais para que a saúde mental da juventude seja cada vez menos posta em risco.

Referências:

Organização Mundial da Saúde – Saúde Mental

Ministério da Economia – Nota Técnica “Juventude e informalidade no Brasil: é possível reduzir as barreiras à entrada no mercado formal de trabalho?”

IBGE – Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios Contínua

IBGE – Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar

CONJUVE – Pesquisa Juventudes e a Pandemia

Mind Share Partners – Mental Health at Work 2019 Report

Deloitte – Millennials and Generation Z: making mental health at work a priority

APA – Stress in America Generation Z

Maria Luiza Kellermann

Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Pesquisadora CNPq e membro do time de Comunicação do Youth Voices Brasil.

Flávia Bedicks

Formada em Relações Internacionais e Economia pela American University e London School of Economics, com especialização em Políticas Públicas pela Universidade de Oxford. Atua com advocacy e public affairs há cinco anos, e atualmente está como diretora responsável por comunicação e advocacy no Youth Voices Brasil. Ama café, pessoas e montanhas.

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