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Engajamento social: Por que a cultura de doação no Brasil é atrasada?

Foto: Alexandre Raths/Ministério da Saúde.

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A cultura de doação de um país é um indício da maturidade e evolução da consciência coletiva de uma sociedade. Ou seja, podemos entender que, quanto mais elevada é a cultura de doação de um país, mais pessoas possuem o entendimento de que elas também são parte da transformação positiva da sociedade e, também, são responsáveis para que essa transformação aconteça.

Uma das principais fontes de medição e entendimento da cultura de doação de cada país é o Índice de Solidariedade Mundial (World Giving Index), que mede o nível de solidariedade e engajamento social da população dos países pesquisados. Assim, através de pesquisas e entrevistas, o World Giving Index joga luz sobre as ações solidárias de cada população, focando em três quesitos:

1) Ajudar um estranho;

2) Doar dinheiro para uma ONG;

3) se voluntariar para uma causa social.

Em todos os quesitos, em termos proporcionais, o Brasil não figurou entre os 10 primeiros países. A análise sob a ótica da proporcionalidade é feita para colocar todos os países no mesmo ponto de partida, para medir essencialmente o percentual da população que realizam ações solidárias e assim evitar que países com grande população como China, Índia, Estados Unidos e Brasil tenham vantagem em relação a países menores e com populações consideravelmente menores.

O país mais solidário do mundo

Procissão na cidade de Mandalay, em Myanmar. Foto: Pixabay (domínio público).

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Muitos podem acreditar que o Brasil não é um país com uma cultura de doação evoluída por não ser um país rico. Esta análise é completamente equivocada, visto que muitos países com PIB menor que o do Brasil e, portanto, relativamente mais pobres ou com menos capacidade de investimento, ocupam posições mais elevadas no World Giving Index, como é o caso de Myanmar.

Com território  relativamente pequeno e recursos infinitamente menores do que o Brasil, Myanmar é o país mais solidário do mundo: 91% de sua população doa parte do seu dinheiro para a caridade – alcançando a 1ª colocação no ranking de doação de dinheiro – e 55% da população faz ações de voluntariado em causas sociais, alcançando a 2ª colocação no ranking de voluntariado. Seu pior ranking é a 27ª colocação no quesito “ajudar um estranho”, ainda assim melhor que os resultados do Brasil em todas as categorias.

20 primeiros países do World Giving Index. Imagem reproduzida do World Giving Index 2016.

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Enquanto isso, o Brasil posiciona-se na 60ª posição no quesito ajudar um estranho, 59ª posição para doação em dinheiro para uma ONG e 79ª posição no ranking de voluntariado.

Brasil aparece em 68º no ranking. Imagem reproduzida do World Giving Index 2016.

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Por que o Brasil ainda não desenvolveu uma consciência avançada de solidariedade?

Esses dados podem até soar estranhos para muitas pessoas, afinal, sempre criamos o entendimento de que o povo brasileiro é solidário, acolhedor e hospitaleiro. De fato, nossa população possui um enorme potencial para a solidariedade. Porém, nossa cultura de doação ainda é afetada por questões políticas, econômicas e sociais.

Alguma vez você já imaginou como as decisões de nossos políticos poderiam impactar tanto na criação de uma consciência coletiva para o bem-estar da sociedade?

Com uma mentalidade voltada a planejamento de curto prazo, nós criamos e aprovamos leis e investimentos pouco eficazes e que em pouco tempo tornam-se obsoletos e ineficientes. Investimentos errados em infraestrutura, saúde pública, segurança e educação ao longo das décadas, nos levaram a uma realidade com diversos problemas que contribuem para uma cultura de doação atrasada.

Segundo estudos, mais de 65% dos brasileiros gostariam de se engajar mais em causas sociais e serem mais participativos no cotidiano da transformação positiva que nossa sociedade anseia. Entretanto, ao serem perguntados sobre por que eles não se engajam doando dinheiro ou tempo como voluntário, as principais barreiras identificadas foram:

1) a falta de dinheiro extra para doar;

2) a falta de tempo livre para ser voluntário;

3) nenhuma ONG solicitou ajuda.

Além disso, a predisposição de doar dinheiro é maior quando comparada a doar tempo.

Para a grande maioria dos brasileiros, existe a vontade de doar dinheiro e contribuir financeiramente para causas sociais. Mas a solidez da economia brasileira ainda é muito frágil e muito atrelada às transições políticas e especulações que o Brasil sofre. Dessa forma, as pessoas temem ter de, em breve, parar de doar para a ONG escolhida por um momento de crise, perda de emprego, etc. Ou seja, a fragilidade econômica do Brasil está intrinsecamente ligada à confiança e tranquilidade das pessoas para poderem se planejar e tornarem-se mais solidárias.

Além disso, a falta de investimento em infraestrutura e mobilidade faz com que uma grande parcela de brasileiros gaste entre três e quatro horas somente no deslocamento de ida e volta do trabalho. Somando-se a isso a carga de trabalho média de um trabalhador comum, temos entre onze e doze horas do dia tomadas por atividades laborais, sem contar as demais responsabilidades cotidianas (família, estudos, aprimoramento profissional, etc) que estão na lista de prioridades das pessoas e a jornada de trabalho pouco flexível do Brasil. Assim, a disponibilidade das pessoas em realizar trabalhos voluntários no Brasil acaba sendo muito menor do que em países com uma cultura de doação evoluída.

A cultura de doação, como já dito anteriormente, é um dos elementos fundamentais para a construção de uma consciência coletiva, pois o ato de doar altera a percepção da realidade das pessoas e cria um senso de urgência muito mais forte naqueles que, de alguma forma, realizam doações.

Além disso, vale mencionar que a política de isenção de imposto de renda para empresas incentiva mais empresas do que pessoas a doarem para ONGs. Por este motivo, as empresas são responsáveis por quase 90% das doações a entidades filantrópicas. Enquanto que, nos Estados Unidos, o segundo país no ranking do World Giving Index, mais de 80% das doações são realizadas por pessoas físicas. Um cenário completamente inverso ao nosso, mostrando a existência de uma consciência coletiva voltada para agir para solucionar problemas e mazelas sociais.

Mas então, qual seria a solução para o Brasil evoluir sua cultura de doação?

Não podemos falar de uma única solução, mas um conjunto de fatores que são necessários para que as pessoas sintam-se empoderadas e capazes de contribuir. Mudanças na legislação para facilitar o recebimento de doações, educação sobre solidariedade e inclusão e o empreendedorismo social são formas de, tanto o governo, quanto a própria população agir em prol de uma mudança positiva em nossa sociedade.

Um exemplo de empreendedorismo social nesta área é a Risü, uma plataforma online que conecta pessoas, ONG’s e mais de 300 lojas online. As lojas disponibilizam de cupom de desconto (ex: cupom de desconto Americanas, cupom de desconto Saraiva, cupom de desconto Submarino) na plataforma e ofertas para quem optar fazer a diferença em suas compras pela Risü. Parte do valor da compra vira doação para uma ONG à escolha do consumidor, sem que ele pague nada a mais por isso. Ou seja, além de pagar o mesmo preço de um produto que já iria comprar, o consumidor doa parte do valor da compra para uma ONG e ainda pode economizar. A Risü pretende engajar 1,5 milhão de pessoas até 2020 e impactar mais de 500 mil vidas com as doações.

Outro exemplo é a Atados, plataforma que conecta ONG’s e pessoas que querem realizar trabalho voluntário, diminuindo o tempo de procura por ONG’s que precisam de pessoas com habilidades compatíveis com as suas.

De formas diferentes, ambos os empreendimentos se propõem a ajudar as pessoas a se engajarem em causas sociais, gerando resultados reais para a sociedade.

Investir em uma cultura de doação mais evoluída é, também, investir na evolução e capacidade da nossa sociedade em trabalhar em conjunto para resolver problemas sociais reais, como a distribuição de renda desigual, o desmatamento, educação e saúde de baixa qualidade e difícil acesso, entre outros.

E então, vamos começar a fazer a nossa parte?

Referências

World Giving Index 2016

crowdfunding
Publicado em 13 de junho de 2017.

Lucas Borges

Fundador da Risü, consultor de inovação e empreendedorismo social. Eleito Jovem Empreendedor Social do Ano, em 2016, pelo Prêmio Laureate e pela International Youth Foundation. É membro Global Shapers, uma iniciativa do Forum Econômico Mundial.