Peacekeeping, Peacemaking, Peacebuilding: o que são?

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Você já parou para pensar em como o processo de construção e a manutenção da paz acontecem em meio a conflitos armados e guerras?

Em 2025, diversas regiões do mundo ainda vivem sob a sombra da violência: da guerra entre Rússia e Ucrânia à guerra entre Israel e Hamas, passando pelos embates civis no Sudão e no Iêmen. Outras tensões também persistem em países como Mianmar, Nigéria e Síria, além de regiões estratégicas como o Sahel e o Chifre da África.

Diante de cenários tão complexos, é inevitável a pergunta: como a humanidade consegue restaurar a segurança, a estabilidade e a confiança depois de guerras e conflitos bélicos?

É nesse contexto que surgem os conceitos de peacebuilding, peacemaking e peacekeeping, cada um atuando em diferentes etapas do processo de paz. Neste texto da Politize!, você vai conhecer um pouco mais sobre esses conceitos, sua origem e como são implementados na prática.

Veja também: O direito humanitário e os limites da guerra

O que é peacemaking (fazer a paz)?

Peacemaking pode ser entendido como os esforços diplomáticos e políticos voltados a encerrar um conflito armado. Isso pode envolver negociações de cessar-fogo, mediação internacional, acordos de paz e conferências entre as partes em disputa.

Normalmente, esse processo conta com a participação de Estados, de organizações internacionais, como a ONU (Organização das Nações Unidas), e de mediadores independentes.

O objetivo principal é fazer com que os grupos envolvidos parem de lutar e cheguem a um acordo mínimo para interromper a violência.

A primeira operação de peacekeeping da ONU foi criada em 1948, por meio da Supervisão da Trégua (ONUST). Essa missão surgiu no contexto da guerra árabe-israelense na Palestina (1947–1948), quando a ONU passou a monitorar o cumprimento do cessar-fogo acordado entre as partes envolvidas.

Símbolo da Paz. Imagem: Pixabay.

O que é peacekeeping (manutenção da paz)?

O peacekeeping acontece depois que um acordo inicial é estabelecido. Ele envolve, sobretudo, o envio de forças internacionais, frequentemente tropas da ONU, para monitorar o cessar-fogo, proteger civis e garantir que os termos do acordo sejam respeitados.

Tradicionalmente, essas forças (missões) atuam após a assinatura de um cessar-fogo ou acordo inicial entre as partes em guerra, posicionando tropas e observadores internacionais nas regiões afetadas para monitorar o cumprimento dos compromissos assumidos.

A lógica central é oferecer uma presença neutra que reduza a desconfiança entre os atores armados, proteja civis, garanta acesso humanitário e crie condições mínimas de segurança para processos políticos e diplomáticos.

Essas missões não têm caráter ofensivo e atuam, na maior parte das vezes, com o consentimento dos governos e grupos envolvidos. A presença de forças de paz busca evitar que o conflito volte a explodir.

Com o fim da Guerra Fria, o peacekeeping passou por uma expansão significativa, tanto em número de missões quanto em complexidade. As operações deixaram de focar exclusivamente em conflitos interestatais e passaram a lidar cada vez mais com guerras civis, crises humanitárias e colapsos institucionais, como no Haiti, no Timor-Leste e na Bósnia.

Essas missões passaram a incluir não apenas o monitoramento militar, mas também ações civis, como apoio eleitoral, reforma do sistema de justiça, desarmamento de ex-combatentes e fortalecimento administrativo do Estado.

Críticos dessas missões apontam que operações da ONU podem enfrentar problemas de ineficiência, falta de legitimidade local ou interferência excessiva na soberania dos Estados, especialmente quando não há consenso político interno.

Saiba sobre: Missão de Paz: você entende o que é isso?

O que é peacebuilding (construção da paz)?

Por fim, o peacebuilding é um processo longo e contínuo, que vai além do fim imediato da guerra. Ele envolve reconstrução de instituições políticas, promoção de direitos humanos, reconciliação social, fortalecimento da economia local, apoio psicológico às vítimas e desenvolvimento educacional. Ou seja, trata-se de reconstruir as bases da sociedade para que a violência não retorne.

Veja também nosso vídeo sobre os direitos humanos!

É importante ressaltar que a construção da paz sempre foi objeto de estudo nas relações internacionais, na ciência política e nos estudos para a paz, sendo frequentemente apresentada como uma resposta necessária e moralmente positiva a contextos de conflito e pós-conflito por autores de diversos espectros políticos.

Entretanto, o conceito de peacebuilding foi introduzido por Johan Galtung em 1976, quando o autor passou a relacionar a ideia de paz ao enfrentamento das causas profundas dos conflitos violentos e ao fortalecimento das capacidades locais para gerir disputas e promover soluções pacíficas.

A partir daí, o termo ganhou grande relevância nos estudos sobre conflitos e desenvolvimento, ao estabelecer que a paz não depende apenas da ausência de violência direta (guerras, conflitos armados, violência física) , condição entendida por Galtung como “paz negativa”.

Além disso, o autor passou a destacar a importância da justiça social para o enfrentamento da violência estrutural (a exploração, a desigualdade social e o desemprego, entre outros fatores). Também destaca a violência cultural para explicar como certos aspectos da cultura legitimam, justificam ou normalizam a violência na sociedade.

Desse modo, a construção da paz é vista, por parte da literatura sobre a temática, como dependente de uma mudança de paradigma, buscando possibilitar resoluções não violentas dos conflitos sociais oriundos de violência direta, estrutural ou cultural. Esse conjunto de elementos foi cunhado por Galtung (1969) como “paz positiva”.

Essa abordagem, no entanto, não é consensual: outras leituras (Chandler, 2006; 2007; 2013) defendem que a paz pode ser mantida mesmo em contextos de desigualdade, desde que existam instituições fortes, crescimento econômico e capacidade estatal de garantir segurança.

Leia também: As cartas entre Tolstói e Gandhi e a origem da não-violência

Quais são os desafios e críticas?

Segundo Kemer, Pereira e Blanco (2015), os debates contemporâneos sobre peacebuilding evidenciam uma série de desafios conceituais e práticos. Em primeiro lugar,não existe um consenso sobre o que exatamente significa “construir a paz”, o que faz com que o termo seja aplicado a perspectivas distintas, como democratização, fortalecimento do Estado ou mobilização da sociedade civil, e gere estratégias divergentes entre atores locais e internacionais.

Além disso, os autores apontam para a persistência das dúvidas sobre quando começam e terminam as ações de peacebuilding, quais objetivos devem ser priorizados e quem deve liderar esses processos.

Somam-se a isso as dificuldades para definir o que constitui “sucesso” nessas iniciativas, já que a redução da violência nem sempre corresponde à consolidação de instituições estáveis ou de uma paz social duradoura.

Apesar de importantes, esses processos enfrentam desafios significativos. Um dos principais é a dependência de cooperação política das partes em conflito, que nem sempre existe.

Além disso, peacekeeping pode ser limitado por mandatos restritos e falta de recursos, enquanto peacebuilding requer investimentos de longo prazo e apoio internacional contínuo. Críticos também apontam que intervenções externas podem ignorar contextos locais, reduzindo a eficácia das ações.

Compreendeu melhor o que significam Peacekeeping, Peacemaking e Peacebuilding? Se quiser, compartilhe suas dúvidas e sugestões nos comentários.

Referências

  • CHANDLER, David. Empire in denial: the politics of state-building. London: Pluto Press, 2006.
  • CHANDLER, David. The state-building dilemma: good governance or democratic government? In: HEHIR, A.; ROBINSON, N. (org.). State-building: theory and practice. New York: Routledge, 2007. p. xx–xx.
  • CHANDLER, David. A crítica não-crítica da “paz liberal”. Universitas Relações Internacionais, Brasília, v. 11, n. 2, p. 39–51, 2013. DOI: 10.5102/uri.v11i2.2534.
  • GALTUNG, Johan. Violence, peace, and peace research. Journal of Peace Research, v. 6, n. 3, p. 167–191, 1969. DOI: 10.1177/002234336900600301.
  • GALTUNG, Johan. Three approaches to peace: peacekeeping, peacemaking, and peacebuilding. In: GALTUNG, Johan. Peace, war and defence: essays in peace research. Copenhagen: Christian Ejlers, 1976. v. 2. p. xx–xx.
  • KEMER, Thaíse; PEREIRA, Alexsandro Eugênio; BLANCO, Ramon. A construção da paz em um mundo em transformação: o debate e a crítica sobre o conceito de peacebuilding. Revista de Sociologia e Política, Curitiba, v. 24, n. 60, p. xx–xx, 2016. DOI: 10.1590/1678-987316246006.
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Conteúdo escrito por:

Cristiane Prudenciano de Souza

Doutoranda em Estudos Contemporâneos (Universidade de Coimbra), Mestre em Ciências Sociais (PUC/SP).
Souza, Cristiane. Peacekeeping, Peacemaking, Peacebuilding: o que são?. Politize!, 18 de maio, 2026
Disponível em: https://www.politize.com.br/peacekeeping/.
Acesso em: 18 de mai, 2026.

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