Como identificar notícias falsas? O caso de Marielle Franco

Você provavelmente já se deparou com alguma notícia falsa em suas redes sociais ou páginas de notícias que acessou, ainda que não tenha se dado conta disso. Apesar de ser uma prática comum há séculos, conforme explicamos em nosso artigo “notícias falsas e pós-verdade: o mundo das fake news e da (des)informação”, a internet e as redes sociais permitem que essas notícias se propaguem com facilidade e alcancem milhares de usuários em poucas horas.

Foi o que aconteceu após a morte da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Pedro Gomes. O Politize! decidiu identificar as notícias falsas sobre esse caso. 

Os 7 tipos de notícias falsas

Que tal baixar esse infográfico em alta resolução?

Como se pode perceber, há diferentes formas de construir uma notícia falsa. Elas podem ser falsas com um intuito humorístico ou podem ter o intuito de desinformar o leitor, seja produzindo um conteúdo totalmente falso, ou distorcendo informações verdadeiras.

Agora que você já sabe o que são e quais os tipos de notícias falsas mais comuns, vamos falar um pouco sobre algumas notícias falsas disseminadas após a morte da vereadora Marielle Franco.

Notícias falsas sobre a vereadora Marielle Franco

Fonte: Fotos Públicas

notícias falsas

Após o assassinato de Marielle Franco e de seu motorista Anderson Pedro Gomes, alguns boatos foram disseminados sobre a vereadora do Rio de Janeiro. Apesar de serem apagados após denúncias ao Conselho Nacional de Justiça, essas informações já tinham atingido milhares de brasileiros através das redes sociais e correntes no WhatsApp.

Veja algumas das notícias falsas que tiveram bastante repercussão sobre Marielle Franco:

  • A vereadora teria engravidado aos 16 anos.
  • Teria sido casada com Marcinho VP, um ex-traficante.
  • Eleita pelo Comando Vermelho.

O portal Aos Fatos, especializado em checagem de fatos, analisou essas notícias e explicou porquê não são notícias verdadeiras:

  • A vereadora tinha 38 anos e tem uma filha de 19 anos, o que significa que ela teria engravidado entre os 18 e 19 anos, não aos 16.
  • Há dois Marcinhos VP, ambos foram traficantes no Rio de Janeiro, porém a cronologia aponta que em um dos casos, antes do traficante ser preso, Marielle ainda nem morava no Rio. No caso do outro Marcinho VP, ele estava preso desde 1997 e já havia passado por várias cidades, ou seja, as datas e locais apontam que também não seria possível que eles tivessem casado. Além disso, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, Marielle Franco era solteira.
  • A comunidade da Maré, onde Marielle foi criada, é dominada por duas facções: o Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro. Além da região onde ela sempre viveu ser de domínio do Terceiro Comando Puro e não do Comando Vermelho, dos 46,5 mil votos que a vereadora recebeu, apenas 1,6 mil foram da Maré e região.

Considerando essas três notícias falsas disseminadas nas redes sociais, o Politize! propôs analisá-las dentre os 7 tipos de fake news apontados pela jornalista Claire Wandle.

Dos 7 tipos de notícias falsas, encontramos 3 relacionadas ao caso de Marielle: falsa conexão, conteúdo enganoso e conteúdo fabricado.

Falsa conexão: a falsa conexão se refere aos casos em que manchetes, imagens ou legendas dão falsas dicas do que é o conteúdo realmente. As notícias que afirmavam que Marielle havia sido casada com Marcinho VP utilizaram uma foto onde supostamente os dois estariam juntos, porém segundo a checagem do Aos Fatos, a imagem não retrata nenhum dos dois.

Conteúdo enganoso: o conteúdo enganoso ocorre quando uma informação é usada de maneira enganosa contra algum assunto ou uma pessoa. As informações sobre envolvimento com o tráfico podem ter sido motivadas por seu envolvimento na comunidade onde cresceu e onde a realidade do tráfico está presente, porém não há indícios de que essas associações sejam verdadeiras.

Conteúdo fabricado: entendemos que houve conteúdo fabricado, que consiste em um conteúdo falso com o intuito desinformar o público, nas três notícias falsas aqui apresentadas, pois segundo vários meios de comunicação utilizados para esta matéria, as provas apontam falsidade nos conteúdos.

Mas será que as notícias falsas podem, de fato, ter alguma influência na opinião pública?

Trouxemos o caso das eleições presidenciais de 2016 nos Estados Unidos para ilustrar como as notícias falsas podem ter o objetivo de prejudicar o adversário em um contexto político

Notícias falsas e as eleições presidenciais nos Estados Unidos

Fonte: Pexels

fake news

Diversas fake news foram compartilhadas sobre Donald Trump e Hillary Clinton meses antes das eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2016.

Segundo reportagem do BuzzFeedNews, nos últimos três meses da campanha presidencial nos Estados Unidos, 20 notícias falsas sobre as eleições geraram 8.711.000 compartilhamentos, reações e comentários no Facebook. No mesmo período, as 20 notícias de maior performance sobre a eleição, dos 19 maiores sites de notícias, geraram um total de 7.367.000 comentários, reações e compartilhamentos na mesma rede social.

Algumas notícias falsas sobre os candidatos

  • “Papa Francisco choca o mundo e apoia Donald Trump.”
  • “Wikileaks confirma que Hillary vendeu armas ao Estado Islâmico.”
  • “Trump oferece passagens de ida gratuitas para África e México para aqueles que quiserem deixar a América.”
  • “Agente do FBI suspeito no caso de e-mails vazados de Hillary é encontrado morto em um aparente caso de suicídio-assassinato.”

Como podemos ver, as notícias falsas podem ter o intuito de beneficiar ou prejudicar alguém e são bastante utilizadas para conseguir apoio político ou prejudicar um adversário. Se o alcance dessas notícias é bastante alto, como foi o caso dos meses que antecederam as eleições nos Estados Unidos, há chances de que elas tenham influência sobre a opinião pública.

Se a influência dessas notícias sobre a opinião pública será de fato grande, só podemos afirmar com pesquisas aprofundadas sobre o assunto, na dúvida, nós do Politize! acreditamos que é importante evitar que essas notícias se propaguem, causando danos a pessoas ou organizações injustamente.

Como combater as notícias falsas?

Fonte: Pexels

notícias falsas

O HuffPost Brasil ouviu dois advogados especialistas no assunto, um deles aponta que o caso da Marielle ilustra o que pode ocorrer nas eleições deste ano, mas acredita que é possível combater as notícias falsas. O outro advogado pondera que lutar contra a quantidade de informações disseminadas na internet pode não ser tão fácil quanto parece.

Eles explicam que o Marco Civil da Internet é o principal instrumento contra as fake news. Oficialmente chamado de Lei 12.965/14, o marco civil regulamenta o uso da internet no Brasil e prevê os direitos, deveres, princípios e garantias dos usuários da internet. Segundo essa legislação, um juiz pode conceder uma liminar para que o conteúdo saia do ar caso se verifique falsidade. Também há a possibilidade de notificar o provedor da rede social ou página, como, por exemplo, reportar ao Facebook que algum conteúdo é inadequado.

No entanto, diante da velocidade com que as notícias se espalham na internet e uma possível lentidão de resposta desses mecanismos, o conteúdo pode ter se espalhado a milhares de pessoas antes de ser tirado do ar.

É por esse motivo que tanto a mídia quanto nós usuários, somos atores importantes na prevenção da desinformação. A mídia, atenta ao que se publica na internet, pode responder com velocidade e impedir que notícias falsas sejam propagadas checando as informações e apontando irregularidades.

A Agência Lupa, o Portal Fake ou News e a página Aos Fatos são exemplos de iniciativas que fazem checagem de fato e contribuem para que notícias sejam analisadas em tempo real.

E nós, usuários das redes sociais e da internet, precisamos tomar alguns cuidados para que não façamos parte de mecanismos que propagam falsas notícias. Verificar outras fontes de informação sobre o assunto, analisar a credibilidade de quem publicou a notícia, ler as matérias completa (e não apenas a manchete) e checar a data da publicação são ações que podem contribuir para que as informações repassadas não sejam notícias falsas.  

Você já sabia algo sobre as notícias falsas? Deixe seu comentário!

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Publicado em 29 de março de 2018.
Talita de Carvalho no Politize!

Talita de Carvalho

Assessora de conteúdo no Politize!, formada em Economia pela UFPR e mestranda em Planejamento Territorial na UDESC. Acredita que pessoas bem informadas constroem uma sociedade mais justa.