Dolarização: por que alguns países adotam o dólar?

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Foi no ano de 2000 que o então presidente equatoriano Jamil Mahuad decretou a dolarização de seu país. Naquela época, o Equador atravessava uma crise econômica e inflacionária intensa, tendo sido essa a justificativa da adoção do dólar americano como moeda oficial do Equador. Mas quais seriam as possíveis vantagens e desvantagens dessa mudança monetária? E por que o dólar? Vamos entender essas questões a seguir.

O que é dolarização?

Dolarização é o processo no qual um país abdica de ter sua própria moeda para adotar o dólar. Existem dois tipos de dolarização, a oficial, como o processo ocorrido no Equador, em que um governo decreta que abre mão de ter sua própria moeda em favor do dólar, ou informal, quando o país ainda tem a sua própria moeda, mas o dólar é aceito pela população como moeda nas transações comerciais internas.

Tendo em vista esta distinção, pode-se dizer que outros países da América Latina, como a Argentina, por exemplo, já são informalmente dolarizados. Isso porque a crise econômica lá fez com que os próprios argentinos passassem a aceitar notas de dólar para fugir da desvalorização do peso argentino.

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Mas porque o dólar?

Um dos motivos que levam a dolarização (oficial ou informal) é a alta aceitabilidade, conversibilidade e confiabilidade do dólar americano. Isso significa que o dólar é aceito em grande parte do mundo, fácil de ser trocado pela grande maioria das moedas nacionais e perde pouco do seu valor com o tempo. Além disso, os Estados Unidos são a maior e mais sólida economia do mundo atualmente, sendo o país mais seguro para se investir. Portanto, é comum que muitos investidores prefiram apostar nos EUA e ter suas reservas internacionais em moeda americana.

Países historicamente alinhados ou geograficamente próximos aos Estados Unidos sofrem uma influência ainda maior da moeda americana. Por essa razão é comum usarem o dólar como “âncora” cambial (ato de apoiar uma moeda nacional em alguma moeda internacional) em momentos de crise. A crise econômica da Argentina na década de 80 é um bom exemplo.

É interessante perceber que a “hegemonia” monetária da moeda americana vem sendo contestada em algum sentido, principalmente com a ascensão política e econômica da China. A moeda chinesa (Yuan) já foi adotada em 2016 como moeda da cesta de reserva do Fundo Monetário Internacional, por exemplo.

Hegemonia Monetária

Moedas como o yuan chinês e o rublo russo estão na parte inferior (azul) da pirâmide monetária. Enquanto isso, o franco suíço pode constar na parte intermediária (verde) da pirâmide. Vale lembrar que enquanto mais para cima estão as moedas na pirâmide maior será sua confiabilidade e utilização no sistema internacional.

Como a dolarização afeta a economia dos países?

A dolarização apresenta pontos positivos e negativos para a economia daqueles que passam a aderí-la, tanto oficialmente como informalmente. Portanto, precisamos entender seus prós e contras para saber como ela age economicamente dentro de um Estado.

Pontos positivos

Pontos negativos

O motivo principal que leva nações a adotarem a dolarização é a necessidade de se conter a inflação, processo no qual o dinheiro perde seu valor com o tempo. Por ser uma economia grande e dinâmica, a taxa de inflação anual dos Estados Unidos não passa dos 6% desde a década de 90, valor desejado por muitas economias mundo afora. Assim, se determinado país adotar o dólar como sua moeda oficial, ele invariavelmente obterá taxas de inflação próximas da taxa americana.

Outro ponto positivo seria a diminuição das desconfianças dos investidores financeiros – o fenômeno é simples: países como a Argentina tem pouca credibilidade por parte do mercado financeiro por conta de políticas econômicas passadas, como por exemplo a mudança cambial improvisada, a diminuição da taxa de juros em momento inoportuno,  a dificuldade na aprovação de reformas e o calote dos pagamentos da dívida, ocorrido em 2001. Os formuladores de política econômica de nações dolarizadas teriam menor margem de manobra para cometer erros, se apoiando assim na política monetária americana, que tem histórico de estabilidade e confiança do investidor. Com o aumento das expectativas do mercado, aumentam-se o investimentos e empréstimos; e diminuem-se os juros e a fuga de capitais.

Dolarizar implica invariavelmente na perda de autonomia financeira. Os críticos da medida sempre enfatizam que as decisões monetárias feitas pelos Estados Unidos nem sempre seriam benéficas para as nações dolarizadas. Imagine um cenário em que o desemprego americano está muito alto. Nesse momento é de praxe diminuir os juros para estimular a economia, contudo esta baixa nos juros por parte do Banco Central americano também afeta as outras nações dolarizadas – assim, se as suas economias já estavam suficientemente aquecidas, com pleno emprego no momento anterior, a baixa nos juros americanos poderia resultar em crise doméstica, superaquecendo e endividando a economia nacional.

Outro ponto negativo é que dolarizar seria um processo extremo. A inflação poderia ser controlada de outras maneiras que não a adoção de uma moeda estrangeira, sendo este um processo praticamente irreversível, tendo em vista que todo processo de substituição de moeda tem um custo muito alto, nem sempre atingindo êxito. O ex-presidente equatoriano Rafael Correa enfatizou por diversas vezes acreditar que a dolarização é incompatível com a economia equatoriana, no entanto seria muito difícil reestabelecer uma moeda local no país andino.

Como a dolarização vem sido adotada no mundo?

Ao redor do mundo alguns países já tiveram a sua economia dolarizada; de forma parcial ou informal, como foi o caso da Argentina, Cuba, Arábia Saudita; e outros de forma oficial, como medida para conter uma crise e eliminar a inflação, como por exemplo no, Equador, Panamá, Zimbabwe e El salvador. Para se ter uma noção, no Zimbabwe a inflação era tão forte antes de ser dolarizado, 175 quadrilhões de sua moeda local podiam ser trocados por 5 dólares.

O caso do Equador

Já no caso do Equador, país que no fim dos anos 1990 atravessava a maior crise econômica de sua história, o Sucre (moeda equatoriana da época) desvalorizou-se fortemente, desequilibrando toda a economia. Assim o país decidiu, no ano 2000, por dolarizar-se formalmente para tentar conter os efeitos dessa crise. Nesse momento, o país andino acabou se tornando a maior economia da história a tomar tal medida. Pode-se dizer que após o Equador fazer do dólar a sua moeda oficial, as vantagens foram a estabilidade monetária, onde a inflação que era de 91%, em 2000, caiu para 22,4% no ano seguinte à adoção. Mas ocorreram desvantagens como deixar o país mais vulnerável a problemas e crises externas.

Existe possibilidade de dolarização no Brasil?

O processo foi sugerido até mesmo para o Brasil no início dos anos 1990 pelo Banco Mundial, como medida para combater a hiperinflação vigente na época, no entanto o Brasil preferiu tentar solucionar o problema através de medidas menos drásticas e acabou conseguindo conter a inflação com o Plano Real. Até mesmo porque nenhuma economia de proporções próximas a Brasil jamais adotou esse tipo de política.

Dolarização: particularidades e efeitos

A dolarização pode ser pensada como uma ferramenta para controlar situações de crise e de inflação, mostrando-se eficaz em alguns Estados no tocante a este objetivo. No entanto, também os trouxe limitações no sentido de tirar a autonomia financeira do país e o deixar mais vulnerável a choques externos. De qualquer maneira, é sempre importante levar em consideração as particularidades de cada país ao se adotar uma política econômica dessa magnitude, como os seus interesses de desenvolvimento a longo prazo, seus parceiros comerciais e seu nível de inflação, pois enquanto para alguns países tal processo pode ser benéfico, para outros a dolarização pode trazer mais prejuízos do que soluções.

Conseguiu entender o que é a dolarização? Deixe suas dúvidas e sugestões nos comentários!

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Publicado em 07 de março de 2019.

Luís Gustavo Zimmer

Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Matheus Behnke Rosa

Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Pedro Henrique Barreto

Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Pedro Henrique Favero

Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professor de Atualidades no cursinho pré-vestibular popular Einstein Floripa.