Imagem ilustrativa sobre guerras híbridas. Fonte: https://pxhere.com/
Imagem ilustrativa. Fonte: https://pxhere.com/

As guerras são acontecimentos extremamente comuns na história da humanidade desde o início das civilizações. Contudo, nem todas elas são iguais. De fato, existem características, ferramentas e até mesmo interesses constantes que permaneceram dos primórdios das guerras até atualmente. No entanto, muitas mudanças marcam o assunto e, por isso, neste conteúdo falaremos sobre as guerras híbridas e a sua complexidade nas guerras contemporâneas.

A seguir você confere mais sobre o tema. Vamos lá?

Qual o sentido da Guerra?

De acordo com o dicionário, Guerra significa:

“luta armada entre nações, ou entre partidos de uma mesma nacionalidade ou de etnias diferentes, com o fim de impor supremacia ou salvaguardar interesses materiais ou ideológicos”.

A palavra possui um sentido amplo e muitas vezes complexo. Por isso, entender o sentido das guerras pode não ser uma tarefa fácil visto que elas envolvem questões militares, estratégicas, políticas e outras mais.

Apesar disso, não se nega a importância em entender sobre o assunto: a guerra, além de ser um fenômeno político e econômico, é, antes de tudo, um fenômeno social.

Sabemos que as guerras são comuns desde o início das civilizações e que sem dúvidas esses acontecimentos desempenham um papel fundamental na história da humanidade, afinal, apesar de suas consequências muitas vezes destrutivas, foi através delas que a sociedade se transformou no que é hoje.

Em síntese, a história da humanidade e a história das guerras sempre estarão interligadas e os estudos sobre essa relação são tão comuns quanto necessários.

Pensando nisso, alguns estudiosos e teorizadores da guerra, assim como pensadores militares internacionais, passaram a analisar os conflitos armados em períodos distintos.

Esses debates sobre a natureza da guerra fizeram surgir teorias para distinguir as guerras do passado, do presente e do futuro. Isso porque foi observado que em cada período histórico existiam elementos comuns nas guerras travadas, mas que com o passar dos anos essas ferramentas utilizadas foram se tornando cada vez mais diferentes entre si. Para entender melhor o assunto, os conflitos foram classificados em quatro períodos distintos!

Guerras de Primeira Geração (G1G)

Esses conflitos se iniciaram com o Tratado de Westfália, acontecimento histórico que definiu que todos os Estados eram soberanos e possuíam direito de escolher sua própria organização interna e orientação religiosa.

Nesse contexto, as guerras eram um monopólio do Estado-nação, ou seja, elas só poderiam ser realizadas pela força nacional do Estado. Para além disso, os enfrentamentos entre esses Estados eram caracterizados pelos exércitos numerosos e pela rigidez das táticas e formações lineares, em terra ou no mar.

O conflito mais emblemático desta geração foram as Guerras Napoleônicas (1803-1815).

Guerras de Segunda Geração (G2G):

A Revolução Industrial possibilitou uma mudança marcante nessa segunda geração de guerras. Nesse momento, pode-se observar o aumento do poder de fogo e do alcance e precisão das armas. As guerras também se tornarem maiores, com mais violência e mais países envolvidos.

O primeiro conflito desta geração foi a Guerra Civil Americana (1861-1865), no entanto, o exemplo mais emblemático foi a I Guerra Mundial (1914-1918).

Guerras de Terceira Geração (G3G)

A 3ª geração da guerra foi baseada principalmente na ideia de movimento.

Pode-se dizer que a II Guerra Mundial deixou grandes contribuições para esse novo marco temporal. Isso porque, durante tal conflito, as guerras deixaram de ser apenas com soldados no chão – assim, novos instrumentos passaram a ser utilizados como, por exemplo, carros de combate, submarinos e a própria aviação.

Outra característica marcante das G3G foi a blitzkrieg ou guerra-relâmpago (tática militar alemã). A tática se utilizou de tropas móveis com ataques rápidos e de surpresa com a finalidade de evitar que as forças inimigas, mesmo dotadas de grande capacidade de fogo, tivessem tempo de organizar uma defesa e, assim, fossem facilmente derrotadas.

Vale lembrar que utilizar esses ataques rápidos e de surpresa foi uma tática extremamente inovadora para a época, já que as guerras do passado eram muito rígidas, quase ensaiadas.

Guerras de Quarta Geração (G4G):

Os conflitos periféricos (locais ou regionais, envolvendo, inclusive, atores não-estatais) se proliferaram no período da Guerra Fria e levaram ao desenvolvimento das guerras de 4ª geração.

Os ataques ao World Trade Center e ao Pentágono, em 11 de setembro de 2001, foram o marco histórico desse momento.

Desde então, o mundo tem vivido uma espécie de “conflito de baixa intensidade permanente”, sujeito a surtos periódicos de média ou alta intensidade.

Nesse contexto, os conflitos costumam ser multidimensionais: envolvem ações em terra, no mar, no ar, no espaço exterior, no espectro eletromagnético e até no ciberespaço. O “inimigo” aqui pode não ser um Estado, mas um grupo terrorista, outra organização criminosa qualquer ou até mesmo civis. Da mesma forma, o alvo também pode ser qualquer um, não importando as consequências.

Guerras convencionais e não convencionais

É importante entender as gerações das guerras para compreendermos que existem guerras convencionais e as guerras não convencionais.

Nas convencionais, os conflitos eram terminantemente militares formais, com tanques e baionetas tomando as ruas e praças públicas, sendo expressões desse modelo, as guerras de 1ª geração. Já em guerras não convencionais, também chamadas de irregulares, o terrorismo, os movimentos de resistência, insurgência e conflitos assimétricos em geral se tornaram elementos indispensáveis.

A guerra irregular existe desde meados do séc. XX, a partir das guerras de 2ª geração, tornando-se a mais usual desde a Segunda Guerra Mundial, já que as táticas da 2ª e da 3ª geração passaram a coexistir nas Forças Armadas de quase todos os países do mundo.

E é nesse cenário de guerra irregular, em que existem diferentes instrumentos a serem utilizados, diversos atores e alvos, que as guerras híbridas foram caracterizadas.

Conceito de Guerra híbrida

O estudo da guerra híbrida é recente. Certamente, o 11 de setembro contribuiu demasiadamente para o desenvolvimento de estudos, fazendo com que diversos autores se dedicassem ao tema. Mas, de maneira geral, é um termo de difícil definição.

Para Frank Hoffman, militar e analista americano em seu famoso artigo Conflit in the 21st Century: The Rise of Hybrid Wars, as guerras híbridas incorporam uma gama de diferentes modos de guerra, incluindo capacidades convencionas, táticas e formações irregulares, atos terroristas incluindo violência e coerção indiscriminadas e desordem criminal (2007, p.14).

Conforme trecho do livro “Guerra Híbrida: das revoluções coloridas aos golpes”, escrito pelo analista político e jornalista russo, Andrew Korybko, podemos observar que as Guerras Híbridas são caracterizadas como:

conflitos identitários provocados por agentes externos, que exploram diferenças históricas, étnicas, religiosas, socioeconômicas e geográficas em países de importância geopolítica por meio da transição gradual das revoluções coloridas para a guerra não convencional, a fim de desestabilizar, controlar ou influenciar projetos de infraestrutura multipolares por meio de enfraquecimento do regime, troca do regime ou reorganização do regime”.

Já em um documento do Serviço Europeu de Ação Externa, de maio de 2015, a União Europeia caracterizou a guerra híbrida como o uso centralmente concebido e controlado de várias táticas encobertas e abertas, decretadas por meios militares e não militares.

Em outras palavras, a guerra híbrida é uma estratégia de guerra na qual os agressores exploram todos os modos de guerra simultaneamente. Essa forma de conflito é marcada pela incerteza, pela assimetria, não linearidade e multimodalidade.

Vale mencionar que o termo híbrido tem sido utilizado também para evidenciar a complexidade dessa modalidade de guerra devido aos vários atores envolvidos e a indefinição entre as categorias de conflitos existentes.

Como uma guerra híbrida ocorre?

Em guerras híbridas, há uma mescla de instrumentos como, por exemplo, o uso de armas avançadas, tecnologias agressivas, ferramentas psicológicas, manipulação de problemas identitários (diferenças históricas, étnicas, religiosas, socioeconômicas, geográficas), promoção de desinformação, lawfare e outros meios.

Contudo, existem duas estratégias não militares consideradas essenciais para as guerras híbridas: as guerras informacionais e as guerras econômicas.

Guerras informacionais

Há algum tempo os meios de comunicação passaram não somente a informar os indivíduos, mas também a formar a opinião desses grupos.

Com o avanço da tecnologia, surgiram instrumentos que são utilizados amplamente pela mídia em suas atividades corriqueiras como, por exemplo, a cibernética e as operações psicológicas.

Essas duas áreas representam hoje uma forma de ciência do controle da comunicação e da cognição humana. Assim, suas análises formais são bastante complicadas pois envolvem áreas das ciências, como engenharias e finanças.

Apesar disso, o que nos interessa quando falamos sobre guerras híbridas é que esses instrumentos servem hoje para apresentar o perfil das sociedades e, a partir disso, ser utilizado como uma arma de reprodução de estereótipos, incitação a reações populares de apoio ou desapoio a determinados assuntos, provocação de engajamento social e outras formas de manifestação pública.

Ou seja, a informação passou a ser um instrumento bastante utilizado nas guerras, pois contribuem para que os conflitos – declarados ou não – sejam noticiados, tornados públicos e até mesmo legitimados (ou seja, considerados como aceitáveis) por determinados grupos.

Guerras econômicas

O conceito de guerra econômica não é nada recente, contudo, no século XX, um dos grandes mecanismos utilizados pelas grandes potências para obter ganhos sem a utilização do conflito armado como única solução.

Os antigos campos de batalha foram substituídos pelas grandes mesas de negociações fazendo a transição para uma disputa mais “suave” em comparação com o passado.

A troca comercial, os investimentos, os subsídios governamentais e as relações econômicas no mercado externo representam hoje um dos maiores meios de exercer influência no sistema internacional, afinal o que está em jogo aqui é a aquisição não somente de armamentos, mas também de tecnologias.

Quais interesses/objetivos em uma guerra híbrida?

Os interesses podem ser variados, desde econômicos, militares ou geoestratégicos à influência e demonstração de poder no Sistema Internacional.

No entanto,

“Nas guerras híbridas, um dos principais objetivos é desestabilizar governos oponentes e suas instituições, criando o caos e um vazio de poder” (Blum, 2015).

Além disso, a guerra híbrida é um instrumento extremamente útil quando há intenção em desestabilizar a ordem existente em um Estado nacional através, principalmente, da provocação de grandes movimentos de protesto, que podem então ser dirigidos por eles para atingir seus interesses políticos.

As guerras híbridas são eficazes na maximização de benefícios e minimização de danos, por isto, os Estados modernos detêm atualmente essa versão de guerra como preferíveis.

As revoluções coloridas do Leste Europeu – a Revolução das Rosas na Geórgia, a Revolução Laranja na Ucrânia e a Revolução das Tulipas no Quirguistão – e até mesmo a Primavera Árabe, poderiam ser qualificadas como demonstrações de guerras híbridas.

Críticas à teoria das guerras híbridas

Como dito anteriormente, essa forma de conflito é marcada pela incerteza – não somente por unir em uma única estratégia ferramentas multimodais e instrumentos inovadores, mas também por ainda não existir, entre os autores da área, um consenso acerca do conceito de Guerra Híbrida, que está em constante debate e construção.

Da mesma forma, as características dessa estratégia são extremamente variadas e podem abrir margens para interpretações distintas.

No entanto, muitos teorizadores da área apontam que esse não é um fenômeno novo e que inclusive, essa seria apenas uma palavra diferente para expressar uma ideia já existente.

Paulo Cesar Leal, analista do Centro de Estudos Estratégicos do Exército Brasileiro explica que

“É uma possibilidade, mas que não pode prescindir de estudo visando a trazer às luzes o conhecimento acerca do assunto que, recentemente, ganhou relevo internacional nos meios acadêmico e militar” (2016).

De toda forma, como a sua origem está ligada a evolução complexa das teorias da guerra de 4ª geração e guerras irregulares contemporâneas, a temática da guerra híbrida é extremamente atual e tem adquirido uma importância crescente nos debates relativos às crises e processos políticos de distintos países do mundo, inclusive no Brasil.

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