A advocacia sempre foi pautada pela tradição. No entanto, a forma como a sociedade se comunica e busca por serviços passou por uma transformação digital gigantesca, e o tamanho dessa mudança fica claro nos números.
Estimativas recentes da GSMA Intelligence, divulgadas pela Politize!, em artigo de Rafaela Linhares publicado em 2 de fevereiro de 2026, apontam que o Brasil possui 217 milhões de conexões de dispositivos móveis. Isso significa que a quantidade de conexões supera a própria população do país (213,4 milhões de habitantes, segundo o IBGE).
Somado a isso, o Brasil conta com cerca de 150 milhões de usuários ativos em redes sociais. Nesse cenário de ampla presença digital, conquistar espaço na carreira jurídica passou a envolver outros aspectos além do conhecimento técnico.
Se você deseja entender por que o marketing jurídico se tornou uma competência cada vez mais valorizada, seus limites éticos e como desenvolver essa habilidade ao longo da sua carreira, continue a leitura!
O Guia das Carreiras Jurídicas, uma iniciativa do Instituto Mattos Filho em parceria com a Civicus e a Politize!, busca democratizar o conhecimento jurídico e orientar quem deseja explorar as diversas áreas do Direito, construindo uma carreira com propósito e impacto.
O que é marketing jurídico?
O marketing jurídico é o conjunto de estratégias voltadas para fortalecer a reputação, a marca e a presença profissional de advogados(as), escritórios de advocacia e demais profissionais do Direito, atuando sempre em conformidade com os princípios éticos da profissão.
Mais do que divulgar serviços, ele busca estabelecer uma comunicação clara, educativa e contínua com a sociedade, aproximando o conhecimento técnico da vida cotidiana das pessoas.
Diferentemente do que ocorre no varejo ou em outras áreas comerciais, o marketing jurídico possui balizas bem desenhadas pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), especialmente consolidadas no Provimento n.º 205/2021. O objetivo é apresentar a atuação profissional com sobriedade, compartilhar conteúdos de interesse público e fortalecer o relacionamento e a transparência com seus públicos.
Marketing jurídico é diferente de publicidade?
Embora os termos sejam frequentemente usados como sinônimos, marketing jurídico e publicidade não possuem o mesmo significado, mas podem se relacionar diretamente.
A publicidade corresponde a ações voltadas para divulgar um serviço, uma marca ou um produto e também pode fazer parte de um planejamento estratégico de longo prazo dentro do marketing jurídico. O marketing envolve um ecossistema amplo: inclui o posicionamento profissional, a criação de uma identidade visual, a produção de conteúdo, o relacionamento com a imprensa, o fortalecimento da reputação e a construção de autoridade.
Na advocacia, essa diferença é vital, porque a comunicação deve ter finalidade informativa e não pode caracterizar captação indevida de clientela. Além disso, como parte estratégica do marketing jurídico, a comunicação deve focar no fortalecimento da reputação do advogado e do escritório, a partir do compartilhamento de conhecimento, por exemplo, que gera valor para o cidadão antes mesmo de ele se tornar um cliente.
Construção de autoridade, relacionamento e confiança
Além do conhecimento dogmático, os(as) profissionais precisam desenvolver habilidades de gestão e comunicação que fortaleçam sua presença. O marketing jurídico é o motor que impulsiona o crescimento sustentável de um(a) profissional autônomo(a) ou de um grande escritório de advocacia.
A autoridade não se impõe; ela se constrói ao longo do tempo. Antes, atributos como respeito e credibilidade eram formados exclusivamente pelo “boca a boca” e por indicações em ciclos fechados. Hoje, a internet é uma importante vitrine para demonstrar domínio sobre uma área.
Produzir conteúdos educativos, publicar artigos em veículos de imprensa respeitados, participar de podcasts ou comentar mudanças recentes na legislação são algumas das estratégias que podem contribuir para que o(a) advogado(a) se torne uma referência. Ao compartilhar informações técnicas de forma acessível, você contribui para a democratização do conhecimento.
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A relação entre cliente e advogado(a) é baseada em um alto grau de confiança. Como vimos, a maioria dos(as) contratantes corporativos(as) avalia a reputação do escritório antes de fechar um negócio. Ao produzir conteúdos que esclarecem dúvidas reais das pessoas (como direitos do consumidor em compras on-line ou regras tributárias para pequenas empresas), o(a) profissional cria uma ponte de empatia. Essa postura demonstra compromisso social e excelência técnica.
Investir no marketing também abre portas institucionais. Uma presença digital consistente fortalece o networking, favorecendo convites para palestras acadêmicas, parcerias com outras bancas, posições em comissões da OAB e até atraindo a atenção de recrutadores(as) para vagas estratégicas. Em um mercado competitivo, a comunicação estratégica e ética pode ser um diferencial.

Marketing de Conteúdo: uma estratégia adequada ao Direito
Considerando as restrições da OAB (como a proibição de mercantilização e a captação indevida de clientela), investir na produção de conteúdo educativo é uma das estratégias mais seguras e adequadas para o fortalecimento da sua atuação profissional. Na advocacia, essa estratégia está alinhada às regras da OAB, uma vez que seu papel central é educar, informar e posicionar o profissional, sem recorrer a vendas agressivas.
Em vez de publicar “Precisa de um advogado trabalhista? Ligue agora”, uma alternativa é compartilhar conteúdos como: “Entenda quais são os seus direitos em caso de demissão sem justa causa”. O foco deixa de ser o(a) advogado(a) e passa a ser a solução da dor do(a) usuário(a). Produzir textos informativos e traduzir o jargão jurídico pode contribuir para que o escritório seja reconhecido como autoridade antes mesmo de o(a) cliente realizar o primeiro contato.
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Uma vantagem do marketing de conteúdo é que ele se adapta perfeitamente às áreas do Direito. Um(a) criminalista pode explicar direitos fundamentais, enquanto um(a) especialista em Direito Empresarial pode focar em artigos sobre compliance ou contratos comerciais para startups. O formato e a linguagem mudam, mas a ética e a construção de autoridade permanecem.
A Creator Economy e o(a) Advogado(a) Criador(a) de Conteúdo
O crescimento expressivo dos criadores de conteúdo formou o que chamamos de Creator Economy (Economia do Criador). Trata-se de um modelo focado em usar plataformas digitais para reunir audiência, estabelecer autoridade e gerar renda.
Dentro das redes, a influência ocorre quando os usuários passam a exercer liderança sobre a sua audiência. Devido ao grande volume de influenciadores e produtores de conteúdo nas redes sociais, que hoje representam uma das categorias de perfil mais acompanhadas pelas pessoas no Brasil, o ordenamento jurídico começou a se movimentar.
Recentemente, por exemplo, foi aprovada a Lei n.º 15.325/2026, originária de um projeto na Câmara dos Deputados, que reconhece o exercício da profissão de multimídia. Essa nova legislação estabelece parâmetros para diferentes atividades profissionais realizadas em ambiente digital.
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Embora seja apelidada informalmente de ‘Lei dos Influenciadores’, a Lei n.º 15.325/2026 trata do exercício da profissão de multimídia, abrangendo diferentes atividades de criação, produção, edição e distribuição de conteúdos digitais. Muitos(as) profissionais do Direito atuam como verdadeiros(as) educadores(as) e influenciadores(as) jurídicos(as) na internet. Equilibrar a produção de conteúdo multimídia atrativo com o rigor ético da advocacia é um dos principais desafios.
Descomplicando o marketing jurídico em 3 perguntas
1. O advogado(a) pode patrocinar posts (tráfego pago) no Google e nas redes sociais?
Sim. O Provimento n.º 205/2021 da OAB reconheceu formalmente o impulsionamento de publicações, desde que o conteúdo seja de caráter informativo e educativo. Ferramentas como o Google Ads podem ser usadas (uma vez que respondem a uma busca ativa do usuário), respeitando sempre a sobriedade da profissão.
2. Posso exibir os valores dos meus honorários no meu site ou Instagram?
Não. A mercantilização da profissão é vedada. Oferecer serviços com promessas de “preço baixo”, “descontos” ou condições de pagamento em posts abertos configura infração ética. A negociação de honorários deve ocorrer de forma privada, entre o cliente e o(a) advogado(a).
3. Preciso estar em todas as redes sociais?
Não. O ideal é entender onde o seu público-alvo está. Se você atua com Direito Empresarial, o LinkedIn pode ser uma ferramenta mais adequada do que o TikTok. Se você atua com Direito de Família ou Previdenciário, plataformas como Instagram, Facebook e YouTube podem ser mais adequadas, conforme o público.
Se você é estudante de Direito e essa infinidade de opções gera dúvidas sobre qual caminho seguir, saiba que a sua futura estratégia de marketing dependerá muito do nicho que você escolher. Para te ajudar a dar esse primeiro passo e descobrir qual área do Direito mais combina com os seus talentos e objetivos, faça agora o nosso Teste Vocacional Gratuito! Assim, você já começa a planejar a sua carreira e a sua presença digital na direção certa.
Considerações finais
Fazer marketing na advocacia é utilizar as ferramentas modernas de comunicação para cumprir o papel fundamental do Direito: a orientação social, a defesa da cidadania e a disseminação de conhecimento.
Para estudantes e jovens advogados(as), dominar os fundamentos do marketing jurídico significa pavimentar uma estrada sólida para o futuro. Quando as estratégias corretas de conteúdo se unem à excelência técnica, a atração de clientes e o fortalecimento do nome no mercado podem ser favorecidos por um trabalho consistente.
Quer ampliar seus conhecimentos e se preparar para os diferentes caminhos do Direito? Continue acompanhando o Guia das Carreiras Jurídicas e explore os conteúdos já publicados na página do projeto!
Autora:
Michelle Clemente
Fontes:
- Lei n.º 8.906/1994 (Estatuto da Advocacia) — Planalto
- Lei n.º 15.325/2026 — Planalto
- Provimento n.º 205/2021 — Conselho Federal da OAB
- Anuário Análise Advocacia 2026 — Análise
- Entenda o que propõe a lei dos influenciadores — Politize!
- Marketing jurídico sem riscos: um guia da publicidade ética na advocacia — OAB/SP
