5 polêmicas sobre as Olimpíadas Rio 2016

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

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As Olimpíadas Rio 2016 envolveram algumas polêmicas, como as desapropriações de casas para a construção de estádios ou alargamento de vias, as contas “maquiadas” e questionamentos sobre o processo licitatório. Mas agora que elas estão ocorrendo – e aparentemente estando tudo normal -, algumas dúvidas continuam.

O Politize! vai responder algumas questões que os brasileiros – e também estrangeiros – fizeram desde que o Rio foi eleito a sede dos Jogos.

1. Afinal, quanto dinheiro público foi injetado nas Olimpíadas Rio 2016?

Existe uma polêmica em todos os Jogos Olímpicos sobre o valor gasto para realizá-la, uma vez que a infraestrutura de arenas, estádios, complexos esportivos, hospedagem, tudo será construído do zero. Sabe-se que os gastos não são poucos. Porém, desde que o Brasil foi escolhido como país para sediar o evento, os brasileiros se perguntam: quanto do nosso dinheiro foi usado para viabilizar as Olimpíadas?

Basicamente, de acordo com o Comitê Olímpico Internacional, 40% do gasto total será coberto com dinheiro público – incluindo o Governo Federal, Estadual ou Municipal – e 60% do investimento provém da iniciativa privada.

Como foram R$ 39,1 bi investidos nas Olimpíadas Rio 2016, os cofres públicos devem desembolsar R$ 15,65 bilhões. Porém, às vezes a conta não bate, nem para mais nem para menos. Não há um levantamento que explique detalhadamente a quantidade gasta, nem em quais setores.

No orçamento apresentado em agosto de 2015, não estavam inclusos na conta R$ 62 milhões que a Prefeitura do Rio iria gastar com móveis para os apartamentos das Vilas Olímpicas, os R$ 14 milhões para as obras de saneamento da Marina da Glória, ou os R$ 100 milhões que o Governo Federal anunciou pretender gastar na compra bolas, redes, obstáculos e barcos. As contas foram, portanto, maquiadas. Foram omitidos gastos vitais para a realização dos Jogos.

2. Quanto custou, de fato, organizar as Olimpíadas? E para quem?

A candidatura

Os gastos para a realização de Jogos Olímpicos começam muito antes de sequer as obras começarem. Começa pela candidatura do país que será a Sede das Olimpíadas. Portanto, desde que o Rio de Janeiro foi eleito para sediar as Olimpíadas, em 2009, o governo gastou bilhões de reais para publicizar, promover e divulgar as Olimpíadas Rio 2016.

O Ministério do Esporte teve um investimento de R$ 31,5 milhões. O dinheiro foi utilizado em publicidade – quase R$ 6 milhões -, contratos para realização de capacitação e planos estratégicos em ações do Governo Federal – totalizando quase R$ 13 milhões -, e até consultoria técnica na realização de eventos esportivos – em que somam aproximadamente R$ 12 milhões.

Já o Comitê Olímpico Brasileiro teve gastos com diferentes finalidades, totalizando R$ 56,7 milhões. Os valores mais expressivos são: mais de R$ 7 milhões com prestação de serviços e aquisição de materiais para organização da Visita de Avaliação Técnica do COI ao Rio de Janeiro, de abril a maio de 2009; quase R$ 4 milhões com custo de despesas dos responsáveis pela elaboração do Dossiê da Candidatura Olímpica. Há muitos outros gastos que podem ser verificados no Portal da Transparência.

O evento

Em agosto de 2015, o gasto total com as Olimpíadas Rio 2016 foi estimado em R$ 38,7 bilhões de reais. Esse valor foi inflacionado em R$ 400 milhões de reais, chegando a R$ 39,1 bilhões em janeiro de 2016.

O Comitê Olímpico Internacional (COI) é uma organização privada e o organizador das Olimpíadas. Tem sua receita advinda de patrocinadores e apoiadores. É responsável pelos gastos operacionais do evento e da competição. Os gastos incluem as refeições dos atletas, uniformes, hospedagem, transporte das equipes e material esportivo – que, na verdade, foi assumido pelo Governo Federal. O orçamento do COI é de R$ 7,4 bilhões.

Já a matriz de responsabilidades é a verba destinada diretamente realização dos Jogos Olímpicos, ou seja, para as próprias instalações olímpicas. Foram gastos R$ 6,67 bilhões com essa infraestrutura até então, sendo R$ 2,67 bilhões de dinheiro público e R$ 4,2 bilhões de dinheiro da iniciativa privada, que investiu nas obras por meio das Parcerias Público-Privadas.

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3. Legado das Olimpíadas: o que é, quanto foi investido e qual a utilidade dessas obras?

Sediar uma Olimpíada implica numa série de investimentos, incluindo obras públicas nas áreas de mobilidade, infraestrutura, estrutura esportiva e preservação do meio ambiente. Essas são consideradas as heranças que a realização dos Jogos, pois ficarão na cidade mesmo após seu término. Nesse legado, foram injetados R$ 24,6 bilhões de reais, sendo 57% pagos por dinheiro público.

Assim, a divisão desses R$ 24,6 bilhões aconteceu da seguinte forma: a Prefeitura do Rio de Janeiro gastou R$ 3,94 bilhões, o Governo do Estado do RJ, R$ 8,56 bilhões e o Governo Federal, R$ 1,45 bilhão. A iniciativa privada bancou os outros R$ 10,62 bilhões.

São 27 projetos de políticas públicas que não têm relação direta com os Jogos Olímpicos, mas sim com a sua realização. Eles têm o objetivo de viabilizar o transporte de pessoas até o Parque Olímpico com a nova linha 4 do metrô, de despoluir a Baía do Guanabara, já que nela os atletas vão competir, ou até mesmo dos complexos esportivos na Vila Olímpica.

O custo das arenas, que envolvem os estádios, os complexos (como o aquático, que custou 217 milhões de reais), quadras, entre outras construções foi de R$ 7,07 bilhões.

Mas existem três obras que são consideradas as maiores e os melhores legados para o Rio de Janeiro: VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), o Porto de Maravilha e o BRT Transolímpica e Transoeste.

4. Comparação: quanto custaram as Olimpíadas em outros países?

É bastante impróprio comparar os custos de uma Olimpíada com outra, visto que as realidades dos países-sede podem ser completamente diferentes umas das outras. Além do mais, existe um planejamento de qual serão as escolhas de tudo o que envolverá a Olimpíada – o que será lembrado pelas pessoas.

Há a discussão prévia e estimativa da quantidade de dinheiro que se quer gastar. Para além das obras, decide-se sobre gasto com efeitos como fogos de artifício, telões interativos, efeitos de luz, show de abertura, etc.

De qualquer forma, nenhuma competição desse porte sai barata – e desde as Olimpíadas de Sydney, em 2000, o seu custo dos Jogos vem aumentando consideravelmente.

Em ordem temporal: as de Atenas, em 2004, custaram o equivalente a 8,9 bilhões de euros, ou R$ 21,3 bilhões. Então, nos Jogos de Pequim, em 2008, houve um salto para mais de 42 bilhões de dólares. Depois, um pouco mais com os pés no chão, as Olimpíadas de Londres, em 2012, custaram R$ 36,5 bilhões de reais (8,92 bilhões de libras). Realizar uma Olimpíada, afinal, vale a pena?

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5. Desapropriações

Esse foi – e continua sendo – um dos pontos mais sensíveis quando se fala das Olimpíadas Rio 2016: as desapropriações. Elas acontecem quando, normalmente o chefe do poder executivo em questão (federal, estadual ou municipal) determina uma utilidade pública para um local. As leis colocam várias situações em que pode haver as remoções e prevê indenização às famílias e donos das construções.

Em geral, para as Olimpíadas Rio 2016,  deveriam ser removidas as famílias que viviam na Vila do Autódromo, para que pudesse ser feito o acesso ao Parque Olímpico. Em princípio, haverá uma reurbanização no local depois dos Jogos, mas não há prazo para que se realize, segundo o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes.

Segundo a Secretaria Municipal de Habitação do Rio de Janeiro, desde o início das remoções – que começaram em 2013 – 585 famílias moravam no local. No início de 2014, 452 famílias queriam deixar o bairro, porém algumas famílias resistiam e não queriam deixar suas casas. Mesmo após protestos, moradores foram tiveram de deixar as suas casas, pois foram derrubadas da noite para o dia. 

De acordo com a Agência Pública, num trabalho extenso de mapeamento e entrevistas com as vítimas das desapropriações2.548 famílias teriam de deixar suas casas em nome das obras do legado olímpico – os BRTs, o Porto Maravilha e a reforma do Maracanã (na Copa do Mundo de 2014).

Não existem dados concretos disponíveis sobre as remoções que aconteceram – e estavam acontecendo até pouco tempo antes do início do evento – no Rio de Janeiro.

Contexto: as desapropriações na Copa do Mundo de 2014

No Complexo do Maracanã, a Escola Municipal Friedenreich, décima melhor escola do Brasil no IDEB, estava ameaçada de demolição para construção de uma quadra de aquecimento para a Copa.

Buscando diálogo com o poder público desde 2009, pais de alunos e professores não obtiveram qualquer resposta ou comunicação. Então, se mobilizaram juntamente ao Meu Rio com uma Panela de Pressão, mais de 2400 pessoas pressionaram, e a escola pôde ficar no seu lugar.

Por fim, qual a sua opinião sobre as Olimpíadas Rio 2016? Valeram o gasto ou não? Deixe seu comentário!

Publicado em 19 de agosto de 2016.

Carla Mereles

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), colunista do Uma Boa Dose e assessora de conteúdo do Politize!.