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Religiões de matriz africana: quais são e por que sofrem preconceito

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Religiões de matriz africana. Foto: Edna Lourenço / Arquivo Pessoal.
Imagem: Edna Lourenço / Arquivo Pessoal.

Acredito que você já deve ter ouvido sobre religiões de matriz africana, certo? No entanto, é importante entender como essas religiões são marcadas por um contexto histórico de distorções e intolerâncias religiosas. É imprescindível definirmos ainda o papel do racismo nessas perseguições e qual a relevância da discussão do tema.

Nesse texto, você irá compreender quais são as matrizes religiosas brasileiras, quais as religiões de matrizes africanas e sua relação com a intolerância religiosa, como são vistas essas religiões, quais as religiões que mais sofrem com essa intolerância e o que é o sincretismo religioso. Vamos lá?

Veja também: O que é intolerância religiosa?

Quais são as matrizes religiosas?

No Brasil diversas crenças ocupam um mesmo território e é possível afirmar que essa diversidade de credos e religiões marcaram a construção da cultura no país. Dessa forma, com o objetivo de abarcar toda essa multiplicidade foram estabelecidas algumas divisões, por meio de matrizes religiosas.

Por isso, as religiões brasileiras podem ser categorizadas em 4 matrizes, são elas: a indígena, ocidental, oriental e africana. Essas matrizes podem ser consideradas como um instrumento que objetiva agrupar religiões com aspectos e origens semelhantes, apesar de suas particularidades.

Assim, a matriz indígena, possui uma enorme variedade de religiosidades, visto que os povos indígenas são ligados a diversas etnias e têm costumes e dialetos distintos. Entretanto, há alguns elementos em comum em suas crenças, como o fato de serem ligadas ao sagrado natural e ao culto de ancestrais. Já a matriz oriental contempla as religiões monoteístas, ou seja, aquelas que acreditam em um único Deus. Portanto, dentro dessa matriz estão as religiões Cristãs, o Judaísmo e o Islamismo.

A matriz africana, por sua vez, contempla várias religiões como a Umbanda e o Candomblé. Essas são adaptações e reinvenções das diversas formas de crer dos povos africanos para cá trazidos para serem escravizados em meados do século XVI.

Por último, a matriz oriental, traz muitas religiões, mas a mais conhecida é o Budismo, sendo compreendidos também os Hare Krishna, Seicho-no-iê, Messiânica, e filosofias como o Taoísmo, Confucionismo, e o Xintoísmo.

Quais são as religiões de matriz africana?

As matrizes africanas deram origem a diversas manifestações sagradas no Brasil, além daquelas mais famosas como o Candomblé e Umbanda, existem adeptos de tradições como jarê, terecô e xangô de Pernambuco, o Batuque, do Rio Grande do Sul e o Tambor de Mina, variação do candomblé no Maranhão.

Essas tradições e religiões podem ser diferenciadas pelos seus rituais e história, possuindo diversas especificidades, ainda que compartilhem filosofias e influências similares advindas do continente africano.

Segundo o professor Juarez Xavier, da UNESP, as religiões de matriz africana podem ser divididas em três grupos: brasileiras, como a umbanda, afro-brasileiras, como o candomblé de caboclo, e afro-descendentes que, ainda que originadas no Brasil, reivindicam os processos de organização das religiões da África, como o ketu e o jêje.

O Candomblé, por exemplo, é um termo genérico usado para designar tradições criadas ou recriadas no Brasil por povos originários, principalmente, de países atualmente conhecidos como Angola, Nigéria e República do Benim. Dessa maneira, considera-se que, ainda que algumas tradições tenham sido criadas de forma única no Brasil, a religião resgata a herança cultura religiosa ancestral e milenar africana que chegou ao país no período da escravidão.

De acordo com Alexandre Cumino, “O candomblé faz parte de uma resistência espiritual dos povos africanos escravizados no Brasil”. É uma religião dividida entre três grandes nações, as quais se distinguem pelas divindades cultuadas e os idiomas utilizados nas celebrações religiosas, sendo elas a Nação Angola, Jeje e Nagô, as quais apresentam inúmeros subgrupos com características próprias.

A Umbanda, por outro lado, foi fundada por um brasileiro, Zélio de Moraes, no dia 15 de novembro de 1908, constituída a partir de influências africanas, cristãs, espíritas e indígenas. Ela é caracterizada, ainda, como uma religião que adota comunicações com espíritos, fruto da influência do espiritismo, diferentemente do Candomblé.

Além disso, a Umbanda é uma religião monoteísta, isso significa dizer que reconhece a existência de um único deus chamado Olorum, abaixo do qual existem outras divindades cultuadas como os orixás (também cultuados no candomblé) e as entidades ou guias protetores (espíritos ancestrais). De acordo com Alexandre Cumino, apesar das religiões africanas não serem codificadas, ou seja, não possuírem livros sagrados e serem marcadas por tradições orais, a Umbanda estuda os livros de outras religiões e outros diversos de sua doutrina.

Como são vistas as religiões de matriz africana no Brasil?

Apesar de vários costumes derivados de religiões africanas terem sido incorporados e reproduzidos no Brasil, como o ato de pular sete ondinhas no ano novo e vestir-se de branco, muitas vezes as associações com essas crenças são perdidas e frequentemente apagadas. Assim, é importante analisar o contexto histórico brasileiro e como essas religiões foram inseridas nessa cultura.

Desse modo, observa-se que desde o período colonial brasileiro há a persistência de relações diretas entre o poder político e a religião católica, sendo essa a religião oficial nessa época. Para que pudessem manter suas referências e heranças culturais, as religiões africanas tiveram de ser recriadas e adaptadas ao novo contexto. Nele, celebrações de sua fé eram proibidas e consideradas como manifestações de feitiçaria ou associadas ao mal. Constata-se, portanto, que essas repressões e a criminalização de religiões de matrizes africanas remontam ao período escravocrata.

No ano em que a República foi proclamada no Brasil, em 1889, houve a separação formal entre a Igreja e o Estado e a introdução do princípio de laicização do Estado. Contudo, mesmo a Constituição de 1891 tendo abolido formalmente o conceito de religião oficial e propagado a liberdade a qualquer crença, essa prerrogativa não aconteceu de maneira efetiva.

Desse modo, religiões que possuíam caráter distinto da católica sofreram com perseguições, discriminações e preconceitos. Além disso, muitas das religiões de matriz africana não eram categorizadas no enquadramento de “religião” do Estado. Esse reconhecimento estatal só ocorreu em 1988, especialmente com os artigos 2155 e 2166, fruto de intensa mobilização por parte do movimento negro.

As discriminações e intolerâncias frequentes podem ser atreladas ainda ao racismo, visto que são fenômenos ligados à formulação colonial, a separação e a valoração racial negativa, as quais influenciam no entendimento da religião. Sob essa ótica, analisamos alguns elementos como o histórico de marginalidade ao qual essas religiões foram expostas, no sentido social e institucional, a demonização das entidades e divindades africanas e a criminalização do exercício religioso.

Isso demonstra, ainda, que essas religiões sofreram um histórico de tratamento, respaldado pelo racismo, pela sociedade brasileira, sendo vistas como manifestações incorretas, inferiores, perigosas e intoleráveis.

Veja também nosso vídeo sobre o Brasil ser laico!

Religiões de matriz africana e intolerância religiosa

Em primeiro lugar, é importante definirmos o que é intolerância religiosa. Essa pode ser entendida como uma prática configurada pelo não reconhecimento da veracidade de outras religiões. Ligada a incapacidade dos indivíduos em compreenderem crenças e práticas diferentes das suas e nos casos concretos de manifestações de discriminações e intolerância no campo prático. Também estão conectadas com a perspectiva do poder e a relação entre dominante e dominado, pois sua atitude de intolerância só se pode promover aquele que tem mais poder.

Em relação aos casos de intolerância religiosa no Brasil, podemos citar os dados do Disque 100, criado pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos, os quais apontam 697 casos de intolerância religiosa entre 2011 e dezembro de 2015, a maioria registrada nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Quais são as religiões que mais sofrem com a intolerância religiosa?

Ainda de acordo com pesquisas, constata-se que as religiões que mais são alvos da intolerância religiosa e da discriminação no Brasil são aquelas de matriz africana. Visto que de acordo com um levantamento feito pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa as religiões de matriz africana foram as que mais sofreram ataques no ano de 2021 no estado do Rio de Janeiro, sendo que de 47 denúncias 43 foram contra essas religiões.

Além disso, o Centro de Promoção da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos (Ceplir), criado em 2012, registrou, no estado do Rio de Janeiro, 1.014 casos entre julho de 2012 e agosto de 2015, sendo 71% contra adeptos de religiões de matrizes africanas, 7,7% contra evangélicos, 3,8% contra católicos, 3,8% contra judeus e sem religião e 3,8% de ataques contra a liberdade religiosa de forma geral. No entanto, dentre as pesquisas citadas é sugerido uma subnotificação das denúncias.

Veja também nosso vídeo sobre liberdade religiosa!

Sincretismo religioso

Em relação ao sincretismo religioso é possível defini-lo como um fenômeno social que combina princípios de religiões diferentes, ou pode ser uma fusão de ideias heterogêneas, que acontece em todas as religiões. Sociologicamente, isso seria a fusão de dois ou mais elementos culturais opostos em um único elemento, porém, deixando alguns sinais de suas diferentes origens.

No entanto, devido a essa combinação, ou a fusão de elementos isolados, alguns sinais de sua origem ainda são detectados, de modo que o termo resultante tem um certo caráter “eclético”.

Como mencionado anteriormente, os escravizados quando trazidos à força ao Brasil, foram obrigados a adotar a fé oficial, ou seja, a católica. Mesmo assim, deram um jeito de continuar praticando seus costumes e crenças.

Dessa forma, a religião católica foi adotada de forma compulsória e o povo escravizado tinha de esconder suas práticas religiosas ou disfarçá-las para que conseguissem continuar a praticá-las, isso alterou e recriou algumas tradições que tiveram influências de outras religiões. Nesse contexto, o sincretismo religioso pode ser visto como uma forma de resistência na época do Brasil Colônia.

No entanto, especialistas apontam os efeitos negativos que o sincretismo teve nas práticas religiosas como exemplo do candomblé e da Umbanda. Observa-se que a abolição da escravidão ainda é um processo recente e que algumas reparações levaram tempo. Exemplo disso seria a comparação de santos católicos com orixás, os quais segundo a doutora e pesquisadora Cláudia Alexandre, tem origens e tradições completamente distintas e que essas trocas culturais, motivadas pelo processo de colonização, acabaram sendo inevitáveis.

Por esse motivo, atualmente é necessário que a sociedade revise as narrativas que basearam os estudos afro-brasileiros e que o sincretismo não é mais uma necessidade e precisa ser refutado. Desse modo, muitos grupos trabalham a ideia de dessincretização de práticas muito enraizadas nessas religiões.

Em resumo, cabe mencionar que o atual contexto ainda necessita de instrumentos capazes de minimizar a frequência com que as religiões de matriz africana sofrem com a intolerância e a discriminação. Sendo fundamental que o histórico de tratamento, a raiz desses pensamentos e a origem dessas violências seja observada, assim como o racismo religioso e o seu impacto na permanência dessas perseguições.

Esse debate levanta diversas questões acerca da necessidade da promoção efetiva da liberdade religiosa, a todas as crenças e a importância de desconstruir essas narrativas e inverdades acerca das religiões de matriz africana, as quais são tão enraizadas e naturalizadas na sociedade brasileira. Para isso, os desafios são muitos e complexos de resolver, mas alguns caminhos podem ser encontrados e a Politize! tem a missão de te ajudar a entendê-los.

E aí, conseguiu compreender quais são as religiões de matriz africana e como elas são afetadas pela intolerância religiosa? Deixe seu comentário sobre o tema!

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1 comentário em “Religiões de matriz africana: quais são e por que sofrem preconceito”

  1. EDUARDO HENRIQUE MENDES

    Prezados. Eu e alguns moradores do Bairro Embu Colonial em Embu das Artes/SP vivemos uma situação muito ruim com religiões de matriz africana. No local (Rua das Tordesilhas) existe uma cachoeira em que são realizados cultos religiosos há bastante tempo (muito antes de eu morar por ali). Ocorre que, após os ritos, deixam o local muito sujo com as oferendas como restos de alimentos, caixas, sacos pendurados nas árvores e principalmente animais mortos que se decompõem deixando o local fétido. O que ameniza a situação são os urubus e a boa vontade de moradores que, eventualmente, limpam o local. Nesse quesito, como a matéria trata de preconceito, bom seria que nessas e outras situações, os praticantes, pelo menos, juntassem as oferendas após os ritos para não deixar o ambiente sujo e desagradável para outras pessoas que tem outras religiões, além de preservar o meio ambiente. Respeito deve ser mútuo.

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Conteúdo escrito por:
Mineira, graduanda em Relações Internacionais pela PUC MG. Sou apaixonada por RI e amante da história, leitura, política e viagens. Amo conhecer e explorar novos idiomas e culturas, acredito em uma educação acessível e democratizada como instrumento de transformação social.

Religiões de matriz africana: quais são e por que sofrem preconceito

14 jun. 2024

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