Requiem para um sonho americano: reflexão sobre a desigualdade social

Foto: cartaz / divulgação

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A desigualdade social é um tema presente desde a escola, quando se colocavam as diferenças econômicas e de tratamento na sociedade, até a faculdade, onde se aprofundam os conhecimentos sobre a área. O professor, linguista, pensador, filósofo – e tantas outras ocupações – Noam Chomsky, em seu documentário Requiem para um sonho americano, opina sobre as raízes da desigualdade social e o mundo político, principalmente nos Estados Unidos.

Quem é Noam Chomsky?

Noam Chumsky é um grande pensador do século XX e XXI. Além de professor desde 1955 no Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT), nos Estados Unidos, tem mais de 70 livros publicados e traduzidos para mais de dez línguas. Tem conhecimento nas áreas de ciência política, filosofia, ciência cognitiva e, principalmente, em linguística. Noam Chomsky literalmente mudou o objeto de estudo da linguística – que analisa a história dos idiomas, faz estudos sobre os próprios idiomas e sua gramática.

Foi revolucionário nos estudos da linguística na mais prestigiada universidade de tecnologia dos Estados Unidos, senão do mundo, o MIT. Fora isso, também é conhecido por suas reflexões políticas, sua descrença nos governos e por sua militância contra a guerra no Vietnã.

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Foto de protesto em São Paulo, a favor dos ciclistas e da inclusão das bicicletas na lógica do trânsito paulista.
Foto: Vitor Leite / WikiCommons

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O que é desigualdade social?

A desigualdade social é um processo existente dentro das relações da sociedade, presente em todos os países do mundo. Faz parte das relações sociais, pois determina um lugar aos desiguais, seja por questões econômicas, de gênero, de cor, de crença, de círculo ou grupo social. Essa forma de desigualdade prejudica e limita o status social dessas pessoas por determinados motivos, além de seu acesso a direitos básicos, como: acesso à educação e saúde de qualidade, direito à propriedade, direito ao trabalho, direito à moradia, ter boas condições de transporte e locomoção, entre outros.

É possível a ascensão social?

Sobre a ascensão social, Noam Chomsky disserta sobre quando existia a possibilidade do “sonho americano” nos Estados Unidos logo depois da Grande Depressão de 1929. O sonho americano era, basicamente, a ascensão de grupos socialmente menos privilegiados, conseguindo adquirir carro, casa e prover acesso a boa educação e saúde aos filhos. A possibilidade de alcançar a classe média, por assim dizer.

Mas, para isso, existiam fatores favoráveis: governos que regulamentavam a atuação dos bancos, criavam políticas públicas de fomento à ascensão social e uma população que reivindicava seus direitos. Na história estadunidense, esse período durou poucos anos, pois logo o dinheiro, o poder e a influência política passaram a pertencer a um grupo social muito restrito, que já não tinham interesse na ascensão social da maioria populacional.

Como surge a desigualdade social?

Noam Chomsky, assim como vários teóricos, culpa a existência da desigualdade social na concentração do dinheiro, ou seja, a má distribuição de renda. Sendo a desigualdade social é fruto da concentração de dinheiro e poder a uma parte muito pequena da população, o que resta à grande parcela da sociedade é dividir o restante.

Foto: Pixabay

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Desigualdade social e o sistema político

Outro pilar da concentração de renda baseia-se no sistema político. Um dos problemas observados por Noam Chomsky é o de um sistema que exige muito dinheiro dos partidos políticos para que um candidato faça uma campanha. Para isso, os partidos recorrem às grandes corporações, que lhes dão dinheiro para financiá-las. Mas um dia eles cobrarão… Não necessariamente em forma de dinheiro, mas exigindo favores, legislações que lhes beneficiem e tragam mais lucro aos seus negócios. Adam Smith, no livro a Riqueza das Nações, coloca um “slogan” a esse grupo dominante, que chama de “mestres da humanidade”: “tudo para nós e nada para eles”.

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Chomsky explica nove motivos para a existência da desigualdade social, baseados nos princípios da concentração de poder e riqueza, os quais cita no documentário “Requiem para um sonho americano”. Vamos citar os mais importantes:

1. Redução da democracia

Os movimentos nos países democráticos têm sido de a população buscar um aumento da democracia e de liberdade e esforços da elite para manter sua dominação e controle. Ele argumenta que o sistema político foi feito, desde a Grécia antiga, a fim de colocar o poder nas mãos da minoria – dos homens, que tinham bens e propriedades.

Para chegar a um estado de bem-estar social, dando melhores oportunidades aos pobres, Aristóteles chegou a uma solução: diminuir a desigualdade. Mas como não era de interesse dos ricos, em vez disso, eles reduziam a democracia. Na época, por exemplo, só tinham direito ao voto os homens da ricos e que, consequentemente, detinham o poder – se os pobres pudessem votar também, iriam escolher alguém que lhes representassem e, por sua vez, tirariam os ricos do poder.

2. Reformulação da economia

A globalização teria prejudicado os trabalhadores de alguns países, por um motivo: nem eles nem sua mão de obra podem se mover, mas o capital pode. Ao abrir as fronteiras de grande parte dos países, agora a produção de um tênis, de marca estadunidense, por exemplo, pode ter sua sola produzida no Brasil, o cadarço na China e o couro no Camboja.

A mão de obra de um trabalhador nos Estados Unidos é muito mais cara do que em qualquer um desses países e, dessa maneira, as grandes corporações e indústrias conseguirem aumentar ainda mais o seu lucro. Mas isso tem consequências, como o desemprego no país de origem dessas corporações.

Outro ponto levantado por Chomsky é: hoje, aumenta-se as taxas e impostos sobre a população enquanto são reduzidas das empresas com o pretexto de aumentar o investimento e os empregos. Na verdade, o que deveria ser feito para atingir esses pontos é o exato oposto, porque quando o trabalhador tem boa renda, ele irá gastá-la para sobreviver e estimular a produção e o investimento, principalmente no mercado comercial.

3. Atacar a solidariedade

Onde não há empatia, o egoísmo tem vez: e ele é uma arma poderosa. A ideia de não ligar para os outros, para suas vidas e situações sociais pode ser fabricada a fim de que não haja solidariedade dentro da sociedade. O exemplo dado por Chomsky é quando houve, nos EUA, o ataque ao fundo da seguridade social, que é baseada no princípio de solidariedade e preocupação com o próximo. Pagar impostos para que outra pessoa possa sobreviver é o intuito da seguridade social.

Como não trazia benefícios às grandes corporações e não tinha utilidade para os ricos, buscaram uma forma de destruí-la: retiraram os fundos (dinheiro) e o investimento. Sem financiamento, a seguridade social não conseguia funcionar da mesma maneira, o que causou insatisfação na população que precisava desse dinheiro. Chomsky afirma que esse é o primeiro passo para privatizar um sistema. E, de uma forma ou de outra, a parcela da sociedade que mais precisava de uma quantia mínima de dinheiro, ficou desamparada.

A desigualdade social segundo Noam Chomsky

No documentário “Requiem para um sonho americano“, Noam Chomsky não só apresenta os problemas políticos, sociais e econômicos que culminam na desigualdade em si. Mas ele também apresenta soluções para esses problemas, que incluem repensar basicamente todo o sistema político e econômico em que a maioria das democracias está inclusa hoje, considerando também os aspectos de sistemas eleitorais.

Que tal assistir ao documentário Requiem para um sonho americano e vir comentar ele com a gente?

Publicado em 23 de agosto de 2017.

Carla Mereles

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), curadora do TEDxBlumenau e assessora de conteúdo do Politize!.