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5G: o que é e qual sua importância política?


Conteúdo sobre 5G.Carros que dirigem sozinhos, geladeiras que encomendam sua comida antes de acabar, fábricas com robôs que nos avisam quando estão prestes a dar defeito, filmes de completa imersão em realidade virtual… Tudo isso faz parte do “admirável mundo novo” prometido pela 5G, a quinta geração de redes de comunicação móvel.

Talvez você também já tenha ouvido falar, porém, que há uma tremenda discussão política em torno da 5G, envolvendo China de um lado, Estados Unidos do outro e todo mundo no meio! Mas, afinal, o que é a 5G e qual é a sua importância política? Apertem os cintos imaginários do seu assento e vamos descobrir!

Aviso: as sanções e políticas adotadas por cada país, inclusive pelo governo brasileiro, em relação ao equipamento 5G estão sujeitas a constante mudança até que a situação se estabilize no médio-prazo. É possível que medidas arroladas no momento da redação desse artigo já tenham sido superadas.

A 5G e redes de comunicação móvel

Como dito acima, a 5G é um nome curto dado à quinta geração de redes de comunicação móvel. Hoje, quando usamos nossos celulares para enviar mensagens, assistir vídeos ou fazer ligações (sem utilizar o Wi-Fi), nos valemos das redes 2G, 3G, 4G ou mesmo 4.5G a depender da cobertura de rede do lugar de onde estivermos falando. No momento da publicação deste artigo, a cobertura de 3G no Brasil é praticamente universal, chegando a 99,8% dos cidadãos brasileiros, e a cobertura de 4G não fica muito para trás, atingindo 97,3% da população, como pode ser visto na figura.

Mapa 5g.

Cobertura de rede no Brasil. Fonte: Anatel.

Essas redes de comunicação móvel, sejam da geração que forem, consistem em um conjunto de tecnologias que nos habilita a trocar informações a partir de dispositivos portáteis (como os celulares) a qualquer momento, do lugar onde estivermos, mesmo que estejamos em movimento. Isso as diferencia das redes de comunicação fixa, que só podem ser utilizadas a partir de pontos precisos no espaço, como é o caso dos telefones fixos (GUIMARÃES, 1998).

E como essas tecnologias chegam até nós? Bem, enquanto consumidores, nós não compramos a tecnologia de infraestrutura 5G propriamente dita, produzida por empresas como Huawei, Ericsson, Nokia e ZTE. Essas tecnologias são adquiridas e instaladas pelas operadoras de telefonia – Claro, TIM, Oi e Vivo – que usam dessa tecnologia para oferecer o serviço 5G que, aí sim, contratamos.

E, vale dizer, o Estado brasileiro, principalmente na figura da Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), tem a função de “regular” os serviços de comunicação móvel. Isso envolve adotar medidas para o bom funcionamento desses serviços como, por exemplo, decidir qual equipamento pode ou não pode ser utilizado para sua prestação.

Um vôo rasante pelas gerações de redes móveis

A 5G, que hoje está em vias de ser implantada no Brasil, é a culminação de um longo processo histórico de evolução tecnológica.

Lá em 1979, quando a primeira geração de redes de comunicação móvel (1G) foi posta em operação no Japão, a tecnologia de sistemas de rádio analógicos utilizados à época só permitia a comunicação por áudio, a tradicional chamada telefônica.

Pouco mais de 10 anos depois, foi lançada a segunda geração (2G) – agora com sinal digital – que além de aumentar a segurança das comunicações viabilizou o envio de mensagens SMS (do inglês, Short Messaging Service, mensagens apenas de texto) e MMS (Multimedia Messaging Service, para imagens e vídeos).

O verdadeiro ponto de inflexão na nossa forma de usar as comunicações móveis, porém, veio com a terceira geração (3G). As taxas de transmissão – nome técnico daquilo que coloquialmente chamamos de “velocidade” da internet” – da 3G eram de tal forma superiores à da 2G que com ela era possível carregar vídeos na hora, jogar jogos online, fazer chamadas de vídeo e interagir em tempo real em redes sociais; tudo isso direto do seu celular.

Essa tecnologia, por si só revolucionária, recebeu um empurrão a mais com o lançamento do iPhone 3G, em 2008, marco de abertura da era dos smartphones.

A transição para a quarta geração (4G) foi mais suave. Embora a tecnologia tenha continuado a evoluir e as taxas de transmissão a aumentar, essa geração não desembocou em uma mudança tão radical na forma como utilizamos a tecnologia móvel. Inclusive, neste exato momento, as redes 4G continuam a ser aprimoradas para se tornar o que chamamos de 4.5 G.

O diferencial da 5G

A 5G, de que agora falamos, combina ganhos de desempenho em diversos aspectos. Além de melhorar o funcionamento geral da internet em dispositivos móveis, viabiliza aplicações antes impensáveis, entre elas a adoção em massa da computação em nuvem, a Internet das Coisas (IoT) e os veículos autônomos.

Os principais ganhos de desempenho aparecem em quatro características da rede: elevadíssimas taxas de transmissão, a alta confiabilidade de rede, latência próxima a 0 e alta capacidade de rede. Os nomes técnicos dessas características podem parecer um pouco complicados, mas já vamos explicar!

Taxas de transmissão

Com taxas de transmissão (velocidade de download e upload) mais altas, podemos receber e enviar conteúdos mais “pesados”. Isso aconteceu ao longo da evolução da comunicação móvel e é bem fácil de perceber. Você deve se lembrar que há alguns anos não existia essa de chamada de vídeo pelo celular e, se for um pouco mais velho, talvez se recorde de só conseguir usar o YouTube no computador. Para citar um exemplo mais recente, pense que aplicativos baseados em imagens e vídeos, como Instagram e Snapchat, só dão certo porque esses conteúdos carregam rápido o suficiente.

Com a 5G, para você ter uma ideia, a internet poderá ficar até 1000 mais rápida que a 4G, chegando a vertiginosas taxas de 10GB por segundo. Isso equivale a baixar um filme de 1 hora e meia em 4K no Netflix em um literal piscar de olhos (Digital Trends, 2020)! Veremos então emergir o uso rotineiro de vídeos em alta definição, imensos conjuntos de dados (Big Data) ou até mesmo ambientes computadorizados extremamente detalhados, projetados para uso com um dispositivo de Realidade Virtual.

Confiabilidade

A confiabilidade de uma rede é definida como a capacidade da rede de continuar funcionando quando há alguma falha em uma parte dela. Imagine que a rede de comunicações é como uma malha de estradas, que te leva da cidade A à cidade B. Em um primeiro cenário, há apenas um túnel interligando as duas cidades. Se depois de um temporal uma árvore tomba bem em frente a entrada, bloqueando a passagem, e não há lá ninguém que a remova, fica impossível ir de um lugar para o outro. Em outro cenário, porém, em que existam várias vias conectando as cidades ou alguém que rapidamente retire as árvores caídas do caminho, você pode confiar nas estradas para, a qualquer dado momento, se deslocar entre as cidades.

Assim, a grande vantagem da alta confiabilidade da 5G aparece em seu emprego para serviços essenciais (chamados mission critical em inglês) em que a existência de um conexão confiável pode ser questão de vida ou morte, como em cirurgias operadas remotamente (CHEN et al, 2006).

Latência

A latência, medida em milissegundos (ms), é o tempo entre o envio de um comando (por exemplo, o clique sobre um botão em uma página da internet) e o retorno do resultado desse comando (a ação daquele botão, que pode ser te levar para outra página).

Se só fazemos um uso corriqueiro de navegação na internet, a latência pode atrasar o carregamento de um site e tirar nossa paciência, mas nada muito grave. Por outro lado, para um drone ou um carro autônomo que decide pra onde ir e do que desviar com base em informações recebidas e enviadas da internet, um atraso pequeno pode ser catastrófico. A tecnologia 5G resolverá esse problema esmagando a latência de 200ms para 1ms! Exatamente – um milésimo de segundo.

Capacidade de rede

Por fim, vale mencionar o aumento prodigioso na capacidade de rede. A capacidade, como o próprio nome indica, é uma medida de “quanto cabe” na rede, isto é, quanta informação pode transitar por ela ao mesmo tempo (lembre-se aqui da analogia com as estradas) em um dado espaço. Da 4G para a 5G podemos esperar um aumento de até 100x no número de dispositivos ligados simultaneamente por unidade-área (por exemplo, por quilômetro quadrado, km2).

Com tanto espaço a mais, não serão mais só os celulares e computadores que ficarão ligados na internet: produtos de todos os tipos estarão conectados entre si e na nuvem, criando aquilo se conhece como Internet das Coisas (ou IoT, do inglês Internet of Things).

No ambiente doméstico, aparecerão as “casas inteligentes” (smarthomes), em que a geladeira, a televisão, o sistema elétrico e até mesmo os sistema de aquecimento/ar-condicionado receberão e enviarão dados pela internet, fazendo ajustes em seu funcionamento em tempo real. As aplicações são tantas também em outros setores, como na agricultura e na indústria que valeriam até um artigo próprio.

Dá para perceber a escala do impacto da 5G, não? Em um estudo recente, a empresa americana de tecnologia Qualcomm, estima que o potencial econômico máximo da 5G será atingido por volta de 2035. Até lá, a quinta geração contribuiria para um aumento da produção global equivalente a 13 trilhões de dólares (ou 65 trilhões de reais à taxa de câmbio ilustrativa de R$ 5,00) e geraria mais de 22 milhões de empregos ao redor do mundo.

A política da 5G: conflito ou competição saudável?

E afinal, onde está a confusão política nessa história da 5G? Para todos os lados! Mas podemos dizer que o problema central é o seguinte: pairam sérias suspeitas, principalmente por parte dos Estados Unidos e alguns países Europeus, sobre a empresa líder de mercado no oferecimento de infraestrutura 5G – a gigante chinesa Huawei – e seu comprometimento com a segurança das comunicações em suas redes.

Especificamente, existe o receio de que os equipamentos da Huawei tenham as chamadas backdoors, isto é, canais clandestinos de comunicação. Em tese, as backdoors poderiam ser utilizadas pelo governo chinês para promover todo tipo de ações escusas, como coletar dados em massa ou realizar ataques cibernéticos a infraestrutura crítica.

Para piorar a situação, esse debate se insere em um contexto de tensas relações sinoamericanas. As duas potências já entraram em confronto em diversas pautas, desde as disputas territoriais pelo Mar do Sul do China, à recente guerra tarifária e, agora na crise da pandemia de COVID-19, com os embates sobre a origem do vírus e a gestão da Organização Mundial da Saúde (OMS) acusada pelo presidente Trump de ser dominada pela China.

Surgiu, assim, uma discussão entre governos ao redor do mundo sobre permitir ou não a compra e uso de equipamento da Huawei em seu território. Aqueles que defendem impedir a Huawei (e outras empresas chinesas, como a ZTE) de entrar nos mercados de seus países argumentam que a segurança nacional deve ter primazia – o Estado não pode pôr em risco informações confidenciais ou mesmo a privacidade de seus cidadãos. Por outro lado, para aqueles favoráveis à ampla competição, a entrada da Huawei nos mercados de comunicação é salutar. Afinal, argumentam, o equipamento da empresa é bom e sua presença na disputa pelo mercado ajudará a derrubar os preços, beneficiando os consumidores.

Os Estados Unidos, sob a liderança do presidente Donald Trump, têm procurado dar apoio a empresas fortes de países aliados como a sueca Ericsson e a finlandesa Nokia. Para se ter um ideia da força dessas empresas, elas detêm, respectivamente, 27% e 22% do mercado de infraestrutura 3G e gerações anteriores, ficando atrás apenas da própria Huawei. Além disso, o governo Trump tem lançado mão de outras “punições” contra a empresa chinesa, como vedar a entrada de seus funcionários nos EUA e proibi-la de utilizar equipamentos projetados usando tecnologia americana.

Alguns países têm dado sinais de preferir a via de Trump, enquanto outros adotam uma postura mais aberta. No primeiro grupo encontramos, por exemplo, o Reino Unido, cujo Secretário de Estado para Assuntos Digitais anunciou, no dia 14 de julho, que empresas de comunicação operando em solo britânico estarão proibidas de comprar o kit 5G da Huawei a partir de 31 de dezembro deste ano, e ainda terão de remover todo o equipamento já instalado até 2027. Seguem nesse mesmo caminho também a Austrália – que já havia banido o equipamento da Huawei lá em 2018 – e o Canadá.

Certos países europeus têm demorado mais a responder e lançam mão de políticas mais brandas. Na França, o governo tem recomendado (mas não obrigado) as companhias de telefonia a não comprarem equipamento da Huawei, enquanto a Alemanha preferiu adiar sua decisão para o final desse ano.

Quer entender mais sobre as disputas políticas em torno da 5G? Assista nosso vídeo sobre o assunto!

A política da 5G no Brasil

Aqui no Brasil, o debate segue as linhas gerais observadas na querela internacional. No momento, ainda estamos, por assim dizer, “em cima do muro” com grupos importantes entrando em choque sobre a melhor política a adotar. Essa decisão é importante, porque sem ela o Brasil terá dificuldades em avançar na instalação de sua rede 5G e, assim, não conseguirá extrair as enormes vantagens econômicas que a 5G tem para oferecer.

Em termos de política pública (ou melhor, regulação, como falamos lá no inicio), a 5G só poderá engatar no Brasil uma vez realizado o famoso “Leilão da 5G”. Neste leilão, o Governo Federal vende autorizações para o uso econômico de certas faixas de frequência (a faixa de frequência é como a “estrada” por onde passa a comunicação sem fio) às operadoras de telefonia móvel. É nessas faixas de frequência que transitarão nossos vídeos, zap zaps e afins. No entanto, se não há decisão sobre aceitar ou não o equipamento da Huawei, as empresas não conseguem saber qual comprar – e aí de pouco adianta fazer o leilão.

Opiniões opostas dentro do governo

Mas bem, para falar apenas do Governo Federal, temos de um lado o grupo que muitos veículos de imprensa se referem como  “ala ideológica” do governo Bolsonaro (termo aliás rechaçado pelo próprio presidente) – da qual o Ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo é um dos principais expoentes – e, do outro, membros do governo com preocupações de ordem econômica, como a Ministra da Agricultura Teresa Cristina e o Ministro da Economia Paulo Guedes.

A “ala ideológica’ tende a se alinhar com a posição de contestação à China adotada pelo presidente Trump e, portanto, contrária à entrada dos produtos da Huawei no Brasil. Jair Bolsonaro, que já seguiu o presidente Trump em outras pautas, como a crítica à Organização Mundial da Saúde na resposta à pandemia de COVID-19 e a defesa aos interesses do Estado de Israel, parece inclinado a fazer o mesmo no caso da 5G. Em uma live no dia 11 de julho, disse o seguinte:

“Nós vamos atender requisitos da soberania nacional, segurança das informações, segurança de dados e política externa, que também entra nessa questão” (Jair Bolsonaro, 11 de Julho de 2020)

Precisamente com a justificativa de interesse nacional, Bolsonaro determinou que o leilão da 5G saísse da alçada da ANATEL e passasse a ser monitorado pelo próprio Palácio do Planalto, diminuindo o teor técnico e realçando o teor político da decisão.

Já aqueles que apoiam a entrada da Huawei no Brasil diriam que o problema com essa postura é que ela traz sérios prejuízos, sobretudo econômicos. Em primeiro lugar, a China é, disparado, o maior parceiro econômico do Brasil, como se pode ver pelo volume de exportações e importações entre os dois países. Despertar animosidades do gigante asiático significa pôr em risco boa parte da economia brasileira, parcialmente dependente da demanda (como o agronegócio e o setor de mineração) ou da oferta chinesa (como o setor industrial) para se sustentar e crescer.

Em segundo lugar, seguindo uma linha de argumentação econômica liberal, a presença da Huawei no mercado brasileiro é benéfica, pois ela amplia a concorrência, e assim contribui para que o preço do equipamento caia e a qualidade dos produtos oferecidos aumente. Nas palavras de Paulo Guedes:

“Na hora que chega o 5G, seria interessante deixar a competição funcionar. Deixar a Ericsson de um lado (…), deixar a Huawei do outro lado. Deixar chinês brigar com americano, brigar com os nórdicos, pra ver quem nos serve melhor.” (Ministro da Economia Paulo Guedes, em entrevista à CNN Brasil, no dia 6 de Julho de 2020)

O resultado da combinação desse vai-e-vem político com algumas dificuldades técnicas que a ANATEL tem experimentado nos testes da 5G, é que o Leilão da 5G, ao que tudo indica, só acontecerá em 2021. E isso não é só um aborrecimento burocrático, mas um sério motivo de preocupação no que diz respeito à competitividade da economia brasileira. A 5G, afinal, não nos trará meras geringonças frívolas, mas uma nova estrutura para a economia mundial.

O pesquisador de Relações Internacionais, Oliver Stuenkel, observa uma demora na resposta do governo federal às necessidades regulatórias impostas pela 5G, e coloca a questão da seguinte maneira:

“Contudo, os atrasos também mais se parecem com um desejo de adiar um decisão difícil que deixará ou os EUA ou a China profundamente desapontados. Tal estratégia põe em risco a competitividade brasileira em uma economia global cada vez mais dependente de novas tecnologias, que vão desde carros autônomos e drones até comunicações e finanças globais. (…) Na realidade, serão poucos, ou nem sequer um, os setores da economia ou governaça que não serão afetados pela tecnologia 5G.” (STUENKEL, 2020)

Com a recente recriação do Ministério das Comunicações (desmembrado do MCTIC), o ministro Fábio Faria (PSD-RN) passou a se engajar no processo da 5G e mostrou-se, até o momento, finamente alinhado com o presidente Bolsonaro.

Em entrevista recente, diz estar em contato e negociação com diferentes fornecedoras de tecnologia 5G, inclusive a Huawei, mas frisa

“No final quem vai decidir é ele [o presidente]”. É possível que, colocando o assunto debaixo de um ministério com menos atribuições, sob o comando de um ministro próximo ao presidente, o processo flua melhor – o que não garante que as controvérsias desaparecerão de imediato.

E você, o que acha sobre o debate da 5G?

Publicado em 05 de outubro de 2020.

redator

Bernardo Menescal

Formado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília, hoje trabalha na área de saúde do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Como redator voluntário do Politize!, procura contribuir para um debate público aberto, cordial e bem informado sobre os rumos do nosso país.

REFERÊNCIAS

AHAD, Abdul; TAHIR, Mohammad; YAU, Kok-Lim Alvin: 5G-Based Smart Healthcare Network: Architecture, Taxonomy, Challenges and Future Research Directions

ANATEL, Agência Nacional de Telecomunicações: Qualidade da Telefonia Móvel

BBC NEWS: Huawei: China attacks UK’s ‘groundless’ ban of 5G kit

CHEN, He; ABBAS Rana. CHENG, Peng; SHIRVANIMOGHADDAM, Mahyar , HARDJAWANA, Wibowo; BAO, Wei; LI, Yonghui; e VUCETIC, Branka Vucetic: Ultra-reliable Low Latency Cellular Networks: Use Cases, Challenges and Approaches

DIAS, Pedro Henrique Sales: Redes 5G I: A nova geração de redes celular” em Seção Tutoriais Telefonia Celular

Digital Trends: How Much Data Does Netflix Use?

Equipe TOTVS: 6 aplicações de internet das coisas em sua rotina

Global Agency: Telecom industry’s first 5G core competitive analysis published by GlobalData reveals it is a close race

GUIMARÃES, Dayan Adionel: Introdução às Comunicações Móveis

IGI Global: What is Network Reliability?

KANAVAGH, Sacha: How fast is 5G?

PANCEVSKI, Bojan: U.S. Officials Say Huawei Can Covertly Access Telecom Networks

Qualcomm. “Everything you need to know about 5G”

STUENKEL, Oliver. “Brazilian 5G: The Next Battleground in the U.S.-China Standoff”

Teleco – Inteligência em Comunicações: Cobertura das operadoras e população atendida

TÉRAL, Stéphane: IHS Markit: Huawei Led Global 4G LTE Infrastructure Market which totalled $22.9B in 2018; China CAPEX bottoms out

Thales Group: Introducing 5G technology and networks (definition, use cases and rollout)

The Economist: America’s war on Huawei nears its endgame

U.S. Department of Commerce: Commerce Addresses Huawei’s Efforts to Undermine Entity List, Restricts Products Designed and Produced with U.S. Technologies

Valor Econômico: Leilão de 5G será incluído no PPI e será monitorado pelo Palácio do Planalto

Destaque segue o fio

Estados Unidos e China: a guerra pelo 5g!

Já não ouviu falar no termo “Guerra Fria 2.0”? A Guerra Fria “original” foi a disputa entre Estados Unidos e União Soviética após o fim da Segunda Guerra Mundial. Como sabemos, ela carrega esse nome por não ter ocorrido nenhum tipo de conflito armado entre as potências, por mais que a tensão e disputa bélica fossem constantes.

Agora temos a chamada “Guerra Fria 2.0”, que envolve, novamente, os Estados Unidos, mas, desta vez, com uma nova adversária: a China. As duas maiores economias do globo disputam a narrativa de vários setores, dentre eles, o desenvolvimento de novas tecnologias como, por exemplo, o 5G, que promete grandes mudanças na sociedade como um todo.

No vídeo de hoje vamos falar sobre como essa tecnologia irá revolucionar a nossa sociedade e entender como e por que Estados Unidos e China estão disputando o 5G. Ficou curioso? Então continue assistindo!

Gostou do conteúdo? Toda semana tem vídeo novo no nosso canal do Youtube!

China e Estados Unidos: como o coronavírus afetou a relação entre as potências?

Na imagem, os presidentes da China e dos Estados Unidos apertam as mãos. Conteúdo sobre China e Estados Unidos.

Foto: Shealah Craighead/Fotos Públicas.

Você conhece bem as relações sino-americanas? Sabe como elas foram afetadas pela atual pandemia? Ou, ainda, consegue traçar possíveis previsões acerca da disputa por hegemonia pós-crise de Coronavírus?

A partir desse texto, você conseguirá responder as perguntas acima e um pouco mais. Começaremos abordando o histórico de convivência entre a China e os Estados Unidos; depois, um breve resumo sobre o surto de COVID-19 e as diferentes maneiras que as potências estão lidando com isso. Partiremos, então, para as características atuais do relacionamento sino-americanas e como elas podem afetar o futuro do cenário internacional.

O histórico das relações sino-americanas

Foi no meio do século passado, com a largada da Guerra das Coreias (1950-1953), que o diálogo entre China e Estados Unidos começou a se acirrar. Nesse sentido, Bruce Cumings afirma em seu livro “The Korean War: a history” (Guerra das Coreias: a história) que a Coreia do Norte teria invadido o sul da península coreana, o qual, apoiado por tropas da Organização das Nações Unidas – majoritariamente dos Estados Unidos –, conseguiu fazer as forças norte-coreanas recuarem.

À vista disso, a China, vizinha da Coreia do Norte, exigiu que as fronteiras chinesas não fossem ultrapassadas  sob quaisquer circunstâncias, em função de sua neutralidade a respeito da guerra. No entanto, durante o processo das batalhas, as tropas estadunidenses desacataram imposições do país asiático, utilizando suas fronteiras para chegar ao território coreano. Assim, a China revidou, ocasionando a derrota do 8° Exército dos Estados Unidos.

Em 1953, a partir de negociações multilaterais, foi decretado o Acordo de Armistício Coreano, isto é, aquele que cessava as guerras armadas. No entanto, o clima de hostilidade já havia sido instaurado; assim, os Estados Unidos, movido por um forte ressentimento, enviou as primeiras armas nucleares para a Coreia do Sul, em 1958, rompendo com o cessar-fogo.

Saiba mais em Estados Unidos e Coreia do Norte: entenda a relação!

Mapa. Conteúdo China e Estados Unidos.

Mapa da Coréia dividida com rótulos em inglês. Imagem: Patrick Mannion/Domínio Público.

Entre as décadas de 1950 e 1960, em plena Guerra Fria – período de disputa entre o socialismo soviético e o capitalismo americano pela hegemonia ideológica –, a China, adepta ao socialismo, passou a romper gradativamente seus laços com a União Soviética, devido à desavenças internas. Assim, houve uma abertura e um pretexto para os Estados Unidos se aproximarem da China: a contenção da União Soviética, agora sua inimiga em comum.

No entanto, dois acontecimentos adiaram a possibilidade de aproximação entre Estados. Primeiro, a Guerra do Vietnã (1955-1975), que colocava os dois países em lados opostos da batalha: a China, ao norte socialista, e os Estados Unidos, ao sul capitalista. O segundo acontecimento, por sua vez, foi a Revolução Cultural Chinesa (1966-1976), sob a liderança do Partido Comunista Chinês, a qual estabeleceu, mais uma vez, uma discordância de natureza ideológica, que afastou politicamente os dois países.

Nos anos que seguiram, houveram ações anti-diplomáticas de ambos os lados, dentre as quais estão: os embargos econômicos estadunidenses à China – que haviam iniciado paralelamente aos acirramentos sino-americanos –, os esforços para que o Estado chinês não se filiasse ao Conselho de Segurança das Nações Unidas e a promoção de propagandas americanas contra o país sino-asiático. A República Popular da China, por sua vez, passou a desenvolver armamento nuclear, em uma estratégia de preparação para possíveis conflitos e de geração de dissuasão.

O diálogo Estados Unidos-Taiwan: qual a relevância para a temática em questão?

Se tratando de compreender as relações sino-americanas, a abordagem quanto ao diálogo com Taiwan é fundamental, posto que as interações estabelecidas com os Estados Unidos são, provavelmente, uma das maiores peças dos conflitos aqui abordados.

Para um entendimento breve e claro, a China é composta por sua parte continental, a República Popular da China (RPC), comandada por Pequim – o lado comunista –, e pela República da China (RC), comandada por Taiwan – o lado capitalista. Essa divisão ocorreu em 1949, devido a uma guerra civil travada entre o Partido Comunista Chinês e o Partido Nacionalista Chinês, na qual os nacionalistas do Kuomintang (KMT) se viram em uma situação de transferência para a ilha de Taiwan. Posteriormente, Pequim apresentou à República da China (RC) propostas para a reunificação chinesa, as quais, contudo, não obtiveram êxito.

Embora tenha havido a separação territorial, o assento chinês na Organização das Nações Unidas continuou sendo concedido à Taiwan até 1971, quando este foi expulso e a China passou a ser representada por Pequim. Diante do ocorrido, a maioria dos países deixou de reconhecer a legitimidade da República da China (RC), inclusive os Estados Unidos.

No entanto, em 1979, o país estadunidense aprovou a “Lei de Relações com Taiwan”, considerada o principal marco jurídico do relacionamento bilateral. Esta permitia a continuidade das relações políticas, comerciais e militares com a República da China (RC), ainda que os Estados Unidos não a reconhecesse diplomaticamente. Assim, tem-se mais um ponto nos conflitos sino-estadunidenses, no qual República Popular da China (RPC) acredita que as ações dos Estados Unidos – sobretudo no que diz respeito à venda de armamentos militares – se tratam de um desrespeito ao reconhecimento político de Pequim e uma intervenção grosseira nos assuntos chineses.

Mapa. Conteúdo China e Estados Unidos.

Imagem: Wikimedia Commons.

Saiba mais em política externa da China: entenda os planos dessa potência.

A relação sino-americana no século XXI

Foto da destruição dos prédios causada pelo ataque terrorista do 11 de setembro. Conteúdo China e Estados Unidos.

Foto: Pixabay.

O tempo passou e o início dos anos 2000 trouxe outra oportunidade de aproximação entre as nações. O famoso atentado às Torres Gêmeas do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, reacendeu o debate sobre o terrorismo e trouxe a narrativa da “guerra ao terror”, isto é, a tentativa de contê-lo.

À vista disso, os Estados Unidos, juntamente à República Popular da China (RPC) – uma vez que haviam dois chineses dentre os passageiros mortos naquele incidente –, voltaram seus olhares para o Oriente Médio. Nesse sentido, o governo do país asiático não só deu apoio político-econômico, como também votou a favor da Resolução 1373 do Conselho de Segurança das Nações Unidas – o qual a China passou a integrar em 1971 –, que declarava intervenção militar no Afeganistão.

Saiba mais em atentados do 11 de setembro: o que aconteceu?

Assim, nos anos que seguiram, iniciou-se um grande período de cooperação China-Estados Unidos em relação à diversas temáticas, como: 01) a recuperação do sistema econômico internacional pós-crise financeira de 2008, 02) o combate à degradação do meio ambiente, por meio, por exemplo, do comprometimento com as mudanças climáticas e da ratificação do Acordo de Paris (2015) – o qual visa a redução da emissão de gases do efeito estufa – e 03) a contenção de armas de destruição em massa, especialmente nos acordos com o Irã, assinados em 2015, que estabeleciam a progressiva diminuição da capacidade nuclear do país.

No entanto, o novo discurso de colaboração internacional não dispensa a rivalidade político-ideológica entre as duas superpotências. De outro modo, esta voltou à tona com as consequências da entrada da República Popular da China na Organização Mundial do Comércio, em 2001. Posto que esse acontecimento teria contribuído para a elevação gradativa da economia chinesa, até torná-la, em 2011, a segunda no ranking mundial – ultrapassando o Japão e ficando atrás, somente, dos Estados Unidos – iniciou-se um grande período de guerra comercial entre as potências, que manifesta-se atualmente nos governos de Donald Trump (2017-hoje) e Xi Jinping (2013-hoje).

Em termos financeiros, a economia do país asiático é fundamentada essencialmente nas suas exportações, dentre as quais, em sua maioria, se destinam aos Estados Unidos. A nação americana, nesse sentido, é profundamente dependente das importações de produtos chineses, devido a baixa atividade de produção de determinados setores da indústria americana – sobretudo de bens manufaturados, produtos agrícolas e combustível – e a alta demanda da população. No entanto, há um imenso conflito de taxações, impostos e tarifas entre os dois países, na tentativa de conter a expansão alheia e se sobressair economicamente.

Saiba mais em EUA e China: entenda a guerra comercial! 

Ademais, do ponto de vista político-financeiro, estão as disputas pelo Mar do Sul da China, região estratégica para o setor econômico. Basicamente, os Estados Unidos acreditam que ele faz parte de águas internacionais e que, por isso, todas as nações têm direito de explorá-lo; por outro lado, a perspectiva chinesa é de que ele é sua propriedade e de que outras nações não possuem direitos sobre o local. Desse modo, a porta-voz do Departamento de Estado americano, Morgan Ortagus, afirmou em comunicado:

“As repetidas ações provocativas da China visando o desenvolvimento de petróleo e gás em outros países ameaçam a segurança energética regional e enfraquecem o livre e aberto mercado de energia do Indo-Pacífico”.

Como as potências estão lidando com a crise do coronavírus e quais são os atritos atuais?

O Relatório “Made in China 2025”, publicado em 2015, pela China, já revelava grandes avanços técnico-científicos chineses, os quais estão sendo traduzidos na prática durante a pandemia. “Rastrear, testar e isolar”, foi a definição utilizada pelo professor Carlos Medeiros, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, para exemplificar a reação da potência frente à crise de COVID-19.

Assim, a República Popular da China (RPC) tem revelado grande capacidade de inovação e de utilização de inteligência artificial em massa, voltados para os setores de saúde e do sistema produtivo industrial, a ponto de suprir, não só as demandas nacionais, como internacionais, de dispositivos para a contenção do vírus. Além disso, a potência tem cooperado socialmente em larga escala, em função das ajudas humanitárias, do papel de liderança asiático e mundial e do apoio à Organização Mundial da Saúde.

Por outro lado, a crise de Coronavírus nos Estados Unidos tem acentuado ainda mais a dependência nacional de importações, por meio da compra massiva de materiais chineses, especialmente de máscaras de proteção e de respiradores. Ademais, a tardia reação do país ao vírus, no que tange à detecção e isolamento social, provocaram um rápido crescimento dos infectados e  uma superlotação dos hospitais, posto que estes não estavam preparados para lidar com uma demanda tão grande de pacientes. Assim, Jeremy Youde, especialista global em políticas de saúde e reitor da Escola de Humanidades da Universidade de Minnesota, em Duluth, afirma:

“Demorou muito tempo para as autoridades perceberem que esse era um problema sério.”

Consequentemente, os Estados Unidos se tornaram o epicentro mundial do vírus, em função do ultrapasse de mais de 1 milhão de casos de COVID-19 – número, este, que continua crescendo em larga escala. Enquanto isso, em números oficiais, a China ainda não chegou aos 100 mil infectados e não há previsão para alcançar essa quantidade.

Quer saber mais sobre como os Estados Unidos se tornou o epicentro do coronavírus? Acesse nosso vídeo!

No entanto, posto que países com uma população bem menor que a chinesa tiveram números maiores, é importante mencionar as acusações dos Estados Unidos a Pequim. Estas estariam denunciando uma possível ocultação dos dados reais de infectados e mortos, a fim de vender uma imagem de sucesso no combate sino-asiático à pandemia. A dúvida que fica é se essas acusações têm fundamentos ou se não passa de mais uma disputa política entre as superpotências.

Quais são as previsões para o futuro?

As previsões acerca do impacto econômico já se comparam à crise de 1929 . Nesse sentido, o Fundo Monetário Internacional estima que, neste ano, a economia global irá encolher 3% e a estadunidense 9,1%. De outra forma, a instituição prevê que o PIB  da China crescerá 1,2%, o menor percentual em décadas, mas ainda extremamente vantajoso diante do cenário de recessão econômica global. Ainda, é esperada uma forte recuperação em 2021, tendo a China como líder dessa restauração do sistema financeiro mundial.

Dessa forma, a atuação chinesa diante da pandemia de coronavírus, aliada ao crescimento da sua economia e provável participação do país na recuperação global, aumentam largamente a área de influência da potência e abrem margem para o início de um novo século com maior protagonismo do país asiático.

Contudo, não se pode subestimar a capacidade americana de resiliência e de financiamento na recuperação de crises. A exemplo, embora a crise financeira de 2008 tenha surgido nos Estados Unidos, as consequências foram muito mais sentidas nos demais países do que no território estadunidense, que, por outro lado, teve uma rápida recuperação e instaurou uma progressiva tendência de recentralização e valorização de sua moeda: o dólar.

Finalmente, havendo duas potências extremamente estáveis, eficazes e motivadas, o que se espera é a radicalização das disputas sino-americanas pela hegemonia mundial e, no processo, a intensificação das atividades imperialistas, que poderão sufocar e causar colapsos político-econômicos nos países subdesenvolvidos e vulneráveis socialmente.

Saiba mais sobre o Coronavírus: o hoje e o amanhã.

E aí? Conseguiu entender a relação entre os Estados Unidos e a China e as previsões para o futuro pós-pandemia?

Publicado em 23 de julho de 2020.

Laryssa Moreira

Redatora do Politize! e graduanda em Defesa e Gestão Estratégica Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

REFERÊNCIAS:

Seminários virtuais do Instituto de Relações Internacionais e Defesa – Geopolítica mundial em tempos de crise.

Reflexões sobre o mundo pós-COVID19.

S. Shiow: a inserção internacional da China no pós-Guerra Fria

B. Cumings: the Korean war: a history

BBC: a pouco conhecida história de como os EUA levaram as primeiras armas nucleares à península da Coreia.

Estado de Minas: EUA se dizem preocupados com “interferência” chinesa no Mar do Sul da China

BBC: o que está por trás das imagens da vala comum para mortos do coronavírus em Nova York

UOL: EUA se aproximam de 84 mil mortes; total de casos sobe para 1,38 milhões

UOL – Alexandre Tanzi e Wei Lu: EUA devem liderar retração do PIB global em 2020

One Belt, One Road: entenda a Nova Rota da Seda chinesa!

Rua com diversos anúncios em Mandarim (Foto: Tookapic/Pixabay)

Rua com diversos anúncios em Mandarim (Foto: Tookapic/Pixabay)

Não é segredo ao leitor atento que a China vem aumentando sua participação no cenário internacional nos últimos anos. Além de ser hoje a segunda maior economia do mundo e o país mais populoso, com 1,38 bilhão de habitantes, o gigante asiático tem expandido seus investimentos  em outras regiões. O mais grandioso desses investimentos é o projeto da Nova Rota da Seda, mais conhecido como One Belt, One Road.

Nesse texto, o Politize te explica como surgiu, a quem atinge e qual o objetivo do grandioso projeto chinês. Vem com a gente aprender tudo sobre ele!

A origem da Rota da Seda

Antes de partirmos para a Nova Rota da Seda, é importante que fique claro para você o que foi a rota original.

O nome Rota da Seda carrega todo um simbolismo histórico. Falar sobre ele é relembrar de um momento em que a China era o grande centro da economia da eurasiática (Europa + Ásia), mais de 2000 anos atrás.

Criada para interligar o Oriente ao Ocidente — mais precisamente, a Ásia à Europa — a rota tinha como grande objetivo o estabelecimento de uma rede comercial entre os mercadores e de uma rede multi-cultural entre seus países membros. Nessa rede, a seda era o principal produto comercializado, daí o nome “Rota da Seda”.

Neste sentido, falar em Nova Rota da Seda faz parte da construção da ideia de um “Sonho chinês”, bandeira política de retomada do que a China entende por seu lugar no mundo, apresentada por Xi Jinping, principal líder da República popular da China. Mais precisamente, a China pretende retomar o papel de liderança econômica, cultural e comercial que por séculos o país possuiu.

O prazo para isso é o ano de 2049, data que marca o centenário da Revolução Chinesa de 1949 e início de uma nova fase na história chinesa.

E o que é a Nova Rota da Seda?

Como te dissemos, o investimento chinês no mundo tem crescido consideravelmente nos últimos anos. Segundo o importante think tank estadunidense American Enterprise Institute for Public Policy Research, entre 2005 e 2018, a China esteve presente nos cinco continentes e investiu cerca de US$ 1,9 trilhão. Isso equivale, por exemplo, a 13 vezes o valor do Plano Marshall, utilizado pelos Estados Unidos na reconstrução da Europa durante a Guerra Fria.

Para crescer ainda mais e ampliar sua influência como um dos principais atores internacionais, o governo chinês, comandado por Xi Jinping, lançou um ambicioso plano de infraestrutura regional e global. Esse plano é a Belt and Road Initiative (Iniciativa do Cinturão e Rota), ou, mais popularmente, a Nova Rota da Seda chinesa.

A iniciativa da Nova Rota da Seda foi apresentada primeiramente em 2013. Ela consiste na ideia de uma série de investimentos, sobretudo nas áreas de transporte e infraestrutura. Esses investimentos deverão ser tanto terrestres (Cinturão), conectando a Europa, o Oriente Médio, a Asia e a África — regiões de extrema importância geopolítica — quanto marítimos (Rota), passando pelo Oceano Pacífico, atravessando o Oceano Índico e alcançando o mar Mediterrâneo.

Além disso, a ideia é que o projeto se conecte com as obras chinesas que já estão sendo feitas no continente africano e abra portas a um modelo semelhante em outras regiões. No mapa abaixo, apresentado em reportagem do jornal The Diplomat, em 2015, isso fica mais claro. As linhas pretas, verdes e vermelhas representam os projetos para a rota terrestre e a linha azul os projetos de rotas marítimas.

Imagem de Roman Wilhelm/ MERICS - The Diplomat (2015)

Imagem de Roman Wilhelm/ MERICS – The Diplomat (2015)

Segundo Xi, em discurso proferido em 2014, para a realização das obras já há coordenação com uma série de iniciativas como a União Econômica Eurasiana da Rússia; o Plano Master de Conectividade da ASEAN; a Bright Road  Initiative do Cazaquistão, a Development Road Initiative, na Mongólia; a iniciativa Dois Corredores, Um Círculo Econômico, no Vietnam, entre outras.

Tal coordenação permitiria que ideias ousadas presentes no plano, como a de um corredor de gasodutos e oleodutos na ásia central, ou uma infraestrutura de redes de telefonia, internet, rodovias e ferrovias cortando toda a Ásia e Europa, fossem possíveis.

Apesar de ampla, contudo, a Nova Rota da Seda não é pensada como um arranjo multilateral, negociado entre vários países ao mesmo tempo. Na prática, o que a China faz é organizar uma série de acordos bilaterais, feita pouco a pouco, na qual já diz contar com mais de 60 países interessados.

De onde virá o investimento para a Nova Rota da Seda?

Inicialmente, a principal fonte de investimento prevista era o Fundo da Rota da Seda, fundado em dezembro de 2014, por 4 atores:

  • Administração Estatal de Política Externa (responsável por 65% do investimento);
  • Corporação de Investimento da China (15%);
  • Banco de Desenvolvimento da China (5%);
  • Banco de Exportação e Importação da China (15%).

Era previsto que desse fundo sairiam um total de US$ 40 bilhões  para investimentos em obras de médio e longo prazo.

Além desse valor, no Fórum Internacional sobre a Rota da Seda, de 2017, o governo Chinês anunciou um incremento de US$ 70 bilhões em seu investimento na rota (sendo aproximadamente US$ 15 bilhões do governo e US$ 55 dos dois bancos envolvidos).

Há ainda a possibilidade de financiamentos de bancos internacionais. Em seu discurso de 2014, Xi afirmou que também pretende usar recursos do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB), do Banco de Desenvolvimento dos BRICS e do Banco Mundial.

O último país a aderir ao projeto foi a Itália, primeiro país do G7 (grupo das sete democracias mais industrializadas do planeta) a fazer isso. Em meio a esse grande projeto internacional, uma boa pergunta a ser feita é como o Brasil é afetado por ele.

Que impacto a Nova Rota da Seda pode ter no Brasil?

Bandeiras dos países dos BRICS perfiladas. Em ordem: Brasil, Russia, Índia, China e África do Sul (Foto: Son Pick/ Pixabay)

Bandeiras dos países dos BRICS perfiladas. Em ordem: Brasil, Russia, Índia, China e África do Sul (Foto: Son Pick/ Pixabay)

Apesar do foco do projeto da Nova Rota da Seda ser a Eurásia (Europa + Ásia) e a África, a China tem o deixado aberto para quem se interessar. O Chile, por exemplo, presente no Fórum Internacional da Rota da Seda, de 2017 (no qual o Brasil não esteve), com a antiga presidente Michelle Bachelet, afirmou na voz dela que esse é o maior projeto econômico que se debate neste momento, “adequado para novos horizontes”.

Vale lembrar que a China é o principal  parceiro econômico brasileiro. É o país para o qual o Brasil mais exporta e o segundo de quem mais importa, atrás apenas dos EUA. Também é importante lembrar que em 2017 foi criado o Fundo Brasil – China para incrementar as relações financeiras entre os dois países.

A próxima cúpula dos BRICS está prevista para o Brasil em outubro de 2019, ano em que o país também é o presidente rotativo do grupo, assim como do Mercosul. Certamente o projeto chinês será um dos pontos discutidos e pode ser que surja uma proposta de expansão da Nova Rota da Seda ao Brasil, que deverá fazer uma escolha.

Mais quais seriam os lados a se considerar nessa escolha?

Elogios e críticas ao projeto da Nova Rota da Seda

Alguns dos elogios que o projeto tem recebido são:

  • Aberto a quem se interessar, é uma oportunidade de desenvolvimento estrutural como poucas, com abundância de recursos, baseada na experiência de sucesso chinesa – sobretudo em obras na Ásia e África, e com possibilidade de se tornar a maior rede de infraestrutura da história da humanidade. Aliado a isso, está um discurso de cooperação internacional, sem utilização militar.

  • Se consolidada, a rota pode levar à criação de novos mercados e zonas de livre comércio, gerar novas zonas de abastecimento e distribuição de produtos, facilitar os deslocamentos por via terrestre e marítima e proporcionar grandes avanços na integração de seus participantes e de suas populações.

  • Com a saída dos Estados Unidos do Acordo Transpacífico e seu virtual enfraquecimento, o projeto serve de alternativa aos países da região do Pacífico.

  • Com a possibilidade de uma rota por terra, propiciando outra saída para além do estreito de Malaca, o projeto poderia diminuir as tensões na região do mar do sul da China, contribuindo para a estabilidade na região.

Por sua vez, algumas das críticas ao projeto são:

  • Alguns afirmam que o projeto é uma forma discreta de expansão da influência chinesa pelo globo. As fortes vinculações comerciais e econômicas poderiam ampliar o controle da China, sobretudo sobre as regiões mais pobres, além de ampliar seu poder sobre a Eurásia, região geopoliticamente estratégica.

  • As obras, em grande parte, acabariam nas mãos de construtoras chinesas, sendo uma forma de projeção das mesmas em detrimento de construtoras locais. Com isso, poderia haver dificuldade para lidar com a mão de obra local.

  • Questiona-se até que ponto o endividamento dos parceiros no projeto poderá ser sanado. Países africanos e os asiáticos historicamente em conflito, como o Paquistão, se enquadrariam nisso. Da mesma forma, questiona-se até que ponto os recursos direcionados ao projeto serão de fato aplicados por seus receptores e a segurança de realização das obras.

  • Questiona-se também a harmonia em torno do projeto. A não adesão da Índia, segundo país mais populoso do mundo e de extrema importância na região asiática, muito por conta de possíveis obras na Caxemira – região dividida e em disputa entre Índia, Paquistão e China – reforça a isso. Uma possível competição com os interesses russos na região também é levantada.

  • A viabilidade financeira do projeto também é posta em cheque. Seriam necessários mais recursos anuais para a sua consolidação do que os atualmente existentes e muitas das áreas pelas quais a rota passaria são áreas de conflito,o que dificultaria a realização e preservação de obras.

De uma forma ou de outra, a simples existência de um projeto de tais magnitudes já é válida para uma reflexão e observações futuras à respeito de seu andamento ou estagnação.

E você, o que pensa sobre o projeto chinês? Conte sua opinião nos comentários!

Publicado em 09 de maio de 2019.

Referências:

1) Reportagens:DW (Itália e a Rota da Seda) – El País (Aprofundamento sobre o projeto) – Época (Avanços digitais) – G1 (Sobre o fórum multilateral) – Le Monde (Opinião sobre a Rota) –Superinteressante (Algumas possíveis obras) – Discurso de Xi 2013Discurso Xi Fórum 2017 Discurso Xi 2018The Economist  – Brasil na presidência dos Brics

2) Livro: O mundo pós – Ocidental: Potências emergentes e a nova ordem global, de Oliver Stuenkel

3) Artigos:

KOTZ, Ricardo Lopes. A Nova Rota da Seda: a fundamentação geopolítica e as consequências estratégicas do projeto chinês.

FERDINAND, Peter. Westward ho—the China dream and ‘one belt, one road’: Chinese foreign policy under Xi Jinping. International Affairs, v. 92, n. 4, p. 941-957, 2016.

SWAINE, Michael D. Chinese views and commentary on the ‘One Belt, One Road’initiative. China Leadership Monitor, v. 47, n. 2, p. 3, 2015.

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