A POLÍTICA EXTERNA DA CHINA

A Grande Muralha da China (Foto: Pexels).

A China é um dos países que mais cresceu nas últimas décadas, em média mais de 10% ao ano, e tem surgido no sistema internacional como um rival para os Estados Unidos. Assim como o século 20 foi o século americano, o século 21 já é chamado por alguns, de o século chinês.  Por isso, é importante conhecer melhor e como ela atua no cenário global, este que será o país com a maior economia e forças armadas do mundo, nos próximos anos. Na América Latina e África, tem se tornado o principal parceiro econômico da maior parte dos países. Neste post vamos analisar as a política externa da China e as relações desse gigante asiático com diversos grupos e países.

A história da política externa da China

A China possui uma rica história que remonta a antiguidade, se mantendo como a maior potência regional por quase toda a sua existência. Isso teve um profundo efeito sobre a formação da identidade chinesa, que se auto-proclama o Império do Meio – que é, inclusive, o significado da palavra “China” em Mandarim.

O imperador chinês estava acima de todos os outros governantes terrenos, ele possuía um caráter de divindade que o delegava poder supremo. Por isso a civilização chinesa, na maior parte de sua história, era formada por um único Império unificado, em que as relações que possuía com outras culturas eram de pagamento de tributos ao Imperador, e não uma relação de reconhecimento mútuo. Assim, a sociedade chinesa se manteve-se por milhares de anos, quase que intocada por influências externas – ou seja, a política externa da China era quase inexistente.

No século XIX, após a Guerra do Ópio, esse isolacionismo mudou pois a China percebeu que outras culturas tinham costumes – como a forma de fazer diplomacia – diferentes dos seus, assim como capacidade materiais maiores que as suas, dispondo de navios a vapor e armas de fogo bastante desenvolvidas. Mas esses “bárbaros” – como eram considerados pelo Império da China – não tinham interesse de adotar a cultura chinesa, como havia acontecido em interações anteriores – como por exemplo, haviam feito os Mongóis que invadiram a China no séc. XIII, que com o tempo se assimilaram a cultura chinesa. Esse período é conhecido para os chineses como o “Século de Humilhação”, quando os países Europeus e o Japão influenciaram muito a política do Império e dele tiraram proveito com os Acordos Desiguais (como a perda de Hong Kong para o Reino Unido por 99 anos). O império chinês durou desde a sua criação na antiguidade até o ano de 1911.

Após décadas de turbulência interna, em 1949, o Partido Comunista Chinês tomou o controle da China Continental e assim mudou a política externa da China para o combate ao imperialismo estadunidense. Essa abordagem foi abandonada na década de 60 e 70, após a separação ideológica da União Soviética, a outra potência comunista, e a aproximação com os Estados Unidos. Com o governo de Deng Xiao Ping e o processo de abertura econômica, o país ficou mais dependente das economias capitalistas e assim deixou de fazer oposição mais forte a países por motivos ideológicos.

O cenário atual é marcado pela importância mundial chinesa na política e na economia (segunda maior economia mundial). O país poderia ser caracterizado como subdesenvolvido, pois ainda possui um PIB per capita e IDH abaixo daqueles considerados altos, e isso diz muito sobre as suas posições internacionais, como a defesa do Multilateralismo, que seria a igualdade entre os desenvolvidos e subdesenvolvidos nas instituições internacionais.

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A política externa da China atualmente

Atualmente, a política externa da China vai ao encontro de um dos seus principais objetivos: se estabelecer com uma grande potência no sistema internacional, possuindo grande capacidade econômica para influenciar as ações dos outros países. O país tem estabelecido uma capacidade militar cada vez maior, através do aumento do investimento nas Forças Armadas.

Com a distanciação entre os Estados Unidos e a Europa, após a vitória de Trump, a China tem se colocado como defensora do multilateralismo frente ao isolacionismo americano. Mas o que isso significa? Bom, o multilateralismo é a defesa de uma configuração das relações políticas entre os países que seja mais aberta e igualitária, em oposição a um sistema, por exemplo, como o da Guerra Fria, bipolar. Já o isolacionismo é quando um país se isola das questões mundiais, deixa-as em segundo plano, em oposição ao globalismo, que seria a maior integração dos países, como faz Donald Trump atualmente. Ou seja, a China defende, atualmente, por exemplo, as organizações internacionais, como a ONU e a OMC. Enquanto os Estados Unidos, as criticam por sua tentativa de impor agendas como do clima e dos Direitos Humanos, até mesmo, saindo do Acordo de Paris sobre o clima, e da Unesco.

Vamos dar uma olhada na política externa da China e como se dá a sua relação com diversos países e grupos:

Europa

As relações entre a Europa e a China, principalmente na esfera comercial, têm aumentado consideravelmente nos últimos anos. A China possui grande quantidade de títulos da dívida pública de diversos países europeus, pois é de seu interesse que eles continuem a comprar produtos chineses, mantendo a sua capacidade de pagar suas dívidas e fazer novas.

A Europa por outro lado, é uma grande exportadora de serviços para a China, como serviços financeiros e de logística. Os países europeus também são favorecidos pela iniciativa One Belt One Road, que se propõe a ligar a China com a Ásia Central e a Europa por meio de investimento em logística, como ferrovias e portos.

Foto oficial dos Chefes de Estado e de Governo do Brics e do diálogo de economias emergentes e países em desenvolvimento (Foto: Beto Barata | Agência Brasil).

África

O gigante asiático tem aumentado enormemente a sua presença no continente africano, fazendo grandes investimentos em infraestrutura e empréstimos aos países africanos. Esses empréstimos não tem requisitos como a manutenção dos direitos humanos ou imposições políticas que países ocidentais costumam fazer, e normalmente são maiores e a juros menores do que aqueles praticados pelo ocidente. São bastante atrativos a ditadores africanos que veem as instituições internacionais como interventoras nas questões internas. A política externa da China na África é interpretada por alguns analistas como imperialista, por tentar criar uma relação da China com a África, similar áquela que os países ocidentais faziam com o continente – e ainda fazem em alguma medida – de exploração de matérias primas, sem dar em retorno condições para o desenvolvimento dessa região.

Sudeste asiático

A China possui relações boas com parte dos países da região do sudeste da Ásia, que são destino de muitos investimentos chineses e de empresas que usam de mão de obra barata – mais barata que a chinesa.

Porém, a disputa do Mar do Sul da China gera atrito entre os chineses e outros países da região, como o Vietnã, Malásia e Filipinas, tendo a China criado ilhas artificiais com bases militares, aumentando a sua presença nessa área estratégica, por onde passa boa parte do comércio mundial. Essa política expansionista é resultado da percepção chinesa de que esse território é seu por direito histórico, desde a época imperial, como no caso do Tibet.

Taiwan

O país ainda é considerado pela China como uma província rebelde, portanto ambos não se reconhecem – dividindo o mundo entre países que reconhecem a existência de um ou do outro. Os outros países do mundo podendo apenas reconhecer um deles. No entanto, atualmente muitos países que antes reconheciam o Taiwan passaram para o lado chinês, principalmente por causa dos investimentos e da maior importância da China na economia mundial.

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América Latina

Países como Brasil, Chile e Peru têm no gigante asiático o seu principal parceiro económico, portanto com que mais fazem comércio no mundo. Alguns autores interpretam que essas relações, assim como com a África, se configuram como um regime de exploração, apenas por outra potência que não os EUA.

O país com relações políticas mais fortes com a China seria a Venezuela, que recebe muitos recursos para a manutenção do regime de Nicolás Maduro e para continuar a enviar petróleo à China, destino de 18% das exportações venezuelanas. Além disso, empresas chinesas também estão  em vários outros países atuando principalmente nas áreas de energia e infraestrutura.

Brasil

O nosso país tem relações políticas e econômicas próximas à China. Na economia, o país asiático é o principal parceiro comercial do Brasil, desde 2009, ampliando-se as trocas comercias de US$ 3,2 bilhões em 2001 para US$ 66,3 bilhões em 2015. Os chineses são o destino de 19% de nossas exportações, principalmente soja (39%), minério de ferro (20%) e petróleo cru (11%), além de serem a origem de 17% de nossas importações, como maquinários (46%), produtos químicos (14%) e têxteis (9%). O Brasil obteve um superávit comercial (mais exporta do que importa) récorde com a China, de US$ 67 bilhões em 2017 sendo este valor 40,5% superior ao de 2016.

Aproveite para saber tudo sobre o comércio Brasil-China.

A China é uma das principais fontes de investimento no Brasil, sendo as principais áreas de destino a energia, a mineração, a siderurgia e o agronegócio. Entretanto, tem ocorrido uma diversificação desses investimentos para áreas como telecomunicações, automóveis, máquinas, serviços bancários e infraestrutura. Empresas chinesas investiram US$ 21 bilhões em 2017 comprando usinas, distribuidoras de eletricidade e portos no Brasil.

Além dos investimentos de um país no outro, ambos intensificaram a cooperação financeira em âmbito bilateral e multilateral, com a chegada de diversos bancos chineses ao Brasil e do Banco do Brasil chegando na China, o primeiro latino-americano no país.   

Na área da política internacional, Brasil e China estão presentes juntos em vários mecanismos internacionais, como os BRICS e o G20 (os 19 países mais ricos do mundo e a União Europeia). Em 2014, durante a VI Cúpula dos Brics de Fortaleza, foi criado o Novo Banco do Desenvolvimento do BRICS, que rivaliza com o Banco Mundial. Ambos os países podem ser considerados emergentes, portanto defendem um sistema multilateral aonde os países do Terceiro Mundo tenham voz. Essa história pode ser lida no site do Itamaraty!

E que tal saber mais sobre a relação dos Estados Unidos com a China? Vai lá entender mais sobre essa guerra comercial.

Conseguiu entender mais sobre a política externa da China? Deixe suas dúvidas e sugestões nos comentários!

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Referências do texto: confira aqui onde encontramos dados e informações!

Publicado em 14 de janeiro de 2019.
diego trentin no Politize!

Diego Trentin

Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atualmente atua como membro do grupo de extensão parte do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INEU) e do grupo de empreendedorismo social ENACTUS.