O que é taxa Selic e como ela afeta sua vida?

Entenda de uma vez por todas a tal da taxa SELIC

Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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Em fevereiro de 2018, a taxa básica de juros, mais conhecida como taxa Selic, sofreu mais um corte e passou a valer 6,5% ao ano (a menor taxa desde 1986). Parece pouca coisa, pode até soar banal. Mas o fato é que os movimentos da taxa de juros são muito importantes para a economia nacional e, consequentemente, para você. Vamos entender por quê?

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O que é a taxa de juros SELIC?

A taxa Selic (Sistema Especial de Liquidação e Custódia) é um índice que orienta os bancos e outras instituições financeiras em relação à cobrança de juros. Juros são a remuneração que alguém recebe ao emprestar dinheiro por certo período de tempo. É por isso que a Selic é chamada taxa básica de juros: é uma referência para o resto do mercado.

Primariamente, ela é usada em empréstimos interbancários (entre bancos) e nas aplicações de instituições financeiras em títulos públicos federais. Mas ela acaba refletindo também em todos os produtos financeiros disponíveis para o consumidor. Empréstimos, financiamentos e aplicações financeiras todas têm como referência básica da Selic.

Isso não quer dizer que os produtos que os bancos oferecem ao consumidor equivalem à Selic. Os juros desses produtos costumam ser muito maiores que a taxa básica, pois também incluem o lucro do banco, custos operacionais, impostos e o risco de não receber o dinheiro de volta. Essa diferença entre o que um banco paga ao tomar dinheiro emprestado (normalmente algo próximo à Selic) e o que cobra ao emprestar dinheiro é chamado de spread bancário. O spread brasileiro é simplesmente o maior do mundo, segundo revelam dados do Banco Central.

Quem regula a taxa Selic?

O responsável por determinar a taxa Selic é o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom). Esse comitê se reúne a cada 45 dias (oito vezes ao ano) para decidir o novo valor da Selic. O Copom existe desde 1996 e sua maior responsabilidade é cuidar da taxa básica. Os membros do Copom pertencem à diretoria colegiada do Banco Central. São eles:

  • o presidente do Banco Central;
  • o diretor de Política Monetária;
  • o diretor de Política Econômica;
  • o diretor de Assuntos Internacionais e Gestão de Riscos Corporativos;
  • o diretor de Organização do Sistema Financeiro e Controle de Operações do Crédito Rural;
  • o diretor de Fiscalização;
  • o diretor de Regulação;
  • o diretor de Relacionamento Institucional e Cidadania; e
  • o diretor de Administração.

Esses nove membros decidem a nova Selic por maioria. O “voto de minerva” – para desempate – pertence ao Presidente do Banco Central.

Qual a importância da taxa Selic?

Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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Como vimos, a taxa Selic regula o custo de se emprestar dinheiro no país. Quando a taxa está muito alta, o custo de empréstimos e financiamentos também aumenta, o que desestimula o consumidor a contrair esses produtos. Assim, o consumo diminui e, por sua vez, a inflação tende a cair. Ou seja, a taxa de juros tem relação direta com a taxa de inflação no Brasil. A inflação é tida como uma das maiores vilãs da economia, pois ela corrói o valor do dinheiro. Você pode saber mais sobre a inflação neste post do Politize.

Mas o impacto da Selic na economia brasileira não para por aí. Ela também tem relação forte com a taxa de câmbio. Se você não sabe, o câmbio é o valor da nossa moeda em relação a moedas estrangeiras, como o dólar. Como uma coisa tem a ver com a outra? Vamos entender.

Quando a taxa Selic brasileira está alta, investidores internacionais se interessam por aplicar seu capital aqui. Assim, eles podem conseguir rendimentos maiores do que em outros lugares, com taxas de juros menores. Esses investidores estrangeiros aplicam utilizando dólares. Ou seja, quanto maior a taxa de juros, maior a oferta de dólares na economia brasileira. E, como há mais dólares circulando, o preço dessa moeda também fica mais barato. Portanto, a taxa de juros tem impacto sobre a taxa de câmbio. Se você não entende por que o valor do dólar importa tanto pra nossa economia, você pode ler este post.

Por fim, a taxa Selic também afeta o mercado de capitais. Quando ela está muito alta, favorece aplicações como a poupança, a renda fixa e títulos públicos. Por outro lado, uma taxa de juros alta afeta as aplicações na Bolsa de Valores, que envolvem maior risco e estão atreladas ao lucro das empresas. Como já vimos, a taxa de juros mais alta desestimula o consumo, o que impacta negativamente a taxa de lucro. Aliás, esse é mais um reflexo da taxa de juros. Como há menos consumo, há também menos produção, o que tende a aumentar o desemprego.

Por que a taxa de juros brasileira é tão alta?

Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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O dado é assustador: o Brasil possui a taxa de juros real mais alta do mundo. O valor real da taxa de juros é resultado da taxa nominal (ou seja, 14% a.a.) descontada pela taxa de inflação. Segundo levantamento da Infinity Asset Management, com dados de setembro de 2016, a taxa de juros real brasileira é de 8,49% ao ano, muito acima do segundo colocado, a Rússia, cuja taxa é de 4,27%.

Por que, afinal, o Brasil convive com juros tão altos? Esse é um problema muito discutido e há várias hipóteses em relação às causas. Vamos conhecê-los.

Gastos do governo

Alguns atribuem os juros altos às despesas do governo brasileiro. Historicamente, o governo gasta mais do que recebe e por isso precisa recorrer ao setor privado para se financiar. Isso diminui a oferta de dinheiro e, por consequência, encarece seu custo (ou seja, os juros). Também temos problemas de longa data com a dívida pública, o que já nos levou a diversos calotes.

Pouca abertura comercial

Além disso, o baixo nível de integração do país com o comércio internacional também dificulta a entrada de divisas (dólares) no país, forçando o governo a aumentar os juros para garantir a disponibilidade de dólares, o que é necessário porque o Brasil tem obrigações externas nessa moeda.

Poupança insuficiente

Segundo economistas convidados pelo Centro de Lideranças Públicas, o maior agravante da taxa de juros é a insuficiência de poupança voluntária no Brasil. A poupança seria a forma de financiar o déficit público. Como ela não é suficiente, outros mecanismos precisam compensar esse déficit. O primeiro seria a inflação, que compensa o prejuízo ao diminuir a renda e o consumo. A inflação seria uma espécie de poupança forçada. Mas, como o Brasil controla a inflação, é preciso recorrer a taxas de juros altas para estimular a poupança e diminuir o consumo. Apenas assim seria possível cobrir os gastos excessivos do governo.

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Taxa de juros é usada para muitos objetivos

Uma tese alternativa para a taxa de juros ser tão alta é que ela é usada para alcançar múltiplos objetivos, muitas vezes contraditórios entre si. Segundo André Modenesi e Ruy Modenesi, seriam pelo menos cinco:

1) restringir a demanda agregada, para controlar a inflação;

2) evitar a desvalorização cambial, a fim de conter inflação de custos;

3) estimular a entrada de capitais, para equilibrar o BP;

4) incentivar a compra de títulos, com vistas a financiar o déficit público; e

5) diminuir o déficit comercial, via contenção da demanda.

Para atender tantos propósitos, a taxa de juros precisaria permanecer em níveis elevados.

Fatores políticos

Ainda existe a tese de que há resistência política para a redução das taxas de juros. De um lado, o Banco Central ficaria receoso em diminuir os juros, a fim de manter uma imagem de instituição responsável. Por outro lado, haveria a pressão de grupos que se beneficiam de aplicações financeiras muito rentáveis. Os interesses impediriam, portanto, a queda da taxa de juros, mesmo em momentos em que a inflação está controlada.

A taxa Selic caiu. Por que isso aconteceu e qual o efeito na economia?

Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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Pela primeira vez em quatro anos, o Copom decidiu cortar a taxa Selic. As decisões do Copom dependem muito do cenário econômico e político nacional e internacional. No momento atual, há um otimismo em relação ao futuro da economia do país. A inflação, por exemplo, está retraindo mais do que o esperado. Isso abre espaço para que a taxa de juros diminua.

Conforme vimos nas seções anteriores, a queda da taxa de juros é um bom sinal para a economia. Significa que o custo de se emprestar dinheiro diminuiu e, portanto, fica mais fácil consumir. O aumento do consumo aumenta também investimentos e o nível de emprego. Ou seja, há mais espaço para a economia crescer.

Por outro lado, a queda da taxa de juros pode estimular o crescimento da inflação e o aumento do dólar. É justamente para evitar que câmbio e inflação disparem que o Copom fez uma redução pequena, de apenas 0,25 pontos percentuais. Por isso, não se engane, a taxa de juros terá de cair ainda mais para o país voltar à rota do crescimento. E para isso, terá de atacar outros problemas, como o desequilíbrio de contas do governo, a dívida pública e a falta de abertura comercial.

Fontes: G1.

Publicado em 04 de novembro de 2016. Última atualização em 08 de fevereiro de 2018.

Bruno André Blume

Bacharel em Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e editor de conteúdo do portal Politize!.