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Reaproximação de Cuba e Estados Unidos

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No final de 2015, a decisão dos presidentes Barack Obama e Raúl Castro de retomar as conversas entre Cuba e Estados Unidos para que os laços diplomáticos fossem reatados foi histórica. Desde então, a relação entre os dois países vem aos poucos se estreitando em direção ao que parece ser o fim de um dos mais conhecidos conflitos geopolíticos. Entenda como esse conflito começou e o que a reaproximação significa para a política mundial.

Se preferir, ouça nosso episódio de podcast sobre esse assunto!

Listen to “#029 – Reaproximação de Cuba e Estados Unidos” on Spreaker.

Como surgiu o conflito?

Até a década de 1950, Cuba e Estados Unidos eram grandes aliados. Cuba era governada por uma ditadura militar chefiada por Fulgêncio Batista, aliado dos EUA. A economia do país era baseada na exportação de tabaco e açúcar e a ilha sofria graves problemas sociais, como concentração fundiária e miséria da população rural. As indústrias de açúcar e muitos hotéis eram dominados por grandes empresários norte-americanos e, ao mesmo tempo, a capital Havana possuía cassinos e festas para os americanos, que usavam Cuba como uma espécie de colônia de férias.

Esse cenário de desigualdade, dependência econômica e forte influência dos EUA na política cubana levou à formação de uma guerrilha camponesa liderada por Fidel Castro e Ernesto Che Guevara. Em 1959 os revolucionários depuseram Fulgêncio Batista e o episódio ficou conhecido como Revolução Cubana.

O grupo de Fidel era nacionalista e, pela dinâmica da revolução, nacionalizou bancos e empresas estrangeiras, desapropriou as grandes propriedades de monocultura e realizou uma reforma agrária, o que provocou vários conflitos com os norte-americanos, donos de empresas e de grandes extensões de terra.

O governo estadunidense buscou todas as formas de conter a consolidação do Estado revolucionário cubano. Em 1961 o presidente John F. Kennedy articulou uma invasão militar em Cuba, no fracassado desembarque na Baía dos Porcos. No ano seguinte, Cuba estabeleceu aliança com a então União Soviética e aderiu ao modelo socialista. No mesmo ano, a possível instalação de mísseis soviéticos na ilha levou à grave “Crise dos Mísseis”.

O relacionamento entre Cuba e Estados Unidos se rompeu quase completamente depois de 1962. No mesmo ano, os EUA impuseram um severo embargo econômico à Cuba, ou seja, uma interdição proibindo qualquer tipo de relação comercial, financeira ou econômica com a ilha. O objetivo era tentar fazer com que a população, privada do acesso a bens de consumo, e empresas, impedidas de realizarem negociações comerciais com as companhias norte-americanas, forçassem a queda de Fidel Castro. A situação econômica de Cuba se precarizou após a queda da União Soviética, que financiava quase todas as atividades da ilha durante a Guerra Fria.

Desde que assumiu o governo, Raúl Castro tem realizado reformas para diminuir o controle do Estado sobre a economia, ao mesmo tempo em que procura novos  investimentos e tenta se aproximar de países como Rússia e China. Ele também abriu a economia para o turismo e para captação de investimentos externos. Depois desse “relaxamento” do governo cubano, os Estados Unidos começaram a rever algumas sanções, mas sem derrubar o embargo completamente.

Como começou a reaproximação entre os dois países?

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As conversas entre o governo de Cuba e Estados Unidos começaram em junho de 2013. Foram realizados diversos encontros entre os representantes dos dois lados no Vaticano e no Canadá. Segundo a Casa Branca, o Papa Francisco teve papel crucial na reaproximação. Em pronunciamento naquele ano, Barack Obama lembrou que os EUA já possuíam relações econômicas com a China há 35 anos, um país comunista de longe muito maior do que Cuba, assim como também também reatou relações com o Vietnã alguns anos antes.

O anúncio da retomada das relações foi feito oficialmente em 17 de dezembro de 2014. Após a troca de prisioneiros entre os dois países, o presidente Obama declarou que estava pronto para negociar os termos da reaproximação.

Em junho de 2015, os Estados Unidos retiraram Cuba da lista dos países patrocinadores do terrorismo. O país havia entrado na lista após oferecer exílio a fugitivos procurados nos EUA e acolher membros de grupos terroristas como do basco ETA e das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). A retirada de Cuba da lista era uma reivindicação do governo cubano para o pleno restabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países.

A lista dos países que contribuem com o terrorismo global tinha quatro países: Cuba, Irã, Sudão e Síria. A retirada de Cuba foi importante para o restabelecimento das relações políticas e diplomáticas e também por representar uma mudança de percepção clara do governo norte-americano com a ilha.

Em 20 de julho de 2015 a embaixada de Cuba foi reaberta oficialmente em Washington, nos Estados Unidos, após 54 anos do rompimento das relações entre os dois países. Em março de 2016, o presidente Barack Obama fez uma visita a Cuba para participar da cerimônia de reabertura da embaixada estadunidense em Havana.

Apesar dos esforços de Barack Obama em reaproximar as duas nações, logo após assumir a presidência dos Estados Unidos no início de 2017, o governo Donald Trump anunciou uma revisão completa das políticas do país em relação a Cuba. Segundo o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, o foco da revisão está nas políticas de direitos humanos, já que Cuba é acusada pelos norte-americanos de violar estes princípios ao perseguir opositores políticos.

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Por que o embargo econômico ainda continua?

Apesar da visita ter sido um marco histórico, ela representa poucas mudanças na relação econômica entre Cuba e Estados Unidos, visto que o embargo não deixou de existir. Isto porque para pôr fim ao embargo os Estados Unidos precisam da aprovação do Congresso. Obama faz parte do partido Democrata e o Congresso do país é composto em maioria por membros do partido Republicano, fortes opositores do atual presidente. Por isso, a situação do embargo continua indefinida, e sua resolução vai depender dos resultados da próxima eleição, que acontece em novembro deste ano.

Para Cuba, a retomada das relações econômicas com os Estados Unidos representa também uma nova relação com o restante do mundo. Visto que o embargo proibia todos os países parceiros dos EUA de comercializarem com o país cubano, o fim da barreira significa o estabelecimento de novas relações econômicas de comércio e abertura de empresas estrangeiras no país. Para Obama, tudo isso contribuirá para a modernização da ilha socialista e sua retomada ao século 21.

Publicado em 25 de outubro de 2016. Atualizado em 3 de fevereiro de 2017.

Isabela Souza

Estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e assessora de conteúdo do Politize!.