A guerra civil na Síria

Tempestade de areia na cidade destruída de Douma, área dominada pelos rebeldes, em 7 de setembro de 2015.

No dia 13 de abril de 2018, o presidente dos EUA, Donald Trump, enviou mísseis aéreos a estabelecimentos de produção de armas químicas, com apoio diplomático e bélico de países como França e Inglaterra. O estopim para essa decisão foi o ataque químico que aconteceu no início do mês, em uma cidade ocupada por rebeldes ao governo de Bashar al-Assad.

A ONU considera que a guerra civil na Síria é a maior crise humanitária do século XXI. Hoje, estima-se que o conflito vitimou ao menos 400 mil pessoas, que mais de 5 milhões tenham saído do país como refugiadas e que outros 11 milhões foram obrigadas a se deslocar dentro da Síria. Com a economia em frangalhos, quase 80% dos sírios que permaneceram agora vivem abaixo da linha de pobreza. Como começou tudo isso?

Março de 2011 na Síria. Um grupo de crianças em Daraa, no sul da Síria, pichou frases com críticas ao governo, e foi preso. Inconformadas, centenas de pessoas saem às ruas da cidade para protestar contra as restrições à liberdade promovidas pelo governo do ditador Bashar Al-Assad. Num primeiro momento, simpatizantes dos que se rebelaram contra o governo começaram a pegar em armas – primeiro para se defender e depois para expulsar as forças de segurança de suas regiões. Esse levante de pessoas nas ruas, lutando por democracia, faz parte de um movimento chamado Primavera Árabe e podemos dizer que esse processo culminou no início da guerra civil na Síria.

Se preferir, ouça nosso episódio de podcast sobre esse assunto!

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O que foi a Primavera Árabe?

A chamada Primavera Árabe foi um fenômeno que aconteceu em países do Oriente Médio e do norte da África, em que pessoas – principalmente os jovens – tomaram as ruas pedindo liberdade de expressão, democracia e justiça social. Essas revoltas foram esperançosas para grande parte desses países, que eram ditaduras longevas – e, de fato, presidentes do Egito, da Tunísia, da Líbia caíram.

Porém, seis anos depois do início dessa primavera, pode-se dizer que o único caso de “sucesso” foi o da Tunísia, onde ocorreram eleições diretas, foi aprovada a Constituição mais progressista do mundo árabe e se elegeu um novo governo. No resto dos países, esse clima de tensão acirrou as disputas de poder entre milícias e favoreceu a expansão de grupos terroristas. Isso deu espaço a governos ainda mais autoritários que os anteriores.

Como a guerra civil na Síria se intensificou?

Após a represália do governo de Assad contra os jovens que estavam se rebelando contra o regime, alguns grupos foram formados a fim de combater, de fato, as forças governamentais e tomar o controle de cidades e vilas. A batalha chegou à capital, Damasco, e depois a Aleppo em 2012. Mas desde que começou, a guerra civil na Síria mudou muito.

O Estado Islâmico aproveitou o vácuo de representação por parte do governo, a revolta da sociedade civil e a guerra brutal que acontece Síria para fazer seu espaço. Foi conquistando territórios tão abrangentes, tanto na Síria como no Iraque, que proclamou seu ‘califado’ em 2014. Para isso, tiveram de lutar contra todos: rebeldes, governistas, outros grupos terroristas – como se tivessem feito uma guerra dentro da guerra.

Há evidências de que todas as partes cometeram crimes de guerra – como assassinato, tortura, estupro e desaparecimentos forçados. Também foram acusadas de causar sofrimento civil, em bloqueios que impedem fluxo de alimentos e serviços de saúde, como tática de confronto.

Agentes externos: EUA x Rússia

Pelo avanço do Estado Islâmico no ganho de territórios, os Estados Unidos fizeram ataques aéreos na Síria em tentativa de enfraquecê-lo, evitando ataques que pudessem beneficiar as forças de Assad – isso em 2014, mas que se repetiu em 2018. Em 2015, a Rússia fez o mesmo contra terroristas na Síria, mas ativistas da oposição dizem que os ataques têm matado civis e rebeldes apoiados pelo Ocidente.

O resumo da obra em termos de apoio é esse: a Rússia e os Estados Unidos querem o fim do Estado Islâmico. Porém, os Estados Unidos querem a queda do governo de Bashar Al-Assad – por considerarem que seu regime não-democrático é prejudicial à Síria – e, por isso apoia os rebeldes; por outro lado, a Rússia acredita na força de Assad e está apoiando seu regime. A Síria, então, é o território do fogo cruzado dessa guerra fria.

Grupos envolvidos no conflito da Síria

GOVERNO SÍRIO E ALIADOS

O governo sírio é liderado pelo ditador Bashar Al-Assad. Ele é sucessor de uma família que está no poder desde 1970. O regime no país era brutal com a população, de partido único e laico – apesar de a família Assad ser alauita, ele não é religioso, de acordo com o Estadão. Apesar de não apoiarem o ditador, cristãos, xiitas e até parte da elite sunita preferem ver Assad no poder diante da possibilidade de ter um país tomado pelos extremistas.

Quanto às alianças externas, Assad conta com o apoio do Irã e do grupo libanês Hezbollah. Juntos eles formam um “eixo xiita” – ou seja, seguem essa interpretação da religião islâmica – no Oriente Médio. O grupo se opõe a Israel e disputa a hegemonia no Oriente Médio com as monarquias sunitas, lideradas pela Arábia Saudita. O principal aliado de fora é a Rússia, que mantém uma antiga parceria com a Síria. Tanto o apoio do Hezbollah e das milícias iranianas, quanto os bombardeios de 2016 realizados pelas forças russas, têm sido fundamentais para a sobrevivência do regime de Assad e o seu recente fortalecimento no conflito.

Foto: Richard Harvey.

GRUPOS REBELDES

Uma das primeiras forças internas que se rebelou contra o governo sírio foram os grupos sunitas, que se opunham a Assad, que é xiita. Os sunitas têm dezenas de ramificações e ideologias, mas unem-se com o princípio básico de derrubar Assad. São chamados de “rebeldes moderados”, por não serem adeptos do radicalismo islâmico. A maior expressão entre eles é o Exército Livre da Síria (ELS). A organização está envolvida com países da Europa e com os Estados Unidos com o objetivo de derrubar o governo de Assad. Três grandes potências no Oriente Médio também colaboram com os rebeldes: Turquia, Arábia Saudita e Catar, relevando os interesses dos países próximos à Síria, também.

Foto: Richard Harvey.

Rebeldes na Síria.

EXTREMISTAS ISLÂMICOS

Entre os grupos que querem derrubar Assad, há também facções extremistas islâmicas, que estão fragmentadas em diversos grupos. Uma das organizações que mais conquistaram terreno, principalmente nos primeiros anos do conflito, foi a Frente Al-Nusra, um braço da rede extremista Al Qaeda na Síria. Posteriormente, a partir de 2013, o grupo terrorista Estado Islâmico (EI) aproveitou-se da situação de caos criada pela guerra civil e, vindo do Iraque, avançou de forma avassaladora e brutal, ocupando metade do território sírio. Em 2014, o E.I.  dominou algumas áreas na Síria e no Iraque, as quais chamou de califados – o termo se refere aos antigos impérios islâmicos depois de Maomé, que seguiam rigorosamente as leis islâmicas. É considerada a organização terrorista mais poderosa e perigosa no mundo hoje.

Foto: Richard Harvey.

Estado Islâmico

CURDOS

Os curdos são uma etnia apátrida (sem Estado e território próprios) de 27 a 36 milhões de pessoas. Eles vivem em diversos países, inclusive na Síria, e reivindicam a criação de um Estado para o seu povo – o Curdistão. Desde o início do conflito na Síria, uma milícia chamada Unidade de Defesa Popular foi formada para defender as regiões habitadas pelos curdos no norte do país e se fortaleceu tanto que hoje tomou conta de um grande território perto da fronteira turca. Para o regime de Assad, tornaram-se bastante úteis, porque a milícia se opõe tanto aos rebeldes moderados como aos extremistas do Estado Islâmico.

Foto: Richard Harvey.

O fortalecimento do regime sírio com a retomada da cidade Aleppo em 2016

Um dos episódios mais importantes e marcantes foi a retomada da cidade de Aleppo, em 2016, por meio de uma operação militar do ditador sírio Bashar Al-Assad. A cidade é a segunda mais importante do país depois da capital Damasco e a mais populosa, localizada ao norte, a 60 quilômetros da fronteira com a Turquia.

Como foi a retomada de Aleppo por Assad? No início da guerra, os rebeldes moderados dominaram o lado oriental da cidade, onde aconteciam os embates com o governo, que continuava controlando o lado ocidental. Em meados de 2016, Assad mobilizou tropas militares juntamente com seus aliados – a Rússia, o Irã e a milícia libanesa Hezbollah – a fim de desestabilizar a sua oposição. Dezenas de aviões russos bombardeavam redutos – locais estratégicos – dos rebeldes e mataram milhares de pessoas dentre a população; enquanto isso, o exército sírio, militares da Guarda Revolucionária do Irã e combatentes do Hezbollah avançaram por terra.

A retomada de Aleppo foi imprescindível para o fortalecimento do governo sírio porque era uma das últimas grandes cidades ainda sob o controle dos grupos opositores e também porque era o local onde os opositores do regime pretendiam instalar uma “capital” da Síria anti-Assad.

Em meados de 2017, o governo sírio está em vantagem perante os outros grupos envolvidos no conflito. Logo após a retomada de Aleppo por Assad, os rebeldes e o governo sírio fizeram um acordo de cessar-fogo que foi constantemente violado por ambas as partes. Essa medida, porém, permitiu que a ajuda humanitária chegasse até o local e retirasse os civis das áreas mais afetadas pela guerra. Mas, como esse acordo foi fragilmente concebido, em janeiro de 2017, os rebeldes desfizeram o cessar-fogo estabelecido.

E você, o que acha sobre a guerra civil na síria? Deixe sua opinião nos comentários!

Publicado em 21 de outubro de 2016. Última atualização em 14 de abril de 2018.

Carla Mereles

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), colunista do Uma Boa Dose e assessora de conteúdo do Politize!.