Religião e política não se discutem?

Tipologia ajuda a entender as diferenças entre religiosos na política

Foto: noticias.gospelmais.com.br

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“Política e religião não se discutem” é uma regrinha utilizada para manter a paz nos almoços da casa da avó ou o último verniz de civilidade nas reuniões de condomínio. Quando o assunto é “religião na política” o cenário tende a ficar mais explosivo, podendo atingir as proporções de uma batalha épica.

Estes assuntos realmente fazem o sangue ferver e por conta disso muitas vezes a gente deixa de se informar melhor sobre eles, infelizmente, uma coisa leva à outra. Ao não nos informarmos, é fácil acreditar que algo que a gente discorda é provavelmente mais um caso de burrice ou de safadeza, ou pior, se for um assunto um pouco mais distante, a gente tende a generalizar esta opinião negativa para todo um grupo.

Porém, com os discursos espirituais ganhando espaço no mundo político, participar desta discussão é cada vez mais necessário. Será que existe alguma chave para interpretar este fenômeno e fugir destas simplificações tão comuns?

O sociólogo português, Boaventura de Sousa Santos, pode nos ajudar nesta tarefa. Ele chama de teologia política os discursos que reivindicam a presença da religião na esfera pública, porém, ele notou que as semelhanças entre os diversos grupos acabam aí e propôs uma tipologia para poder abordar a complexidade desta realidade.

Para entender tal tipologia é preciso lembrar que até cerca de dois séculos atrás religião e política andavam juntas. A coisa começou a mudar quando o Iluminismo propôs que o Estado deveria ser laico, ou seja, pautado pela lógica racional. Esta filosofia animou várias correntes que quando chegaram ao poder limitaram a influência política das religiões. Porém, até hoje as religiões tentam responder a isso, buscando reintroduzir os textos sagrados como elementos capazes de influenciar a vida pública e pelo que Boaventura percebeu tais respostas teológicas podem ser distribuídas entre dois extremos:

Pluralistas

Acreditam que a revelação (ou textos sagrados) podem auxiliar na organização política da sociedade, porém aceitam a autonomia entre ambas. O texto sagrado ocorre em um contexto social específico, portanto deve ser interpretado de modo a encontrar um princípio que possa ser aplicado no contexto social atual.

Fundamentalistas

Acreditam que a revelação deva estruturar a sociedade em todas as suas dimensões. Historicamente este termo foi criado no início do século XX por protestantes do sul dos EUA que ao desejarem se diferenciar das teologias modernas elencaram “Os Fundamentos” que um cristão deveria seguir, posteriormente tal termo ganhou também uma acepção quase pejorativa ao ser aplicado a grupos radicais islâmicos. Tanto nos fundamentalismos cristãos quanto nos islâmicos há um princípio escrituralista*, ou seja, o texto sagrado independe do contexto social e deve ser entendido do modo mais literal possível.

O sociólogo traça ainda um segundo eixo para classificar tais teologias de acordo com suas intervenções políticas. As extremidades de tal eixo são:

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Tradicionalistas

As diferenças sociais, por já existirem também nos textos sagrados, são encaradas como naturais, inevitáveis ou até mesmo investidas de um significado que atende a algum desígnio divino. O passado glorioso existente nos textos sagrados é usado para demonstrar que as regulações sociais daquela época funcionam e portanto são um bom caminho para resolver os problemas do presente.

Progressistas

As desigualdades são desnaturalizadas e vistas como decorrentes de questões de um sistema social e econômico que atenta contra os princípios da religião. Traçam uma distinção entre a religião que se preocupa com os “oprimidos” e uma religião institucional que ajuda a manter os privilégios de quem esteja no poder. O progressismo tem ainda uma tendência ecumênica e inter-religiosa.

Religiosos na política: exemplos

Foto: Jeb2016.

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Para entender como o tradicionalismo tem se relacionado com a política podemos usar como exemplo o tratamento que George W. Bush, ex-presidente dos EUA, deu durante sua gestão às políticas sobre gravidez e DSTs na adolescência. Tal presidente era contra a educação sexual para adolescentes e em razão disso preferiu apoiar campanhas sobre castidade realizadas por grupos religiosos que incentivavam os jovens a manterem a virgindade como a melhor maneira de evitar uma DST ou gravidez na adolescência.

No Brasil, podemos citar a pressão política que grupos religiosos tradicionais vêm exercendo para a aprovação de leis que interditam discussões sobre discriminação contra homossexuais nas escolas. Ao mesmo tempo existem outros grupos religiosos com postura bem mais branda, tal como os luteranos, que em mais de uma ocasião se posicionam publicamente contra leis que façam aumentar a violência contra homossexuais e que possuem inclusive uma diretriz interna de não discriminar pastores que possuam um parceiro do mesmo sexo.

Bispo da Igreja Universal Edir Macedo. Foto: http://www.cacoalnews.com.br/

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Resumindo: o que o sociólogo português demonstra é que não dá para colocar todos os religiosos no mesmo balaio, pois tanto entre cristãos como entre islâmicos há uma pluralidade de olhares políticos diferentes. Se por um lado crescem visões fundamentalistas e tradicionalistas que buscam no passado o modo adequado que as mulheres devem se comportar, em outro extremo é possível encontrar grupos femininos que partem dos próprios textos sagrados para defenderem uma maior igualdade de direitos para as mulheres de sua religião tanto no islamismo quanto no cristianismo.

Esta é uma tipologia aparentemente simples, porém muito poderosa para se analisar como as visões dos religiosos políticos se articulam com a visão de mundo da própria pessoa que olha. Porém, deve-se tomar sempre muito cuidado, pois dentro das próprias Igrejas há um debate de ideias e frequentemente o que uma liderança defende é bem diferente do que diz um colega seu.

Além disso, é importante observar que posturas políticas convergentes não significam que os grupos pensem igualmente. É possível que dois grupos muito diferentes convirjam em torno de uma pauta, mas que cheguem àquela decisão por motivos muito diferentes entre si. Quando o Bispo Macedo da Igreja Universal se declara favorável à descriminalização do aborto, embora ele convirja com vários grupos feministas, isso não significa que ele parta do princípio que a mulher tem o direito de decidir sobre sua própria gestação.


Para entender esta visão literal pode-se tomar como exemplo como as religiões cristãs encaram a masturbação. Um dos capítulos do livro de Gênese fala de Onã, cujo irmão mais velho morreu sem deixar filhos. Como o falecido era primogênito, Onã se casou com a viúva para que nela gerasse um filho que seria o herdeiro dos bens de sua família. Onã porém, embora desfrutasse da vida de casado, na “hora H” lançava o sêmen no chão para evitar que a viúva engravidasse, assim ele ficava com a herança de seu irmão e continuaria dormindo com a cunhada. Por causa deste ato Onã foi morto pela ira divina.

Algumas visões escrituralistas entendem que o sêmen deve ser unicamente usado para gerar filhos e por isso condena que um homem use preservativos ou pratique o onanismo (masturbação). Já uma visão pluralista, vai perceber que, considerando o contexto da época, lançar o sêmen ao chão era uma grande traição ao irmão falecido e que é este o princípio que precisa ser resgatado do texto e reaplicado em outros contextos sociais.

Publicado em 05 de outubro de 2016.

Diego C. Chaves

Humanista e entusiasta da não-violência. É cinéfilo e amante da natureza. Formou-se em pedagogia e análise de sistemas. E é muito curioso para entender como o mundo funciona e como ele pode melhorar. Escreve por necessidade de compartilhar com o mundo as boas ideias que encontra.