Antonieta de Barros simboliza a força transformadora da educação e representatividade.
Mulher negra, filha de uma lavadeira, professora, jornalista e pioneira na política, ela desafiou as barreiras de gênero e raça no início do século XX para se tornar a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa de Santa Catarina.
Mais do que ocupar espaços inéditos, Antonieta defendeu aquilo em que acreditava: a educação como direito e ferramenta de emancipação social.
Neste texto da Politize!, abordamos a trajetória e as contribuições da pioneira Antonieta, que deixou seu legado na educação e na construção da cidadania feminina do país.
Saiba mais sobre Carolina Maria de Jesus
Origens e primeiros passos de Antonieta de Barros
Antonieta de Barros (1901-1952) foi uma educadora, jornalista e pioneira da política brasileira, nascida em Florianópolis, filha de uma pessoa ex-escravizada.
Mãe e filha estavam inseridas num período histórico que foi caracterizado pelos esforços de modernização e a industrialização do Brasil, fundamentados em políticas estatais de cunho racista e higienista.
Principalmente do final do século XIX até a década de 1930, as elites políticas e os intelectuais brasileiros defendiam a industrialização como caminho para inserir o país no modelo das nações consideradas “civilizadas”, especialmente as europeias.
Esses esforços de modernização estavam longe de ser neutros. As políticas estatais do período eram fortemente orientadas pelo racismo e por concepções higienistas, que vinculavam a ideia de progresso à exclusão e ao controle de grupos considerados “indesejáveis”.
Segundo Bolsanello (1996), grande parte dos intelectuais que aderiram às ideias eugenistas fazia parte da elite do país ou possuía vínculos com ela. Para a autora, o interesse era manter as populações de mestiços, negros e índios, que constituíam a maior parcela da população brasileira, afastadas do âmbito social.
Por outro lado, coexistiam com esse projeto excludente setores e indivíduos que questionavam o racismo e o higienismo, a concentração de poder nas elites, defendendo formas alternativas de progresso.
É nesse contexto que a mãe de Antonieta, Catarina, após conquistar a liberdade, passou a sustentar os três filhos trabalhando como lavadeira. Foi na residência de um dos clientes de sua mãe que Antonieta despertou grande interesse pelos livros e pela educação, recebendo apoio para iniciar sua alfabetização.
Catarina, assim como muitas mulheres negras no Brasil, trabalhou como cozinheira, empregada doméstica e lavadeira, enquanto suas filhas alcançaram posições de destaque na sociedade local.
A irmã de Antonieta, Leonor, esteve ao seu lado por toda a vida e merece ser lembrada, pois sua trajetória contribuiu “[…] para a produção de conhecimentos sobre como as famílias de descendentes de africanos escravizados emergiram e se estruturaram no período pós-abolição em Santa Catarina” (Romão, 2021, p.79).
Veja também: Feminismo Negro no Brasil

Antonieta, educadora e alfabetizadora social
Em 1917, Antonieta ingressou na Escola Normal Catarinense (curso de formação de professores para o ensino primário). Em 1921, Antonieta tornou-se a primeira de sua família a concluir a formação escolar. Naquele período, não havia concursos públicos para o magistério, e as vagas eram preenchidas por indicação das oligarquias catarinenses.
Foi através do acesso à educação e de sua atuação como professora que a trajetória de Antonieta se consolidou. No entanto, não foi uma tarefa fácil. Como ressaltam as autoras Daiana da Silva e Christiane dos Santos Luciano:
Mulheres negras em suas singularidades, mesmo que atravessadas por diversas opressões, ao longo da história de resistência da população negra, foram movidas por suas experiências de re-existência, de driblar as desigualdades históricas, econômicas e sociais. (Da Silva & Santos Luciano, 2024, p. 285)
Antonieta enfrentou forte oposição das elites catarinenses, que rejeitavam a possibilidade de suas filhas dividirem o espaço escolar com filhas de mulheres negras e lavadeiras. Esse contexto é analisado em profundidade por pesquisadoras como Jeruse Romão (2021), hoje uma das principais referências sobre a vida dela.
Sua competência lhe garantiu reconhecimento, sendo convidada a lecionar em colégios considerados de elite naquele período, superando barreiras de raça, gênero e classe social. Em 1921, Antonieta foi a primeira de sua família a concluir os estudos e, diante da ausência de concursos públicos, fundou com a irmã Leonor uma escola particular.
Antes de completar 20 anos, criou o “Curso Particular de Alfabetização Antonieta de Barros”, voltado à preparação de estudantes para exames de admissão e à alfabetização de adultos. Fiel ao ensino de excelência que acompanhou todas as suas iniciativas, a instituição conquistou reconhecimento, recebendo tanto filhos de famílias ricas quanto de trabalhadores da cidade.
Convencida de que a educação possuía um papel libertador e transformador, manteve a escola em funcionamento até seu falecimento, em 1952. Reconhecida pela excelência, a escola atendia alunos das elites e das classes trabalhadoras, mas conforme descreve Romão (2021), Antonieta sofria ameaças e insultos racistas pelo telefone de sua escola.
Em 1922, passou a se engajar em movimentos políticos, com atuação na Liga do Magistério e na criação do Centro Catarinense de Letras (CCL). Para Romão (2021) Antonieta respondia a anseios de diferentes grupos, numa época em que se pressionava pela presença feminina na política. Porém, representava uma presença contida, católica, de “bons costumes”.
Ao longo de sua vida, ela destacou-se como uma mulher comprometida pela justiça. Tal destaque lhe conferiu respeito e admiração. Antonieta não se casou e dedicou sua vida à construção sólida de redes de afeto, partilha e luta, que marcaram profundamente sua trajetória.
A obra de Jeruse Romão (2021) aprofunda esse debate ao posicionar a professora e deputada em suas redes familiares, profissionais e afetivas, ressaltando tanto sua participação em movimentos coletivos quanto os contextos em que atuou de forma solitária como mulher negra.
Nesse sentido, o estudo contribui para desconstruir a imagem de Antonieta como uma figura isolada, evidenciando a presença e a atuação de outros sujeitos negros e negras em seu entorno, que também ocuparam e disputaram espaços na educação, na política e na imprensa de sua época.
Essa perspectiva amplia a compreensão da trajetória da professora e valoriza a contribuição de uma rede de pessoas que, mesmo diante das barreiras impostas pelo racismo e pelo sexismo, marcaram a história da educação, da política e da cultura em Santa Catarina e no Brasil ao disputar espaços de poder e transformação social.
Entenda o que é interseccionalidade?
Antonieta, jornalista, escritora e voz crítica como Maria da Ilha
Com o objetivo de engajar mais pessoas pela reivindicação da educação como um direito universal, Antonieta fundou, em 1926, o jornal “A Semana”, tornando-se a primeira mulher cronista de Santa Catarina. Usando o pseudônimo Maria da Ilha, colaborou com diversos outros periódicos.
Em 1932, publicou no “Jornal República” um artigo em que criticava as barreiras que dificultavam o acesso das mulheres ao ensino superior.
De acordo com Romão (2021), Antonieta era reconhecida por sua inteligência, profissionalismo e cultura, demonstrando desde cedo vocação para a organização política e posicionando-se contra as injustiças e desigualdades sociais que afastavam sobretudo as mulheres pobres dos espaços de poder.
Enquanto Antonieta defendia a educação como instrumento de emancipação social, setores mais conservadores da sociedade viam a escolarização como um privilégio restrito e/ou como meio de manutenção da ordem social existente.
Nesse sentido, a professora nunca se alinhou às elites conservadoras de sua época e, ainda que não se identificasse como feminista, suas lutas foram fundamentais para combater o machismo e ampliar os direitos das mulheres em Santa Catarina e no Brasil.
Segundo Romão (2021), não se declarava feminista possivelmente por sua formação religiosa, ideológica e por divergências com o feminismo dominante da época. Entretanto, suas ações e ideias defendiam direitos das mulheres, como o voto feminino, a educação e a igualdade de gênero e raça.
Por meio da imprensa e da política, ela combateu o machismo e o racismo, tornando-se uma pioneira na luta das mulheres negras no país.
Seu olhar crítico sobre as relações de gênero manifestava-se na defesa de uma educação que garantisse igualdade de oportunidades tanto para mulheres quanto para homens.
Saiba mais sobre feminismo

Antonieta na política: primeira mulher negra com mandato eletivo no Brasil
Em 1934, ano em que as mulheres brasileiras puderam votar pela primeira vez, Antonieta candidatou-se a deputada, demonstrando como era visionária na luta pelo acesso das mulheres, nomeadamente das mulheres negras, a espaços historicamente negados a elas.
Durante o exercício do mandato, afastou-se da docência, mas retornou à profissão após ter seu cargo político cassado com a instauração do Estado Novo, em 1937.
Na sua atuação política, no seu primeiro mandato, Antonieta atuou como deputada constituinte, ficando encarregada de elaborar os capítulos sobre educação, cultura e funcionalismo que integrariam a nova Constituição do estado de Santa Catarina.
A deputada pautava questões que permanecem atuais, como a implementação de concursos públicos para professores e diretores escolares, a valorização da educação de adultos, a importância da organização da categoria docente e o estímulo ao contato de crianças em situação de pobreza com a leitura.
Participou de comissões de educação, cultura e funcionalismo público, defendendo a expansão do ensino secundário, a equidade salarial e a educação profissional para as mulheres.
Ela também atuou na criação de leis que garantiam bolsas de estudo em cursos superiores a estudantes em situação de vulnerabilidade e estabeleciam concursos para o magistério, visando fortalecer e desenvolver o ensino público.
Leia também Lugar de mulher é na política
Qual foi o legado de Antonieta?
Em 1948, Antonieta de Barros propôs a criação de um dia dedicado aos professores em Santa Catarina, valorizando a importância da profissão e o papel fundamental dos educadores na formação das novas gerações.
Antonieta morreu precocemente, em decorrência de complicações relacionadas à diabetes, em 16 de novembro de 1952, com 50 anos.

Onze anos após seu falecimento, em 1963, através do Decreto Lei 52.682, o Dia dos Professores passou a ser oficialmente celebrado em todo o Brasil.
Antonieta é reconhecida como uma inspiração para o movimento negro, e sua história vem sendo cada vez mais divulgada além de Florianópolis. Esse reconhecimento tem se refletido também em iniciativas institucionais que buscam manter vivos sua memória e seu legado.
- Na atualidade, a Assembleia Legislativa presta homenagem a Antonieta de Barros por meio do Programa Antonieta de Barros, que apoia a formação de jovens aprendizes de comunidades vulneráveis;
- O Auditório Deputada Antonieta de Barros, localizado no Palácio Barriga Verde, sede do parlamento, tem a imagem da deputada na galeria das deputadas.
- Em 2016, o Governo Federal instituiu o Prêmio Antonieta de Barros, voltado a jovens comunicadores negros e negras.
- A Escola Antonieta de Barros, em Florianópolis, está em processo de transformação no Museu Antonieta de Barros, que abrigará um instituto de pesquisa voltado à história e cultura negra catarinense;
- Em 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou a lei que inscreve o nome de Antonieta de Barros, no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, que se encontra no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília.
- O nome de Antonieta de Barros é utilizado pela Associação de Mulheres Negras Antonieta de Barros e pela Medalha Antonieta de Barros, comenda da Câmara Municipal de Florianópolis entregue anualmente a mulheres que se destacam na defesa dos direitos das mulheres em Santa Catarina.
Antonieta de Barros atuou dentro dos limites impostos pelo seu tempo e pelas estruturas políticas disponíveis. Ao longo de sua carreira, essa notável brasileira se empenhou em garantir acesso à educação de qualidade para todos, combatendo desigualdades sociais e raciais.
Embora se opusesse às concepções racistas e higienistas predominantes entre as elites da sua época, sua atuação política ocorreu no interior das mesmas instituições controladas por esses grupos, exigindo negociação, convivência e estratégias de adaptação para que suas pautas pudessem avançar.
Nesse sentido, seu trabalho e suas ideias fizeram dela uma referência significativa, inspirando futuras gerações a lutar por direitos e igualdade.
Conheça também a história de Almerinda Farias Gama
Gostou de conhecer a trajetória de Antonieta de Barros? Compartilhe este conteúdo e ajude a divulgar sua história.
Referências
- BOLSANELLO, Maria A. Darwinismo social, eugenia e racismo “científico”: sua repercussão na sociedade e na educação brasileira. Educ. rev., Curitiba, n. 12, p. 153-165,1996. Disponível em: Acesso em: 29 mai. 2025.
- DA SILVA, Daiane ; DOS SANTOS LUCIANO , Christiane. Antonieta de Barros e a educação como estratégia antirracista. Lutas Sociais, [S. l.], v. 26, n. 49, p. 284–296, 2024. DOI: 10.23925/ls.v26i49.62431. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/ls/article/view/62431. Acesso em: 23 ago. 2025.
- Instituto Iungo – Educação antirracista: você conhece Antonieta de Barros? Educadora e parlamentar lutou pela igualdade por meio da educação
- G1 – Lula sanciona lei que inscreve nome de Antonieta de Barros em Livro de Heróis e Heroínas da Pátria
- ROMÃO, Jeruse. Antonieta de Barros: professora, escritora, jornalista, primeira deputada catarinense e negra do Brasil. Florianópolis: Editora Cais, 2021.
- Superinteressante – Racismo disfarçado de ciência: como foi a eugenia no Brasil