Um histórico de colonização e línguas semelhantes unem vários países do continente americano no que chamamos de América Latina. Questões culturais e sociais, entretanto, determinam a identidade latino-americana. O sentimento de latinidade tem a ver com música, culinária, raça e até inclinação política.
Entre um conceito técnico e uma identidade emocional, o que é latinidade? Neste artigo, vamos ver o que aproxima e o que separa os países da América Latina.
O que é a América Latina?
Tradicionalmente, chama-se América Latina o conjunto de países do continente americano que falam línguas de origem latina e têm um histórico de colonização semelhante. Assim, a América Latina engloba o México e os países e territórios da América do Sul, da América Central e das ilhas do Caribe, onde as línguas oficiais são o espanhol, o português ou o francês.
Incrivelmente, o termo “América Latina” tem origem europeia. Tudo começou na corte de Napoleão III, que comandou a França na segunda metade do século XIX. Intelectuais do governo de Napoleão, e mais especificamente Michel Chevalier, são considerados os criadores e arquitetos do conceito de América Latina.
No livro Des intérêts matériels en France (Os Interesses Materiais na França) de 1838, Chevalier fala sobre a importância de estabelecer uma “América Latina” como contrapeso aos termos mais usados na época: “América Hispânica” ou “América Espanhola”.
A nova expressão combinava com as ambições políticas da França, que imaginava um domínio dos povos latinos (europeus e das Américas) sob Napoleão III.
As ideias francesas para o continente americano não prosperaram, mas o termo América Latina voltou a ganhar força no século XX com a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) — uma das cinco comissões regionais da ONU, criada em 1948 para fomentar o desenvolvimento econômico e social na região.
Países que compõem a América Latina
Estes são os países que compõem a América Latina.
Américas do Norte e Central:
- Belize
- Costa Rica
- El Salvador
- Guatemala
- Honduras
- Mexico
- Nicaragua
- Panamá
América do Sul
- Argentina
- Bolívia
- Brasil
- Chile
- Colômbia
- Equador
- Guiana Francesa
- Guiana
- Paraguai
- Peru
- Suriname
- Uruguai
- Venezuela
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Caribe
- Cuba
- República Dominicana
- Haiti
Territórios
- Guadalupe (território francês)
- Martinica (território francês)
- Porto Rico (parte dos EUA)
- São Bartolomeu / Saint-Barthélemy (território francês)
- Saint-Martin (território francês)
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História e características em comum dos países latino-americanos
Os países latino-americanos estão unidos por um laço histórico. Em comum, temos a colonização e as lutas pela independência.
Posteriormente, com a Guerra Fria e as ditaduras militares na região, voltamos a compartilhar uma história de busca por democracia e soberania.
Colonização
Os povos originários da região não tinham elos identitários entre si. A história conjunta da América Latina começou a ser formada com a colonização europeia.
O pesquisador argentino Fernando Mourón, do Centro de Estudo das Negociações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), diz que a colonização aproximou os países sul-americanos e separou o Brasil da ideia de unidade latina.
“A América Latina sempre se associou à colonização espanhola, e isso já gera uma divisão em relação ao passado português do Brasil”.
Embora as diferenças entre os colonizadores sejam relevantes para a construção das identidades latinas, os processos de colonização dos portugueses e espanhóis apresentaram muitas semelhanças.
Tanto no Brasil quanto nos países vizinhos hispânicos, a colonização durou cerca de 300 anos e teve caráter exploratório.
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Independências
Outro ponto histórico que vivemos paralelamente aos nossos vizinhos latinos foram as lutas pela independência. Novamente, tivemos semelhanças e diferenças, criando elementos em comum e disparidades.
“Na América espanhola, houve guerras contra a Coroa e o reforço de uma identidade cultural única, enquanto, no Brasil, o próprio regente português declarou a independência”, diz Mourón.
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Ditaduras e a Guerra Fria
A Guerra Fria foi um período, de 1947 até 1989, aproximadamente, em que os Estados Unidos e a ex-União Soviética disputavam poder político e cultural no mundo.
Nesse período, o Brasil e os demais países da América do Sul estiveram sob forte influência dos Estados Unidos.
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Uma das consequências da Guerra Fria foram as ditaduras militares instauradas no Brasil, de 1964 a 1985, e nos nossos vizinhos na América do Sul.
A Argentina viveu sob uma ditadura militar de 1976 a 1983, o Chile de 1973 a 1990, o Uruguai de 1973 a 1985, o Paraguai de 1954 a 1989, a Bolívia de 1964 a 1982, a Venezuela de 1948 a 1958 e o Equador de 1972 a 1979.
As ditaduras na América Latina se caracterizaram por utilizar mecanismos de repressão social e política semelhantes. Especialmente, no uso de instrumentos políticos e legais que se sobrepunham à Constituição, como foi o caso dos Atos Institucionais no Brasil.
Passando por cima das leis anteriores, as ditaduras sul-americanas faziam uso de prisões arbitrárias, perseguições políticas, ameaças, tortura e imposição de medo para eliminar resistências e se manter no poder.
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Cultura
O professor de Língua e Literatura Latina da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Raimundo Carvalho, explica que, originariamente, o povo latino no continente europeu era um povo de agricultores e pastores. Tinham costumes rústicos e severos, não eram dados a luxos e costumes liberais.
Isso começou a mudar, a partir do século III a.C., quando a cultura latina entrou em contato com a cultura grega. A mistura trouxe um grande desenvolvimento no campo das artes, do teatro e da literatura.
A cultura latina-americana é fortemente marcada pela junção desses elementos latinos europeus, aos costumes dos povos originários e, posteriormente, à contribuição africana. Assim, a latinidade é caracterizada pela heterogeneidade de práticas culturais.
O que é latinidade?
Latinidade é a identidade latina. Ela transcende a geografia e a história e abarca questões econômicas, políticas, sociais e culturais.
Como a ideia de América Latina veio de fora e foi motivada por pensamentos colonialistas, o conceito de latinidade teve que ser repensado pelas pessoas da região. Assim, a latinidade ainda é um tema em construção.
Dentre os estudiosos da latinidade está o pesquisador argentino Walter Mignolo, autor do livro “A Ideia de América Latina”. Ele define a latinidade como uma identidade múltipla que começa com a colonização e tem continuidade na presença africana forçada pela escravidão; nas vivências entrecruzadas de diferentes povos, na experiência de marginalização e na própria necessidade de se redefinir em escala global.

Principais debates sobre latinidade
Por ser um sentimento de identidade, a latinidade não é fixa. Por isso, o conceito vem sendo debatido há décadas.
As discussões sobre o tema buscam responder perguntas como: existe uma latinidade única que agregue todos os países da região? É possível pensar a latinidade de uma forma decolonial? E, afinal, os brasileiros são ou não latinos?
O estereótipo latino
Existe um jeito de ser latino ou pensar assim seria incorrer em estereótipos?
A pesquisadora brasileira Maria Lígia Coelho Prado, uma das maiores autoridades acadêmicas nesse tema, fala sobre as dificuldades de pensar uma única latinidade.
“A associação estabelecida entre raça e cultura foi um elemento central na dominação simbólica das elites, favorecendo a discriminação e os preconceitos. Apesar de ser artificial e inverossímil, esse discurso teve um grande poder de persuasão nas sociedades latino-americanas até nossos dias”.
Ela afirma que a construção de uma identidade latina não deve “harmonizar” toda a diversidade cultural da região em um conceito único. Da mesma forma que não podemos dizer que todas as populações indígenas são iguais ou que todas as mulheres agem sempre da mesma forma.
A latinidade deve ser encontrada justamente na pluralidade.
A latinidade decolonial
O senso de identidade tem a ver com a forma como um povo se enxerga e como ele é visto pelos outros. Por isso, pesquisadores se perguntam se é possível pensar a latinidade de uma maneira decolonial.
Ser latino tem a ver com a cultura da América Latina ou com a maneira como os países colonizadores enxergam esta região? Um pouquinho dos dois.
Essa foi a resposta encontrada por pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá, depois de analisar estudos de diversos outros especialistas sobre o tema. “Ainda é comum na maioria das escolas latino-americanas ensinar história a partir de uma perspectiva eurocêntrica, enfatizando os “heróis” e as datas das conquistas fundamentais que ocorreram no mundo. Fazendo-nos desconhecer nossas origens nativas, Astecas, Incas e Maias e buscar nos europeus nossa identidade”.
Brasileiros são latinos?
Não é fácil determinar se nós brasileiros somos ou não latinos. Do ponto de vista geográfico e linguístico, somos, sim. Afinal, somos um país da América do Sul e falamos uma língua latina.
Por outro lado, se a latinidade é um sentimento de identidade, ela é subjetiva. Ou seja, um indivíduo pode ou não se identificar com a noção que ele tem do que significa ser latino.
Um estudo de 2023 mostra que esse sentimento de latinidade não é forte entre os brasileiros. A pesquisa, realizada pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), indica que apenas 4% dos brasileiros se definem como latino-americanos. Destes, 83% se dizem brasileiros e 10% se definem como “cidadãos do mundo”.
No século XIX, o termo latino-americano não era mesmo usado para identificar brasileiros. A palavra era muito mais comum para descrever os países sul-americanos que estavam conquistando a independência da Espanha.
Em entrevista à BBC Brasil, Feliciano de Sá Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP), diz que a noção de latinidade só ficou mais forte no Brasil a partir dos anos 1960.
“A esquerda intelectual, por conta das ditaduras, vai fazer uma cooperação intelectual e no movimento de emancipação contra o imperialismo americano”, diz Guimarães.
No esforço de reafirmar a nossa “brasilidade” nesse período, vamos beber também na fonte da cultura latina. Grandes clássicos da MPB foram lançados nas décadas de 1960 e 1970 celebrando nossa união com a latinidade com Soy loco por ti, América, gravada por Caetano Veloso em 1968; Sangue Latino, dos Secos e Molhados (1973); Apenas um Rapaz Latino-Americano, de Belchior (1976) e Canción Por La Unidad de Latino América, de Milton Nascimento e Chico Buarque (1979).
Principais estudiosos da latinidade
A latinidade é tema de vários estudos e acadêmicos pesquisam tanto a história da identidade latina quanto a forma como ela se expressa na contemporaneidade.
Junto com Gabriela Pellegrino, Maria Lígia Prado escreveu o livro História da América Latina, que foca na formação da identidade latino-americana.
Outro pesquisador que investiga os primórdios da ideia de latinidade é o historiador mexicano Edmundo O’Gorman, autor do livro A invenção da América.
As doutoras em educação Dayane de Freitas Colombo Rosa e Roseli Gall do Amaral focam em estudos clássicos e na construção histórica da América Latina.
O jornalista uruguaio Eduardo Galeano é autor do clássico As Veias Abertas da América Latina. Publicado originalmente em 1970, o livro foi reeditado em 1977, quando vários países da América do Sul viviam sob regimes ditatoriais.
Datas comemorativas relacionadas à latinidade
Algumas datas comemorativas foram instituídas para marcar a relevância da região e da cultura latina.
No dia 24 de março é celebrado o Dia da União dos Povos Latino-Americanos e em 21 de abril, comemora-se o Dia da Latinidade. Em 3 de outubro, temos o Dia do Latino-Americano.
Já o Dia Internacional da Latinidade é 15 de maio. A data foi oficializada no ano 2000 pela União Latina, um conjunto de 36 países latinos. O grupo não representa apenas nações latino-americanas, mas também falantes de línguas latinas em todo o mundo.
25 de julho é o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. A data foi criada em 1992, na República Dominicana, durante um encontro de instituições de movimentos feministas e de grupos marginalizados de diversos países latino-americanos.
Aqui, no Brasil, o dia 25 de julho também é dedicado a Tereza de Benguela, líder quilombola que por mais de duas décadas comandou o Quilombo do Quariterê, em Mato Grosso.
Você se sente conectado(a) à sua latinidade? Ficou com alguma dúvida sobre o conceito? Fala para a gente nos comentários.
Referências:
- GAVIÃO, Leandro. A Construção da Identidade Latino-Americana: uma análise da contribuição dos intelectuais ibero-americanos (1889-1932). Revista Neiba, Cadernos Argentina Brasil, Rio de Janeiro, v. 2, n. 1, p. 39–46, 2013. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/neiba/article/view/8379. Acesso em: 19 fev. 2026.
- BBC Brasil – Por que brasileiros não são considerados latinos nos Estados Unidos
- Politize – América Latina: Entenda tudo sobre a região
- BBC Brasil – Brasileiro rejeita a identidade latina, mas quer liderança regional, aponta pesquisa
- Politize – Como aconteceu a colonização portuguesa na América
- Politize – Guerra Fria, a Guerra Ideológica
- Instituto de Estudos Latino Americanos – Universidade Federal de Santa Catarina – Série Ditaduras Latino Americanas
- ES Hoje – Dia da Latinidade: Conheça a origem e os aspectos culturais do povo latino
- The Summer Hunter – Como é bom (e complexo) ser latino
- ROSA, Dayane de Freitas Colombo, do AMARAL, Roseli Gall, MELO, José Joaquim Preira. A Construção Histórica do Conceito de América Latina: Desvendando uma Identidade. Revista Percurso NEMO, Cadernos Argentina Brasil, Rio de Janeiro, v. 2, n. 1, p. 39–46, 2013. Disponível em: https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/Percurso/article/view/57173. Acesso em: 19 fev. 2026.
- Revista Fapesp – Maria Ligia Coelho Prado: Questões abertas na América Latina
- National Geographic – Latino? Hispânico? Brasileiros são latinos também? Entenda a origem destes termos e entenda melhor
- Rádio Senado – Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha
- Politize – Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha

