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Imagem ilustrativa: Achille Mbembe. Imagem: DW/Stefan Mohl.
Achille Mbembe. Imagem: DW/Stefan Mohl

Achille Mbembe (Camarões, 1957) é professor de História e Ciência Política na Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, África do Sul. Também leciona na Universidade Duke, nos Estados Unidos.

Trata-se de um dos pensadores mais proeminentes atualmente no que diz respeito aos estudos do pós-colonialismo, possui vasta obra publicada na área de História e de políticas africanas, estudando temas como poder e violência.

Além de Crítica da Razão Negra, entre seus livros mais conhecidos também estão: Políticas da Inimizade e Necropolítica.

Neste conteúdo, a Politize! te explica mais sobre a crítica da razão negra, obra desenvolvida pelo pensador e filósofo Achille Mbembe.

Veja também nosso vídeo sobre Necropolítica!

Como Achille Mbembe define a “razão negra” e quais as implicações históricas que essa categoria representa?

A obra Crítica da Razão Negra, escrita por Achille Mbembe (2014), é uma importante contribuição para o estudo crítico ao eurocentrismo.

Nessa obra, o autor reconhece e descreve um processo de tomada de consciência que mobiliza críticas à centralidade do pensamento europeu tanto nas produções científicas quanto filosóficas.

Ele também destaca a necessidade de redirecionar a nossa visão para o que existe além do continente europeu e do Ocidente, rompendo com a noção de “universal” empreendida pela Europa.

Para Mbembe, a “razão negra” é um conceito que carrega muitas ambiguidades e polêmicas, sendo usada para designar diversas coisas, entre elas:

“imagens do saber; um modelo de exploração e depredação; um paradigma da submissão e das modalidades da sua superação, e, por fim, um complexo psiconírico.” (MBEMBE, 2014). 

Leia também: Cientistas negros: a tentativa de apagá-los da história

Raça, a razão negra e o conceito de “negro” para Achille Mbembe

Essa complexidade de desdobramentos e incertezas tem como enquadramento a raça. 

O filósofo promove diversas reflexões ao analisar o mundo contemporâneo a partir da experiência negra, argumentando que a visão sobre o negro que se tem no mundo atualmente tem origem na construção do sistema escravista e colonial.

Desse modo, a conceituação do negro trata-se de uma categoria social que é frequentemente atrelada aos termos “escravizado” e “raça”.

Achille Mbembe explica que no imaginário das sociedades europeias, tanto o negro, quanto a raça tem tido o mesmo significado, e que ambos sempre fizeram parte de um grande desencadeamento de coisas.

Segundo ele, o nome “Negro” assinala: 

“uma série de experiências históricas desoladoras, a realidade de uma vida vazia; o assombramento, para milhões de pessoas apanhadas nas redes da dominação de raça, de verem funcionar os seus corpos e pensamentos a partir de fora, e de terem sido transformadas em espectadores de qualquer coisa que era e não era a sua própria vida” (MBEMBE, 2014).

Nesse sentido, é construída a noção de “razão negra” como uma categoria que remete a diversas versões de um único enredo. A expressão “razão negra” se refere a um conjunto de tomada de decisões relacionadas a diferenciação entre o que seria o instinto animal e a ratio do homem, “sendo o Negro o testemunho vivo da própria impossibilidade desta separação.” (MBEMBE, 2014, p.63).

A expressão também é associada ao desenvolvimento de dispositivos que visam subordinar a animalidade ao cálculo, recorrendo a designações cruéis, perturbadoras e desumanas.

Portanto, ao discutir a “razão negra”, retoma-se um conjunto de regras que regem a definição do Negro e como este é identificado.

Diferença entre “a consciência ocidental do Negro” e “a consciência negra do Negro”

Achille Mbembe faz uma distinção entre “a consciência ocidental do Negro” e “a consciência negra do Negro”.

A primeira forma da razão negra, a consciência ocidental do Negro, é classificada como um discurso que corresponde a ação ocidental de atribuir identidade racial ao Negro.

A segunda forma, a consciência negra do Negro, como uma “declaração de identidade” por parte de intelectuais afrodiaspóricos – os quais objetivam com isso negar o primeiro discurso, recuperando ao indivíduo negro a sua própria identidade.

O autor argumenta que o discurso ocidental sobre o negro fez com que o mesmo se tornasse “o único de todos os humanos cuja carne foi transformada em coisa, e o espírito, em mercadoria.” (MBEMBE, 2014).

Para Mbembe, a consciência ocidental do negro é indissociável do imperialismo, uma vez que o racismo se constitui como uma fonte de legitimação de mecanismos voltados para o acúmulo de capital.

Nessa perspectiva, a própria categoria “negro” é forjada com o intuito de justificar a mão-de-obra, transformando a escravização em uma instituição própria do domínio e exploração europeia.

Dessa maneira, a ideia de razão negra refere-se a “várias versões de um mesmo enredo, de uma mesma configuração, […] pois existe, historicamente, por mal ou por bem, um fator negro indissociável da nossa modernidade” (MBEMBE, 2014). 

Devir-negro do mundo

A manifestação dessa violência é nomeada em a Crítica da Razão Negra como o “devir-negro do mundo”, em que os negros passam a constituir parte de todas as humanidades subalternas do sistema capitalista.

A partir disso, Achille Mbembe discorre sobre a inevitabilidade dos subalternos reagirem a esse processo de dominação, acarretando na consciência negra do negro, que busca reconstituir uma comunidade que se opõe a lógica escravista e colonialista.

Nessa perspectiva, a categoria negro passa a ser símbolo da resistência e da luta pela liberdade e emancipação, a fim de uma definição que reflita a potência de indivíduos negros.

Essas duas representações do Negro se articulam de maneira bastante complexa, a discussão sobre a “razão negra” remete a uma reinvindicação quanto as regras de definição do que é ser negro.

A reflexão sobre o lugar do complexo “raça/Negro” na construção dos direitos humanos perpassa a possibilidade de ressignificar as experiências de indivíduos negros.

Indo além, trata-se de desconstruir uma série de narrativas que foram impostas à existência do negro. Historicamente, o pensamento eurocêntrico tem ditado a formação de identidades e, para Mbembe, isso não pode mais ser ignorado.

À vista disso, “para adentrar as formas de erradicação de uma desigualdade social com bases raciais, é preciso entender como o ser negro foi inventado para significar exclusão e degradação, entre outros aspectos negativos.” (FERREIRA, 2018).

E você, já conhecia o intelectual Achille Mbembe? Escreva nos comentários!

Referências:

Dominique Maia

Graduanda em Relações Internacionais na UnB. Interesses de pesquisa: movimentos negros, direitos humanos e estudos de gênero, raça e classe. Acredita na educação como um meio de transformação e emancipação social.

Referências

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