A resistência feminina na Batalha de Tejucupapo

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A Batalha de Tejucupapo, em Pernambuco, foi um dos episódios mais surpreendentes e ainda pouco conhecidos da história colonial brasileira.

Em meio à ocupação holandesa no Nordeste, no século XVII, uma pequena povoação tornou-se cenário de uma resistência inesperada, protagonizada por mulheres que enfrentaram as tropas invasoras.

Neste texto, você vai conhecer o contexto da invasão holandesa, a resistência luso-brasileira, a história da Batalha de Tejucupapo, protagonizada por mulheres consideradas heroínas, e como o episódio se tornou um símbolo de resistência popular na defesa do território.

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O Brasil colonial do século XVII e a Batalha de Tejucupapo

O açúcar era, no século XVII, um dos produtos mais valorizados no comércio atlântico, sustentando grande parte da economia portuguesa. O Nordeste brasileiro tornou-se cenário de intensas disputas coloniais em razão da centralidade econômica da produção açucareira.

A Companhia Holandesa das Índias Ocidentais buscava controlar diretamente as áreas produtoras e romper o monopólio português sobre o comércio colonial. Do ponto de vista da Companhia, a ocupação fazia parte de uma estratégia econômica e geopolítica mais ampla, inserida nas disputas europeias do período.

Os holandeses permaneceram no Brasil de 1630 a 1654, conquistando parte do Nordeste brasileiro, região que se estendia de Sergipe ao Maranhão. A ocupação holandesa, iniciada com a invasão de Pernambuco, promoveu um contexto prolongado de conflitos militares e tensões econômicas.

Maria Brandão (2004) aponta que a chegada dos holandeses foi recebida com intensa resistência por parte dos luso-brasileiros; contudo, diante da inferioridade numérica, eles precisaram recuar inicialmente. Ainda assim, o conflito não chegou ao fim.

Mesmo fragmentados e em desvantagem militar, os luso-brasileiros passaram a adotar estratégias alternativas de combate, como guerrilha, espionagem, sabotagem e outras táticas capazes de surpreender o adversário.

Em 1646, após dezesseis anos marcados por mudanças políticas, crescimento urbano e relativa estabilidade sob o governo do conde holandês Maurício de Nassau, a situação começou a declinar, levando a região a um novo momento de conflito.

A imposição de pesados tributos pela Companhia das Índias Ocidentais, responsável pela administração da colônia, juntamente com o encerramento do governo de Nassau, chamado de volta à Holanda pela própria companhia, motivou a reação de portugueses e pernambucanos.

Apesar das principais batalhas e decisões políticas se concentrarem nos centros urbanos e nas áreas mais ricas, as localidades periféricas passaram a assumir importância estratégica. Esse foi o caso da Batalha de Tejucupapo.

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Tejucupapo: a invasão holandesa e a resistência inesperada

Em 1646, durante o período das chamadas Insurreições Pernambucanas, as tropas holandesas dirigiram-se à região de Tejucupapo com o objetivo de saquear mantimentos e enfraquecer o abastecimento das forças luso-brasileiras. A estratégia era comum em cenários de guerra colonial: atacar comunidades rurais para garantir suprimentos e desestabilizar a resistência local.

Entretanto, ao chegarem à povoação, os soldados encontraram uma situação inesperada. A vulnerabilidade aparente da vila, longe de resultar em submissão, desencadeou uma reação coletiva improvável.

Em busca de comida, cerca de 600 holandeses queriam saquear a então vila de São Lourenço de Tejucupapo, atual município de Goiana, na Zona da Mata pernambucana. Muitos dos homens da localidade estavam ausentes, mobilizados em combates ou integrados às forças que lutavam contra a ocupação holandesa em outras regiões. A estratégia foi escolher um domingo, porque os homens que ficaram vendiam frutas e mantimentos em Recife.

Diogo Lopes de Santiago, o cronista português da época, descreve em História da Guerra de Pernambuco (2004), obra escrita depois de 1654 e publicada apenas no século XIX, que os holandeses estavam famintos no Recife e na Ilha de Itamaracá e decidiram ir ao povoado, atrás de mandioca, farinha e frutas.

O que os holandeses não esperavam é que, diante da ameaça iminente, mulheres se organizaram para a defesa do território. Unidas pela necessidade de proteger suas casas, famílias e meios de sobrevivência, elas assumiram o confronto, transformando um episódio que poderia ter sido apenas mais um saque em uma resistência bem-sucedida.

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As heroínas de Tejucupaco

O dia 24 de abril de 1646 foi o dia da Batalha de Tejucupapo, quando a organização de mulheres contribuiu para a defesa da população local e para um dos primeiros episódios de resistência feminina registrados pela historiografia brasileira.

As mulheres de Tejucupapo tiveram uma participação protagonista e decisiva no processo de luta contra os holandeses na antiga povoação de São Lourenço de Tejucupapo.

Sem acesso a armamentos militares, as mulheres pernambucanas recorreram aos recursos disponíveis no cotidiano doméstico e rural. Utilizaram paus, facões, instrumentos de trabalho. Criaram estratégias criativas, como o uso de água fervente e pimenta, que foi a arma principal para desorientar e afastar os invasores.

Também usaram a “urtiga” para “queimar” a pele dos soldados holandeses. A urtiga é uma planta medicinal de efeito anti-inflamatório, porém possui vários pelos que se quebram e perfuram a pele, liberando substâncias que causam irritação e alergia.

As mulheres aproveitam o conhecimento da flora local e criaram uma “cerca viva” de defesa, utilizando a planta. A criatividade tática compensou a ausência de recursos bélicos, surpreendendo soldados treinados que não esperavam encontrar resistência organizada.

Painel da artista Tereza Costa Rêgo sobre a batalha.
Painel da artista Tereza Costa Rêgo sobre a batalha. Imagem: Secult-PE/Fundarpe.

A memória local preservou nomes que simbolizam essa atuação coletiva, Maria Camarão, Maria Quitéria, Maria Clara e Maria Joaquina. As mulheres, em sua maioria agricultoras de origem indígena, teriam se organizado sob a liderança das quatro Marias, figuras que até hoje possuem caráter quase mítico na Zona da Mata Norte de Pernambuco.

Embora a documentação escrita do período seja limitada e nem sempre permita confirmar detalhes individuais, essas figuras assumiram um papel emblemático na narrativa histórica regional, representando a participação feminina na defesa da comunidade.

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Por que essa história ainda é pouco conhecida?

A Batalha de Tejucupapo aparece pouco nos livros de história, um dos argumentos é que, no século XVII, os relatos eram escritos por homens ligados ao poder colonial, que raramente valorizavam ações populares locais. É importante destacar que a participação das mulheres demorou séculos para ganhar reconhecimento histórico.

Conforme Silva (2008), diversos estudos indicam que as estruturas acadêmicas da modernidade limitaram a participação feminina na produção do conhecimento, mesmo existindo registros de mulheres atuando em diferentes contextos científicos. Dessa forma, estabeleceram parâmetros, ainda que de maneira não explícita, que desconsideraram as mulheres como sujeitos capazes de produzir e integrar o conhecimento científico.

Entretanto, em 1648, a participação feminina já estava registrada na História. No livro O Valeroso Lucideno, o frei português Manuel Calado, testemunha dos conflitos entre Portugal e Holanda no Nordeste do Brasil, relatou as tentativas de invasão a Tejucupapo e destacou a atuação das mulheres que lutaram ao lado dos homens que permaneceram na vila.

Poucos registros escritos foram produzidos sobre o episódio nos séculos seguintes. Contudo, em Tejucupapo, a memória permaneceu viva, sendo transmitida sobretudo pela tradição oral, mantida pelas mulheres que se reconhecem como herdeiras diretas daquelas guerreiras.

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Tejucupapo como memória histórica e símbolo de resistência

O Teatro das Heroínas de Tejucupapo, criado em 1993, surgiu com o objetivo de preservar a memória desse importante ato de resistência e coragem. A batalha é encenada anualmente, no último domingo de abril, no segundo maior teatro ao ar livre de Pernambuco, localizado no próprio cenário do confronto histórico.

O roteiro segue os registros históricos, apresentando o cotidiano da população local no período e, em seguida, a marcha dos holandeses, que, famintos e sem perspectivas de retorno à Europa, partiram do Forte Orange, na Ilha de Itamaracá, em direção à comunidade.

Mulheres da Associação Grupo Cultural Heroínas de Tejucupapo em cena.
Mulheres da Associação Grupo Cultural Heroínas de Tejucupapo em cena. Imagem: Portal Cultura PE.

Para manter essa memória viva, a Associação Grupo Cultural Heroínas de Tejucupapo promove a encenação por meio da cultura popular, fortalecendo o sentimento de identidade e orgulho da comunidade. Além de resgatar a história, a iniciativa também mobiliza a população para a valorização do protagonismo feminino e para o enfrentamento de preconceitos de gênero.

E aí, conseguiu entender como a Batalha de Tejucupapo foi um dos momentos marcantes da história brasileira? Conta para a gente nos comentários!

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Conteúdo escrito por:

Cristiane Prudenciano de Souza

Doutoranda em Estudos Contemporâneos (Universidade de Coimbra), Mestre em Ciências Sociais (PUC/SP).
Souza, Cristiane. A resistência feminina na Batalha de Tejucupapo. Politize!, 20 de abril, 2026
Disponível em: https://www.politize.com.br/resistencia-feminina-na-batalha-de-tejucupapo/.
Acesso em: 22 de abr, 2026.

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