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Descobrimento do Brasil em 1500: descoberto ou invadido?

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Imagem ilustrativa: descobrimento do Brasil. Imagem: Wikimedia Commons.
Pintura óleo sobre tela “Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500” (Oscar Pereira da Silva). Imagem: Wikimedia Commons.

Foi no dia 22 de abril de 1500 que os colonizadores portugueses chegaram ao território brasileiro. Esse é um episódio marcante na história do país e a ele é atribuído o título de “Descobrimento do Brasil”. Entretanto, existem controvérsias quanto à descoberta das terras brasileiras.

“Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome – o Monte Pascoal e à terra – a Terra da Vera Cruz.” (Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal, D. Manuel).

Nesse texto, a Politize! vai te contar mais sobre esse evento histórico do nosso país, marcado por expedições marítimas e pelas grandes navegações portuguesas.

Veja também nosso vídeo no YouTube sobre o Descobrimento do Brasil!

Descobrimento do Brasil ou invasão?

A utilização do termo “descobrimento” para descrever o momento histórico que marca a chegada dos portugueses a essas terras é questionada por muitos historiadores, pois trata-se de uma expressão eurocêntrica. 

Estudiosos defrontam-se com o desafio da “incorporação dos indígenas na historiografia brasileira na condição de sujeito” e protagonistas da história do Brasil (ALMEIDA, 2017). A expressão “descobrimento” ignora que naquele período os povos indígenas já habitavam essas terras há muito tempo

Nesse sentido, o país hoje conhecido como Brasil não era uma “terra de ninguém”. Ainda nos dias atuais, mais de 500 anos depois, discute-se o reconhecimento da existência de povos autóctones (naturais da região em que habitam) nestas terras e também a importância do reconhecimento dos direitos dos povos indígenas, os quais têm lutado arduamente pelo próprio território.

Leia também: O que é marco temporal de terras indígenas?

Contexto histórico do Descobrimento do Brasil: as Grandes Navegações

Os séculos XV e XVI foram marcados por grandes transformações no continente europeu, um período de notória expansão comercial e destaque das Grandes Navegações

A realização das navegações de exploração do oceano tornou-se possível devido ao acúmulo de conhecimento náutico e o desenvolvimento de novas tecnologias. Por isso, os portugueses se destacaram e foram pioneiros nas Grandes Navegações, pois possuíam as condições necessárias para se lançar ao oceano atlântico. 

Além disso, diferente de outras regiões do continente, que eram rivais entre si, Portugal já era um reino unificado desde o século XII, “o que possibilitou seu crescimento e desenvolvimento” (SOUZA, s.d.).

Dessa forma, o conhecimento náutico, o aprimoramento dos instrumentos de navegação, a enriquecida população portuária e o desejo de expansão do comércio, foram fatores decisivos para que os portugueses empreendessem tais viagens.

Nesse mesmo período, a Espanha também abria caminhos e explorava os oceanos, sendo justamente em uma das suas muitas navegações que Cristóvão Colombo chegou às terras de um continente que até então lhe era desconhecido.

Leia mais: Escravidão na América Espanhola: um olhar sobre a mão-de-obra colonial

Essas terras posteriormente foram nomeadas como América, fazendo parte do chamado “Novo Mundo”. 

Em resumo, no que se refere ao período das Grandes Navegações, as seguintes datas possuem grande relevância para a história da América e do Brasil:

  • 12 de outubro de 1492: quando Cristóvão Colombo e a expedição de espanhóis chegaram ao continente americano;
  • 22 de abril de 1500: quando Pedro Álvares Cabral e a expedição de portugueses chegaram ao território brasileiro.

A chegada de Pedro Álvares Cabral foi um erro de percurso?

Há mais de 500 anos, Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil com uma tripulação numerosa e com experientes navegadores. A frota da Coroa Portuguesa contava com “nove naus, três caravelas e uma naveta de mantimentos” (BERNARDO, 2021). 

Por sua experiência como navegador, Cabral foi designado pelo então rei de Portugal, D. Manuel I, para chefiar uma expedição à Índia em 1500, sendo recomendado que seguisse a mesma rota que Vasco da Gama fez anteriormente.

O objetivo da expedição era chegar às Índias para fazer negociações comerciais, uma vez que Vasco da Gama havia obtido sucesso na sua viagem em 1498. 

Ou seja, ao sair de Lisboa, Cabral deveria cruzar o Atlântico e contornar o Cabo da Boa Esperança para chegar à Índia, mas não foi o que ele fez. 

Na verdade, ele realizou um desvio para a direção sudoeste que, consequentemente, o fez chegar à costa brasileira, mais especificamente no litoral sul do atual estado da Bahia.

Rota da viagem de Pedro Álvares Cabral de Portugal para a Índia em 1500 (em vermelho) e o retorno (em azul). Imagem: Wikipedia/Reprodução.
Rota da viagem de Pedro Álvares Cabral de Portugal para a Índia em 1500 (em vermelho) e o retorno (em azul). Imagem: Wikipedia/Reprodução.

Afinal, quem “descobriu” o Brasil?

A veracidade desse desvio que teria levado à “descoberta” do Brasil, entretanto, é discutida por diversos historiadores, os quais, ao analisarem as experiências de navegadores, acreditam que a expedição não teria se perdido tão facilmente.

Além disso, alguns estudiosos contestam a chegada de Pedro Álvares Cabral e apontam que outros navegadores teriam avistado e feito expedições às terras da América do Sul antes mesmo do português. 

Esse seria o caso de Vicente Pinzón (1462-1514), que teria saído de Palos, na Espanha, com mais 4 caravelas, rumo ao oeste de Cabo Verde.

No entanto, ao enfrentar uma tempestade e avistar terras firmes, teria se deparado com um local que batizou como “Santa Maria de la Consolación” que, por sua descrição, teria semelhança com o litoral do Nordeste brasileiro.

“Em entrevista à Folha de S. Paulo, o almirante Max Justo Guedes, historiador e autor do livro “O descobrimento do Brasil” que morreu em 2011, afirmou que Pinzón conta em seus diários de bordo que, em determinado momento, a tripulação perdeu de vista a estrela Polar, o que indica que cruzaram a linha do Equador e seria inevitável não desembarcar no litoral brasileiro nesse caso.” (FRAGA, 2021).

Apesar das controvérsias em torno do tema, na história brasileira “oficial” e no discurso dominante, Pedro Álvares Cabral é reconhecido como o responsável por encontrar o novo território. Quando se fala de “Descobrimento do Brasil”, o nome do português que é associado ao evento.

Os indígenas já chamavam a terra de Pindorama (que significa “terra livre dos males”). Posteriormente, com a chegada dos portugueses, esse território recebeu vários nomes, como Ilha de Vera Cruz, Terra de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz, entre outros, até ser chamada de “Brasil” em 1527.

Saiba mais: Formação do território brasileiro: você sabe como ocorreu?

Uma terra já habitada: o primeiro contato entre portugueses e indígenas

Em 1500, Pedro Álvares Cabral e aqueles que desembarcaram com ele em busca de ocupar as terras brasileiras, tiveram o encontro com os povos indígenas que habitavam o litoral baiano. 

Nesse primeiro contato houve um estranhamento, de ambos os lados, em relação ao que indígenas e portugueses possuíam, pois se expressavam e se relacionavam de forma muito diferente.

Alguns historiadores caracterizam esse momento como um “encontro de culturas” e outros como um “desencontro de culturas”, visto que as relações foram estabelecidas desde o início pautadas numa hierarquia, a qual pressupunha a superioridade do homem branco (europeu) em relação ao “outro”  dito selvagem/não “civilizado” (indígena). 

É nesse cenário, e a partir desse choque de culturas, que se tem início a colonização portuguesa no Brasil, o qual corresponde a um processo massivo de extermínio de povos indígenas, invasões, conflitos entre portugueses e indígenas, doenças contagiosas oriundas de Portugal se espalhando no Brasil e exploração das terras brasileiras. Ou seja, o “descobrimento” do Brasil foi um processo marcado pela violência colonial. 

Quem foi que disse que a escravidão seria legal?

Estudiosos afirmam que a ciência social que estuda culturas e sociedades, a Antropologia, foi a base teórica que deu fundamento à expansão colonial. Adam Kuper, antropólogo sul-africano, diz em seu livro que:

“Desde  os  seus  primeiros  dias,  a  Antropologia  britânica  sempre  gostou  de  se  apresentar como uma ciência que poderia ser útil na administração colonial. As razões são óbvias. Os governos  e  interesses  coloniais  ofereciam  as  melhores  perspectivas  de  apoio  financeiro, sobretudo  nas  décadas  anteriores  ao  reconhecimento  da  disciplina  pelas  universidades.”

Por pesquisar e documentar aspectos, costumes e formas de organização social de diversas culturas, o Estado colonial aproveitou este conhecimento para dominar diferentes povos ao redor do mundo.

Saiba mais: O que é apropriação cultural?

Além de aprender como lidar com povos nativos, os colonizadores utilizaram a ciência para justificar o empreendimento colonial, a partir do surgimento das teorias evolucionistas (séc. XIX).

As teorias evolucionistas diziam que haveria um caminho linear e progressivo pelo qual a humanidade caminharia. Essas teorias eram baseadas no darwinismo, elaborada por Charles Darwin.

Dessa forma, o evolucionismo social diz que as sociedades, gradualmente, passam por mudanças em sua formação e organização. Portanto, o antropólogo Lewis Morgan atribuiu três estágios de desenvolvimento humano, por ordem de progresso, iniciando na selvageria e terminando na civilização, o estágio mais evoluído. Sendo, então:

  1. Selvageria;
  2. Barbárie;
  3. Civilização.

Portanto, foi a partir desta teoria que os colonizadores acreditavam estar levando a civilização para povos primitivos, ou seja, contribuindo para o seu progresso. Essa teoria é bastante criticada por ser considerada etnocêntrica, o que significa que os responsáveis pela colonização estavam olhando para os povos nativos a partir de sua própria cultura.

E aí, foi fácil entender como ocorreu o descobrimento do Brasil? Você acha que foi uma invasão? Deixe um comentário! 

Referências:

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7 comentários em “Descobrimento do Brasil em 1500: descoberto ou invadido?”

  1. Antonio Cássio da Silva Aragão

    Desde quando aprendi na escola sobre o “descobrimento”, tive este mesmo questionamento. Como teria sido descoberto, se tinham pessoas aqui? A história está errada com certeza, mas qual seria a verdade?
    A fisionomia dos indígenas da américa do sul em geral são bem parecidas. Sendo assim, a maior probabilidade, seria a dispersão da raça apartir do outro lado do mapa.
    Tema muito interessante!

  2. Marco Antonio Soares de Moraes

    Para Sra Dominique Maia graduanda em Relações Internacionais na UNB. Comentários: “Descobrimento do Brasil em 1500” : Descoberto ou Invadido ?. Se olharmos a História de forma nietzchiana (neologismo para a cosmovisão de Nietzche) houve uma descoberta. O padrão histórico da confrontação entre um povo e outro (sendo um mais avancado e/ou tecnológico* sobre outro menos avançado ) é o da dominação. Mas na verdade dentro de uma cosmovisão não utopica do Homus terráqueo; pode-se inferir que; faltavam aos índios capacidade de se entenderem (fora os mitos e as lendas) como chegaram onde estavam. Os europeus usavam bússolas; astrolabios; ampulhetas; lunetas etc; além de cartógrafos; línguas (tradutores); marinheiros de longa viagens; material de combustão para fazer fogo e usar como iluminação à noite; alimentos industrializados e/ ou com técnicas de conservação (pelo menos a salga); e sabiam de onde partiam; aonde mais ou menos estavam chegando e também tinham a capacidade de transferência de informação no espaço-mundo ou seja; transmitir para além-mar (outras terras; outros povos) o que tinham encontrado. As consequências e subsequências a posteriori dotadas de inferências ético-morais eram no contexto do momento histórico (momento da chegada e o 2° momento da divulgação para o Mundo neste caso representado pela Europa) não poderiam ser previamente avaliadas; pois seriam o mesmo que a partir de um tempo passado ; ja saber antecipadamente o futuro. É segundo os próprios historiadores um “anacronismo” avaliar o passado com valores do presente (ver história das mentalidades). *Conceito de superioridade tecnológica tendo como base o domínio humano sobre a natureza (construir pontes; túneis; etc) até barcos de grande porte (no caso “caravelas” e naus etc. Obs: Se entendida a história como um relato amoral ou cientifico dos padrões mundiais de contactos entre povos em estágios diferentes em que normalmente havia a dominação; documentação e catalogação do encontrado (cito: romanos; gregos; assírios; persas; babilônicos; fenícios; egípcios etc com as periferias geográficas e culturais de suas adjacências no se processo de expansão territorial). Os historiadores e geógrafos marxistas justificam os Mao Ze Dongs e Afins (Pol Pot) como sendo “a História ” ou “Inevitável!”. Tomei a iniciativa de usar a cosmovisão de Nietzche da dominação como algo normal e a conclusão da ortodoxia marxista do materialismo histórico e dialético!.

  3. É óbvio que para os portugueses foi uma descoberta. Houve uma interação entre portugueses e índios por vezes violenta, mas não o tempo todo. Os índios não formavam um país, estavam num estágio tribal. E vida deles é romantizada pelo povinho tosco da esquerda que só quer negar nossa origem e miscigenação pra formar luta de classes com base em raça. Sem portugas, índios e africanos não haveria Brasil

  4. Lisane Moraes Lopes da Silva

    Foi invasão e colonização. Os índios já viviam há 14 milhões de anos no continente com língua, cultura e costumes próprios. A região possuía nome: Pindorama ou grã-Pindorama. Foi descoberta para os europeus até a página 2 do livro, pois construíram e criaram rotas, mapas, naus, embarcações e afins, porém encontraram um lugar habitado onde impuseram sua cultura eurocêntrica em povos que praticamente subjulgavam, escravizaram, catequizaram e dominaram para fazerem do atual Brasil uma colônia de explicação. Foi assim em todo o continente americano e até hoje, discute-se quem de fato “descobriu” o Brasil sob a visão eurocêntrica: Vicente Yanez Pinzon pelo Cabo de Santo Agostinho, Pedro Álvares Cabral, sob o Tratado de Tordesilhas, os Vikings, os fenícios… e por aí vai. Até hoje a questão não deixa de ser bastante discutida.

  5. Os portugueses que aqui chegaram impuseram a sua cultura etnocentrica a uma civilização que era povo originário em milhões e que possuía cultura e língua própria. Escravizaram, espalharam doenças, cometeram genocídios mesmo havendo resistência desses povos.

  6. Arnaldo R. Andrade

    Descobrimento ou Invasão ?
    Podemo aceitar as duas opções… Descobrimento foi muito útil pelo fato de nós hoje existirmos… Invasão ? Seria benígna se não houvesse tanto Egoismo na posse voluntária sem consulta ou consentimento… A fortuna que seduziu os “invasores” foi tamanha que
    maus tratos , homicídios e desprezos foram praticados ao longo de muitos anos… Sem chance nenhuma de retribuição aos verdadeiros proprietários de toda riqueza que já existia… Enfim hoje vivemos aqui… o mínimo que podemos fazer, é contar com a consciencia de nossos governantes para que êles tratem nossos “Patrocinadores Involutários” da mesma for que êles gostarian de serem tratados…
    Afinal, o discernimento dos nossos politicos de hoje é bem superior ao dos portugueses de outrora…
    E juntos, nós Brasileiros, vamos acreditar nisso!

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Conteúdo escrito por:
Graduanda em Relações Internacionais na Universidade de Brasília (UnB). Entre os interesses de pesquisa estão: movimentos negros, direitos humanos, migração e estudos de gênero, raça e classe. Acredita na educação popular como um meio de emancipação coletiva.

Descobrimento do Brasil em 1500: descoberto ou invadido?

14 jun. 2024

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