A emoção como ferramenta da desinformação

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Vivemos em um momento muito particular na história da humanidade. O mundo hoje está vivendo uma infodemia. Basicamente, a infodemia se caracteriza pelo excesso de informações, com uma rápida propagação e disseminação. Ficar atualizado sobre tudo o que acontece no mundo se tornou uma tarefa inviável e o vício por telas tem crescido significativamente.

Mais do que isso, a infodemia também permitiu que a desinformação ganhasse espaço, pois a grande quantidade de conteúdos dificulta a identificação do que é verídico e do que é falso.

No meio desse turbilhão de informações e acontecimentos, chamar e prender a atenção das pessoas tem sido cada vez mais difícil. Quando algo existe em uma abundante quantidade, conseguir se destacar deixa de ser uma ação simples. Assim, a batalha pelas mentes e corações ganhou novas camadas de complexidade e um território mais profundo passou a ser explorado nas estratégias de influência: o reino das emoções.

Isso significa que a emoção tem sido utilizada e explorada especialmente para a disseminação de informações falsas ou enganosas, de forma a chamar a atenção e causar impacto. Por isso, neste primeiro texto da trilha “Nome da trilha” vamos explorar como a emoção é utilizada como uma técnica de desinformação, analisando seus mecanismos psicológicos, suas manifestações práticas e o ecossistema das redes sociais que a potencializa.

Diferença entre emoção e sentimento

Antes de mergulharmos na mecânica da desinformação, é crucial estabelecer uma distinção fundamental sobre o que é emoção e a sua distinção dos sentimentos. Frequentemente, no discurso comum, emoção e sentimento são usados como sinônimos, mas do ponto de vista das neurociências, eles representam processos distintos.

Na psicologia, a emoção é uma condição complexa e momentânea que surge em uma pessoa devido a uma experiência ou estímulo de caráter afetivo. Assim, a emoção provoca alterações psicológicas e fisiológicas, preparando o indivíduo para a ação.

Por exemplo, quando nos deparamos com um perigo, como um animal ameaçador, nosso corpo desencadeia, em milésimos de segundo, uma resposta emocional de medo: o coração acelera, os músculos tensionam e os sentidos ficam aguçados. Dessa forma, o medo é uma emoção.

O sentimento, por sua vez, é uma experiência puramente mental e independente. Ela pode ser entendida como uma interpretação cognitiva que fazemos dos estados gerados pela emoção. Utilizando o exemplo citado sobre a emoção do medo, o sentimento representa o “sentir-se com medo”. 

De acordo com o neurocientista António Damásio, escritor da obra “O Erro de Descartes”, os sentimentos são em grande parte mentais, caracterizados por processos mentais nascidos da emoção. Ou seja, enquanto a emoção é biológica e pública (pode ser medida por batimentos cardíacos, por exemplo), o sentimento é privado e mental, sendo uma interpretação pessoal da experiência emocional.

Como o cérebro reage a estímulos emocionais

Quando um estímulo emocionalmente carregado (como uma manchete alarmista ou uma imagem chocante) é percebido, a informação sensorial percorre uma “via rápida” no nosso cérebro. Essa resposta imediata é tão poderosa que pode “sequestrar” o cérebro racional. Ela inunda o corpo com hormônios como adrenalina e cortisol, preparando-o para a ação.

Dessa forma, uma forte emoção pode inibir a atividade do cérebro responsável pelo julgamento, autocontrole e pensamento crítico. É como se nosso cérebro ativasse um modo de sobrevivência em que a reação emocional se sobrepõe às demais reações. Talvez na sua vida você já tenha tomado alguma ação ou atitude dominado pela emoção da raiva, por exemplo, e só depois de realizar a ação que você se deu conta do que fez. Isso é um caso hipotético do que uma forte emoção pode causar.  

Como a emoção é usada como técnica de desinformação

A eficácia das emoções como uma técnica de desinformação reside na provocação de uma resposta emocional imediata ao conteúdo ou informação falsa que está sendo propagada.

Estímulos que geram uma reação fisiológica e neurológica tendem a chamar mais a nossa atenção, justamente pelo impacto que causam. Nesse sentido, explorar emoções tem sido uma estratégia para a disseminação de desinformação, visto que aumenta as chances de atrair a atenção e desenvolver uma conexão com a informação enganosa

Como consequência, quando as pessoas estão sob a influência de emoções intensas, a capacidade de avaliar a veracidade das informações é prejudicada, levando a decisões baseadas no impacto emocional, e não em fatos.

Segundo estudo “Reliance on emotion promotes belief in fake news conduzido pelo psicólogo Gordon Pennycook e outros autores, as emoções têm uma ligação direta com a crença em desinformação. No estudo, foram conduzidos dois testes para medir essa relação. 

Como conclusão dos testes realizados, foi identificado que uma maior emoção está associada a uma maior crença em informações falsas e que a dependência da emoção também aumenta a crença em desinformação. Ou seja, os participantes que confiavam mais nas suas emoções do que nas suas razões tinham maior tendência em acreditar em informações falsas ou enganosas.

De acordo com outro estudo realizado em 2018 por cientistas no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), as notícias falsas se espalham em média 70% mais rápido que notícias verdadeiras, possuindo um alcance muito maior. Uma das conclusões do estudo indica que essa maior propagação ocorre por conta das reações dos usuários com a informação falsa, que envolvem medo, desgosto e surpresa.

Nesse sentido, é possível explorar as emoções humanas para aumentar a eficácia da desinformação. Isto é, elaborar um conteúdo falso ou enganoso que desperte gatilhos emocionais pode ser visto como uma técnica de manipulação para transmitir desinformação.

Uso de linguagem e narrativas emocionais

A desinformação dificilmente se apresenta como uma “informação solta”. Normalmente, ela é embutida com uma narrativa persuasiva que tem um determinado objetivo e que busca atingir um público-alvo.

Como a doutora em semiótica, Diana Luz Pessoa de Barros, escreve em seu artigo “As Fake News e as Anomalias”, os objetivos principais de quem fabrica desinformação são ganhar a confiança dos destinatários e promover a regulação emocional entre eles. Para isso, se utilizam de técnicas narrativas que envolvem a aproximação emocional do destinatário com o conteúdo falso.

Nesse sentido, construir uma desinformação que tenha uma linguagem apelativa, que ative determinadas emoções e conecte o destinatário com a narrativa utilizada é uma estratégia utilizada para promover o seu alcance. O uso de palavras carregadas de valor emocional, como “vergonha”, “escândalo”, “pânico”, “ameaça”, servem como gatilhos para atrair a atenção do leitor.

Como consequência, manchetes do tipo “Você não vai acreditar no que este político fez!” ou “O fim está próximo!” exploram a curiosidade e o medo para gerar engajamento, independentemente da veracidade do conteúdo. 

Imagens e vídeos como gatilhos emocionais

Não é apenas com a linguagem e uma narrativa apelativa que é possível utilizar as emoções como uma técnica de promover a desinformação, mas também por meio de elementos audiovisuais, principalmente imagens e vídeos.

Fotografias e imagens que geram espanto ou causam fortes emoções como ódio, medo ou raiva acabam sendo ferramentas poderosas para manipular o destinatário a acreditar no conteúdo que está vendo. O lado emocional do cérebro, impressionado pela força da imagem, tem uma tendência maior a aceitar a narrativa associada sem questionar a sua origem ou veracidade.

Isso também funciona com os vídeos, que muitas vezes funcionam como uma “prova” ou “garantia” de que a informação é verdadeira. Atualmente, com a utilização de Inteligência Artificial (IA), isso tem se tornado um problema cada vez mais complexo, visto que está cada vez mais difícil distinguir o que é real e o que é um vídeo ou imagem gerado por IA. 

Os chamados “deep fakes”, que são conteúdos audiovisuais altamente realistas gerados por IA, representam atualmente uma ameaça à sociedade ao conseguirem manipular uma grande quantidade de pessoas para acreditarem em algo falso. No âmbito político, isso também representa uma ameaça à integridade eleitoral, visto que é possível criar áudio, imagens e vídeo altamente fidedignos de figuras públicas e candidatos.

Exemplos reais de desinformação que exploravam a emoção

Há diversos casos emblemáticos de desinformação que circularam nos últimos anos e que exploraram as emoções para conseguir um grande alcance. Talvez um grande exemplo que ocorreu no mundo todo foram as informações falsas disseminadas durante a pandemia de COVID-19

Teorias sobre a origem do vírus foram amplificadas por narrativas de medo e acusação. A desinformação sobre vacinas explorou o medo de efeitos colaterais (com relatos falsos de mortes e efeitos colaterais). Além disso, a desinformação também potencializava a indignação contra o “autoritarismo” das agências sanitárias, aumentando a desconfiança em instituições médicas e governos. A desinformação e a narrativa emocional de “liberdade vs. controle”, em muitos casos, tinha um impacto social mais forte do que os dados estatísticos sobre a eficácia da vacina, sendo um obstáculo no combate à pandemia.

Outro exemplo, mais recente, do uso da emoção como técnica para espalhar desinformação foram as fake news circuladas sobre a ligação entre a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) e candidatos à prefeitura de São Paulo nas eleições de 2024.

Conforme apurou a Agência Lupa, conteúdos enganosos relacionando o PCC com candidatos à prefeitura de SP podem ter impactado mais de 600 mil pessoas. De maneira geral, os conteúdos enganosos contribuíram para afastar o cidadão do processo democrático ao promover a crença de que os candidatos tinham vínculos com a facção criminosa.

Normalmente, as informações falsas contavam com narrativas carregadas emocionalmente para causar medo e pânico, sugerindo que o PCC poderia chegar ao poder em SP e se ocupar do governo municipal.  

O jogo “IAgora?” como ferramenta de combate a desinformação

Em um cenário onde a desinformação se tornou uma ferramenta política complexa, compreender seus mecanismos é o primeiro passo para combatê-la. É exatamente essa compreensão que o jogo “IAgora?” busca promover de forma acessível e envolvente.

O “IAgora?” é um jogo online e acessível e foi desenvolvido pela Politize! em parceria com a CIVICUS World Alliance com o objetivo de abordar, de forma didática, a desinformação gerada por Inteligência Artificial e suas consequências políticas e sociais durante o período eleitoral. 

A ideia é que os jogadores aprendam a identificar conteúdos falsos e descubram como combatê-las de maneira consciente na vida real ao aprender as técnicas de desinformação do jogo.

Através de um sistema de caminhos e consequências, a experiência lúdica revela os desafios éticos e os danos reais causados pela desinformação gerada pela Inteligência Artificial. Mais do que um simples jogo, “IAgora?” é um simulador de consequências que busca equipar os cidadãos com o discernimento necessário para combater a desinformação no mundo real. Acesse, jogue e compartilhe: https://iagora.org/

Referências

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Conteúdo escrito por:

Eduardo de Rê

Eduardo de Rê, de 28 anos, é licenciado e mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com pesquisas nas áreas de política internacional e segurança internacional, sendo membro do Grupo de Pesquisa em Estudos Estratégicos e Política Internacional Contemporânea (GEPPIC) desde 2018. Sua monografia foi premiada ao final de sua graduação, conquistando o segundo lugar no Prêmio Santos Dumont de 2021, concedido pelo Ministério da Defesa e pelo Ministério da Educação do Brasil. Durante dois anos, atuou como redator e coordenador de conteúdos na Civicus, uma empresa parceira da Politize!, onde foi responsável pela criação e desenvolvimento de projetos com temáticas sociais, cidadania e direitos humanos. Atualmente, é assessor internacional na Politize!
, Eduardo. A emoção como ferramenta da desinformação. Politize!, 19 de janeiro, 2026
Disponível em: https://www.politize.com.br/emocao-como-ferramenta-da-desinformacaoo/.
Acesso em: 19 de jan, 2026.

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