Misoginia: você sabe o que é?

Misoginia

Fonte: Pixabay

As crescentes discussões sobre direitos, garantias e representatividade das minorias sociais revelam novos conceitos e denominações, que surgiram com o intuito de explicar as origens do tratamento desigual que certos indivíduos recebem. No que tange às questões de gênero, a misoginia é um termo oriundo da Grécia antiga que voltou à luz para conceituar as relações nocivas que ocorrem entre homens e mulheres.

A ascensão do ativismo virtual propiciou a amplificação dos discursos e mobilizações de movimentos sociais, como o feminismo. Nesse contexto, é muito provável que você já tenha se deparado alguma vez com a palavra misoginia, mas você sabe realmente o que ela significa? O Politize! reuniu uma série de informações para ajudar você a entender de vez esse conceito. Vamos lá?

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As origens da misoginia

Em uma breve análise do material artístico e intelectual produzido ao longo dos anos, é possível observar a forte influência dos traços culturais misóginos, machistas e sexistas na civilização ocidental. Conforme pontuado pelo historiador e professor Leandro Karnal, durante uma palestra realizada em 2017 pela comemoração ao dia da mulher, as estatuetas de Vênus de Willendorf e Vênus de Milo ou a pintura Vênus e Marte de Botticelli demonstram que os artistas supervalorizavam o corpo e a estética feminina, uma ideia que foi construída durante a antiguidade.

As bases sociais, políticas e econômicas ocidentais foram estabelecidas na Grécia antiga, cujo sistema sócio-político delegava à mulher uma posição secundária. No período Homérico, a unidade básica da sociedade grega era o genos, um sistema familiar que se caracterizava pela máxima autoridade concedida ao pater (patriarca) da família, que ao falecer, tinha seus poderes político, social, religioso e econômico transmitidos ao filho mais velho.

Entretanto, no fim deste período, a população cresceu e a economia, essencialmente agrícola, decaiu. Houve, assim, a desintegração das comunidades gentílicas e o surgimento das cidades-Estados (ou pólis gregas), onde foi reiterada a ideia da soberania masculina.

Neste contexto, surge o termo que definiria a base psicológica dos comportamentos masculinos nocivos em relação às mulheres. Oriunda da união entre os termos gregos “miseo” e “gyne”, cujos significados são respectivamente ódio e mulheres, a palavra misoginia é usada para definir sentimentos de aversão, repulsa ou desprezo pelas mulheres e valores femininos. 

Misoginia x machismo x sexismo: qual a diferença?

São três conceitos que estão interligados e sustentam a ocorrência da violência contra a mulher. A misoginia é um sentimento de aversão patológico pelo feminino, que se traduz em uma prática comportamental machista, cujas opiniões e atitudes visam o estabelecimento e a manutenção das desigualdades e da hierarquia entre os gêneros, corroborando a crença de superioridade do poder e da figura masculina pregada pelo machismo

O sexismo, por sua vez, pode ser definido como um conjunto de atitudes discriminatórias e de objetificação sexual que buscam estabelecer o papel social que cada gênero deve exercer, para isso são utilizados estereótipos de como falar, agir, pensar e até mesmo o que vestir.

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Como a misoginia afeta homens e mulheres?

O constante estímulo de comportamentos estereotipados impacta ambos os gêneros, visto que exige amostras de uma cruel virilidade no homem e total subserviência na mulher. Quando a expectativa comportamental não ocorre, a violência eclode em uma escala ascendente de gravidade, iniciando com as piadas depreciativas, assédios, abusos, estupros e culmina com o feminicídio.

As bases misóginas do pensamento ocidental geram a banalização da violência ao feminino que se estende pelos vários aspectos da vida da mulher, como o social, o psicológico, econômico e político, tornando difícil identificar os traços nocivos mais sutis. Desta forma, homens e mulheres reproduzem atos e expressões machistas quase que de forma inconsciente, com a mulher adotando, muitas vezes, como mecanismo de sobrevivência na cultura opressora, uma aparente passividade que não deve ser entendida como a aceitação das situações que lhe ferem a dignidade, mas sim como um mecanismo de defesa e sobrevivência.

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A misoginia no Brasil

Por um acaso você já ouviu falar que “em briga de marido e mulher são se mete a colher”? Pois essa  é uma frase que explicita um dos traços da cultura brasileira, a banalização da violência de gênero

O mapa da violência de 2015 colocou o país na quinta posição em casos de assassinatos de mulheres, com uma média de 4,8 mortes a cada 100 mil. Já os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgados em 2017, revelam outro fato chocante: a cada onze minutos uma mulher é estuprada no país. 

Com intuito de enfrentar a violência de gênero, em 2006 surgiu a Lei Maria da Penha, para combater a violência doméstica. Em 2009, a Lei 12.015 alterou o Título VI do Código Penal para Crimes contra a dignidade sexual, unificando o estupro e o atentado violento ao pudor, com a aplicação de uma única pena. E em 2015, foi sancionada a Lei 15.104 que define o feminicídio como um crime hediondo –  crimes de extrema gravidade, cujas penalidades são mais rigorosas. Em 2018, foi sancionada a Lei 13.718 que trata do crime de importunação sexual: “realização de ato libidinoso na presença de alguém de forma não consensual, com o objetivo de satisfazer a própria lascívia ou a de terceiro”, assim como tornou crime a divulgação de cenas de estupro, nudez, sexo, pornografia sem o consentimento da outra parte envolvida.

Ainda que essas leis possam representar grandes vitórias para a causa das mulheres, a desconstrução do papel social feminino é um trabalho contínuo, que requer a aplicação de programas sócio-educativos para instigar a sociedade a assumir o papel de protagonista na desnaturalização da vigente hierarquia social entre os gêneros. 

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A Revolução Feminina

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No século XX surgiram obras como o Segundo Sexo e Mística Feminina, respectivamente, de Simone de Beauvoir e Betty Friedan, que impulsionaram a criação de um movimento liderado por mulheres que buscava problematizar as colocações femininas na sociedade. Assim, tem-se início a luta pela emancipação, autonomia e liberdade da mulher diante das construções idealizadas da figura feminina e de feminilidade, por direitos e igualdades políticas, sociais e econômicas através do empoderamento.

Segundo Juliana Faria, jornalista e criadora do site Think Olga: “Uma mulher empoderada é uma mulher bem informada. Ela sabe dos seus direitos, entende o que é opressão e busca soluções para isso”. Desta forma, as mulheres que defendem o movimento feminista buscam a disseminação de ideais empoderadores por todas as camadas sociais, com o acolhimento das individualidades de cada mulher e estabelecendo a união entre as diferentes correntes do movimento para seguir promovendo transformações profundas na mentalidade misógina da coletividade. 

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Publicado em 05 de agosto de 2019.

 

Yanna J. Carneiro

Natural de Belém, graduanda em Nutrição, aspirante a chef nas horas vagas e crê no poder da informação para tornar a sociedade mais democrática.

 

 

REFERÊNCIAS

Mapa da violênciaVEJAO Valor do FemininoCafé com sociologiaQG FeministaUniversaUOLUFESFEATAScieloUOLUnifespCNJJUS

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