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História do PDT: você conhece o partido de Brizola?

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Você conhece a história do Partido Democrático Trabalhista (PDT)? Pode ser que você tenha ouvido falar dele em meio às eleições de 2018 ou 2022, quando Ciro Gomes foi candidato à presidência. Porém, as raízes desse partido remontam ao governo de Getúlio Vargas.

Lembrado como “o partido de Leonel Brizola”, o PDT completa 45 anos de história em 2024. Neste texto, vamos destrinchar a atuação do PDT, desde sua criação até os eventos mais recentes. Vamos lá?

A origem do PDT

Símbolo do PDT. Imagem: PDT

O PDT surgiu em 1979, em Lisboa, no contexto da crise da Ditadura Militar, em função de um encontro dos trabalhistas brasileiros com aqueles que estavam no exílio, sob a liderança de Leonel Brizola. A ideia era reavivar o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), anteriormente presidido por João Goulart e extinto em 1965 em função do AI-2, no contexto do Golpe Civil-Militar de 1964.

O PTB, por sua vez, foi fundado pelo ex-presidente Getúlio Vargas, em 1945, no contexto do movimento político que pedia a permanência de Getúlio no poder. Em termos políticos, à época, o PTB se aproximava do movimento sindical brasileiro, com apoio do operariado urbano.

Décadas depois, na visão de uma parcela dos trabalhistas, o PTB havia sido usurpado por um grupo que havia se voltado contra ideal original do partido. Essa divisão levou à criação de dois partidos: a reativação do PTB, que manteve a sigla, porém seguiu um caminho distinto; e o PDT, que manteve as bases trabalhistas e pode ser considerado de centro-esquerda na atualidade.

Com a colaboração do sociólogo brasileiro, Darcy Ribeiro, e do secretário-geral do Partido Socialista Português, Mário Soares, a Carta de Lisboa (1979) definiu as bases para a criação do PDT e trouxe aspectos do chamado ‘novo trabalhismo’. Ademais, a Carta apontou para a necessidade de reorganização do movimento trabalhista no Brasil, bem como das bases populares e partidárias no contexto da redemocratização.

Imagem: Leonel Brizola e Darcy Ribeiro. Fonte: Fundação Darcy Ribeiro.

O partido se mostra, já de início, calcado na social-democracia e no desenvolvimentismo. O socialismo, por outro lado, era colocado como uma intenção de construção de uma sociedade igualitária. Na concepção de Brizola, o que importava era a socialização das estruturas econômicas, ao colocar nas mãos do povo a gestão do governo e, assim, alcançar o desenvolvimento.

Em resumo, é possível apontar seis eixos do novo trabalhismo, o qual motivou a fundação do PDT:

  • Os conceitos de nacionalidade e nação;
  • A importância da propriedade privada como geradora do bem-estar social;
  • A reafirmação dos direitos individuais;
  • A defesa da intervenção do Estado na economia;
  • A proposição de um sindicalismo baseado na liberdade e na autonomia sindicais;
  • A construção de uma sociedade socialista e democrática.

A adoção da sigla ‘PDT’ se deu a partir do Encontro Nacional dos Trabalhistas (1979), no Rio de Janeiro, evento que contou com a participação de mais de 1000 pessoas. Inicialmente, o partido abriu sede em nove estados, com forte atuação no Rio de Janeiro (RJ) e no Rio Grande do Sul (RS). Além disso, o partido é representado nas urnas pelo número 12.

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A década de 1980: o PDT no fim da Ditadura Militar e início da Nova República

O nascimento do PDT se dá no contexto do restabelecimento do pluripartidarismo, efetivado pelo presidente João Figueiredo em 1979. A atuação do partido, nesse contexto, se deu no intuito de pressionar pelo fim da Ditadura e possibilitar uma boa performance do partido nas eleições que estavam por vir.

A primeira eleição realizada após o fim do bipartidarismo teve cinco partidos concorrendo aos poderes Executivo e Legislativo estaduais e municipais, bem como ao Congresso Nacional. A adoção do voto vinculado, que obrigava o eleitor a escolher entre candidatos de um mesmo partido para todos os cargos, beneficiou o PDT.

Assim, na eleição “democrática” de 1982, o PDT elegeu 556 vereadores, 36 deputados estaduais, 22 prefeitos, 24 deputados federais e dois senadores, além de Brizola como governador do RJ. Dessa forma, o PDT se colocava como um partido de relevância já nos seus anos iniciais.

Após as eleições, se conformava uma nova agenda política no país, com o movimento das Diretas Já ganhando força. Nesse bojo, Brizola e outros membros do partido tiveram importante atuação na campanha pelas eleições diretas, mobilizando comícios e passeatas por todo o país. Em 1984, diante da emenda Dante Oliveira, que pedia a votação direta para presidente, o PDT votou favoravelmente, em bloco. Todavia, esse pleito foi derrotado.

Imagem: Protesto pelas Diretas Já! Fonte: Memorial da Democracia.

Com isso, o jogo político se voltou para a escolha indireta para presidente, que ocorreria em 1985, a qual marcava o fim da Ditadura. O PDT não participou, formalmente, das negociações, porém seus congressistas manifestaram-se favoráveis à candidatura de Tancredo Neves (PMDB). Tancredo fora eleito, porém, sua doença e morte levaram seu vice, José Sarney, à presidência.

Na ‘Nova República’, duas importantes mudanças estavam em jogo. De um lado, havia uma disputa pelos rumos que deveriam tomar a nova Constituição. De outro, a crise econômica, que já se instalava desde o fim da década de 1970, mostrava sinais claros de que uma recessão estava em curso.

Como resposta à crise, Sarney criou o Plano Cruzado, a fim de estabilizar a economia e por fim à inflação. O Plano previa o congelamento de preços, o que acabou levando à escassez de alimentos e produtos básicos. Inicialmente, esse projeto trouxe prestígio a Sarney e ao PMDB. Em contrapartida, Brizola, que tecera duras críticas, foi levado ao isolamento político. Esse fato fez com que o PDT não tivesse números expressivos nas eleições de 1986.

Em relação à Constituinte, a atuação do PDT foi marcada pela defesa de temas nacionalistas, como o monopólio estatal do petróleo. Além disso, o partido apoiou o presidencialismo e a manutenção da jornada de trabalho de 40 horas semanais, garantindo do direitos instituído pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) de Vargas.

Enquanto um dos principais expoentes da oposição ao governo, Brizola se lançou como candidato à presidência nas eleições de 1989. Todavia, ele foi escamoteado na disputa, que se centrou nas figuras de Fernando Collor e Lula, com a vitória do primeiro. A principal explicação para isso foi a fraqueza das bases eleitorais do partido, que só teve votação expressiva nos estados do RJ e RS.

A década de 1990: o PDT como partido de oposição

Já no início da nova década, começaram as campanhas para as eleições de 1990. Este foi o ano de melhor desempenho eleitoral do partido. Brizola foi indicado como candidato a governador do RJ e venceu. Além dele, o PDT elegeu também os governadores de ES e RS, 46 deputados federais e 91 estaduais.

Nesse contexto, o PDT se colocou como oposição à Collor. No plano econômico, o partido se contrapôs à retenção dos depósitos em poupança, além de criticar as medidas reformistas do Plano Collor e as políticas de privatização do governo.

Entre 1991 e 1992, Brizola, então governador do RJ, buscando viabilizar recursos para o estado, adotou uma política de “oposição responsável” ao governo Collor. Isso significou uma aproximação de Brizola à Collor, o que gerou uma discordância de grande parte da bancada do PDT na Câmara em relação ao político.

Essa rachadura entre a bancada do PDT e Brizola, acabou por manchar sua imagem de líder. Por mais que sofresse com a desaprovação do partido, apontando que essa posição prejudicaria o PDT, o político se recusava a criticar o presidente.

Essa questão se estendeu até a abertura do processo de impeachment de Collor por crime de responsabilidade. Apesar de Brizola ainda ter se mantido relutante, o PDT votou unido a favor do impeachment. Como resultado, Collor foi condenado à inabilitação política por 8 anos, sem demais prejuízos judiciais.

Em 1994 aconteceriam novas eleições. Brizola já não contava com apoio dentro do partido para se candidatar à presidência. Apesar disso, ele lançou sua candidatura, amargando o terceiro lugar na disputa. O PDT sequer chegou a ganhar nos seus antigos redutos eleitorais, RS e RJ. No total, o partido elegeu quatro senadores, 34 deputados federais e 88 estaduais.

Com a vitória de Fernando Henrique Cardoso, o PDT ocupou, novamente, um local de oposição ao governo. Passando por um momento turbulento, ao menos 7 deputados federais se retiraram do PDT entre 1996 e 1997. Um dos principais componentes da crise dentro do partido foi a votação de uma emenda constitucional que garantia o direito à reeleição presidencial, que foi aprovada.

Com isso, nas eleições para presidente de 1998 o PDT acabou participando da coligação com o PT, que lançou Lula como candidato com Brizola como vice. Todavia, FHC se reelegeu logo no primeiro turno. Como reflexo da turbulência interna, o PDT elegeu 24 deputados federais – dez a menos do que na eleição anterior, e apenas dois senadores.

Leia também: História do PT: conheça o maior partido da esquerda no país

Anos 2000 em diante: o PDT sem Brizola

O início do novo milênio foi marcado por uma possível fusão entre os partidos historicamente trabalhistas: PDT e PTB. Juntos, eles tinham 46 deputados e 4 senadores. A proposta era extinguir a legenda do PDT, ficando somente a do PTB. A intenção era fortalecer ambos os partidos para a eleição presidencial de 2002, garantindo mais recursos de campanha, entre eles, o tempo de televisão.

Todavia, a manobra não chegou a se concretizar pelas diferenças internas dos partidos. Enquanto o PDT fazia uma oposição consistente ao governo FHC, alguns membros do PTB integravam cargos de segundo e terceiro escalões do governo.

Assim, o PDT chegou enfraquecido às eleições de 2002. Naquele ano, os PDTistas decidiram apoiar o candidato Ciro Gomes (PPS) à presidência. Ciro ficou em 4º lugar, com 12% dos votos e Lula foi eleito à presidência. No restante, o partido elegeu o governador de Goiás, 19 representantes na Câmara e 4 no Senado.

Veja também nosso vídeo sobre como seria o Brasil com Ciro Gomes na presidência!

Em 2004, o partido passou por um baque, com o falecimento de Leonel Brizola, seu fundador e mais expoente líder. Por respeito e proximidade, o presidente Lula decretou três dias de luto oficial, ainda que à época Brizola fosse um grande crítico de seu governo.

Nas eleições de 2006, mudando de estratégia, o PDT lançou Cristovam Buarque à presidência, que fora ministro da Educação no primeiro governo Lula. O candidato terminou em quarto lugar, com pouco mais de 5% dos votos válidos, enquanto Lula foi reeleito. Na Câmara, a presença do PDT permaneceu inalterada e no Senado o partido elegeu mais um representante.

Nos anos seguintes, o PDT manteve-se como um partido aliado à centro-esquerda, porém sem grande expressividade. O partido voltou a se revigorar com a entrada de Ciro Gomes, em 2015, que galgou espaços de liderança no partido. A presença de Ciro levantou o nome do PDT, principalmente em meio ao eleitorado jovem.

Ciro disputou a presidência em 2018, ficando em 3º lugar no pleito que levou Jair Bolsonaro ao cargo de chefe do Executivo. Em meio à polarização que marcou as eleições, o candidato do PDT apoiou Haddad (PT) no segundo turno, porém explicitando que seria um “apoio crítico”, sem participação efetiva na campanha.

Nas eleições de 2022, Ciro se lança candidato à presidência novamente. Todavia, a posição dúbia adotada por ele num momento crítico da disputa de 2018 acabou afetando seu desempenho em 2022. Como consequência, Ciro teve o seu pior resultado eleitoral, somando pouco mais de 3% dos votos válidos.

Veja também: História do MDB: o partido para todos

Qual o futuro do PDT?

O PDT tem seu cerne no Trabalhismo de Vargas e na figura de Leonel Brizola, sendo que muitas vezes a própria história do partido se confunde com a jornada deste líder. É possível se analisar que o auge do partido se deu ao final da década de 80 e início de 90, com o PDT se alavancando nos ventos que restabeleceram a democracia no Brasil.

Desde o falecimento de Brizola, entretanto, o partido se mostra sem um rumo certo, com baixo desempenho eleitoral e pouca força nas bancadas legislativas. Novos ares parecem dar fôlego ao PDT com a entrada de Ciro Gomes. Entretanto, a figura controversa e polêmica do político geram dúvidas a respeito dessa nova liderança.

Qual será o papel do PDT no estado atual de polarização do Brasil? O partido tem forças para se constituir como uma terceira via? É possível que Ciro Gomes seja no século XXI o que Brizola foi para o partido no século XX?

E aí, já conhecia a história do PDT? Deixe sua opinião nos comentários!

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Conteúdo escrito por:
Redatora voluntária na Politize!, graduanda de Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina e apaixonada por Política e Economia.

História do PDT: você conhece o partido de Brizola?

11 jul. 2024

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