No dia 30 de novembro de 1979 ocorreu, em Florianópolis (SC), um episódio que ficou conhecido como Novembrada. Durante a visita oficial do então presidente João Figueiredo à cidade, estudantes e moradores se reuniram no centro da capital catarinense, onde ocorreram manifestações e confrontos.
O fato ganhou repercussão nacional e passou a ser lembrado como um dos momentos marcantes do período final da ditadura militar no Brasil, quando já se vislumbrava uma possível abertura para a democracia.
Este texto foi elaborado para ajudar a compreender o que foi a Novembrada e por que ela se tornou um marco importante na história brasileira. Mas antes de detalhar o que aconteceu, vamos contextualizar o momento político e social do Brasil naquele período.
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Contexto histórico: um Brasil em crise, censura e ditadura
O ano de 1979 marca um momento decisivo na história política brasileira. A ditadura militar, instaurada em 1964, já não possuía a mesma força e legitimidade dos anos anteriores.
Durante o final da década de 1960 e o início dos anos 1970, o governo divulgou intensamente a ideia do chamado “milagre brasileiro”, um período de forte crescimento econômico sustentado por endividamento externo, investimentos estatais e controle autoritário da sociedade.
No entanto, a prosperidade anunciada não alcançava a maioria da população, que continuava submetida a baixos salários e à perda de direitos. Quando a crise internacional atingiu o Brasil, a partir de meados dos anos 1970, a base econômica do regime começou a ruir.
A dívida cresceu, a inflação disparou e o arrocho salarial tornou-se ainda mais severo. Como relatam testemunhos sobre o período, a população convivia com custo de vida elevado, fragilidade institucional e repressão aos opositores do regime.
Assim, 1979 já não era mais o tempo do otimismo oficial. O que antes havia sido apresentado como crescimento e estabilidade transformou-se em crise econômica, desgaste político e perda de legitimidade.
O governo tentava conduzir uma abertura controlada, ao mesmo tempo em que mantinha estruturas de censura e repressão. João Figueiredo, o último general-presidente, simbolizava esse paradoxo: discursos sobre democracia conviviam com ameaças autoritárias e políticas excludentes.
É nesse cenário de pós-milagre econômico, mas ainda sob ditadura, que se insere a Novembrada, uma expressão concreta de um país que já rompia o silêncio imposto pelo regime.
Como ressalta o professor Waldir Rampinelli, no vídeo institucional UFSC Explica, a Novembrada teve repercussão em níveis: local, nacional e até internacional. Segundo o autor, estudar esse fato histórico de forma crítica é fundamental para evitar que os erros do passado se repitam.
Rampinelli afirma que a Novembrada foi protagonizada por estudantes que mobilizaram a população na luta contra uma ditadura militar já em processo de desgaste, um regime autoritário e alinhado aos interesses dos Estados Unidos.
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A Lei da Anistia e os conflitos de memória histórica
A Lei da Anistia (Lei nº 6.683/79), aprovada e sancionada em agosto de 1979, revelou os limites da abertura política conduzida pelo governo de João Figueiredo.
Enquanto setores da oposição e da sociedade civil defendiam uma anistia ampla, geral e irrestrita, que incluísse a responsabilização por crimes como tortura e assassinato, prevaleceu uma anistia negociada que promoveu o esquecimento dos atos repressivos.
No entanto, a abertura conduzida por Figueiredo foi cuidadosamente limitada para preservar o poder militar. A Lei da Anistia, ao impedir a responsabilização por crimes cometidos durante a repressão, garantiu a impunidade dos agentes do regime e evitou um debate público mais profundo sobre o passado autoritário.
Essa solução garantiu a impunidade dos agentes do Estado, preservou a autonomia militar e impediu um debate público profundo sobre os crimes cometidos durante a ditadura.
Embora discursasse em favor de uma abertura política e da reconciliação nacional, o governo manteve práticas autoritárias, como a repressão a movimentos sociais, intervenções em sindicatos, perseguições e prisões políticas.
Embora amplos setores da sociedade interpretem a Lei da Anistia como um mecanismo de impunidade, defensores da transição negociada argumentavam que ela foi uma solução possível para evitar rupturas institucionais e garantir a continuidade do processo de abertura política.
É nesse contexto de abertura restrita e crescente insatisfação social que ocorreu a Novembrada, como veremos a seguir.
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Novembrada: o estopim em Florianópolis
O episódio conhecido como Novembrada aconteceu na capital catarinense. Na ocasião, estudantes promoveram uma manifestação em razão da visita do então presidente João Batista Figueiredo.
Na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o Diretório Central dos Estudantes (DCE) desempenhou papel central na reorganização da luta política, apesar das limitações impostas pelo regime autoritário e da vigilância constante dos órgãos de repressão.
Segundo Marlene Favéri (2014), a preparação para o protesto ocorreu de forma cautelosa e estratégica. Reuniões clandestinas, articulação entre diferentes correntes políticas e a elaboração de faixas e documentos públicos marcaram esse processo.
O objetivo era realizar um ato pacífico, mas politicamente significativo, que denunciasse o arrocho salarial, a carestia e a permanência da ditadura, ao mesmo tempo em que buscasse sensibilizar a população da cidade.

A visita de João Figueiredo a Florianópolis estava destinada a participar da inauguração de uma placa comemorativa em homenagem a Floriano Peixoto, segundo presidente da República. Durante a visita, no entanto, o clima na cidade já era de forte contestação ao regime militar.
Ao protesto estudantil, que se posicionava contra o regime ditatorial, somaram-se cidadãos que assistiam à cerimônia na Praça XV de Novembro. Esses participantes entoavam palavras de ordem contra o alto custo de vida e denunciavam a incapacidade do governo militar de solucionar a crise econômica.
Por outro lado, estudantes do ensino médio foram liberados pelas escolas para apoiar o governo. Servidores públicos também tiveram autorização para deixar as repartições e ir até a região da praça para prestigiar o evento.
O tom das palavras tornou-se mais alto e iniciaram os xingamentos contra o presidente que discursava na sacada da sede do governo, em frente à praça, área central de Florianópolis.

Irritado com palavras de ordem e desacatos pessoais, o presidente João Figueiredo decidiu enfrentar diretamente os manifestantes, contrariando seus assessores. A rua de paralelepípedos tornou-se palco de confronto, com o governante partindo para o embate verbal, o popular “bater boca”, o que evidenciou a perda de controle da situação e maior insatisfação popular.
O clima se agravou com empurrões, safanões e gritos, até que o presidente declarou “não admitir ofensas à sua mãe”. Diante da tensão crescente, acabou sendo contido por seus assessores, encerrando o contato direto com os manifestantes.

Em meio às manifestações, populares arrancaram a placa que seria inaugurada e, na sequência, estudantes a levaram até a frente do Palácio do Governo, onde a atiraram contra a porta do prédio. O gesto marcou um momento simbólico da Novembrada.
Ainda assim, o episódio teve desdobramentos imediatos: estudantes envolvidos nos protestos foram identificados e presos, muitos deles enquadrados na Lei de Segurança Nacional, o que ampliou a mobilização, prolongou as manifestações nos dias seguintes, com protestos contra essas detenções.
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Repressão política e prisões após a Novembrada
A reação do Estado foi marcada pela repressão. Foi utilizada a Lei de Segurança Nacional (lei n. 7.170/1983), por considerar que o episódio atentava contra a segurança nacional, a ordem política e social.
Após os acontecimentos do dia, estudantes foram identificados, perseguidos e presos pelos órgãos de segurança. Sete jovens ligados ao movimento estudantil da UFSC foram detidos e submetidos a interrogatórios, sob a acusação de atentarem contra a segurança nacional.
O enquadramento dos estudantes na Lei de Segurança Nacional evidenciou a continuidade de mecanismos autoritários, mesmo em um período de suposta abertura política.
Por outro lado, setores do governo militar justificavam a manutenção de instrumentos repressivos alegando a necessidade de preservar a ordem institucional e evitar a instabilidade.
No entanto, as prisões geraram ampla mobilização de solidariedade por parte da universidade, de familiares, de setores da sociedade civil e da imprensa, prolongando o impacto da Novembrada por vários dias e ampliando sua repercussão nacional.
Novembrada: mulheres, resistência, legado e memória
Como aponta Favéri (2014), as mulheres participaram ativamente na Novembrada, tanto nas manifestações quanto nas redes de solidariedade que se formaram após as prisões.
Estudantes, mães, amigas e trabalhadoras participaram nos protestos, enfrentaram a repressão e assumiram um papel fundamental na mobilização pela libertação dos presos. Três mulheres estudantes foram detidas, vivenciando diretamente o cárcere e os interrogatórios.
Para a autora, destacaram-se os atos de solidariedade protagonizados por mulheres que não integravam o movimento estudantil, mas que se mobilizaram em defesa dos jovens detidos. Mães e amigas ocuparam as ruas, recorreram a símbolos religiosos e familiares e desafiaram o silêncio imposto pela ditadura.
A Novembrada deixou como principal legado a demonstração pública do enfraquecimento da ditadura militar brasileira no final da década de 1970. Ao reunir estudantes, trabalhadores e moradores de Florianópolis em um protesto contra a visita do presidente da República, o episódio rompeu o clima de medo ainda presente e evidenciou que setores significativos da sociedade estavam dispostos a contestar abertamente o regime.
O acontecimento contribuiu para a formação política e o fortalecimento da participação cidadã, especialmente entre jovens, trabalhadores e mulheres. O movimento impulsionou redes de solidariedade, ampliou o protagonismo feminino na resistência e reforçou a luta por direitos e liberdades.
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Existem registros audiovisuais sobre a Novembrada que contribuem de forma significativa para a preservação da memória desse episódio histórico:
- O curta-metragem Novembrada (1998), dirigido por Eduardo Paredes, reconstrói de maneira ficcional os acontecimentos de novembro de 1979, destacando o clima de tensão, os confrontos nas ruas de Florianópolis e o desgaste do regime militar, além de contar com o ator Lima Duarte no papel do presidente e teve reconhecimento em festivais nacionais.
- O documentário Encontros da Novembrada (2022), dirigido por Kamila Harger, reúne depoimentos de ex-estudantes presos durante os protestos, evidenciando as motivações políticas do movimento, o contexto de crise econômica e a repressão estatal no final da ditadura, ampliando a compreensão do episódio a partir das experiências vividas por seus protagonistas.
Como legado histórico, permanece como referência das lutas democráticas no Brasil e como marco da memória política de Santa Catarina, ressaltando a necessidade de preservar e estudar esses episódios para compreender o processo de redemocratização do país.
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Referências:
- Acervo Globo – Presidente Figueiredo bateu boca com manifestantes em Florianópolis
- FAVÉRI, Marlene de. Novembrada: as mulheres, o cárcere e as solidariedades. Fronteiras: Revista Catarinense de História, Florianópolis, n. 24, p. 61–86, 2014. Disponível em: https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=672071481006. Acesso em: 5 jan. 2026.
- Memorial da Democracia – FMI ordena mais arrocho salarial
- Youtube UFSC Ciência – UFSC Explica: Novembrada
- Youtube – Encontros da Novembrada

