A produção de cosméticos convencionais utiliza cerca de mais de 10 mil substâncias químicas, inclusive petroquímicas, chamadas de Poluentes Orgânicos Persistentes (POP’s), que não se decompõem facilmente, chegando a levar muitos anos, e que podem se acumular no corpo humano.

Produtos cosméticos são uma paixão nacional que nem sempre é lembrada quando se fala em gostos e preferências dos brasileiros.

Neste texto, o Politize! vai falar sobre a indústria e o mercado consumidor de produtos cosméticos no país e suas consequências para o meio ambiente, abordando a legislação vigente e a atuação de movimentos sociais ligados ao tema. Além disso, vamos discutir também a alternativa dos cosméticos sustentáveis e seus benefícios, desvendando alguns conceitos.

Um panorama da indústria de cosméticos no Brasil

De acordo com o panorama de 2021 da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), o Brasil é o quarto país no ranking de maiores consumidores de produtos de beleza e higiene, perdendo apenas para Estados Unidos (EUA), China e Japão. Nosso país também é o terceiro mercado no ranking global de países que mais lançam produtos anualmente, atrás novamente dos EUA e da China.

Mesmo durante a pandemia de COVID-19, a indústria de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos seguiu firme no Brasil. No entanto, a pandemia influenciou a maneira de cuidar do corpo e da pele. De acordo com a ABIHPEC, durante os dez primeiros meses de 2020 houve um crescimento de 161,7% nas vendas de produtos de cuidados com a pele, em comparação com o mesmo período de 2019. A indústria se manteve estável também de janeiro a março de 2021, em comparação ao mesmo período de 2020.

Qual a relação dos cosméticos com o meio ambiente?

Frente a esse grande volume de consumo de produtos cosméticos no Brasil e no mundo, surgem reflexões sobre o impacto dessa indústria no meio ambiente. Isso porque a produção de cosméticos convencionais utiliza cerca de mais de 10 mil substâncias químicas, inclusive petroquímicas, chamadas de Poluentes Orgânicos Persistentes (POP’s), que não se decompõem facilmente, chegando a levar muitos anos, e que podem se acumular no corpo humano.

Ingredientes e substâncias como microesferas/microplásticos (pequenas partículas de polietileno), corantes, neutralizantes, ceras parafínicas, UV filtros, alguns conservantes (parabenos, triclosan) e polímeros sintéticos (poliacrilatos) podem impactar significativamente o meio ambiente.

Alguns produtos convencionais merecem especial atenção, como esfoliantes com microesferas, hastes flexíveis de plástico usadas para limpeza das orelhas e remoção de maquiagem, lenços umedecidos, frascos/embalagens plásticas e maquiagem com glitter. Isso porque, por serem em sua maioria compostos de plástico, estes produtos não são biodegradáveis, ou seja, não se decompõem facilmente, sendo geralmente descartados de maneira incorreta.

No caso das microesferas e do glitter, que escoam pelos ralos e viajam pela rede de esgoto até chegarem aos rios e oceanos, a extensão do dano pode ser ainda maior. Uma vez no meio aquático, eles são ingeridos por animais e, através da cadeia alimentar, são ingeridos também por pessoas que consomem animais contaminados.

A ingestão de microplásticos pelos animais aquáticos pode levá-los à asfixia, causar lesões em órgãos internos e intoxicação, devido à grande capacidade dos microplásticos de absorverem compostos de alta toxicidade, como metais pesados.

Nos seres humanos, apesar de alguns estudos já terem identificado a presença de microplásticos em fezes humanas, pouco se sabe ainda sobre quais os efeitos que estes podem ter no corpo humano. O que se sabe é que pode haver consequências mecânicas e patológicas, como obstruções e intoxicação, como nos animais aquáticos.

Assim, tem crescido a preocupação do consumidor com o uso de ingredientes nocivos à saúde e ao meio ambiente, bem como com o volume de embalagens dos produtos descartadas indevidamente na natureza. Muitos destes ingredientes vêm sendo até mesmo proibidos em alguns países, como nos produtos do Reino Unido, forçando a indústria a buscar alternativas.

Para atender os anseios deste mercado consumidor cada vez mais consciente, os fabricantes têm considerado os impactos do ciclo de vida de seus produtos, desde a fabricação até a destinação final dos seus resíduos pós-consumo. Neste contexto, surgem os cosméticos sustentáveis e o conceito de slow beauty, os quais iremos desvendar ao longo do texto.

E qual é o cenário brasileiro nesse tema?

A exploração do meio ambiente na produção de cosméticos também é uma preocupação dos movimentos ecológicos. Em 2009, a organização não-governamental (ONG) Greenpeace, atuante na defesa do meio ambiente em todo o mundo, divulgou um relatório intitulado “A farra do boi na Amazônia” mostrando que o desmatamento na floresta Amazônica está relacionado também com a indústria de produtos de higiene e beleza. No relatório, o grupo ambientalista relacionou o avanço das fazendas de gado na Amazônia também com a fabricação de subprodutos de couro e glicerina, esta última muito utilizada produção de cosméticos.

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A Rede WWF, outra ONG que atua pela preservação do meio ambiente, igualmente se preocupa com a exploração das florestas para atividades econômicas e defende uma economia sem desmatamento. De acordo com a WWF, “deve haver um conjunto de políticas públicas e empresariais de uso sustentável dos ecossistemas”, o que vai gerar e agregar valor aos produtos resultantes da exploração destes, como os cosméticos. A organização defende que a biodiversidade pode ser explorada sem que para isso haja a destruição do bioma e, assim, propõe o extrativismo vegetal sustentável, praticado, por exemplo, por povos e comunidades tradicionais do Cerrado, que há milhares de anos usam o pequi, o babaçu e o baru para produção de cosméticos, dentre outros produtos, para geração de renda.

Segundo o relatório do Greenpeace, o governo brasileiro acaba por financiar algumas das empresas que colaboram para derrubada da floresta Amazônica por meio de empréstimos concedidos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Um outro movimento que também se preocupa com a produção de cosméticos é o de defesa dos direitos dos animais. Em abril de 2021, foi lançado o curta-metragem “Salve o Ralph”, uma campanha mundial pelo fim de testes de produtos cosméticos em animais. A ONG Humane Society International é a responsável pela produção, que foi escrita e dirigida por Spencer Susser. No Brasil, a Humane Society International junto com a ONG Te Protejo, que promove o uso de produtos de higiene pessoal e de limpeza não testados em animais, criou um abaixo-assinado reivindicando a proibição destes testes no país.

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A campanha já rendeu frutos no Brasil. Em maio de 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) considerou constitucional a lei 7.814/17, do estado do Rio de Janeiro, que proíbe o uso de animais em testes de cosméticos, perfumes, produtos de higiene pessoal, de limpeza e seus componentes, em uma ação proposta em 2018 pela Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC). Essa decisão pode estimular a edição de legislações semelhantes nos demais estados e até mesmo na esfera federal. Outras unidades da federação como São Paulo, Minas Gerais, Amazonas, Pará, Pernambuco, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e o Distrito Federal já possuem leis nesse sentido.

No entanto, no Brasil ainda não há uma regulamentação oficial da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) específica para os cosméticos naturais e orgânicos, pois o tema ainda é relativamente novo e controverso. Mas, independente de sua composição, o produto deve estar em conformidade com a legislação nacional vigente para produtos cosméticos e de higiene pessoal em geral. Existem, porém, organizações certificadoras privadas nacionais e internacionais que estabelecem regras e padrões próprios para fazer uma padronização de conceitos e emitir suas certificações. Dessa maneira, fabricantes que queiram obter uma determinada certificação para seus produtos cosméticos devem atender aos requisitos estabelecidos pela certificadora que irá emiti-la.

O que são os cosméticos sustentáveis e quais mudanças eles podem trazer?

De acordo com o blog Crédito de Logística Reversa, os cosméticos sustentáveis são “aqueles que foram desenvolvidos levando em consideração todos os impactos de seu ciclo de vida, optando-se assim por alternativas que minimizem tais impactos”. Assim, são cosméticos fabricados com o menor impacto ambiental possível, sem reagentes químicos e com cadeia sustentável de fornecedores.

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Estes produtos caracterizam-se por serem eco-friendly, ou seja, amigáveis ao meio ambiente, podendo ser Cruelty Free (não testado em animais), Paraben Free (livre de Parabeno, ingrediente cancerígeno), veganos (sem matérias-primas de origem animal), orgânicos (com matérias-primas certificadas como livre de agrotóxicos), naturais (sem aditivos químicos), biodinâmicos (orgânico, livre de aditivos químicos e com respeito ao ciclo natural da matéria-prima), etc. Não raro, esses atributos se confundem e cosméticos veganos, naturais e/ou orgânicos são tidos como cosméticos sustentáveis, mas isso nem sempre é verdade. Porém, existem marcas que de fato reúnem todas essas características em um produto.

Além disso, os fabricantes têm investido igualmente em uma relação mais próxima com seus clientes, que são sobretudo jovens engajados que consomem não só o produto, mas também a marca e todo o conceito que ela representa. De acordo com o portal eCycle, o relatório Pink Report de 2018, da The Benchmarking Company, revelou que nos EUA “os consumidores da Geração Z são os que mais priorizam produtos orgânicos e naturais (73%), contra 70% da Geração Y, 67% da Geração X e 61% dos Baby Boomers”.

Estudos mostram que saúde e sustentabilidade/redução do impacto ambiental são os principais motivos para os consumidores buscarem cosméticos sustentáveis, mas que o preço ainda é um fator muito importante em sua escolha. Contudo, o Caderno de Tendências 2019-2020, elaborado pelo Sebrae em parceria com a ABIHPEC, revelou que 73% dos consumidores brasileiros pagariam mais por produtos sustentáveis.

Nesse contexto, um dos principais fatores dos cosméticos sustentáveis é a sua composição, pois eles devem ser produzidos a partir de matérias-primas renováveis. Uma forte tendência na indústria de cosméticos é o uso de subprodutos do setor de alimentos por meio do processo de upcycling (reaproveitamento de materiais descartados). Essa tendência ganhou força recentemente, pois a pandemia de COVID-19 perturbou as cadeias de suprimentos da indústria. A previsão é de que cada vez mais fabricantes sigam este movimento, buscando fontes de abastecimento regionais para desenvolver produtos mais sustentáveis.

Ultimamente, o mercado tem registrado vários lançamentos surpreendentes a partir do processo de upcycling. Segundo o portal Brazil Beauty News, a empresa francesa Laboratoires Expanscience, por exemplo, lançou “um princípio ativo destinado a cuidados para o contorno dos olhos à base de abacates descartados”. Outros ingredientes interessantes são borra de café, sementes de abóbora, raspas de limão, polpa de cassis e caroço de ameixa. Contudo, não se pode dizer que o reaproveitamento de coprodutos e subprodutos naturais da indústria alimentícia é uma novidade. Alguns destes já são largamente utilizados em produtos cosméticos, como o óleo de dendê.

Um outro fator importante a ser considerado quando o assunto é cosmético sustentável é a sua embalagem. O impacto ambiental de frascos/embalagens plásticas tem se tornado cada vez mais uma preocupação para os consumidores que buscam produtos sustentáveis. Assim, os fabricantes têm investido em embalagens eco-friendly, livres de plásticos e com materiais recicláveis e renováveis, além de reduzir as embalagens ao mínimo possível. Algumas alternativas ao plástico são a utilização dos bioplásticos, que possuem fontes renováveis de matéria-prima, como a mandioca e cana-de-açúcar, ou dos vidros, que são 100% recicláveis. Uma outra boa alternativa é o uso de refil do produto. Ainda, pode-se fazer a logística reversa de embalagens, ou seja, pensar no “caminho de volta” destas e dos resíduos dos produtos após o consumo, bem como traçar ações de recuperação para reaproveitamento destes em novos ciclos produtivos, como a reciclagem, ou destinação final ambientalmente adequada.

Por fim, as condições de trabalho dos fornecedores de matérias-primas é outro fator importante a se observar. Segundo o blog Crédito de Logística Reversa, a empresa Verisk Maplecroft Research aponta que os ingredientes cosméticos manteiga de karité, seda, baunilha e cacau são os que mais apresentam riscos sociais, posto que o manejo destes pode envolver tráfico de pessoas, trabalho infantil, discriminação e grilagem. Dessa forma, adquirir matéria-prima de origem confiável e certificada é muito importante quando o assunto é cosmético sustentável.

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Toda essa preocupação com a saúde e o meio ambiente fez surgir o movimento slow beauty que defende a beleza natural e resgata saberes tradicionais, como os preconizados pelas nossas avós. De acordo com o portal Catraca Livre, o movimento slow propõe o autocuidado e a beleza, a partir de produtos mais simples e livres de componentes químicos que prejudiquem a saúde, e também com base na sustentabilidade, no respeito aos animais e no comércio justo.

Não restam mais dúvidas de que os cosméticos sustentáveis chegaram para ficar, seguindo uma tendência de crescimento a cada ano. Mas, afinal, como saber se um cosmético é de fato “sustentável”? Como no Brasil ainda não há uma regulamentação oficial da Vigilância Sanitária para os cosméticos sustentáveis, selos de certificação de órgãos especialistas, como os do Instituto Biodinâmico (IBD) e da Ecocert, colocados nos rótulos dos produtos ajudam os consumidores a identificá-los. Quando se trata de cosmético sustentável, a sustentabilidade não se observa apenas nos ingredientes e materiais utilizados e na forma como foram obtidos. Deve-se considerar também aspectos ambientais e socioeconômicos em toda a sua cadeia produtiva, garantindo-se um impacto totalmente positivo.

Ademais, a Constituição Federal afirma que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, e que este é essencial à sadia qualidade de vida. Dessa forma, está claro que a pauta da sustentabilidade deve ser uma das prioridades do Poder Público. Além de uma questão ambiental, esta pauta é também uma questão de saúde pública, e isso vale não somente quando o assunto é a fabricação de cosméticos.

REFERÊNCIAS

Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC). Panorama do Setor da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos – Atualização abril 2021

Beatriz dos Anjos Furtado; Danilo de Oliveira Sampaio. Cosméticos sustentáveis: quais fatores influenciam o consumo destes produtos?

IBD – Diretrizes Orgânico e Natural

Pink Report 2018 

Portal ASSESSA 

Portal BBC News Brasil

Portal Brazil Beauty News

Portal Catraca Livre 

Portal ConJur

Portal Cosmetic Innovation

Portal Cosmetic Innovation 

Portal Cosmetics Online https://www.cosmeticsonline.com.br/artigo/87

Portal Ecoa Uol

Portal eCycle 

Portal G1 

Portal Green Me

Portal Green Me

Portal in-cosmetics Connect

Portal Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec)

Portal Lohas

Portal Meio Sustentável

Portal Mercado 1 Minuto

Portal Mundo Educação

Portal Negócios SC

Portal Polen

Portal Rede WWF

Portal Rede WWF

Portal Terra

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