O que você espera saindo de uma visita ao seu médico? Possivelmente um pedido listando alguns exames ou quem sabe a receita de um ou outro medicamento. Mas e se a prescrição médica também incluir uma dose diária de natureza. Inesperado? Pois é isso que países como Japão, Canadá e Estados Unidos estão fazendo no tratamento de condições físicas e mentais tais como doenças cardíacas, pressão alta, diabetes, depressão e ansiedade.

Os benefícios à saúde do contato com o mundo natural são popularmente conhecidos, mas as evidências científicas e suas contribuições para além da manutenção da forma física e controle de estresse ainda são pouco divulgadas, apesar da ampla gama de estudos disponíveis sobre o tema.

É tentando preencher essa lacuna que preparamos este artigo pra você, leitor do Politize!. Aqui iremos mostrar a relação entre o contato com a natureza e o bem-estar físico e mental de adultos e crianças, explicar a ciência que ampara esses argumentos, contar um pouco sobre os programas de “prescrição da natureza” que estão andamento em alguns países e, de bônus, compartilhar alguns estudos sobre como a relação com a natureza nos torna não só mais saudáveis, mas também mais felizes e generosos.

Contato humano com a natureza: aspectos evolutivos, econômicos e sociais

Perdoem o trocadilho, mas estar na natureza é natural ao ser humano. Nossa conexão com o meio ambiente vem de nosso passado evolutivo. Por muitos anos a natureza foi nosso local de evolução, nossa casa e nossa fonte de alimento e de socialização. Civilizações surgiram e desenvolveram suas sociedades, economia, cultura, religião e política em torno do mundo natural.

Segundo Keith Tidball, cientista social do Departamento de Recursos Naturais da Universidade de Cornwell, o ser humano passou milhares de anos como parte da natureza. Nos últimos 200 anos nós nos separamos dela, mas somos compelidos a estabelecer essa conexão, especialmente em períodos de crise, porque associamos a natureza com esperança e otimismo.

Um dos grandes nomes em conservação da biodiversidade, o biólogo, naturalista e escritor E.O. Wilson, propõe que a afinidade que nós humanos temos com a natureza é resultado de uma predisposição genética com bases evolutivas e psicológicas. O tema é abordado em um de seus livros mais celebrados, Biophilia, publicado em 1984, onde E. O. Wilson define biofilia como a tendência inata do ser humano a concentrar sua atenção em todas as formas de vida e seus processos, o que explica nossa atração por outros organismos vivos desde a infância. Em uma entrevista em maio desse ano ao jornal The Washington Post, E. O. Wilson comenta que essa conexão com o mundo natural explica, por exemplo, a presença de animais, plantas e paisagens em expressões artísticas e culturais, ou nossa preferência, quando possível, de morar próximo a áreas verdes assim como rios, lagos e oceanos.

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Se nossa genética nos chama à natureza, nossa realidade econômica e social nos distancia dela. O movimento em direção a uma vida mais sedentária começou com a agricultura 10,000 anos atrás. Com fontes de alimento mais estáveis e a possibilidade de acúmulo da produção, o ser humano começou a fixar suas bases o que deu origem a assentamentos humanos que com o passar de muitos anos se tornaram vilas que então deram origem às cidades. Em 1950, cerca de 30% da população mundial vivia em áreas urbanas. Em 2018, esse número saltou para 55% e a previsão é que ele alcance 68% até 2050.

A vida nas cidades oferece uma enormidade de atrativos: grande oferta de empregos, acesso a saúde e educação de qualidade, variedade de entretenimento, além de maior diversidade social e cultural. No entanto, esses diferenciais carregam consigo o custo do estresse físico e emocional.

Mas a vida urbana não é a única “vilã” dessa história. Outra responsável é a tecnologia. Smartphones, tablets, laptops, vídeo games são comuns hoje nas vidas de adultos e crianças e se suas vantagens são inumeráveis, seus prejuízos não ficam atrás: estar conectado ao mundo virtual praticamente 24 horas por dia, 7 dias por semana tem nos alienado da natureza e do mundo real, prejudicando nosso balanço físico, mental e emocional.

Contribuições do contato com a natureza à saúde de adultos e crianças

Centenas de pesquisas vêm sendo realizadas para entender melhor os benefícios do mundo natural no tratamento de condições físicas, emocionais e mentais, e existem diversas hipóteses que buscam explicar essa relação. Cogita-se, por exemplo, que a proximidade à áreas verdes estimula a prática de exercícios físicos e a exposição à luz do sol, favorecendo a produção de vitamina D que entre outros benefícios promove a manutenção da massa óssea e o fortalecimento de nossa imunidade.  

Acredita-se também que áreas verdes nos colocam em contato com micro-organismos que contribuem para o desenvolvimento do nosso sistema imunológico e que a tranquilidade e o silêncio oferecido pela natureza ajudam a diminuir o estresse.

Seja como for, os resultados das pesquisas realizadas até o momento são animadores, tanto em adultos quanto em crianças:

Adultos:
  • Estresse: um dos principais benefícios está na diminuição dos níveis de cortisol, o chamado hormônio do estresse. Herdado de nossos ancestrais, o cortisol é produzido quando o corpo precisa reagir de forma rápida para fugir ou enfrentar situações de perigo. O problema é que no mundo moderno as adversidades do dia-a-dia – tais como problemas no trabalho ou o transito caótico –ocasionam o chamado estresse crônico que resulta na produção contínua de cortisol, esgotando nosso organismo que constantemente “se prepara” para um perigo que nunca tem fim.

Estudos sugerem que 20 a 30 minutos na natureza ajudam a controlar o estresse e reduzem os níveis de cortisol significativamente, melhorando a capacidade do sistema imunológico.

  • Doenças cardíacas e pressão sanguínea: um estudo desenvolvido pela Universidade de Louisville, Kentucky, e publicado em 2018 no Journal of the American Heart Association/American Stroke Association sugere que pessoas que vivem em áreas verdes têm riscos menores de desenvolver doenças cardíacas e derrames. Realizado de 2009 a 2014, com 408 pessoas de idades, etnias, status de fumante e perfil socioeconômico variados, e com risco elevado de desenvolver doenças cardiovasculares, o estudo revelou que participantes que habitavam em vizinhanças com áreas verdes tinham menores níveis de estresse e maior capacidade de reparação vascular.

Outro estudo foi realizado no Japão com 280 participantes para avaliar os resultados do shinrin-yoku, ou ‘banho de floresta’ – caminhar na floresta de forma contemplativa, resultou na redução do cortisol em mais de 15% e da pressão sanguínea em cerca de 2%.

  • Diabetes: passar mais tempo na natureza também contribui para o controle da diabetes uma vez que a diminuição do estresse, o controle de peso e a melhoria no condicionamento do sistema cardiovascular ajudam a controlar os níveis de açúcar no sangue, o que também melhora nossa imunidade.
  • Doenças respiratórias: estudos mostram que passar mais tempo em áreas verdes diminui os riscos de doenças respiratórias. Plantas e árvores limpam e umidificam o ar, removem material particulado e monóxido de carbono, diminuindo os riscos de asma e outras doenças como pneumonia e bronquite. Além disso, as plantas produzem fitocidas, óleos essenciais que têm propriedades antibactericidas e que quando inalados provocam um aumento no número e atividade de nossas células NK (natural killers ou exterminadoras naturais), responsáveis por defender nosso organismo de células tumorais e infecções.
  • Ansiedade e depressão: estudos também sugerem que estar na natureza ajuda a combater ansiedade e depressão. Pesquisadores da Universidade de Derby no Reino Unido publicaram nesse ano uma revisão de 12 estudos realizados no Canadá, Estados Unidos, Japão, China, Inglaterra, Polônia e Finlândia, os quais demonstraram que caminhar na natureza é efetivo na redução de estados de ansiedade. Seis dos doze estudos também reportaram uma redução nos níveis de depressão, mas pesquisas adicionais são necessárias para resultados mais conclusivos.

Cientistas acreditam que os efeitos do contato com a natureza em estados de ansiedade e depressão podem ser explicados pela redução na ruminação mental, descrita como um padrão repetitivo de pensamentos negativos que está associado a riscos elevados de transtornos mentais. Em um estudo, publicado em 2015, pesquisadores da Universidade de Stanford nos Estados Unidos notaram que participantes que caminharam por uma hora e meia em um ambiente natural tiveram redução nos processos de ruminação, enquanto que participantes que caminharam pelo mesmo tempo em um área urbana não apresentaram efeitos benéficos algum.

  • Criatividade e solução de problemas: um estudo realizado em 2012 na Escócia constatou que participantes que se engajaram em uma imersão de quatro dias na natureza, e sem acesso à tecnologia, tiveram uma melhora na sua capacidade cognitiva, desempenhando 50% melhor em atividades que envolviam criatividade e solução de problemas do que aqueles que não participaram da experiência. Embora outros aspectos possam influenciar esses resultados, o estudo sugere que a natureza exerce um papel importante na restauração da atenção, foco e criatividade é instrumental.
Crianças:

Os resultados da interação com a natureza em crianças são também muito positivos, contribuindo para seu desenvolvimento físico e emocional:

  • Saúde mental: o contato com a natureza contribui para a formação de adultos mais saudáveis. Um estudo com mais de 900,000 pessoas realizado na Dinamarca mostrou que crianças que cresceram em contato com o mundo natural tiveram um risco significativamente menor de desenvolver doenças psiquiátricas quando adultos, aumentando também sua resiliência em situações de estresse.
  • Memória, atenção e desempenho escolar: crianças que passam mais tempo na natureza aumentam seu volume cerebral em áreas que melhoram a memória e atenção. Crianças em idade pré-escolar e estudo primário conseguem focar melhor após uma caminhada 20 minutos em um parque comparado ao mesmo tempo caminhando em uma área urbana.
  • Capacidade pulmonar: um estudo feito com mais de 7,000 crianças no Reino Unido mostrou que crescer próximo a áreas verdes aumenta a capacidade e elasticidade pulmonar, além de diminuir os riscos de desenvolver asma.
  • Melhora do sistema imunológico: em um artigo publicado em 2013, o professor emérito de microbiologia médica da University College of London, Graham Rook, articula que ao expor o sistema imunológico a uma variedade de micróbios que vivem em plantas, animais e no solo, o contato com a natureza diminui o risco de alergias “ensinando” ao corpo a se proteger de micro-organismos perigosos e ignorar aqueles que são inofensivos.
  • Forma física: crianças que passam tempo na natureza são mais ativas, desenvolvendo uma saúde respiratória mais resistente. Além disso, brincar na natureza ao invés do playground desenvolve melhor a habilidade e coordenação motora e o equilíbrio.

Programas de prescrição de natureza ao redor do mundo

Devido aos seus resultados encorajadores, a prescrição de doses regulares de natureza já faz parte dos programas de saúde de alguns países do mundo, entre eles:

Japão: o país foi um dos pioneiros no assunto lançando, em 1982, a prática medicinal shinrin-yoku, ou ‘banho de floresta’, recomendada para combater os efeitos adversos do boom tecnológico e reconectar os cidadãos ao mundo natural. A prática do ‘banho de floresta’ dura cerca de duas horas e é feita de maneira contemplativa, de forma que a pessoa possa de fato desacelerar e usar todos os seus sentidos na interação com a natureza.

Estados Unidos: a prescrição do contato com a natureza nasceu de uma iniciativa da organização não-governamental Park Rx America, criada em 2017. A plataforma da organização, que está integrada ao registro eletrônico de saúde dos pacientes, permite aos profissionais de saúde localizar os parques mais próximos ao paciente para a prática das atividades prescritas. Atualmente, a plataforma é utilizada por mais de 1000 profissionais de saúde em 47 estados americanos.

Canadá: o programa Park Prescriptions (Prescrições de Parque) começou em 2020 através de uma iniciativa da Fundação BC Parks. Através do PaRx, os pacientes são orientados via prescrição médica a passar pelo menos duas horas por semana, sendo no mínimo 20 minutos diários, em contato com o mundo natural, seja caminhando ou pedalando. O progresso do paciente é monitorado em visitas de acompanhamento.

Como a interação com a natureza contribui para uma sociedade mais feliz e generosa

Outro tema que vem sendo estudado nos últimos anos é a contribuição da natureza para a formação de pessoas mais felizes e generosas. É fácil concluir que se sentir mais saudável, calmo e relaxado nos conduz a um estado de bom-humor e que o desligamento das situações do estresse do dia-dia pode desenvolver nosso foco e criatividade. 

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Mas poderia a natureza também contribuir para uma sociedade mais generosa? De acordo com os cientistas, sim.

Em um estudo publicado em 2014, pesquisadores da Universidade de Berkeley, na California, mostram como a natureza aumenta a sociabilidade. Em um dos experimentos, por exemplo, os participantes foram expostos a imagens da natureza e depois foram convidados a jogar o Jogo do Ditador e o Jogo da Confiança. Aqueles expostos a imagens mais bonitas responderam com mais generosidade e confiança do que aqueles que viram imagens menos bonitas.

Em outro experimento, grupos de participantes foram colocados em ambientes com diferentes plantas enquanto preenchiam uma pesquisa. Quando terminaram, foram informados que podiam sair ou ficar e ajudar a fazer origamis para um programa de ajuda humanitária na Japão. Os participantes que foram expostos a plantas mais atrativas participaram mais no desenvolvimento dos origamis do que os demais.

Pesquisadores afirmam que mesmo quando expostas a imagens não tão belas da natureza, como acidentes naturais por exemplo, as pessoas têm uma tendência a serem mais generosas e a pensar além de si mesmas. A justificativa, segundo os cientistas, estaria no fato de que a natureza desperta em nós o sentimento de ‘awe’, uma sensação de reverência que nos faz sentir parte de algo maior, evocando emoções como amor e compaixão.

E o mesmo acontece com crianças. O contato com o mundo natural desenvolve o espírito de trabalho em equipe e a generosidade. Crianças que estudam em escolas com áreas verdes e que oferecem atividades ligadas a elas brincam de forma mais cooperativa, se comunicam de forma melhor e têm uma redução em comportamentos agressivos.

Quando voltamos às origens da palavra natureza chegamos ao latim natura, palavra ligada aos verbos nasci e oritur e que quer dizer gerar, surgir, a força que gera. Então aproveite a primeira oportunidade que aparecer para se desligar da tecnologia, visitar o parque, jardim ou área verde mais próximo a você e apreciar os benefícios dessa força regeneradora.

REFERÊNCIAS

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1 comentário

  1. esthefane carvalho em 26 de setembro de 2021 às 10:03 am

    Ótimo texto.

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