Em 2024, a edição dos Jogos Olímpicos, sediada por Paris, tomou a internet em uma enxurrada de torcedores que se organizam para incentivar os atletas de todas as nações. Esse espírito, que aflora na maioria da população mundial a cada quatro anos, é prova clara do impacto que os esportes produzem sobre nós.
Entretanto, toda essa comoção gerada em torno das Olimpíadas ainda não foi suficiente para vermos os esportes com a devida atenção que eles merecem.
Além da competitividade, as práticas esportivas são uma importante ferramenta de caráter socioeducacional É uma das poucas atividades mundiais que une pessoas independentemente de qualquer fator externo.
Mesmo com esses benefícios, o esporte ainda sofre com o escanteio na agenda de pautas públicas do governo brasileiro. É um direito central e basilar, que não está à disposição da população geral.
Nesse sentido, a Politize! hoje vai te ajudar a entender um pouco mais sobre como o esporte pode ser utilizado como ferramenta socioeducacional e quais as melhorias necessárias para que isso aconteça. Mas, antes disso, que tal voltarmos um pouco no passado?

- Como os esportes se desenvolveram durante a história?
- Uma nova fase das atividades esportivas socioeducacionais.
- Casos de sucesso nas instituições de ensino brasileiras
- Quais os empasses que barram o aproveitamento do esporte como ferramenta socioeducativa no Brasil?
- Novas perspectivas para um projeto esportivo-social brasileiro de sucesso
- Referências
Como os esportes se desenvolveram durante a história?
As práticas esportivas estão historicamente incluídas no cotidiano dos seres humanos. Na Pré-História, era comum que a corrida e a caça fossem desenvolvidas para facilitar as atividades diárias. Já no Egito Antigo, a natação, a luta livre e exibições de força eram esportes comuns que movimentavam os povos que residiam no continente africano.
Foi apenas na Grécia Antiga que as práticas esportivas, no formato como conhecemos hoje, foram difundidas e valorizadas. Não surpreendentemente, é aqui que surge a estrutura das Olimpíadas como conhecemos hoje. Muitos dos esportes praticados atualmente também nascem nessas circunstâncias, como o lançamento de dardo e a maratona.
Dado esse longo caminho, somente a partir do século XIX o esporte passou a ser implementado como ferramenta socioeducacional ao redor do mundo. Foi a Dinamarca, em 1801, o primeiro país a adotar a educação física como componente curricular obrigatório no ensino das crianças. No Brasil, esse movimento se inicia em 1854, no Rio de Janeiro.
Uma nova fase das atividades esportivas socioeducacionais.
Desse ponto em diante, as práticas esportivas adquiriram um novo caráter na sociedade brasileira. A partir de então, o esporte alcançou uma abordagem socioeducativa nas escolas, como mecanismo de formação integral e crítica do ser humano.
Sob essa ótica, observou-se que os valores educativos do esporte acompanham os primeiros anos de vida do indivíduo — favorecendo o desenvolvimento motor e psicomotor —, auxiliam no processo de socialização na idade escolar, oferecem benefícios ao praticante adulto e são considerados um meio de estímulo físico e de ativação psicossocial na terceira idade.
Nesse sentido, fica claro que o esporte é uma das ferramentas mais eficazes para trabalhar com os indivíduos nas escolas, já que, além de ser uma atividade prazerosa e benéfica para a saúde física, ele produz diversos valores que poderão ser transferidos para esferas pessoais, afetivas e emocionais dos praticantes.
As práticas esportivas garantem o desenvolvimento de uma série de qualidades que auxiliam os indivíduos a enfrentarem as adversidades do cotidiano, sendo elas: o diálogo, a confiança, a autoestima, a criatividade, a paz, a amizade, o respeito, a justiça, o compartilhar e a cooperação.
Além de todos esses pontos, o esporte é ainda um grande combatente dos problemas de saúde que afligem a população mundial, sendo aliado na manutenção do bem-estar físico daqueles que o praticam.
Não estranhamente, na atualidade, as práticas esportivas adquiriram papel central em muitas instituições, seguindo o movimento iniciado pela Dinamarca séculos atrás.
Casos de sucesso nas instituições de ensino brasileiras
No Instituto Ayrton Senna — organização não governamental brasileira —, resultados do Programa Educação pelo Esporte comprovam esses benefícios socioeducativos dos esportes.
Conforme o levantamento feito no instituto, os jovens com mais de um ano de participação no projeto melhoraram seu relacionamento com família e amigos, evoluíram os desempenho escolar. Com isso, adquiriram maior responsabilidade e maturidade psicossocial, aumentaram sua autoestima e diminuíram comportamentos agressivos.
Em pesquisas desenvolvidas pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina (IFSC), os estudantes entrevistados afirmaram que a prática dos esportes no ambiente escolar era um grande aliado para permanecer estudando. Segundo eles, quem está em algum time ou em contato direto com o esporte não quer desistir da escola.
Não é surpreendente que pesquisas do Instituto Península demonstrem que 42% dos educadores veem a educação física como uma forte aliada da motivação dos estudantes, enquanto 58% ainda também defendem que ela fortalece o vínculo dos alunos com a escola.
Mesmo com todos os benefícios e casos de sucesso acerca dessa ferramenta socioeducacional, os esportes ainda encontram muitos entraves para estarem à disposição da ampla população brasileira, dentro e fora das escolas.
Quais os empasses que barram o aproveitamento do esporte como ferramenta socioeducativa no Brasil?
Mesmo com uma disciplina que compõe parte obrigatória dos currículos educacionais de todo o país, grande parte das escolas brasileiras ainda não detém espaços adequados para as práticas esportivas.
Muitas dessas instituições não possuem quadras adequadas para o desenvolvimento do futebol e do vôlei, esportes mais populares no país. Se pensarmos naquelas que contam com quadras de tênis, pistas de atletismo, piscinas e salas de dança, o número se torna ainda mais escasso.
E o problema não é apenas estrutural, pois não são poucos os relatos de escolas que não contam com profissionais habilitados em educação física como titulares da disciplina. Quando há um professor adequado, muitos precisam dar aula sem os materiais básicos, como bolas, redes ou cones.
Essas adversidades também são vistas fora dos muros das escolas. Pouco tempo atrás, a medalhista olímpica Rayssa Leal — prata na Olimpíada de Tóquio 2021 e bronze em Paris 2024 — viralizou nas redes sociais ao denunciar o estado em que se encontravam as pistas de skate em sua cidade natal, no Maranhão.
O caso exposto por Rayssa é recorrente no país e acaba afastando as pessoas de ocuparem esses locais para aproveitar os benefícios oferecidos pela prática esportiva. Isso tende a dificultar a implementação do esporte enquanto uma ferramenta socioeducativa em todo o país.
Novas perspectivas para um projeto esportivo-social brasileiro de sucesso
Com base nisso, não é difícil compreender que os esportes precisam de melhorias para poderem se tornar uma prática efetiva, democrática e plural em nosso território.
A adoção de políticas públicas adequadas, que coloquem o esporte como um pilar central não só nas instituições de ensino brasileiras, mas também no cotidiano da sociedade, é a principal forma de atestar que o acesso ao mesmo seja garantido a todos.
Nesse sentido, os esportes devem ser vistos como um direito de todos, ferramenta de manutenção da saúde pública e da gestão socioeducacional dos nossos jovens. É uma forma de fomentar também o surgimento de novas Rayssas, Rebecas, Medinas e Isaquias.

E aí, conseguiu entender um pouco mais sobre a importância do esporte como ferramenta socioeducacional Conta para a gente nos comentários!
Referências
- INSTITUTO AYRTON SENNA. Educação pelo esporte: educação para o desenvolvimento humano pelo esporte. São Paulo: Saraiva, 2004.
- INSTITUTO PENÍNSULA. Desafios e perspectivas da educação: uma visão dos professores durante a pandemia.
- OLIVEIRA, Bianca Tuane de et al. O ESPORTE COMO FERRAMENTA DIDÁTICO-PEDAGÓGICA NO CONTEXTO ESCOLAR. Revista Interação, Minas Gerais, v. 22, ed. 1, p. 108–117, 2020.
- RUBIO, Simone Meyer Sanches Kátia. A prática esportiva como ferramenta educacional: trabalhando valores e resiliência. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 37, ed. 4, p. 825-842, 2011.
- SCHWARTZMAN, Simon. Reformas no Brasil e agenda. In: GIAMBIAGI, Fábio. Educação: a nova geração de reformas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004. Cap. 20.
- UNESCO. Carta Internacional da Educação Física, da Atividade Física e do Esporte. Paris: UNESCO, 2015.
- Politize! – Era Vargas (1930-1945)
- Politize! – Olímpiadas: como o esporte promove a paz entre as nações?
- Politize! – Políticas Públicas para o Esporte: entenda a importância
- Politize! – A história da saúde pública no Brasil e a evolução do direito à saúde
- Politize! – Sistema Educacional Brasileiro: entenda a divisão da nossa educação
- Politize! – A evolução dos direitos humanos no Brasil
- Tracklist – Rayssa Leal denuncia má condição de pista em Imperatriz, no Maranhão
- Folha de S. Paulo – Esporte pode motivar alunos contra evasão e desinteresse
- Portal do IFSC – Prática esportiva contribui para a permanência e êxito dos estudantes
- Instituto Ayrton Senna – EDUCAÇÃO PELO ESPORTE
- Correio Braziliense – Educação esportiva, antídoto para a evasão escolar.
- Portal Educação – A História do Esporte
- Bola Parada – A HISTÓRIA DO ESPORTE, DESDE OS PRIMÓRDIOS, NA HUMANIDADE.
- Bola Parada – A História do Esporte
- Catraca Livre – Como o esporte na escola contribui para o desenvolvimento das crianças?
- UNICUS – A importante relação entre os esportes e a educação
- Nova Escola – Quem introduziu o ensino da Educação Física nas escolas?
- Freepik – Quadras são ambientes de socialização
- Freepik – Os esportes fomentam a união e o respeito

