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Jango e Carlos Lacerda em encontro para discussão da Frente Ampla, com Renato Archer, representante de Juscelino Kubistchek. Imagem: Memorial da Democracia.
Jango e Carlos Lacerda em encontro para discussão da Frente Ampla, com Renato Archer, representante de Juscelino Kubistchek. Imagem: Memorial da Democracia.

Quando se deseja alcançar um bem maior, é preciso apoio da maioria das pessoas. Para isso, faz-se necessária a união, independente das diferenças. A frente ampla nada mais é do que uma tática para se atingir essa estratégia que ultrapassa as barreiras ideológicas.

Ultimamente, o termo tem ganhado destaque, sendo comentado por líderes políticos e movimentos sociais. Mas, por incrível que pareça, o termo surgiu no Brasil há mais de meio século, na época da ditadura militar de 1964.

Neste texto, o Politize! te explica a história da Frente Ampla no Brasil e por que essa expressão voltou a circular no debate político.

Quando a Frente Ampla surge no Brasil?

Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda e João Goulart. Esses nomes pertencem às três principais figuras da Frente Ampla criada em 1966.

Com uma história considerada por muitos como ‘controvérsia’, Carlos Lacerda foi um jornalista e político – deputado federal na década de 50 e governador de Guanabara, que se localizava no atual município do Rio de Janeiro, na década de 60.

Ele iniciou sua trajetória política como um grande defensor do comunismo, sob influência de sua família, principalmente de seu pai, Maurício de Paiva Lacerda, um renomado político da época.

Lacerda acabou rompendo com as ideias marxistas e se tornou um ultraconservador. Inclusive, se filiou ao partido União Democrática Nacional (UDN), que se opunha ao governo de Getúlio Vargas com ideias liberais e conservadoras, e apoiou o golpe militar. É daí que vem a ‘controvérsia’ que tantos falam.

Não foi a primeira vez que o político incentivou um golpe. Em 1955, Carlos Lacerda tentou impedir que Juscelino Kubitschek e João Goulart vencessem a disputa presidencial. Ambos estavam em uma coligação que os tinha como candidatos à presidência e à vice-presidência, respectivamente. A tentativa de golpe não deu certo e, insatisfeito, ele ainda buscou articular com as Forças Armadas para que a posse não ocorresse.

Leia também: 5 momentos históricos para a democracia brasileira!

Apesar de ser fortemente marcado como um símbolo opositor ao Getúlio Vargas, Carlos Lacerda foi um grande adversário do mineiro e idealizador de Brasília, Juscelino Kubitschek, o JK, e do gaúcho e último presidente do Brasil antes do golpe de 1964, João Goulart, popularmente conhecido como Jango.

O ultraconservador foi contra as ações do governo JK, como a transferência de capital do Rio de Janeiro para Brasília, e, novamente, tentou impedir uma posse de Jango, desta vez como presidenciável, o que, mais uma vez, não aconteceu.

E o que toda essa história tem a ver com a Frente Ampla? Carlos Lacerda queria alcançar o seu objetivo de concorrer à presidência em 1965, não sendo atendido pelos militares, que ele ajudou a ocupar o poder. Até porque, foi instituído o Ato Institucional nº 2 (AI-2), que definiu eleições indiretas para presidentes, rompendo com o sufrágio direto. Então, Lacerda passou de adepto ao regime militar para antagonista. E é a partir daí que surge a Frente Ampla.

Frente ampla: a união inesperada

Decepcionado com a falta de poder político e com a dureza da ditadura militar, Lacerda publicou um manifesto criticando as ações do governo por meio do jornal Tribuna da Imprensa, que era um dos principais alvos do regime.

A partir daí, manifesta-se o movimento que ficou conhecido como “Frente Ampla”, lançado no dia 28 de outubro de 1966. Apesar de o documento conter apenas a assinatura de Lacerda, havia a confirmação de negociações entre suas três lideranças: Lacerda, JK e Goulart.

Logo em seguida, Lacerda viajou até Portugal para encontrar o JK, que estava exilado em Lisboa, e firmar um pacto de aliança que ficou conhecido como “Declaração de Lisboa”. Essa declaração foi redigida diante de uma multidão de jornalistas que queriam compreender o significado desta união, visto que, ambos, até então, eram rivais.

O assédio da imprensa impedia que fizéssemos um documento mais caprichado. Tiravam as laudas da mesa, à medida que Lacerda as escrevia, sem tempo para melhor correção. Poderíamos ter produzido um documento mais bem elaborado, mas foi impossível naquele ambiente. Sabíamos que aquele texto seria lido em quase todo o mundo livre. Sugeri alguns reparos, que Lacerda aceitou prontamente. (…) Quando a reunião terminou, estávamos cansados, mas felizes. Comentei: ‘Jogamos a bomba. Esperemos, agora, pela explosão’”.

Carta de JK para seu amigo, Adolpho Bloch, após o encontro que ocasionou a declaração que viria a impulsionar a Frente Ampla.

E como fica Jango nessa história? Lacerda o visitou no Uruguai, onde ele estava após ter sido deposto, e o encontro resultou em uma outra aliança: “o Pacto de Montevidéu”. Um site da FGV, que rememora a trajetória de JK, reforça que a Frente Ampla foi definida como um “instrumento capaz de atender… ao anseio popular pela restauração das liberdades públicas e individuais, pela participação de todos os brasileiros na formação dos órgãos de poder e na definição dos princípios constitucionais que regerão a vida nacional” através da nota conjunta divulgada.

Consolidação da união e desafios enfrentados

Desta forma, superando as divergências, esses três atores se unem efetivamente pela democracia e se transformam nos símbolos da Frente Ampla. A priori, a Frente não tinha intenções de se dispor como um movimento de afronte direto com os líderes da ditadura militar. O intuito era o de combater a centralização do poder nas mãos dos militares e buscar a descentralização e a redemocratização mediante apoio popular.

Entre seus pontos de defesa, estavam as eleições livres e diretas e a reforma partidária e institucional. As movimentações começaram por meio de manifestos e jornais. Depois, a Frente foi ganhando mais força e virou uma referência de oposição ao regime autoritário.

No dia 5 de abril de 1968, com a chegada de Costa e Silva à presidência, a existência da Frente Ampla foi formalmente proibida por meio da Portaria de nº 117. A passeata dos Cem Mil – manifestação que marcou a contestação à ditadura militar e sua radicalização – gerou uma oportunidade de fortalecimento do movimento como oposição ao regime, o que foi impedido por conta da Portaria.

No mesmo ano, com o Ato Institucional nº 5 (AI-5), ficou ainda mais difícil clamar por mudanças no contexto da época, com o regime ficando ainda mais autoritário. O AI-5 fez com que Lacerda tivesse seus direitos políticos cassados por dez anos e que JK fosse preso por alguns dias, sendo libertado por motivos de saúde, mas permanecendo em prisão domiciliar.

Um dos motivos da piora da situação política no país foi um discurso de Lacerda que acusava o Exército de ter se constituído “no efetivo dirigente do país” e que trazia a importância de se concretizar uma reforma agrária em 1968.

As três lideranças do movimento faleceram em um período curto de diferença de tempo e antes de poderem vivenciar a redemocratização do Brasil. JK faleceu em um acidente de carro, em 1976, e Jango devido a um ataque cardíaco, no mesmo ano. Lacerda faleceu no ano seguinte, em consequência de uma infecção no coração.

E por que a expressão Frente Ampla voltou a circular?

Estamos muito próximos às eleições gerais de 2022. E, com ela, a possibilidade de se eleger um novo governo para representar o Brasil e os brasileiros no Poder Executivo Federal.

Representantes de vários partidos ideologicamente opostos têm articulado para se unirem contra o governo do atual presidente da República Federativa do Brasil, Jair Bolsonaro (PL), deixando as diferenças de lado em prol de um interesse compartilhado entre eles de derrotá-lo nas urnas.

Assim, o termo “Frente Ampla” voltou a aparecer no noticiário, nas redes sociais e na boca do povo, incluindo a de lideranças políticas. Um ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso (conhecido como FHC), em entrevista ao jornal O Globo se posicionou favoravelmente a criação dessa frente.

Em maio de 2021, FHC se reuniu com outro ex-presidente, o Luiz Inácio Lula da Silva (Lula), e esse encontro trouxe especulações sobre a criação de uma forte frente anti-bolsonarista.

Lula disse estar aberto a dialogar com todos. Sobre a ocasião, o deputado federal carioca, Marcelo Freixo (PSB) comentou “é hora de dialogar e construir consensos, porque o que está em jogo é a democracia e a vida dos brasileiros. Parabéns a Lula e FHC pelo gesto de grandeza e responsabilidade com o país”.

O debate sobre uma “terceira via”?

Em 2021, no dia do aniversário do golpe de 64, uma carta em defesa da democracia foi assinada pelo apresentador de TV Luciano Huck, pelos ex-ministros Luiz Henrique Mandetta e Ciro Gomes, pelos governadores João Dória e Eduardo Leite e pelo ex-candidato à presidência e um dos fundadores do partido NOVO João Amoêdo.

Esses líderes, que se autodeclaram de centro e de centro-direita, têm defendido uma ‘terceira via‘, que seria uma alternativa entre o que eles denominam de “extremos” – lulismo versus bolsonarismo. Nesse caso, a Frente Ampla sugere uma união contra “os extremos” e que traga “renovação”, como eles próprios chamam a terceira via.

Os líderes da chamada ‘terceira via’ participaram de um ato contra o governo Bolsonaro no dia 12 de setembro de 2021. A ideia da manifestação, organizada pelo Movimento Brasil Livre (MBL), era formar uma Frente Ampla, de todos os espectros políticos, pelo impeachment do atual presidente.

No campo da esquerda, a participação no ato foi polemizada e, portanto, houve uma menor presença desse grupo. Os representantes de esquerda têm defendido uma “Frente Única Contra o Bolsonaro”, sendo um tipo de Frente Ampla, composta apenas por partidos de esquerda, que também possuem suas particularidades, contra o bolsonarismo.

Porém, no dia 2 de outubro, a esquerda convocou novas manifestações por todo o Brasil e a Frente Ampla contra o Bolsonaro foi fortalecida, reunindo manifestantes e líderes partidários da esquerda à direita.

Estiveram presentes integrantes de 21 dos 33 partidos brasileiros e que, apesar das feridas existentes, a promoção de uma frente ampla foi reforçada nos discursos que ocorreram e os organizadores do ato sempre ressaltavam a importância de respeitar a pluralidade de opiniões em benefício do objetivo comum dos partidos presentes, que seria derrotar Bolsonaro nas urnas.

O Dia da Independência do Brasil, em 7 de setembro, também ficou marcado por diversas manifestações por todo o país contra a atual gestão do presidente da República. Para além disso, polêmicas foram geradas por conta de uniões entre pessoas de diferentes ideologias, como prega a Frente Ampla.

Há diversas polêmicas que regem a Frente Ampla, um exemplo disso é a deputada estadual de São Paulo, Isa Penna (Psol), que esteve presente no ato convocado pelo MBL, no dia 12 de outubro, e sofreu vários ataques virtuais e até ameaças de pessoas contrárias à sua participação na manifestação. Mesmo assim, a parlamentar esteve nas ruas e não deixou de enfatizar a importância de encontrar os pontos de convergência para enfrentar o governo atual.

O que tudo isso significa?

A Frente Ampla criada durante a ditadura militar teve um período curto de existência, de apenas dois anos. Porém, isso não foi impeditivo para que o seu impacto surtisse efeitos até os dias atuais, em que o termo ainda continua sendo utilizado.

As divergências e polêmicas continuam presentes dentro do movimento, em todos os espectros políticos há cidadãos que não apoiam essa união de plurais. Porém, a convergência é o que conecta a maioria e faz com que suas táticas se voltem ao alcance de uma estratégia maior.

Representamos correntes de opinião que, juntas, reúnem a maioria do povo. Representamos, também, instituições que, perante a História, encarnamos pela mão do povo. Defendemos o voto e a lei, em função da ânsia de liberdade e do progresso social, cultural e econômico que caracteriza o Brasil moderno no mundo em mudança. (…) Pela união popular para libertar, democratizar, modernizar e desenvolver o Brasil”.

Trecho retirado do Manifesto de Lisboa de 27 de outubro de 1966.

Então, compreendeu a história e o significado da Frente Ampla? O que você acha? Deixe sua dúvida ou opinião nos comentários!

REFERÊNCIAS:

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Danielle Britto

Apaixonada por política e acredita que a sua força unida a educação é o que eleva a sociedade e a democracia. Estudante de Comunicação Social – Publicidade e Propaganda na ESPM São Paulo. Desenvolvimento de projetos para o primeiro setor e experiências no terceiro setor.

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