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Neurodiversidade: qual sua contribuição para o tema da inclusão?

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Conscientização do autismo. Neurodiversidade: qual sua contribuição para o tema da inclusão? Imagem: Dreamstime.
Conscientização do autismo. Imagem: Dreamstime.

A importância da saúde mental tem conquistado espaço na mídia, nas organizações e em políticas públicas nos últimos anos. Trazer luz ao tema, e à importância da neurodiversidade como veremos a seguir, é essencial para que os diferentes tipos de transtornos possam ser mais bem estudados e adequadamente tratados.

Mais ainda, debater o assunto é uma ferramenta de educação e inclusão, especialmente considerando que muitos transtornos são mais comuns do que se imagina. Estima-se que cerca de 15-20% da população mundial possua algum tipo de condição neurocognitiva (relativas ao desenvolvimento neural, de funcionamento e aprendizado).

Quebrar o tabu é essencial para eliminar o estigma existente em relação às pessoas neurodivergentes e é esse o caminho que a neurodiversidade se propõe a percorrer.

Leia também: Diversidade e inclusão no mercado de trabalho: caminhos possíveis

O que é neurodiversidade?

O termo neurodiversidade foi cunhado nos anos 90 pela socióloga australiana Judy Singer, portadora do transtorno do espectro autista. Baseado no conceito de ‘biodiversidade’, o qual defende que um planeta saudável depende da conservação de todas as formas de vida, a neurodiversidade entende que olhar as diferenças neurocognitivas através de uma lente de potencialidades, ao invés de deficiências, pode ser muito benéfico à sociedade.

Da mesma forma como ocorre com a diversidade de gênero, cultural, religiosa e racial, a neurodiversidade advoga pela inclusão dos neurodivergentes na sociedade e especialmente no mercado de trabalho, no qual ainda prevalecem pessoas consideradas neurotípicas.

  • Neurotípico é o termo usado para descrever indivíduos com funcionamento neurológico e/ou desenvolvimento cognitivo considerado típico ou padrão.
  • Neurodivergente (ou neurodiverso) criado como contraponto ao neurotípico, descreve indivíduos com funcionamento neurológico e/ou no desenvolvimento cognitivo diferente do que é considerado típico ou padrão, e que podem se traduzir em condições como, por exemplo, transtorno do espectro autista, dislexia, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), entre outras.

É importante destacar que os termos neurotípico e neurodivergente não são científicos e foram criados pelo movimento autista no final do século 20 para fins de ativismo.

A versão mais recente do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition, DSM-5), desenvolvido pela Associação Americana de Psiquiatria – uma das mais importantes referências na área de saúde mental para o diagnóstico e tratamento de transtornos mentais, lista mais de 150 diagnósticos.

Se por um lado essas variações acarretam dificuldades e desafios cuja dimensão depende da severidade da condição diagnosticada, por outro elas também resultam em talentos, aptidões e habilidades de grande potencial analítico e criativo.

Assim, pessoas com TDAH, por exemplo, tendem a ser bastante criativas, espontâneas, energéticas e podem também apresentar grande capacidade de concentração (hiperfoco) em relação a temas e projetos em suas áreas de interesse.

Indivíduos disléxicos, por sua vez, demonstram grande capacidade de resolver problemas e encontrar soluções de forma inovadora, possuem excelente percepção tridimensional, são bastante intuitivos e bons comunicadores.

Já pessoas diagnosticadas dentro do transtorno do espectro autista são dotadas de excepcional memória e capacidade de concentração, raciocínio lógico e tendem a ser sistemáticas e detalhistas, com habilidade superior para a resolução de problemas.

Em essência, o conceito de neurodiversidade entende que neurotípicos e neurodivergentes percebem e interagem com o mundo cada um a sua maneira, onde certo e errado não se aplicam, e defende que as diferenças são apenas reflexos da individualidade humana.

O movimento pela neurodiversidade

A neurodiversidade como movimento social também tem origem na década de 90, tendo iniciado por ativistas da comunidade autista, ganhando ao longo dos anos força e adeptos de outros diagnósticos.

Com caráter político e de justiça social, o movimento pela neurodiversidade visa mobilizar pesquisadores, comunidade médica e tomadores de decisão no desenvolvimento de métodos e práticas que diminuam as lacunas de informação, eliminem o estigma e promovam a igualdade, o respeito e a inclusão dos neurodivergentes na sociedade.

No livro “Neurodiversidade: descobrindo os dons extraordinários do autismo, TDAH, dislexia e outras diferenças cerebrais”, o autor Thomas Armstrong, PhD, ressalta a importância de eliminar o estigma e, por meio da informação e educação, transformar a forma como a sociedade enxerga e se comporta em relação às condições mentais, ajudando a trazer mais apoio, oportunidade e perspectiva à vida dos neurodivergentes.

Entretanto, é necessário considerar também a perspectiva de famílias e amigos que convivem com pessoas portadoras de condições graves. Entre suas críticas está a percepção de que o movimento pela neurodiversidade tende a romantizar os transtornos mentais propondo alternativas e soluções que não se aplicam a casos mais severos para os quais a única opção viável seria a intervenção médica tradicional.

Leia também: Rol taxativo da ANS: entenda a decisão do STJ

Desafios culturais, sociais e estruturais à neurodiversidade

Falar sobre neurodiversidade é falar sobre saúde mental e esse é um tema sobre o qual ainda existe muito estigma e desinformação.

Há o estigma por parte da sociedade em relação ao indivíduo já diagnosticado com um transtorno mental, mas há também o estigma que começa muito antes, que é o da própria pessoa – e de seus amigos e familiares – em relação à possibilidade de um diagnóstico positivo de condição mental. Esse cenário, associado à pouca informação disponível sobre o assunto, acaba provocando receio e constrangimento em buscar ajuda profissional.

Outro grande desafio é o próprio diagnóstico do transtorno. Devido à complexidade de certas condições e da forma como elas se apresentam, a obtenção de um diagnóstico formal – e correto – é muitas vezes um processo longo, árduo e caro, o que o torna inacessível para muitas famílias, especialmente aquelas que mais necessitam.

Minorias sociais, normalmente vítimas de comportamentos discriminatórios e preconceituosos os quais resultam e agravam certos transtornos mentais, devido à sua situação desvantagem social e econômica têm seu quadro ainda mais prejudicado pela falta de acesso à educação, informação e serviços médicos de qualidade.

Legislação é outro importante desafio, particularmente no que diz respeito à inclusão dos neurodivergentes no mercado de trabalho.

Leis tais como a Lei de Cotas (8.213/1991), que trata da inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, a Lei Paulo Delgado (10.216/2001), que trata da proteção dos direitos das pessoas com transtornos mentais, a Lei Berenice Piana (12.764/2012), que criou a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, e o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015), preveem o direito ao trabalho, mas sua aplicação está muito além do desejável.

E finalmente vem a questão da incorporação prática do tema de neurodiversidade no mercado de trabalho. Aqui também o primeiro passo está em quebrar o estigma e a desinformação, através do treinamento e capacitação no tema de neurodiversidade não apenas dos profissionais de recursos humanos e responsáveis por diversidade e inclusão, mas também da liderança e dos gestores de equipe.

Em seguida, vem a implementação de planos e práticas no ambiente de trabalho visando adotar metodologias de trabalho, gestão e interação que possam acomodar as habilidades dos neurodivergentes, assim como criar espaços inclusivos aos diferentes grupos.

Os neurodivergentes processam informações sensoriais – luz, som, cores, cheiros e texturas – de forma diferente dos neurotípicos. Adaptações nesse sentido incluem, por exemplo, alternativas ao open space com estações de trabalho e de salas de reuniões abertas e fechadas, opções de iluminação, incluindo a luz natural, e o design de espaços para colaboração, mas também de concentração. Apesar de serem voltados aos neurodivergentes, esses ajustes podem beneficiar também os neurotípicos.

A iniciativa CAPE (em inglês), da rede de notícias BBC, disponibiliza um checklist que ajuda a avaliar o quão acessível o ambiente de trabalho é do ponto de vista neurocognitivo e aponta sugestões de melhoria.

Veja também nosso vídeo sobre direitos das pessoas com deficiência!

A neurodiversidade no Brasil e sua aplicação no mercado de trabalho

O termo neurodiversidade ainda é relativamente novo em todo o mundo, embora tenha mais “tempo de estrada” em países como Estados Unidos, Reino Unido e Australia, onde empresas particularmente de indústrias como tecnologia, financeira e de defesa vêm recrutando neurodivergentes para seus quadros de funcionários, mais como uma estratégia de atração de talentos do que por uma questão de responsabilidade social.

Avanços vêm sendo feitos também no Brasil recentemente, impulsionados pelo tema de diversidade e inclusão. Assim como acontece no exterior, a integração da neurodiversidade à políticas de recrutamento e gestão de pessoas é mais observada nas indústrias mencionadas acima, embora não possa ainda ser considerada uma prática comum.

Mesmo no universo mais abrangente de diversidade e inclusão, os números ainda são pouco expressivos. A Pesquisa de Tendências no RH em 2022, realizada em 2021 com 874 respondentes de empresas de todo o Brasil, apontou que 60% dos recursos humanos das empresas não têm um programa de diversidade e inclusão para os colaboradores. Além disso, apenas 25,7% disseram pretender aumentar o investimento nesse quesito em 2022.

As porcentagens variam, é claro, de pesquisa para pesquisa, de acordo com o perfil da amostra. Pesquisas que têm uma grande concentração de multinacionais entre seus respondentes tendem a apresentar porcentagens mais altas de adoção de programas e práticas de diversidade e inclusão, uma vez que o tema é forte fora do Brasil e que as estratégias adotadas aqui geralmente seguem as diretrizes dos escritórios centrais.

A pesquisa Diversidade, equidade e inclusão nas organizações, realizada pela consultoria Deloitte em 2021 com 215 empresas, 44% delas multinacionais, revelou que 81% dos respondentes possuíam grupos de afinidade – comitês, alianças, entre outros – para discutir o tema de diversidade, equidade e inclusão. No entanto, apenas 3% desses eram voltados à neurodiversidade.

Apesar de números pouco representativos, a boa notícia é que o tema de saúde mental vem ganhando visibilidade e espera-se que com isso o mesmo aconteça com a neurodiversidade. Capazes de agregar habilidades e competências estratégicas, tais como criatividade, capacidade de análise e resolução de problemas e alta performance, os neurodivergentes representam talentos indispensáveis à força de trabalho.

Mais do que isso, sua inclusão representa uma quebra de estereótipos necessária e urgente. Respeitar, incluir e compartilhar o dia a dia com as diferenças – e diferente é uma questão de perspectiva – é sinal de pluralismo, tolerância, aceitação e reconhecimento de que o outro pode e tem muito a contribuir com o diálogo e as ações já em curso. E esses são os grandes alicerces de uma sociedade justa e democrática.

E aí, você conseguiu compreender o conceito de neurodiversidade e como ele pode trazer um olhar inovador e inclusivo para a sociedade? Conta nos comentários!

REFERÊNCIAS:

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1 comentário em “Neurodiversidade: qual sua contribuição para o tema da inclusão?”

  1. Prezada Priscila,

    Parabéns pelo conteúdo maravilhoso! Muito bom saber que há pessoas como você enriquecendo, valorizando e difundindo este debate tão importante, de forma tão competente! Feliz demais por encontrar este texto teu.

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Conteúdo escrito por:
Paulista, formada em Comunicação Social com especialização em Gestão da Informação e Sustentabilidade. É apaixonada por conservação da natureza, área em que atua há mais de 15 anos, e fascinada por política e filosofia. Acredita que o debate e a reflexão são chave para um planeta mais justo e em harmonia.

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14 jun. 2024

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