Você sabia que, mesmo durante o regime militar no Brasil, milhares de pessoas foram às ruas exigindo liberdade e democracia? A Passeata dos Cem Mil, realizada em junho de 1968, no Rio de Janeiro, foi um dos maiores atos públicos de protesto contra o autoritarismo da época.
Mais do que uma manifestação estudantil, o ato reuniu artistas, religiosos, trabalhadores, professores, parlamentares e diversos setores da sociedade civil em torno de pautas como o fim da repressão policial, o respeito à liberdade de expressão e a retomada das liberdades democráticas.
Mas por que esse ato aconteceu? Quais foram suas causas, consequências e seu legado para a história do país? É o que você vai descobrir neste conteúdo da Politize!
- O que foi a Passeata dos Cem Mil?
- Contexto político: o Brasil e o mundo em 1968
- Quais foram as motivações da Passeata?
- Fim da repressão e da violência policial
- Mais investimentos em educação
- Liberdade de expressão e fim da censura
- Retomada da democracia
- Liberdade para presos políticos
- A Passeata foi violenta?
- Como a sociedade reagiu?
- Quais foram as consequências?
- O que essa manifestação representa hoje?
- Conclusão
- Referências
O que foi a Passeata dos Cem Mil?
A manifestação ocorreu em 26 de junho de 1968, no centro do Rio de Janeiro, e reuniu mais de cem mil pessoas, um feito histórico, considerando que o país vivia sob um regime autoritário.
Embora tenha se originado entre estudantes, a passeata contou com a presença de:
- Artistas, como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil;
- Religiosos, como Dom Hélder Câmara;
- Políticos da oposição, professores universitários e trabalhadores.
A manifestação percorreu a Avenida Rio Branco de forma pacífica e organizada, com grande simbolismo para a sociedade brasileira.
Contexto político: o Brasil e o mundo em 1968
Em 1964, os militares assumiram o poder no Brasil com o argumento de “defender a democracia” e combater o que classificavam como uma ameaça comunista.
O novo governo foi inicialmente apoiado por diversos setores da sociedade, como empresários, parte da classe média, grandes meios de comunicação e setores conservadores da Igreja Católica.
A justificativa de combate ao comunismo encontrou eco em plena Guerra Fria, especialmente com o apoio dos Estados Unidos, que viam o Brasil como peça estratégica no combate à expansão da esquerda na América Latina. Esse apoio social e institucional ajudou a consolidar o regime nos primeiros anos, apesar das restrições às liberdades civis.
No final da década de 1960, o cenário político ficou ainda mais tenso. O Brasil vivia um ambiente de insatisfação crescente, principalmente entre jovens universitários, que enfrentavam repressão policial e cortes na educação.
Esse clima de agitação não era exclusivo do Brasil: o mundo também fervia em 1968.
- Na França, estudantes e operários ocuparam as ruas em maio;
- Nos Estados Unidos, milhares protestavam contra a Guerra do Vietnã;
- No México, manifestações estudantis culminaram no massacre de Tlatelolco.
Nesse contexto global de insatisfação e protesto, nasceu a Passeata dos Cem Mil.
Quais foram as motivações da Passeata?
O estopim da mobilização foi a morte do estudante Edson Luís de Lima Souto, de apenas 18 anos, em março de 1968. Ele foi baleado pela polícia militar dentro do restaurante estudantil Calabouço, no Rio de Janeiro, durante um protesto contra o aumento no preço das refeições e as más condições do restaurante, que era um dos poucos espaços acessíveis para estudantes de baixa renda.
A ação policial foi violenta e desproporcional, mesmo se tratando de uma manifestação pacífica, o que gerou comoção nacional.

A frase “Mataram um estudante, podia ser seu filho” estampou cartazes, jornais e muros. O enterro de Edson se transformou em um grande ato político, e os protestos se intensificaram nos meses seguintes.
Por outro lado, o governo militar argumentava que a repressão aos protestos era necessária para garantir a segurança nacional e conter movimentos que considerava subversivos.
Para o regime, as manifestações eram vistas como uma ameaça à ordem pública e à estabilidade do país. Essa narrativa foi usada para justificar o uso da força e medidas autoritárias em nome da manutenção da “ordem” e do “progresso”.
Diante desse cenário, a sociedade civil se mobilizou com as seguintes demandas principais:
Fim da repressão e da violência policial
As forças de segurança vinham reprimindo duramente protestos estudantis, com prisões, agressões e mortes. Os manifestantes exigiam o fim da truculência e o respeito ao direito de manifestação.
Mais investimentos em educação
A precariedade da educação pública era uma das críticas centrais. Universidades enfrentavam falta de infraestrutura, bolsas de estudo e apoio à pesquisa.
Liberdade de expressão e fim da censura
O regime militar censurava músicas, peças de teatro, livros, telenovelas e jornais. Obras de artistas populares como Chico Buarque e Glauber Rocha eram frequentemente vetadas. A passeata exigia o direito de se expressar livremente.
Retomada da democracia
Desde 1964, o Brasil vivia sem eleições diretas para cargos importantes e com partidos políticos dissolvidos. A reivindicação por eleições livres e respeito às instituições democráticas era central.
Liberdade para presos políticos
Diversos sindicalistas, artistas, jornalistas e ativistas eram presos sem julgamento. A libertação dessas pessoas também foi uma pauta da manifestação.
A Passeata foi violenta?
Apesar do clima tenso, a Passeata dos Cem Mil foi pacífica. Isso se deveu a um esforço conjunto de diversos líderes civis e religiosos, que negociaram com as autoridades para evitar confrontos.
No entanto, antes e depois da manifestação, a repressão continuou. Opositores foram perseguidos, presos, torturados e, em alguns casos, mortos.
Segundo dados do relatório final da Comissão Nacional da Verdade (2014), o regime foi responsável por pelo menos 434 mortes e desaparecimentos forçados, além de milhares de casos de prisões arbitrárias, tortura e perseguição política.
Como a sociedade reagiu?
A manifestação teve grande repercussão, mesmo com a censura vigente. Mesmo com a repressão crescente, movimentos de oposição começavam a se articular, ainda que na ilegalidade. A Frente Ampla, formada por políticos como Carlos Lacerda, João Goulart e Juscelino Kubitschek, chegou a propor uma reconciliação democrática, mas foi logo dissolvida pelo regime.
Já a União Nacional dos Estudantes (UNE), embora proibida, manteve forte atuação clandestina e foi essencial na articulação dos protestos estudantis. Esses grupos ajudaram a canalizar a insatisfação popular e deram maior coesão às pautas da sociedade civil.
Em resumo, a sociedade estava dividida da seguinte maneira:
- Setores progressistas viram a passeata como um símbolo de resistência e esperança.
- Apoiadores do regime militar classificaram o ato como “subversivo” e defenderam ações mais rígidas contra os manifestantes.
- Veículos de imprensa, mesmo censurados, repercutiram o evento — ainda que com limitações e linguagem cautelosa.
Essa divisão social foi usada pelo regime para justificar medidas mais autoritárias nos meses seguintes.
Quais foram as consequências?
Apesar de seu impacto simbólico, a passeata não freou o avanço do autoritarismo. Pelo contrário, o governo militar respondeu com o AI-5 (Ato Institucional nº 5), decretado em dezembro de 1968.
Esse foi o ato mais severo da Ditadura Militar e marcou o início dos chamados “anos de chumbo”. Ele:
- Fechou o Congresso Nacional;
- Cassou mandatos e suspendeu direitos políticos;
- Estabeleceu censura prévia à imprensa, à música, ao cinema e ao teatro;
- Autorizou prisões arbitrárias e perseguições sem necessidade de justificativa legal.
Com isso, o Brasil entrou em um dos períodos mais duros da sua história, com forte repressão estatal.
O que essa manifestação representa hoje?
A Passeata dos Cem Mil permanece como um marco da história política brasileira. Mesmo sem impedir o endurecimento do regime, ela demonstrou a capacidade da sociedade civil de se organizar e expressar seu descontentamento, mesmo sob repressão.
Também serve como um lembrete sobre a importância da liberdade de expressão, da mobilização social e da defesa das instituições democráticas — valores fundamentais em qualquer sociedade plural e democrática.

Conclusão
Relembrar a Passeata dos Cem Mil é essencial para entendermos a força da participação popular diante do autoritarismo. Apesar de o Brasil estar dividido à época, a manifestação mostrou que diferentes setores da sociedade estavam dispostos a lutar pela democracia e pelas liberdades civis.
Que essa memória nos inspire a valorizar e proteger os direitos democráticos hoje, inclusive reconhecendo como sociedades divididas politicamente podem tomar rumos autoritários quando o diálogo é interrompido. Entender os diferentes lados daquele período é essencial para fortalecer uma cultura democrática plural no presente.
A Passeata dos Cem Mil aconteceu há mais de 50 anos, mas os debates sobre democracia, liberdade e repressão ainda estão muito presentes.
O que esse momento histórico pode nos ensinar sobre o Brasil de hoje? Comente e continue a conversa!
Referências
- Comissão Nacional da Verdade (2014).
- Gaspari, Elio. A Ditadura Envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
- Schwarcz, Lilia; Starling, Heloisa. Brasil: Uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
- CPDOC/FGV – Passeata dos Cem Mil.
- Napolitano, Marcos. 1964: História do regime militar brasileiro. São Paulo: Contexto, 2014.
- Alves, Maria Helena Moreira. Estado e Oposição no Brasil (1964-1984). Petrópolis: Vozes, 1984. Folha de S. Paulo – Passeata dos Cem Mil completa 50 anos.
- Memórias da Ditadura – Passeata dos Cem Mil. Disponível em:
- Politize! – Ditadura Militar no Brasil.